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AO PROFISSÃO REPÓRTER Um grande número de acreanos, diria um sexto, mais ou menos, principalmente os de Rio Branco, a capital com 400 mil habitantes, desde os anos setenta, viaja em média 70 horas de ônibus para chegar ao Rio de Janeiro, à Florianópolis, à Fortaleza, dentre outras. Como as passagens de avião ficaram relativamente baratas num Estado onde os professores ganham um piso salarial de cerca de 1.600 reais, uma parcela significativa das classes A e B possui apartamentos e casas à beira-mar, a 3.500 quilômetros de distância. O Acre foi povoado por cearenses que aqui chegavam, no início do século XX, depois de três meses de viagem de navio, através do Oceano (cabotagem) e pelos rios. Isto já explica essa mania de tirar férias e ir buscar prazer em cidades tão distantes. (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 01h47
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MAUS LEITORES Aquela turma que queria melar o último Vestibular da Ufac, antes de dormirem muito, muito mesmo, são péssimos leitores. O pessoal do Ministério Público Federal já os viu e, antes mesmo da sessão de lamúrias próprias dos que querem jogar a culpa da sua incompetência em alguém, ou em algum fato, ou no professor que não lhes deixou colar, ou no pai que não funcionou como despertador pós-bebedeira, chegou à triste conclusão segundo a qual, se o concorrente não consegue interpretar (ou ler) o Manual do Candidato, ou até mesmo o simples cartão de identificação, como poderá entender as obras da relação de leituras obrigatórias, como as intrincadas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou o escorregadio Macunaíma, de Mário de Andrade? Porra! É como aquele Adão que jogou a culpa na Eva que jogou a culpa na cobra que jogou a culpa na maçã que jogou a culpa em Deus... Vão estudar, magote de doidos! Não! Eles não sabem o que é isso... (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h45
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MÉDICO E VERDUGO Há, em Xapuri, pago a peso de ouro, um tal Rafael, médico, que, no interior, apelidam-no doutor, mesmo sem nunca ter feito sequer um mestrado. Dizem-se e comprovam-se atitudes arrogantes, imtempestivas e petulantes. O cara não fala, mas esturra, relincha. Ética não é substantivo que habita o dicionário roto do homem da saúde do município. Respeito nunca foi a meta nem o princípio, haja visto que, na Sibéria, um bairro periférico, o homem conseguiu atender trinta pacientes pobres em quinze minutos, com o seríssimo agravante de, para todos, prescrever o mesmo medicamento. (E haja panvermina!) É como o cidadão, pagador de impostos escorchantes, ir dormir saudável e acordar morto, a depender de um pústula tal. E, como se não bastasse, o tal Hipócrates - o pai da Medicina - é completamente desconhecido do gajo. Sensibilidade não lhe restou nenhuma, mesmo porque não nasceu com tal adereço espiritual. É esta a maior contribuição que eu e a Câmara Municipal da princesinha do Acre estamos dando à saúde dos heróicos xapurienses, na a graça de Deus. Com os respeitosos cumprimentos do JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h40
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XVI A Academia *JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO No ponto mais alto do frontispício do prédio, acima de uma cabeça de leão esculpida na alvenaria, está a inscrição 1916, coincidentemente, o ano do meu nascimento. O palacete, em estilo colonial, é pintado de um amarelo quase ocre, com janelas e portas de vistas brancas. Depois de um compartimento com jeito de recepção, há um vestíbulo, ou átrio, bastante espaçoso e iluminado pela luz natural. Vêem-se espécimes da flora amazônica - parecem-me tajás - em jarros estilo cerâmica marajoara. Há um bom número de bancos onde algumas pessoas lêem jornais ou livros. Em seguida, no rumo dos fundos do grande terreno, está um pavilhão comprido e avarandado, de dois pisos, onde, suponho, estão instaladas as salas de aula. Rente à edificação e em fileira, há mangueiras, talvez dez ou doze, de meia idade, que emprestam algum frescor ao ambiente um tanto sombrio. Há grandes pés de abacaxi espalhados pelo terreno de médio porte. Há umas palheiras magras que suponho serem açaizeiros. Cá embaixo, está uma placa metálica de bom tamanho onde se lê o nome pomposo da Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará, inaugurada por um tal provedor, o Doutor Aristides José de Paula Lôbo, antigo juiz da Comarca de Belém, in memorian. Conforme está escrito, desde os primeiros anos da instituição, o Honorável Diretor é o Doutor José Militão Arruda de Carvalho e Fagundes. Depois de ter atravessado todo o átrio em divagações, dentre outras, a respeito do muito que poderia aprender ali, sou instado, por mim mesmo, a voltar e tomar informações com uma senhora de bochechas rosadas, óculos pequenos e redondos, corpo avantajadinho, que me vira passar e me olhava de soslaio, de longe. Sobre uma mesa de tamanho médio, preta e de pernas tortas pelo trabalho de algum marceneiro metido a artista, lê-se Profa. Maria dos Prazeres de Albuquerque e Moura, Regente. - Bons dias, professora Maria dos Prazeres! O que me traz aqui é a possibilidade de uma audiência com o senhor Diretor a quem devo entregar esta carta de recomendação. – Digo-lhe, passando o envelope já um tanto amarrotado e, por assim dizer, não mais tão apresentável. Com os oculozinhos já dependurados no nariz redondo acima de uns bigodes mínimos, diz-me a matrona que, pela manhã, a agenda do chefe está lotada. Permanecia, desde cedo, reunido com professores da Faculdade e, às dez, estaria tratando dos currículos do curso com o Major Interventor Joaquim de Magalhães Cardozo Barata, Governador do Estado do Pará, com quem almoçaria. À uma da tarde, já lá estou eu à espera do grande mestre. Às duas, ele chega, dá boa tarde e, apressadamente, quase correndo, apesar dos aparentes sessenta de idade, sobe rumo ao que presumo ser o seu gabinete. Atrás dele segue quase que bolando escada acima a senhora Prazeres com um mazarôi de papel nas mãos. Em quinze ou vinte minutos, a professora dos mocotós carnudos desce e diz que o diretor já houvera lido a carta e que está à minha espera. Subo os dois lances de escadas com o coração latejando. O homem, segundo soube na pensão, é bem calmo e educado - disseram-me refinado! - mas altera o humor talvez devido a convivência com o militar interventor tido como nervoso, durão, mas, à noite, este, sempre às voltas com damas de comportamento impublicável. Bato à porta com os nós dos dedos e torço a maçaneta de fundição antiga. Atrás de uma enorme mesa está o Professor José Militão Arruda de Carvalho e Fagundes que, de pé, aponta uma cadeira estofada de espaldar comprido e me pede que - por gentileza! - sente. O homem é bem grande, talvez um e setenta e cinco, ou mais. Mãos compridas que me cumprimentam têm unhas destratadas, talvez, depois soube, por ser um solteirão convicto. Os olhos, como se fossem de águia, encimam o nariz de ponta. Sobrancelhas espessas e óculos minúsculos vêem além da minha alma profana. Os cabelos ralos estão cheios de iluminuras em vista do uso demasiado da brilhantina glostora. Não há barba na cara da autoridade, mas a figura espadaúda e magra impõe respeito pela austeridade da voz, sempre em tom grave e compassado, e pelos gestos meio didáticos, muito próprios dos que fazem da ciência e da transmissão do conhecimento as razões únicas do viver. - Então, senhor Melchíades Ferreira de Lages, segundo o bom amigo e professor Góis e Castro, estou a cumprimentar um dos melhores alunos que já passaram pelo Liceu Cearense... É um grande prazer! É claro que não acredito no que ouço. Nunca pensei ser simpático àquele professor que tantos detestavam pelo grau de severidade com que tratava a todos. E o diretor continuou: - Se é da sua vontade fazer carreira por aqui, digo-lhe que o esforço é primordial. Não basta querer ser alguma coisa, é preciso o estudo persistente e cauteloso, cotidianamente. Não há a necessidade de dizer para os outros que se é bom. Antes de qualquer coisa, deve-se provar para si próprio que se está na luta para vencer e vencer. Por isto, quero do senhor o certificado de conclusão do Liceu, o histórico com as notas, a certidão de nascimento ou o batistério, e um retrato de frente e outro de perfil, além desta carta de recomendação. Por ter sido instruído no Liceu, tudo o que é necessário está às mãos dentro de um tubo de papelão com extremidades de metal em que guardo documentos desde o tempo em que trabalhei nos negócios da minha tia Chiquita, em Fortaleza. Uma sineta é batida e, em segundos, surge a figura arredondada da Senhora Prazeres que, ofegante, traz nas mãos um grande livro, tipo cartório, e passa a fazer algumas anotações de olho na minha papelada. Em dez
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 05h04
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minutos, ela guarda tudo num outro tubo de papelão, este bem maior, e passa a mim um atestado que, doravante, identificar-me-á enquanto aluno da Faculdade, até que fique pronta a carteirinha estilo caderneta, em três dias, segundo a regente. Em seguida vêm mais recomendações do Professor Militão: - Depois de amanhã, a partir das sete horas da noite, acontecerá aqui no auditório da Faculdade a aula inaugural deste ano de 1934. São cento e dez alunos e todos estarão presentes, trajando terno preto ou azul marinho, camisa branca, gravata listada de azul e branco, as nossas cores, e sapatos pretos com meias brancas. O senhor os tem? - Não, senhor Diretor, eu não os tenho, ainda, mas cá estarei na hora aprazada trajando a indumentária que o senhor está me indicando, se Deus quiser! Desço as escadas aos pulos. Quase me escangalho aos pés da mesa da senhora regente. Estou feliz. Corro para a rua e, depois, sentado a um banco de praça da Rua São Jerônimo, choro de felicidade. Compro papel almaço e envelopes na Livraria São Félix e escrevo duas cartas, uma para as tias e outra para o meu benfeitor Góis e Castro. As mensagens são de agradecimento por tudo o que fizeram por mim. Enfim, concluo: - Pronto! Agora o matuto é aluno regularmente matriculado e, em breve, será doutor, com diploma de nível superior nas mãos, pronto para chegar onde a divina providência melhor me aprouver. Obrigado! São quatro da tarde e vejo o casario de Belém passar pela janela do bonde. Já andando pelas calçadas da zona comercial, vou direto a um destino inquestionável. Uma moça de pele branca, cabelos pretos e longos é a balconista da loja Paris N’América. Já a conheço de outras duas ocasiões. O nome dela é Sarah e descende de uma família de sírios de sobrenome Fadhul. Ela me mostra uns ternos de casimira, realmente feitos pela exportadora francesa Le Monde, em Quartier Latin, o bairro de Paris. Compro um azul marinho, mais um sapato da marca inglesa Charleston, dentre outros adereços que a ocasião exige. Alguns ajustes são feitos por uma costureira em uma alfaiataria defronte. Subo e desço as escadas da hospedaria. Preciso comemorar porque este é um dia dos mais felizes da minha vida. Pena não poder estar com os parentes, em casa. Mas o Galego é um sujeito muito educado e eu o convido após explicar o motivo da euforia. Em pouco tempo já estamos a procurar por uma mesa no Restaurante Almanarah, de propriedade de Jamil Bestene Eluan, este, de origem libanesa. Há vinhos, queijos, azeitonas e bacalhau importados, dentre outros quitutes. Há cerveja gelada e fados portugueses cantados por Dalva de Oliveira e acompanhados ao bandolim por Herivelto Martins. Agora, ele de posse de um violão acompanha a musa em Adeus: Adeus meu grande amor, Eu vou partir, Saudades eu bem sei, Que vou sentir, A pátria me chamou, E o meu dever, eu vou cumprir, Adeus meu grande amor, eu vou partir, Porém não sei se voltarei, Mas se voltar, e te encontrar, Construiremos nosso lar, (adeus meu grande amor) ... Quase todos os homens vestem branco, usam gravatas pretas tipo borboleta e chapéus de massa vistosos, parece-me, do tipo panamá. Portam rebengues (pequenas bengalas), relógios de bolso. No geral, são elegantes. As mulheres, muito bem vestidas e adornadas, se fazem acompanhar dos maridos. O ambiente é estritamente familiar, uma vez que jamais o Galego haveria de me levar em outro que não tivesse essa categoria. O cabra é realmente de respeito.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 20h53
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Mais uma vez vejo tantas pessoas reunidas a tagarelarem em línguas tão diferentes. Melhor de tudo é que eles se entendem muito bem, é o que creio, pelas risadas estrepitosas. Penso comigo que rico ri à toa. São turcos, portugueses, judeus, dentre outros. Realmente, a notícia do dinheiro fácil se espalhara mundo afora. Estou suando em bicas socado dentro de um terno de casimira, enfrentando um calor amazônico de quase quarenta graus, com algum exagero. O auditório, segundo comentam ao lado, é o mesmo onde os alunos fazem o júri simulado, a cátedra mais importante do curso. Lá está o amigo Galego, também de terno, entre os convidados, a cofiar os bigodinhos mais negros que a asa da graúna, segundo o próprio. Ele ainda há pouco me disse estar a sentir-se um dandi, e eu não entendi muito o palavreado do meu amigo de Portugal. Uma banda de música de gente fardada executa o Hino Nacional e todos cantam a plenos pulmões, eu, inclusive, em meio a algumas lágrimas que teimam em rolar dos olhos do macho aqui. Penso cá com os meus botões: - Estou no Brasil, graças a Deus! A mesa está composta pelo Governador Interventor Magalhães Barata, pelo Intendente Idelfonso Almeida, pelo Major Ismael de Castro e por um advogado famoso, professor de direito internacional, encarregado de ministrar a aula inaugural. É o Doutor José Carneiro da Gama Malcher. Ergue então a voz o Diretor para saudar os presentes. Depois o Interventor balbucia alguma coisa, e todos aplaudem. Enfim, por hora e meia de relógio grande, entre surpreso e encantado, fico ouvindo o que tem a dizer o palestrante. - Que discurso! Que oratória! – Penso em voz alta. A comparação a Marco Túlio Cícero, o romano, no discurso contra Catilina, é a primeira que me ocorre. Depois da saraivada de palmas, ainda estou colado à cadeira a pensar no que deixou escrito Vieira, o padre, segundo quem o homem sensato adapta-se ao mundo; o homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem que olha para o futuro de olhos no passado. - Ainda haverás de ser um orador do nível do doutor José Malcher. - É o que me diz o Galego na saída da Faculdade.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 20h51
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O mundo mágico dos sabirilas Esta é apenas mais uma sátira trágica que mistura fatos quadrados e personagens redondos. Há uns amigos bem intencionados que gostariam de uma análise mais cuidadosa a respeito do fenômeno que representam as academias de ginástica de um modo geral e as suas relações com a civilização judaico cristã. Há outros que me têm talvez como um médico e pensam na possibilidade de um comentário acerca das complicações posturais que podem surgir de exercícios mal feitos. Todavia, como cronista que escreve sobre o dia-a-dia desta terra, a partir de toques de uma ironia que alguns afirmam mais refinada, vejo tudo com olhos bem humorados que escondem por trás de si uma alma com lampejos eternos de uma crítica construtiva, mas um tanto caótica. Asseguro-vos que cheguei, enfim, à firme convicção de que a vaidade é a base de tudo. Ou somos vaidosos, ou não somos ninguém, ou temos pouca ou nenhuma importância. O que interessa nestes tempos modernos é aparecer bem na foto. E há adereços, adornos e enfeites de todos os tipos. Vai-se de uma tatuagem na bunda gorda, ou de um piercing nos grandes lábios, a uma roupa da melhor grife , ou a um carrão importado direto da Bolívia, não sei lá por quais meios lícitos ou ilícitos.
- Cheguei à boate Diesel, fui friamente calculada dos pés à cabeça pelos olhos mais cobiçosos dos rapazes a desejarem o meu rabo de sereia, fui invejada pelas moças mais fúteis da Firb-Uninorte, abalei Bangu geral, tomei todas e sou feliz, apesar da ressaca moral que me come o espírito pelo fato de ter comprado toda a minha indumentária, fiado, na Boutique Dona Flor. – Foi este o depoimento colhido por mim de uma moça bem bonita que freqüenta a Academia do Zola, no bairro do Taquari.
Passo enfim a considerar que o que chamamos de consciência é apenas a vaidade interior. É preciso estar sempre ciente de que faço o que faço - e bem feito - porque sou deveras inteligente e atento, o que me torna um vaidoso porque tomo conta de mim e do meu futuro. Se com a alma (que ninguém vê) acontece esse intrincado jogo de interesses, com o corpo (que muitos admiram e sentem pelo tato) tudo é muito mais real, posto que visível e palpável. Além de auto-confiantes e empavonados, todos nós queremos e precisamos e nos esforçamos muito a fim de que nos tornemos bonitos, de cara e de corpo, muitas vezes, infelizmente, não para nós mesmos... E é aí que mora o perigo de se matar o cartão de crédito e se gastar o que não se tem, ou de se tornar impermeável feito estátuas infladas por incontáveis botox.
Existe uma onda por aí que afirma que as mulheres se enfeitam não para os homens, mas para as outras mulheres, talvez suas rivais, que se matam de inveja umas às outras simplesmente porque o seu tubinho é brilhoso e o da vítima não. É mole?!
Assim como corre também por aí que uma mulher, em trinta segundos, na entrada de um baile, por exemplo, já vê trinta vestidos diferentes nas cores e nos realces. Enquanto um homem, de chegada ao mesmo evento, passa dois minutos mirando apenas uma única bunda, até que a esposa o tira do transe com uma bolsada nos cornos, ou com uma boa dose de uísque que encharca a cara do salafrário. Bem feito!
Pois bem! Esta Academia Corpo Ativo é apenas como as demais congêneres. Há umas moças mui belas, outras nem tanto. Há umas atiradinhas, outras um pouco mais, outras mais-que-demais. Há aquelas que, por pura cortesia, cumprimentam a todos. Outras - as mais bonitas - empinam o nariz e sequer olham para algumas almas sequiosas. (Eu, cá por mim, nunca fui a favor de mulher bonita que anda falando com qualquer borra botas. Elas têm que ser metidas mesmo.)
Há uns rapazes raquíticos enfim chegados aos dezesseis, mas com uma louca vontade de parecerem ter vinte e cinco anos. Essa é a classe dos sabiás, devido serem finos os membros inferiores. Alguns dessa categoria tomam uns tais remédios que os veterinários usam para fazer os cavalos brochar, mesmo diante das melhores mulas. Há outros que têm pernas também atrofiadas - dizem ter sido resultado de queda de moto, quase sempre! - e tórax iguais ao do Schwarzenegger. Esses são os gorilas espadaúdos e com cara de poucos amigos, a respeito de quem é melhor não fazer comentários mais detalhados, por uma questão de respeito que eles impõem na força bruta que os faz esturrar debaixo de anilhas que vão a duzentos quilos ou algo mais.
Pior é ver que, dentre os gorilas, existe uma parte significativa da classe que, por mais que o professor diga que devem e precisam exercitar as pernas, eles nem ligam.
É de tirar o sono ver o Manezin Rodela, por exemplo, fedendo que nem um gambá, suan-do em bicas, deitar-se sobre um aparelho ou colchonete e daí levantar-se sem ao menos passar a toalhinha com álcool que lhe está a um metro ao alcance das mãos ensebadas. O homem tá caindo de pôdi e nem tchum!... Aí, o cara vai para o supino e, depois, deixa lá seis rodelas de ferro equivalentes a trezentos quilos - e não as tira - como se, em seguida, a genitora dele ali fosse relinchar de tanto fazer força... Ele é forte, certamente, mas a Terezinha Lescu-lescu é fraquinha e não levanta mais que o peso de um homem franzino... Mais de trinta quilos pode matar a moça!
- Rapazes! As mulheres não gostam de braços grossos nem de ombros imensos. Elas gostam mesmo é de pernas bem torneadas, instrumentos firmes e bumbuns arrebitados! - Foi o que falava ontem, em alto e bom som, a professora Fulaninha, psicóloga e maníaca sexual da Academia do Zola, no bairro do Taquari.
Então, dos cinqüenta e dois de idade que tenho, metade deles vivi, praticamente, dentro de uma academia. Foi esta moça, a minha Penélope Distraída, na época apenas uma acompanhante e dama de honra, quem me inseriu entre os ditos fisiculturistas. Achou-me as pernas finas, os bíceps tenros demais, a bunda não dava um pastel, os ombros se encolhiam, dentre outros tantos defeitos posturais apontados pela hoje tornada expert no assunto, em vista do acúmulo de anos entre malhações, dietas e chás miraculosos.
Pois bem! A partir daí, passei também a cultuar o corpo, essa minha segunda igreja pequenina em frente da qual me posto, espada em punho, vaidoso, como todos, querendo achar beleza nas tantas vezes em que olho nos espelhos incrivelmente grudados em todas as paredes desta alma orgulhosa. Sim! Sobre os espelhos é preciso também dizer que, nas academias, são como mares insondáveis a esconderem nas suas profundezas tanta vaidade e tanta beleza que os outros não vêem, mas a vítima sente.
Lembro Zé Rubim, um sábio destes mais velhos, de sessenta e lá vai pancada e brincalhão demais. Foi ele quem disse que os mais novos, como o Zola, vêm para a academia para ficarem mais bonitos; nós, cinqüentões ou sessentões, ao contrário, vimos nos exercitar para que, assim procedendo, possamos morrer um pouco depois, ou mais tarde, quem sabe, com uns quinze anos de lambuja... Ele é um filósofo clássico desses que ilumina os aparelhos ergométricos com o seu sorriso de urso panda.
O arrojado e avantajado Dr. Luiz Lopra, cearense, é um outro analista de respeito. Foi ele o autor de uma das melhores tiradas por mim já ouvidas, enquanto descanso desse serviço pesado, que nós pagamos a bom preço para que o moço Zola nos deixe fazer força até nos esbaforirmos em suores e desejos recônditos de nos tornarmos mais moços a qualquer hora da noite dos nossos sonhos juvenis. - Professor, preste atenção! – Disse ele. - As mulheres só vêm para a Academia depois que os maridos as deixam. Aí, a coisa já está quase na casa do sem-jeito. Às vezes nem a faca do cirurgião Pitangüi será a solução. E nós, homens, só vimos pra cá quando as nossas mulheres já dobraram o cabo da boa esperança. Mas aí tem jeito! Hoje, seu moço, um bom punhado de dólares resolve até problema de virilidade.
E eu respondi:
- Doutor! Os mesmos dólares, se gastos pelas mulheres, também podem comprar tanquinhos novinhos em folha, como foram os nossos abdomens antigamente. Ora pois!
O mundo, felizmente, carece de filosofia, mesmo que seja tão tosca quanto esses arrotos de sabedoria. Mas é preciso pontuar que a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam freqüentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho relaciona-se mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós. Infelizmente, textos como este são lidos por muitos, mas compreendidos por tão poucos. Afinal, estes tais que, como eu, freqüentam as academias de malhação, não o fazem com a finalidade de exercitar a inteligência parca, mas para definir o futuro das rugas que um dia substituirão bíceps e glúteos hoje tão volumosos e saudáveis.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h36
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE
CAPÍTULO XV VESTÍGIOS DA CONSCIÊNCIA
Pensei durante um bom tempo em ir ter com os retirantes, lá nas casas de paredes e telhados de zinco avermelhado. Tiraria uns dedos de prosa com um e com outro, não riria da miséria de ninguém posto que ainda estava condoído, ouviria um monte de lamúrias, ficaria mais uma vez engasgado de revolta, deveras chocado, talvez chorasse e, enfim, chegaria à triste conclusão segundo a qual nada poderia ser feito por mim, pelo menos agora. Lá não fui. Talvez outro dia fosse. Hoje, ainda agora, estou um tanto acovardado porque o deslumbramento próprio dos ricos é assim mesmo, deixa-os desapiedado, embora eu não seja um deles. Se não posso remediar o que não tem remédio, deixo que o tempo se encarregue das soluções. Lá não tenho o que fazer. Resta-me, pois, ser sincero comigo mesmo, visto que, segundo consta do meu caderno de anotações, a sinceridade e a generosidade, se não forem temperadas com moderação, conduzem infalivelmente à ruína. Agora, talvez não fosse a hora de sofrer. Pelos estudos, hei de tornar-me um homem das leis e, mais tarde, quem sabe, poderei fazer com muito mais razoabilidade alguma coisa por estes desditosos sertanejos. Amanheci um tanto introspectivo. Tomam-me minutos, talvez horas, de reflexão, este um exercício apreendido nas muitas interlocuções com alguns professores, inclusive um de Filosofia, de nome Feliciano Bezerra, do Liceu Cearense. Eu não quero deixar que as outras pessoas vejam ou notem ou sintam em mim um delirante bazofeiro. Cumpre conter os excessos que me empurram para o rumo da esbórnia, da bebedeira, da safadeza, por exemplo. Aquele que sabe quando tem bastante, não cairá no ridículo. E aquele que sabe quando deve parar, não correrá perigos. Tenho de tudo um pouco e penso ir mais longe, não com a intenção de tornar-me um rico empedernido. Pararei, é certo, quando perceber que as medidas do muito já não me arregalam o peito, mas provocam inveja nos demais. Li uma vez no Almanaque Capivarol que é próprio das grandes almas desprezar grandezas e almejar mais o médio do que o muito... Assim será! É preciso que tomem conta de mim certos níveis de comedimento, uma vez que, apesar de sentir-me em casa, esta não é a minha terra natal, o meu berço de origem. Sou um forasteiro a mais. Cofio as barbas marrons da cor do pelo do cavalo baio. Observo, na prática, que a prudência não passa do medo de provocar a inveja e o desprezo que merecem os que se vangloriam da sua boa sorte. Não é prudente de minha parte ir ter com os irmãos retirantes para dizer-lhes que a minha estrela brilha mais que a deles. Lá, eles haveriam de me desprezar. Trata-se, isto sim, de uma vã ostentação do espírito humano metido a besta. A moderação dos homens no seu ponto mais elevado é apenas o desejo de parecerem mais generosos do que a sua própria boa sina. Leva-me à generosidade o fato de ser um afortunado, na graça de Deus!
Todos os dias, a partir de então, tenho observado que das dúvidas é que surgem as certezas mais graves, mais agudas, dependendo das circunstâncias, uma vez que a ocasião é que pinta o cidadão. Há dias em que o meu mundo gira em torno das indagações desta alma profana. Até porque as respostas logo passam a fazer parte de um passado às vezes recente, às vezes remoto...
Cogito, ergo sun. Penso, logo existo. Esta é do Descartes...
No ramo gramatical dos períodos compostos por coordenação, este comporta uma oração coordenada conclusiva. A conseqüência do existir é o pensamento. O resultado dos bons propósitos é, certamente, a felicidade absoluta ou relativa. E onde estão as duas? Alguém as crer? Temos sido levados a ponderar o imponderável, mesmo porque, dizem, a felicidade sequer existe; o que existem, certamente, são raros momentos felizes. Tenho certeza, sim, da luta generosa pelo bem comum e pelo bem próprio, o meu também...
* * * Tarde de domingo. Almocei, à tripa forra, novamente, o bacalhau do Galego. Mais uma vez, uma jóia do reino, como o disse ele mesmo. Bebi mais vinho. Subo sonolento e ainda introspectivo as escadas íngremes de corrimãos trabalhados por marceneiro de primeira linha. Ato a tipóia, deito o corpo e a mente voa.
Passo os olhos por um jornal comprado agora mesmo. Leio um pequeno comentário sobre as virtudes capitais. Tenho andado deveras cauteloso comigo mesmo. Desde alguns dias, noto uma propensão ao açodamento de certos vícios e manias. Desde algum tempo, ainda no Ceará, mantenho gastos com o supérfluo, inclusive em orgias indizíveis com o belo sexo. Iniciei-me na execrável arte do jogo de carteado, sempre com uma moçoila que se senta ao meu colo, beija-me as bochechas, lambe-me os ouvidos e me morde levemente o pescoço sem rugas. Bebo cerveja e vinho em demasia e freqüento prostíbulos e lupanares depois da meia-noite. É preciso dar um jeito nessa situação, diria, altamente pecaminosa, apesar de sempre estar aos domingos aos pés do Senhor rogando-lhe todos os perdões do mundo. É claro que tal procedimento se deve ao fato, exatamente, deste sub mundano ser um católico praticamente, dos tais que comete todos os deslizes, dizíveis e indizíveis, confiando na bondade de Deus que lá de cima não quer outra coisa senão perdoar almas incautas de mentes e corações travessos.
Depois das quatro da tarde, acordo das minhas lucubrações guiado por um cheiro diferente, mas agradável. É o tal tacacá que ainda não sinto ser a hora de ceder a esta água que se faz na boca. – Deve ser bom, mas ainda não é hoje!
Desço vagarosamente. Lá no salão há um grupo de homens de língua enrolada que jogam o gamão, um jogo no qual balançam dois dados num caneco de couro e os atiram sobre um tabuleiro onde umas casas arredondadas em meia lua recebem pequenas rodelas de madeira que são os pontos em disputa. - Aqui os chamam turcos. – Diz-me o amigo Galego. – Eles não gostam dessa denominação, dessa nacionalidade. Auto se denominam libaneses, sírios, judeus, todos, enfim, como nós portugueses, com faro canino quando a história tem a ver com dinheiro. Aquele é Touffic Salim. Aquele outro é Jorge Eluan. O do lado de lá é Mustafah Zacour e o do lado de cá é Farizaire. O que está a piruar o jogo é de Portugal, Belchior Costa, e o de camisa cinza é Gatasse, todos comerciantes bem sucedidos, na graça de Alah, o deus dos turcos islâmicos ou maometanos.
Sisudos, não olham para nenhum dos lados, mas dizem alguma coisa parecida com iarrari-iarrari-iarraridinacoruta. Parece-me ser coisa do jogo, talvez, com algum viés de insulto ao oponente. Não se apercebem eles da minha presença e muito menos da curiosidade. Nunca ouvira tantos falarem ao mesmo tempo uma linguagem tão desconhecida, parece-me, zangada, mal humorada, raivosa mesmo.
Dirijo-me para o lado oposto do salão onde está outro grupo. Lá, todos são brasileiros, uns cinco ou seis. Descubro de repente que todos ouvem o que apenas um deles tem a dizer. Riem a gaitadas, estrepitosamente. Penso com os meus colarinhos que só há um povo no mundo que ri desse jeito. Como não poderia deixar de ser, o sujeito metido a contador de causo - alguém da roda talvez o tenha dito - é cearense de Russas e, sentado a uma mesa vizinha à minha, dirige-se mais especialmente a um tal Vitorino, gerente do Banco do Brasil, de quem é convidado a prosear.
Observo que Eugênio Azevedo não é um besta qualquer. Fala pelos cotovelos, mas fala bem, tudo certinho, conforme o figurino da gramática. Alguém o chama de doutor. Outro pergunta por uma causa que está dormindo na Justiça. Eu, depois, o descubro enquanto promotor público afamado. Ouço tudo em silêncio. Respeito aos mais velhos. Sou muito mais moço e não fui convidado a dar nenhuma opinião.
Todos agora estão absortos. O doutor promotor de justiça defende uma opinião segundo a qual - não há dúvidas disso - há cearenses em todo lugar do mundo. Nos outros estados do Brasil, nem se fala. A presença é marcante no rádio, no cinema, na música, além da indústria, da política e de outros setores. O homem é uma fera.
- No dia em que o americano chegar à lua, lá já estará um cearense vendendo rede de porta em porta. É a gota serena!
E ele continua bem das falas e dos conteúdos quando afirma que, para demonstrar essa vocação peregrina do cearense, surgem muitas piadas.
- Contam que em uma cidadezinha perdida na imensidão do território chinês, um cearense procurava emprego e, quando já estava desesperançado, viu um humilde circo mambembe e foi tentar a sorte. Havia uma vaga, mas era para se vestir de leão. Aceitou de pronto e experimentou logo a vestimenta que era perfeita, confeccionada de pele de leão mesmo... Tudo ia bem. No dia do espetáculo, o cearense entrou na jaula, imitou o leão com uns rugidos fortes e ganhou palmas. Era a glória. De repente, entra outro leão. O nosso personagem quase morre de susto. Esse só pode ser de verdade, pensou. Mas, como bom cabra-da-peste, resolveu espantar o bicho, sobretudo, depois que achou o animal muito manso. Deu então mais uns rugidos muito fortes, graves e fortíssimos, e, de repente, o outro leão se ajoelhou e disse: Valei-me meu São Francisco do Canindé!
Foram quinze minutos de gargalhadas ininterruptas, escandalosas, como os de lá. Os puxa-sacos estão em todo canto, como os de cá. Eu mesmo não ri, porque já sabia dos dois gracejos quase sem graça nenhuma.
Fui passear pelos arredores do porto pensando em como era importante o sujeito ser um promotor de Justiça. O indivíduo, pelos estudos, poderia até ser um juiz de Direito, desses que usam toga e tudo. Para este matuto, depois de ter visto o que vi, de bom tamanho já é ser um advogado com a competência do bom Doutor Quintino Cunha, um causídico folclórico do Ceará, ainda hoje atuante que, às vezes, apronta peripécias nem sempre justas.
Certa vez, no tribunal do júri, levou até o promotor à comoção ao dizer que o acusado era arrimo de família e cuidava sozinho de sua mãezinha cega, de mais de oitenta anos:
– Não olhem para o crime deste infeliz! Orem pela sua pobre mãe, velhinha, doente, alquebrada pelos anos e pela tristeza, implorando a misericórdia dos homens, genuflexa diante da Justiça, desfazendo-se em lágrimas, pedindo liberdade para o seu filho querido!
O réu foi inocentado. Na saída do tribunal, um dos presentes, sensibilizado, aproximou-se do adevogado:
– Doutor Quintino! Quero fazer uma visita à mãe daquele infeliz, pois quero ajudá-la! – Ora! Eu sei lá se esse filho de uma égua algum dia teve mãe! * * * Como uma puxa a outra, lembrei logo de um outro causo irmão do primeiro.
Noutro júri realizado no Ceará, o assistente da acusação mandou fazer um caprichado desenho da arma do crime. Exibiu aos jurados uma cartolina branca com uma ilustração detalhada do punhal utilizado para assassinar a vítima. Vendo que os jurados haviam se impressionado com a gravura, o matreiro advogado Quintino Cunha pediu um aparte e perguntou:
– Nobre colega, caso aqui estivéssemos tratando do crime de sedução, qual seria o instrumento do crime que Vossa Senhoria estaria aqui apresentando aos jurados?
Todos caíram na gargalhada e o trabalho da acusação perdeu o impacto. O réu acabou absolvido. Eu seria um advogado, sim. Agiria com inteligência. Advogaria para os pobres porque os ricos têm dinheiro para pagar os capadócios.
Já deitado pegando um vento morno e ainda pensando em aprender leis para não enganar ninguém, lembrei de quando o Doutor Quintino Cunha escreveu em um jornal de Fortaleza sobre um artefato jurídico produzido por ele mesmo e depois encontrado não se sabe onde. Ei-lo:
“Com a presença de 23 jurados, realizou-se uma segunda reunião da presente sessão do júri. Compareceram à barra do Tribunal os réus José Boa Ventura e José Correia Lima, acusados de roubo na casa de residência do Dr. Quintino Cunha, que os defendeu. Ambos foram absolvidos por unanimidade de votos, sendo que já estavam detidos há cerca de dois anos. Ocupou a cadeira de Promotor o Dr. Alencar Mattos”.
Estava marcada a visita ao Dr. José Militão para a terça-feira vindoura. Amostraria a carta assinada pelo velho mestre Góis e Castro. Aquele ficaria marcado como o primeiro dia de uma nova vida. Afinal, estaria matriculado e por quatro anos freqüentaria a Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará, localizada na Rua São Jerônimo, número 432.
Em frente a um palacete estilo colonial, o bonde pára. Eu desço. Caminho pela calçada depois dos portões. Agora, um lance de apenas oito degraus me separa de um futuro que há de ser brilhante e venturoso, com as bênçãos dos céus. Pensam por mim os meus botões prateados. Voltaire deixou escrito mais ou menos que só os homens sagazmente ativos, que conhecem as suas aptidões e as usam com medida e sensatez, é que poderão fazer substancialmente o progresso da civilização humana. - Alea jacta est! – Digo mais uma vez. A sorte está lançada. 
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 21h42
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XIV Babel amazônica
Até agora permaneço no restaurante do cais do porto. Tiro o relógio da algibeira e constato que me avancei nas observações iniciais. Já são onze e meia da manhã e, deslumbrado, ainda estou a observar o movimento, tanto das pessoas da cidade que circulam pelas imediações, como dos recém chegados que, pouco a pouco, debaixo de chuva fina, vão sendo levados dali, vagarosamente, como em procissão dolorosa que mais parece marcar o começo de uma interminável via crucis através dos caminhos, varadouros e estradas de seringa; rios, igarapés e barrancos destes confins de mundo amazônicos. Todos caminham por umas ruas estreitas, quase sem casas, no rumo da esquerda, em sentido contrário ao Mercado dos Peixes, do Cais do Ver-O-Peso. Rente à margem da baía, o terreno é plano e coberto por uma relva fina. Por isto vejo que, lá já distante, alguns grupos começam a entrar em uns casarões sem pintura e de telhados e paredes de um zinco consistente e avermelhado pelo tempo implacável. Vêm à lembrança, então, os depósitos humanos de Senador Pompeu, Ceará, que esconderam dezenas de milhares de cadáveres de retirantes para que a história jamais os descobrisse, mas descobriu. Os velhos políticos e governantes, líderes sujos, promíscuos e sem alma, desde sempre, apóstatas e inquisidores de crimes sociais tão graves, promotores desses verdadeiros holocaustos fratricidas, queriam tão somente que aqueles farrapos humanos saídos do sertão não fossem enfeiar a reluzente cidade de Fortaleza. Entre os gravíssimos e sisudos dirigentes, houve quem dissesse, à época, frases secas do tipo: - Ao inferno com eles! Oh, Deus! Olho para a malota de couro bordado. Ali tem dinheiro suficiente para um ano de farra não tão comedida. Mas não estou aqui para isso e foi o que me fizeram jurar as tias velhas na terra distante. Penso no passado recente. Ora, tá! Tenho dezoito anos e, com certeza, todo o meu passado é recente. No anteontem da minha vidinha doida, corria a cavalo pelas estradas do Baturité. No ontem me apaixonei por uma donzela inalcançável, quenguei com uma outra imponderável e corri com medo de um marido traído e intolerante, ou intolerável. Hoje, cá estou. E faço deste um balanço sucinto do primeiro período de uma vida que teria ainda mais outras quatro etapas para engolir. Mais uma vez, passa o bonde carregado de gente, a maioria sem camisa. Atravesso a rua celeremente, pois o meu chapéu de massa, devido a chuvinha, não pode perder a beleza, a elegância. - Boas tardes ou bons dias! O senhor é que é o dono da pensão? - Disse dirigindo-me a um sujeito de média estatura, nem gordo, nem magro, uns vinte e seis anos, bigodes finos meio pontiagudos, cabelos lustrosos em brilhantina, calças pretas, camisa de punho branca e um avental bege impecável. - Seja muitíssimo bem vindo à Estalagem Santa Maria Madalena! - Disse o janota com sotaque dos que vêm da região do Alentejo, Portugal. – Aqui temos aposentos espaçosos, com guarda-roupas e jarras para banhos. Há serviço de quarto e uma rapariga te lava as roupas, semanalmente. As refeições são servidas no restaurante ao lado, também de nossa propriedade, onde também há refrescos de frutas regionais e cerveja. A especialidade da casa é o bacalhau à moda do Porto, servido com vinho da mesma origem. Que achas? - Coisa de primeira qualidade. Gostei e já fiquei. Subo, tomo um banho, mudo a roupa e já desço para o almoço e um dedo de prosa com vosmecê, pois não! Sinto que estou a arranjar talvez um bom amigo, em vista da educação e dos modos e rapapés com que me dirigiu a palavra. Um sujeito pai d’égua e sacudido. Fui com as fuças dele de primeira. Pense num cabra bom! Alvíssaras! A hospedaria é de gosto muito acima do razoável, apesar de uma escada íngreme que leva ao andar superior, ou sobrado. Há uns vinte aposentos, como diz o português. Uma limpeza e uma organização impecáveis são enfatizadas por flores de manacá e muitas samambaias, também no restaurante de toalhas brancas e mesas redondas, no capricho. |
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h56
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secas do tipo: - Ao inferno com eles! Oh, Deus! Olho para a malota de couro bordado. Ali tem dinheiro suficiente para um ano de farra não tão comedida. Mas não estou aqui para isso e foi o que me fizeram jurar as tias velhas na terra distante. Penso no passado recente. Ora, tá! Tenho dezoito anos e, com certeza, todo o meu passado é recente. No anteontem da minha vidinha doida, corria a cavalo pelas estradas do Baturité. No ontem me apaixonei por uma donzela inalcançável, quenguei com uma outra imponderável e corri com medo de um marido traído e intolerante, ou intolerável. Hoje, cá estou. E faço deste um balanço sucinto do primeiro período de uma vida que teria ainda mais outras quatro etapas para engolir. Mais uma vez, passa o bonde carregado de gente, a maioria sem camisa. Atravesso a rua celeremente, pois o meu chapéu de massa, devido a chuvinha, não pode perder a beleza, a elegância. - Boas tardes ou bons dias! O senhor é que é o dono da pensão? - Disse dirigindo-me a um sujeito de média estatura, nem gordo, nem magro, uns vinte e seis anos, bigodes finos meio pontiagudos, cabelos lustrosos em brilhantina, calças pretas, camisa de punho branca e um avental bege impecável. - Seja muitíssimo bem vindo à Estalagem Santa Maria Madalena! - Disse o janota com sotaque dos que vêm da região do Alentejo, Portugal. – Aqui temos aposentos espaçosos, com guarda-roupas e jarras para banhos. Há serviço de quarto e uma rapariga te lava as roupas, semanalmente. As refeições são servidas no restaurante ao lado, também de nossa propriedade, onde também há refrescos de frutas regionais e cerveja. A especialidade da casa é o bacalhau à moda do Porto, servido com vinho da mesma origem. Que achas? - Coisa de primeira qualidade. Gostei e já fiquei. Subo, tomo um banho, mudo a roupa e já desço para o almoço e um dedo de prosa com vosmecê, pois não! Sinto que estou a arranjar talvez um bom amigo, em vista da educação e dos modos e rapapés com que me dirigiu a palavra. Um sujeito pai d’égua e sacudido. Fui com as fuças dele de primeira. Pense num cabra bom! Alvíssaras! A hospedaria é de gosto muito acima do razoável, apesar de uma escada íngreme que leva ao andar superior, ou sobrado. Há uns vinte aposentos, como diz o português. Uma limpeza e uma organização impecáveis são enfatizadas por flores de manacá e muitas samambaias, também no restaurante de toalhas brancas e mesas redondas, no capricho.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h57
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O banho frio é demorado. Faço uma aspersão lenta da lavanda Lírio do Campo e visto a única calça bege e uma das duas camisas de punho brancas que couberam na malota bordada. Apesar do cuidado, a roupa de linho se amarrotara um tanto, assim como o sapato Anquilé. Desço os dois lances de escada e vou ter com uma salão de médio porte já com as mesas tomadas por senhores e senhoras bem vestidos, apesar das caras simples. Há um local reservado para o mais novo hóspede, eu. Peço uma frasqueira pequena do tal vinho do Porto enrolada em folha de cortiça. Almoço à tripa forra, como um general ou que nem um lord. O bacalhau é a comida mais gostosa que eu já houve por bem ter experimentado. (Também, pudera! No Ceará, as mulheres tecem a melhor renda mas, no fogão, não fazem nada que preste, com raras exceções.) A clientela devora tudo com apetite de carcará. São funcionários do comércio e do serviço público. Senta à minha frente, então, o português e eu já peço mais uma taça do tal vinho. Em minha memória, começa a desenhar-se um apelido: Galego. Afinal, sempre soube colocar nas pessoas esses codinomes bastante sugestivos. Ele pode não ser da região da Galiza, Portugal, mas que vai pegar, isso vai! - Eu estive a falar bastante das qualidades da casa, mas esqueci de lhe dizer que sou Belmiro de Pontes, natural de Guimarães, Portugal. Meu pai, hoje falecido, fundou este negócio e pôs este nome porque nasceu em um vilarejo de lá chamado Santa Maria Madalena... E tu, com todo o respeito, de onde vens? O que fazes? Para onde vais? - Sou Melchíades Ferreira de Lajes, seu criado. Nasci na cidade do Baturité, Ceará, estudei no Liceu Cearense, em Fortaleza, por três anos, e vim em busca de me tornar bacharel na Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará. - Ô raio! Mas que interessante! É verdadeiro que temos muito a conversar. Vou à cozinha e à gerência e volto em seguida. Mais tarde faremos um passeio pelas redondezas, para reconhecimento do terreno em que agora tu pisas. Que achas? É exatamente do que estou precisando. Agora posso dispor, já, de um cicerone. Para comemorar comigo mesmo, ingiro mais uma taça do vinho e já estou ficando quase zureta, como os de lá, ou zuruó, como os de cá. Às duas horas da tarde, o calor é intenso mas, de repente, cai uma chuva espessa de pingos grossos que, segundo me diz depois o Belmiro de Pontes, é pura tradição, avisa e vem todo santo dia, no mesmo horário, e até serve de um referencial do tipo: vou ao banco antes da chuva, ou o enterro só sairá depois da cruviana, e assim por diante. Em vinte minutos de água densa, já faz sol, mas o calor arrefece um pouco e a tarde se torna amena. Agora em mangas de camisa branca e calça cáqui, o Galego desce para um passeio que ele chama de ronda. Caminhamos vagarosamente pela sombra dos velhos casarões do Boulevard Castilho França, conforme leio na placa indicativa. Meu companheiro cumprimenta festivamente a todos. Abraça os conhecidos e me apresenta como um novo amigo vindo do Ceará. Atravessamos a rua e nos embrenhamos em meio a uma floresta de barracas onde homens e mulheres vendem de tudo. Oferecem-me folhas e ungüentos próprios para trazer de volta ao lar a mulher safada ou o homem aventureiro. Um vidrinho contém um perfume que, segundo uma índia velha gorda, tornar-me-á um jumento na cama, como se esse bicho precisasse de alcova para gerar filhotes. Um pó de chifre de veado roxo fará de mim o homem mais desejado do mundo, pelo belo sexo, é claro... E assim por diante. De repente, já não há mais barracas e nós entramos no Mercado dos Peixes. De longe, reconheço no tal pirarucu um primo-irmão do bacalhau do Galego. Encanta-me ver tantos e de tantos tamanhos e formatos, mas o mais bonito é o pirambutaba, com o seu dorso amarelado e a barriga branca. Um sujeito me diz que, de tanto comer os miolos dessa espécie, a população do baixo Rio Amazonas, apesar da pouca estatura e cabelos de índio, está ficando com as cabeças louras em vista de um certo elemento químico desconhecido que é ingerido, mas que não faz mal à saúde. Na saída do mercado, um cheiro horrível me ofende as narinas. Busco um aroma mais forte. O patchuli não dá certo. A canela em pó não dá jeito. Meto a venta num pó cinzento e saio aos espirros a atravessar a rua no rumo das Lojas Pernambucanas. O nariz arde. Houvera aspirado a tal pimenta do reino mas, nem assim, a catinga de podre do cais das barcaças deixou de me embrulhar o estômago. Arre égua! | Passo a acreditar numa das muitas frases e provérbios apócrifos escritos nos quadros do Liceu Cearense pelo velho mestre Quandú Pirento, ou Góis e Castro, como queiram. |
De todos os sentidos, a vista é o mais superficial, o ouvido, o mais orgulhoso, o olfato, o mais voluptuoso, o gosto o mais supersticioso e inconstante, e o tato o mais profundo. Acabo de me render a Dennis Diderot, um dos intelectuais franceses que instilou no povo a necessidade da Revolução e da Queda da Bastilha. Seguimos depois do susto nos narizes. Dobramos a próxima rua à esquerda, a 15 de Novembro, parece-me. Logo na outra esquina está uma senhora de saias rodadas e um pano branco amarrado à cabeça. Ela mexe uns dois panelões fumegantes em cima de fogareiros. Perguntado sobre do que se trata, Belmiro de Pontes passa a explicar: - Este é o maravilhoso tacacá. É feito a partir de um caldo extraído da macaxeira, ou mandioca, que é misturado a umas folhas que têm o nome de jambu e ao camarão seco. É uma bebida dos deuses. Na aparência, feia para os que não a conhecem, mas quando as áreas atingidas passam a ser o paladar e o olfato, revela-se uma iguaria que quase chega ao patamar do sobrenatural; isto, sem falar nas propriedades terapêuticas que vão, inclusive, ao campo dos afrodisíacos. - Pelo cheiro, realmente, chega a dar água na boca, mas eu não vou provar, pelo menos agora, pelo fato de ainda estar digerindo o tal vinho do Porto. Depois, quem sabe, no dia em que me falhar a libido... De longe, avisto a Igreja do Carmo. Entro e rezo um Padre Nosso e uma Ave Maria, diante da Nossa Senhora que dá nome à Casa de Deus. Ali perto, em seguida, na Igreja de Santo Alexandre, peço-lhe equilíbrio, sensatez, calma, sabedoria e prosperidade pela via dos estudos da Economia e do Direito. Não tão distante, é a vez da visita à Igreja das Mercês, em honra a Nossa Senhora das Mercês. Lá louvo e agradeço a Deus por tudo de bom que me tem colocado ao dispor. - Pronto, Belmiro! Estou debaixo da proteção dos céus. Podemos até tomar uma cerveja gelada e amanhã eu venho a esta loja Paris N’América e comprarei umas duas calças de linho puro, umas três camisas de cambraia bordada, um terno azul escuro, uns sapatos e meias novas e um chapéu panamá para aparar o sol que por aqui também é de cozinhar o juízo. Proseamos como dois velhos e bons amigos até as cinco e trinta, hora em que o Galego abre o restaurante que, à noite, é mais um bar metido a bacana. Dormi por umas duas horas, tomei mais banho, vesti a mesma roupa e desci para a janta. Não jantei. Bebi mais cerveja e belisquei camarões e queijo do reino. Depois, em passeio, agora sozinho, sigo pelo mesmo itinerário da tarde. Ando um pouquinho mais adiante. Cá estou.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h54
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São onze horas. Uma voz feminina rouca quebra o silêncio da noite que se anima cada vez mais, para o meu espanto. Imitam muito bem Dalva de Oliveira. A música, depois soube, é Camisola do dia, de Herivelto Martins: Amor, eu me lembro ainda Era linda, muito linda Um céu azul de organdi A camisola do dia Tão transparente e macia Que eu dei de presente a ti Tinha rendas de Sevilha A pequena maravilha e o teu corpinho abrigava E eu era o dono de tudo Do divino conteúdo Que a camisola ocultava A camisola que um dia Guardou a minha alegria Desbotou, perdeu a cor Abandonada no leito Que nunca mais foi desfeito Pelas vigílias de amor... Lá em cima, no pórtico do sobrado centenário, em letras garrafais verdes na parede branca iluminada, lê-se CHUÁ. Sobre a porta, uma lâmpada vermelha e uma escadaria. Depois de uma dúzia e meia de degraus, há penumbra, sorrisos comprometedores, mesas ocupadas. Tudo indica tratar-se de um lupanar, como me havia comentado o Galego. Eu chamo de casa de mulheres da vida difícil.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h51
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ESTÁ CERTO O LUÍS! Não é verdadeira a assertiva segundo a qual cada estado brasileiro contribui com um produto e, desta forma, gira a roda da Economia como em conjunto. Um estado produz tomate, outro beterraba, outro mandioca, e assim por diante. Não. A verdade é que Rondônia produz e exporta em grande escala, a grosso modo, cereais, laticínios, carnes, minerais, madeira, peixes, produtos cerâmicos, e assim por diante. O vizinho Amazonas é um polo exportador de eletrodomésticos, peixes, carnes, petróleo, além do turismo ecológico, dentre outros. O outro Estado amazônico, o Pará, vive da exportação de minério, peixes, carnes, cereais, frutas, verduras, legumes, e por aí vai... Basta um pouco de sanidade para observar que, se no vale do Acre o que plantamos é irrisório em vista do aumento da população, no vale do Juruá chega a ser vergonhoso, conforme o Reynold Sthefanes, ministro da agricultura, ter que comprar hortifrutis do Peru. É preciso fazer ver àquele povo que, onde nasce a macaxeira, nascerá a tomate, a alface, a couve, dentre tantas hortaliças, além das árvores frutíferas e das leguminosas. O emprego público que individa ou o favor do político assistencialista não podem ser os únicos e últimos sonhos dos cruzeirenses, além de sempre quererem ter como capital a cidade de Manaus. Insisto em que cabe aos órgãos da extensão rural ensinar que do boi só se perde o berro e a merda desse ruminante é incrível para fazer com que as plantas cresçam... Experimentem e verão! (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 21h42
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O MAL DO SÉCULO
O MAL DO SÉCULO Este é o título de um texto que está inserido no meu livro de crônicas JANELAS DO TEMPO. Nenhum mal em momento algum da história da civilização assolou a humanidade com tanta violência como as drogas. Todavia, constatação muito mais séria me acorre agora quando algumas pessoas que conduzem veículos são instadas a soprar no bafômetro e o teor etílico não demonstra alteração, apesar de o sujeito estar visivelmente perturbado. O que ocorre é que o aparelho não foi feito para identificar a doidice por inalação de cocaína ou fumaça de basilares. Ora, senhores! O buraco é muito mais embaixo. Desde sempre observo que a maioria dos que tomam uma cerveja a mais tendem a dirigir mais devagar. Ao passo que aqueles cujos narizes rotundos e rombudos enfrentam carreiras de pó ficam, sim, loucos e se suicidam debaixo dos caminhões que levam e trazem progresso. O indivíduo que faz uma coisa dessas tem mesmo é vontade de viajar, no dizer deles próprios, talvez para as profundezas, em alta velocidade como esses que, endemoinhados, andam a mais de cem quilômetros horários em estradas imaginárias que sempre os levam para o além, muito além! (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 21h33
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XIII De repente, a luz! A cada instante desta vidinha insana, mais recrudesce em mim o desejo pela aventura, pelo desconhecido, a vontade de infiltrar-me no meio desse verde que, vagarosamente, se descortina a partir de uma tira da floresta ao longe, lá no horizonte perdido. Tenho pensado em como seria percorrer aquilo tudo - toda a Amazônia - no lombo de um cavalo veloz, desses que quase voam, sem me dar conta do tamanho deste País gigante pela própria natureza. Divago por mais de meia hora, ali, de pé, recostado ao tombadilho da embarcação que agora apenas balouça, levemente, parada, ao sabor de marolas que se sucedem incessantemente. Aparece por ali Petrônio Rodrigues, o moço de convés. Acende um cigarro forte, de palha de milho, passa a mão na cabeça já quase grisalha, ajeita a desgastada boina branca de feltro, olha para o mar, meditativo. Talvez esteja pensando no reencontro com os seus familiares. Interrompo-o nos seus pensamentos sisudos. Falo-lhe sobre as divagações em torvelinho que fazem moradia na minha cabeça atroz: - Mestre, em quantas horas se pode chegar a Manaus em cima de um bom cavalo alazão? São quantas léguas daqui lá? - Você está é besta, rapaz! – Responde em português muito bem articulado o embarcadiço. – Melqui! Em primeiro lugar, por aqui, as distâncias não são medidas desse jeito. É completamente diferente... Chega-se a Manaus em sete dias porque se viaja de subida pelo Rio Amazonas. De lá para cá, são três a quatro dias, porque a viagem é de baixada. Depois, a cavalo é impossível devido a enorme quantidade de rios caudalosos incontáveis, lagos imensos, matas submersas, cachoeiras intransponíveis. Ademais, no primeiro trote, a partir da primeira pancada da pata da montaria, já estariam à espreita duas ou três onças maçarocas gigantescas, de unhas e dentes que mais parecem facas prontas para serem enfiadas na barriga do trotador ou na garganta do cavaleiro. Fora as cobras, aranhas, insetos, jacarés, dentre outros, tão perigosos quanto os macacos gogós de sola, do tamanho de um rato pequeno, mas com força e habilidade suficientes para levar ao inferno um homem forte, como vosmecê, posto que visam apenas partes vitais do corpo humano, como o rejeto ou a garganta, o que faz a vítima esvair-se em sangue em menos de quinze minutos... É, meu filho! Não é à toa que muitos chamam isso aqui de inferno verde. É muita água, muito chão, muita doença, muita dificuldade. Para se chegar à Bolívia, então, com muita sorte, sem nenhum problema de prego nos motores, são quase três meses de embarcação de médio calado, a partir do porto de Belém. Este é o início da tarde do sexto dia. Então, o Comandante Homero Melo, homem de cara enjoada mas pacato, anuncia nos aproximarmos da foz do Rio Amazonas. Estamos a umas oito milhas náuticas de Marajó, ou mais de doze mil metros... Ao longe divisamos pedras. É que a maré estará baixa até, mais ou menos, nove da noite. Sopra um vento seco e quente. Segundo os mais experientes, são coisas muito próprias do clima da hiléia. A partir das cinco da tarde, já nos preparamos para o pernoite, ainda em mar aberto. Amanhã de manhãzinha é que entraremos na baía de Guajará, isto porque é muito grande o risco de o vapor ir a pique, em vista dos arrecifes que podem lhe avariar o casco. Desde sempre a chegada a Belém foi assim, cercada de todos os cuidados. É só pela manhã, cedinho, que a maré está alta e permite que as adjacências de Marajó sejam contornadas e, assim, se chegue em segurança ao Cais do Ver-O-Peso, o tradicional porto paraense. Em dez minutos, dormi sono profundo. Sonhei e estive em meio a paisagens bastante diferentes, mas nítidas, todas. Do alto de um despenhadeiro conversava com um sujeito alto, branco, louro que me chamava de amigo. Era Gabriel, o Anjo que, junto de mim, olhava para um cenário dantesco que se desenhava lá embaixo, num vale seco por sobre o qual voavam grandes aves de rapina muito parecidas com os pterodátilos do tempo dos dinossauros. Havia fumaça e fogo e além, muito além, erguia-se do mar vagalhão gigantesco que, segundo o anjo amigo, inundaria todas as cidades da terra, inclusive a Fortaleza e o Baturité querido. Por trás do nosso ponto de observação, furacões muito intensos revolviam a terra sem vida de todo o sertão. Eram tornados devastadores que jogavam a Igreja do Canindé para o alto. Uma seca catastrófica assolava o Amazonas e o Pará. Inundações maciças destruíam as plantações à beira dos rios Nilo e São Francisco. O mar subindo e inundando cidades e desaparecendo com ilhas e países. Dezenas de milhões morrendo de fome. Pragas atingindo áreas agrícolas. As calotas polares derretendo totalmente. Ondas de calor sufocantes. Agora, o navio tinha velas enormes e rasgadas, o casco avariado. Havia gente morta e catinga de carne podre e fumaça. Presenciamos o apocalipse ali mesmo, a partir da minha cama de campanha, com os olhos num Cristo com as mãos espalmadas, como se dissesse basta, e os quatro cavaleiros sobre imensos cavalos que relinchavam alto, como trovões em agudo, empinavam, corcoveavam e soltavam fogo pelas ventas. Uma coisa de doido. Eram quatro da manhã, mais ou menos. Acordei sobressaltado. De um cangapé fui ao chão e quase caio n’água. Estava suado até os cabelos. Espantei algumas pessoas devido o baque no chão de madeira do navio. Houvera sonhado com o juízo final. Havia fogo e fumaça. Depois, o fim do mundo já era através da subida das águas que inundavam o sertão e subiam a Serra do Baturité... Ô xente! Às cinco, as duas âncoras são içadas sem nenhuma pressa. Já é quase dia, apesar de o sol ainda não mostrar os seus primeiros raios. É um belo dia de janeiro. Dia vinte. Segundo o Mestre Homero, dia de São Sebastião. Falo em voz alta: - É esse Santo que está me dando as boas vindas no meu novo lugar, na minha nova terra, onde hei de plantar e colher uma fortuna espalhada em sabedoria, esforço, boas amizades, grandes amores, e tudo o que por aqui haverei de conseguir de bom! Com a graça de Deus Pai Todo Poderoso, hoje mesmo entrarei pela primeira vez em três igrejas e pedirei dos santos tudo o que mereço, se é que mereço alguma coisa. Agora, o céu se tinge de prata e a baía de Guajará está que é uma beleza, também prateada. Apontam o estreito de Breves, segundo todos, sempre muito perigoso. Mas esta é a hora adequada, cedo da manhã... Avançamos, devagar e sempre, com os motores a média velocidade. É a prudência dos marinheiros a grande conselheira. É pleno dia, mas prefiro o fiat lux bíblico. E fez-se a luz! Estou rejubilado, feliz comigo mesmo pela escolha. Lembro do início da viagem. Faço analogias e vou pensando como se fosse noite. Seria um tanto diferente. Em ocasiões em que se chega por mar, aos poucos, as luzes da cidade foram aumentando de intensidade, ao contrário de Fortaleza, quando diminuíam até sumirem... Não se trata de um porto marítimo, não. Mas a imensidão do rio me leva a crer que atracaremos de uma forma parecida, ao sabor das ondas. As águas não são tão cristalinas, mas limpas...
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h45
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