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Impressões gerais
 

Loucos

            Dia desses, deixei claro que ando devagar porque já tive pressa, parafraseando o poeta Renato Teixeira...

O carrão é novinho em folha. É bonito, sim. Mas eu já não preciso correr para alcançar nada, uma vez que já consegui alcançar tudo, ou quase tudo. Essa coisa moderna chamada velocidade fica para os mais moços que precisam sentir o vento na cara e partir na busca de um futuro feliz. Corram, mas não se despedacem contra qualquer muro ou qualquer poste destas nossas belas e perigosas vicinais. Não quebrem nem o pescoço, nem as pernas...

         Já não se disse que as loucuras que acabam cedo são as melhores? Então! Há um punhado de doidos, no trânsito, que logo observam ser bom deixar de correr tantos riscos. Todavia, há um montão de loucos que preferem acabar consigo próprio, e se vão para outros mundos em busca de algo mais celestial, ou divino, ou angelical para fazer, não sei onde...

         De tanto lidar, no dia-a-dia, com essa casta de loucos e loucas que infernizam as ruas abarrotadas de carros desta cidade antes tão pacata, afirmo-vos que há algumas espécies deles.

         Em primeiro lugar, há os que ficam ao celular mesmo sem estar conversando com ninguém... E são os piores... Outro dia vi um bacana da Habitasa que, por estar sem celular, conversava através do isqueiro com uma vadia ou vadio quaisquer que sejam... Ou o cara tá doido, ou tá querendo aparecer, ou as duas coisas...

         Nos finais de semana, os aprendizes ou juvenis bebem um copo de chope e já saem fazendo mil piruetas por aí. Dizem-lhes doerem os tenros chifres de garrotes perfeitamente domáveis por qualquer bípede emplumada um pouquinho menos burra.

         Os ditos bebedores profissionais, encardidos, inveterados e sempre cavalheirescos para com as damas mais novas, tomam duas caixinhas de latinhas e sequer ficam com os olhos vermelhos. Esses são geralmente os mais velhos que, acima de tudo, optam sempre pelas doidivanas e gastosas.

         Há os grandes e inconseqüentes pilotos. Para esses ricos rudes, as nossas poucas avenidas são um grande autódromo, onde tudo pode e deve ser feito, inclusive, estacionar nos locais mais perigosos possíveis, fumar marijuana enquanto guia, ou fazer ultrapassagens à noite, a cento e quarenta quilômetros horários, na Avenida Ceará... Esses batem, capotam, matam, morrem e, depois, vão pra casa chorando pedindo pro papai pagar um prejú dos cacetes; só o prejú, posto que eles não farão a mínima falta, nem à própria família... Para estes não há leis... Aí se incluem os motoqueiros irresponsáveis, os mototaxistas inábeis e os bicicleteiros letais que pensam que todos devem preservar-lhes a vida, menos eles próprios que não sabem sequer o que é mão ou contramão.

         Os metidos a sertanejos ou roqueiros fecais fecham os vidros do carro, põem o som em cem decibéis e o ar refrigerado em cinco graus, com o único e especial objetivo de estourar os ouvidos e pegar uma gripe daquelas de matar ladrão. Esses são de idade média pra baixo, até porque para ser imbecil não é preciso ser moço ou velho. Eles pensam que, através da película cem por cento, estão aparecendo para alguma moçoila de fartos peitos e inteligência oxigenada; mas, na realidade, estão buscando prejuízos incontáveis ao sistema único de saúde de quem, depois, são exigidos tímpanos novos e pulmões sintéticos.

         Há outros que, ao volante, tecem um tal basilar, como dizia o Sérgio Buarque, atendem ao telefone, mexem no som, pegam nas pernas ou nos peitos da santa ao lado e, ainda, fumam a canabis sativa, isto tudo a cem quilômetros horários.

         Há, enfim, os que têm medo da mulher e da lei seca e, por isto, enchem a cara no aconchego da própria vivenda, lá mesmo tomam esculachos baratos que, segundo as esposas, estão longe de valer novecentos reais. Esses são de meia idade. Eles não perceberam que o guarda vai abordá-lo querendo ver tão somente os seus documentos e os do carro. É-lhes vedado abrir a braguilha querendo mostrar a identidade, assim como, não lhes é permitido apresentar olhos encovados, moleira funda, pele sem elasticidade, pernas preguiçosas e traiçoeiras a quererem entregar o mamulengo que, às doze, pensa que a polícia já se foi para o merecido descanso da faina braba que é pegar bêbado no ar. Ele já não consegue ver sequer que a claridade é uma justa repartição de sombras e de luz. Teje preso, pilantra!

Desse jeito, bom é dar razão à polícia. É melhor o louco varrido pagar os novecentos e tomar uma porradas da mulher, do que fazer rapel sem corda na ponte de concreto... Aí, a grande possibilidade é alguns ficarem com saudade do bêbado morto, porque o prejuízo será da família que deverá bancar a reconstrução da mureta que separa a luminosidade infernal do boteco da escuridão etérea do céu das formigas.  

Tá bom! Já vou pra quinta lata e o texto está mais enviesado que eu. Fernando Pessoa tinha razão ao afirmar que a lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito...

Vái de táxi, irmão!

 

 

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h47
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Votos pró-Angelim

         Entendam-me... Eu não posso ser excessivamente cuidadoso ao escolher os meus inimigos. Nenhum dos que tenho é um imbecil. São todos homens de algum valor intelectual e, por conseguinte, me apreciam. Todavia, em verdade vos digo: um diploma de pós-graduação em negócios públicos torna um prefeito muito mais consistente. Daí a grande aceitação popular ao trabalho do Angelim.

         Por isto, é preciso deixar bem claro, a tantos quantos interessar possa: há erros que devem ser apontados, urgentemente, por quem de direito, como eu, e como qualquer outro cidadão que se sinta responsável, também, pelo pique de desenvolvimento que temos experimentado desde o advento do benfazejo governo da floresta. O Acre nunca mais será o mesmo. Rio Branco não retroagirá e não marchará de costas para o futuro. Em dez anos, nós nos transformamos e mudamos muito, para melhor, é claro! Não chegamos à perfeição de Estocolmo ou Zurique, mas tentaremos. Por isto, é necessário cutucar algumas feridas ainda mantidas abertas por alguns fungos e bactérias da burocracia estadual.

         O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. Eis uma das grandes máximas deixadas por Maquiavel, há meio milênio.

         Apenas para ilustrar a situação, tenho observado que há, em Rio Branco, presidentes de associações de bairros que não têm nenhuma simpatia pelo prefeito Angelim, o que não chega a ser tão estranho. Só que esses pseudo-cidadãos vão mais longe e, considerando que as reivindicações para a melhoria do seu reduto passam obrigatoriamente por eles, sem o que nenhum benefício é feito, não se esforçam o mínimo e sequer fazem chegar à prefeitura aquilo que é reivindicado pelo povo. Ficam calados, pouco participam ou não participam das reuniões, apenas pelo fato de terem recebido promessas miraculosas de um ou de outro que hão de fazer-lhes assessores dessa comédia da vida pública. É um descalabro!

         O prefeito não sabe, por exemplo, que o Conjunto Esperança não recebe benefícios porque a participação da associação de bairro no planejamento participativo é pífia. As melhorias não acontecem por culpa de pessoas que querem ver a imagem da administração desgastada. Ainda nesse verão, um atijolamento, ou até mesmo piçarra, em alguns logradouros, já seria de grande valor para as pessoas que amargam poeira e lama, no verão e no inverno.

         O Residencial Petrópolis, em frente à AABB, não recebe benefícios porque é vítima de uma discriminação segundo a qual não faz parte do bairro Estação Experimental, ou de nenhum outro bairro. E ainda: é melhor atender as reivindicações específicas do povo da Estação, porque o Petrópolis é um conjunto de classe média, como se a classe média não pagasse impostos e tributos mil...

         E assim a desestabilização se opera... O cidadão não gosta do prefeito e, por isto, reduz todo o bairro ao seu poder irrisório ou ao seu querer mesquinho.

         Há uns assessores que têm por ocupação maior afastar o gestor municipal  -  o prefeito  -  dos munícipes. Conheço pessoas que me disseram ter passado dois ou três meses tentando um contato com o humílimo Raimundo Angelim, e não conseguiram. Pelo pano da camisa de pobre, pela idade dos sapatos ou pelo vinco da calça rota, cidadãos são barrados e lhes vedam uma simples entrevista com um prefeito que é bem mais um ídolo a quem muitos devotam grande admiração.

         Ora, os meus irmãos de cá nunca viram um prefeito trabalhador... Esse é o primeiro. Por isto o têm tornado um símbolo da eficiência e da probidade administrativa. Há os que o acham um milagreiro, principalmente, pelo fato de alguns burocratas o manterem longe do contato com o povo, como se fosse um santinho de frágil porcelana.

         Há os que se aproximam do gabinete do homem não com o intuito de pedir dinheiro... Quando busquei uma aproximação, não quis pedir que me fosse aviada uma receita médica. Fui com o objetivo de fazer sugestões tão válidas quanto exeqüíveis. Eu não queria emprego, até porque já tenho dois que não me permitem ir às esmolas.

         Se percalços como estes forem observados, a cidade agradecerá, pois mais votos virão para o Angelim, um gestor com vasta formação acadêmica forjada nas lides da Universidade Federal do Acre, um economista de notável valor, um professor universitário sempre lembrado enquanto um dos melhores de todos os tempos do Curso de Economia, um especialista em gestão pública com muita experiência acumulada ao longo de mais de quatro décadas, exemplo para este escriba e para uma legião de jovens que nele hoje se espelham. 

         A bem da verdade, já estou em plena campanha. Mas esta, sim, uma campanha por sugestões que venham de onde vieram, contanto que sejam úteis para a melhoria da qualidade de vida do povo desta terra.

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h38
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Da cor do pórfiro

RENÃ LEITE PONTES*

Há tempos, não o encontrava. Estava bem mais delgado que de costume. Trazia a face rija dos homens sérios. Destacava-se ainda no seu esqueleto, os platôs, ombros desempenados, mais por força da genética, do que de exercícios físicos pontuais. Nos olhos lívidos, por trás dos óculos, li a seguinte inscrição: Aqui brilham os olhos de um homem digno de confiança. A expressão suave denunciava a segurança própria daqueles que foram capazes de, com as mãos, moldar o próprio destino, aliada a uma reconhecível serenidade, própria da maturidade...         Sua expressão corporal denotava inteligência, forjada na frágua de muita luta e estudos qualitativos constantes. Divisei o vulto do homem empurrando o carrinho de supermercado, dentro do Araújo da Isaura Parente.

 Por pouco não lhe deixei incomodado... Devido a certa coisa que quase falei, depois de uma leitura que fiz de sua fisionomia:

- É! O senhor tem passado alguns sofrimentos!

Mas, preferi poupar-lhe do comentário...

Vai ver ele sequer recorda-se de mim  -  pensei de mim para mim.  

Não é para menos. Há tempo não converso com meu antigo mestre. Desde a época em que foi meu professor num curso de Pós-Graduação na UFAC, em 2003.

Então, achei mais apropriado dizer-lhe:

- O senhor, quem é?  

- José Cláudio Mota Porfiro - respondeu.

Como se eu não o conhecesse... De priscas e longínquas datas. Como se eu não lesse, amiúde, suas crônicas, no jornal.

- Certo! Certo! Meu antigo professor   exclamei.

E o livro que o senhor acabou de publicar?   acrescentei.

Ele parou um pouco e se lembrou:

 - Tenho um exemplar lá no carro.

- Vamos buscá-lo?   sugeri.

Deixamos os carrinhos de supermercado próximos um do outro e sob a guarda da esposa dele, e fomos buscar o livro. Quando me entregou a coletânea de crônicas acreanas, um livro de capa verde claro, bem produzido, tomei-o nas mãos, olhei o dorso, o anverso. Afastei-o um pouco para ver a perspectiva. Abri a contra-capa. Observei, então, a capa e, de pronto, exclamei, enquanto divisava a arte produzida por Danilo de S'Acre:

- O Homem Áureo, de Leonardo da Vinci, que morreu de favores no Castelo de Coux, na França, na corte do Rei Francisco I. Tal qual Maquiavel, que, também, morreu na miséria, depois de ser escada para oportunistas e fazer todo o tipo de teses para guerras de conquista...

O velho mestre guardou um profundo silêncio cinzento acastanhado, da cor do pórfiro, a rocha. Ah! Aquele silêncio de pórfiro... Vos direi: não é um silêncio facilmente compreensível! É um silêncio, irmão do escuro guiomarense da minha infância que não volta mais. Um escuro que me causou terríveis medos. Escuro existencial e de temor do futuro, incognoscível... Escuro profundo, enigmático, como um silêncio profundo de pórfiro.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h45
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Um pórfiro rijo por natureza, deveras semelhante ao Porfiro que autografou-me o livro JANELAS DO TEMPO. Bem na primeira página escreveu a dedicatória:

Ao companheiro Renã, poeta e professor, como eu.

No vai-e-vem dos transeuntes do supermercado, sustentando o livro na mão, perguntei:

- Quem lhe ajudou a publicar seu livro, Mestre?

- Publiquei-o através de favores de bons amigos  -  falou o homem em tom de deixa.

- Quanto é o livro?

- São trinta reais!   respondeu.

Puxei a carteira e paguei com uma nota de vinte e outra de dez reais; não sem antes agradecer a dedicatória e lhe parabenizar pela arte de fazer arte  -  a Arte das crônicas.

Nesta noite, o livro do Doutor Cláudio Porfiro foi dormir sobre a obra 200 crônicas escolhidas de Rubem Braga, que estava em cima da imperdível obra acreana, Motivos de mulher na Amazônia, da Doutora Margarete Edul Prado, e ladeado pelos livros Contos da floresta, do poeta Francisco Aquino (Tico), e De seringueiro a sindicalista, de Francisco Figueiredo.

Ainda entabulamos algumas conversações sobre democracia e política. Logo após, despedimos-nos.

Recordo que por estes dias eu estava conversando com um professor da Escola José Rodrigues Leite, onde trabalho, sobre o preconceito que gira em torno do nome de Bocage; pelo que fiz o seguinte comentário:

- Veja! Professor. Eu também conhecia o poeta como pornográfico, através de comentários de leigos; porém, depois de conhecer a obra dele, vos direi: em matéria de sonetos, Camões foi suplantado por seu discípulo, embora considerando que, em se tratando de oitavas heróicas decassilábicas, não há em língua portuguesa quem tenha suplantado Camões.

Voltando para o que estávamos falando... Pois é! Tudo é uma questão de gosto e opinião. No meu modesto juízo pessoal acreano, as crônicas do José Cláudio Mota Porfiro têm mais sentido prático-social e são mais deliciosas de ler que as de Rubem Braga...

O curioso da questão é que o meu interlocutor concordou comigo em gênero, número e grau.

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi ler o prefácio do livro, por Márcio Chocorosqui, e a crônica Beleza rara, onde o consagrado cronista acreano descreve a beleza incandescente de Maria Cláudia Barreto.

Lá, no livro, o autor diz que a nossa Miss Beleza Pura é a mulher mais linda do mundo, em sua opinião.

Eu, bairrista que sou, ainda acrescento mais tinta ao assunto em pauta:

- Além de mais bonita, ela é a mulher mais cheirosa do mundo!

Vamos! Vamos! Eu estou esperando alguém perguntar:

- Você já cheirou a Cláudia?

         E eu responderei:

-Não! Mas, pela televisão, eu coligi que ela é a mais cheirosa das mulheres.

E, se alguém perguntar:

- Como é que você diz que uma mulher é cheirosa, se você nunca a cheirou?

Eu responderei:

- Nunca cheirei, não! Mas, se você a trouxer aqui, eu hei de cheirá-la...

* Escritor.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h43
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O estivador

         Num dos dias de janeiro de 1996, o velho guerreiro de tantas rusgas e pelejas partiu para a grande viagem. Houvera almoçado fartamente, como sempre. Conservava ainda o mesmo apetite voraz... Depois de algumas espreguiçadas, atou a rede cearense, deitou e dormiu. Ao cabo de uma hora, acordou e foi para a varanda frontal da aprazível vivenda do bairro Cadeia Velha. Lá, conversou, por alguns poucos minutos, com um dos seis filhos, sentado a uma cadeira de balanço. De repente, a cabeça pendeu para o lado e o corpanzil foi amparado pelo Motinha, que lhe fazia companhia e dizia gracejos na ocasião... Pronto. Estava morto o nosso herói particular, o herói lá de casa, a quem, ainda hoje e por todo o sempre, haveremos de render as mais justas e sinceras homenagens.

Em verdade, é preciso deixar para além da saudade o fato de que os grandes homens são maiores na recordação do que ao natural. Aquilo que vimos neles é, ao mesmo tempo, o seu melhor e o melhor de nós próprios. Louvados sejam, então, os nossos heróis caseiros, aqueles que viveram e morreram para ter sempre o que colocar em nossas bocas ávidas por pão e por caráter.

         O estivador teve uma infância de privações. Filho de Joaquim e Júlia, era o segundo de um pacote de onze filhos. Raimundo, de batismo. Gibiri, de Xapuri e de Rio Branco, foi uma das criaturas mais amistosas que esta terra já viu.

         Joaquim, o velho, veio do Ceará. Nascera num dos sítios das cercanias da Serra da Meruóca, no alto sertão. Chegou a Belém por mar. Veio então subindo o grande rio e, em Óbidos, Pará, conheceu a mãe dos filhos seus, Júlia. Aí nasceu, em 1919, o Estivador.

         A família chegou finalmente ao Acre em meados da década de 1930. Xapuri foi o destino combinado com um agente que aconselhara Joaquim a vir trabalhar como seringueiro na Amazônia. Cá chegando, a rotina do trabalho na mata não se fez agradável ao sertanejo que era muito mais habituado ao trabalho agrícola, quando a chuva molhava a Meruóca, a cada dois ou três anos.

         Certo é que adquiriu um sítio, cá denominado colônia, e passou a trabalhar as culturas de subsistência, como a mandioca, o milho, o feijão, o arroz, além de algum criame. Três dos filhos mais velhos permaneceram cortando seringa. Mas o Gibiri preferiu trabalhar de fazenda em fazenda (sedes de seringais), na diária, como diziam antigamente, batendo campo de sol a sol... E foi exatamente numa dessas vivendas que conheceu a bela Nicácia, filha do velho Rocha, dono de engenho, que lhe deu quatro filhos, dos quais sobrevivem hoje apenas dois, o Marcos, procurador federal aposentado, e o Manoel, funcionário público em Xapuri.

         Numa ocorrência muito trágica, então, uma cobra caiu em cima da tábua em que a esposa lavava roupa e ela, grávida, tomou-se de um susto tal que veio a falecer.

         O Estivador, então, transferiu-se para a cidade com as duas crias sobreviventes. Aí, mais uma vez, como por uma graça divina, uma vizinha mais moça e de fino trato, Francisca, condoída com a situação dos órfãos, quis ajudar... E ajudou... E veio o casamento... Era dezembro de 1955 e os meninos logo a chamaram  -  e até hoje ainda a chamam  -  mamãe... Certo é que essa mão amiga e condoída criou não apenas o Marcos e o Manoel, mas me colocou no mundo e o Mota e o Jorge e a Socorro, todos, filhos do Gibiri de Xapuri.

         A transferência para a cidade exigiu que o batedor de campo tivesse uma profissão especializada. Dos ofícios ditos urbanos, ele não conhecia nenhum; mas, como a época exigia força de mastodonte, a ocupação principal, em 1955, passou a ser a de carregar e descarregar lanchas e navios, de borracha e castanha, no porto de Xapuri, àquela época, ainda bastante movimentado, principalmente, nos períodos de inverno.

O barranco era íngreme. Não eram todos os anos que os comerciantes o aplainavam por faltarem as máquinas próprias para o serviço. A cangalha, uma espécie de acolchoado rústico, de capim e estopa, não permitia que o contato com as mais diversas espécies de mercadorias queimasse as costas dos estivadores que iam e vinham de sol a sol.

Foram muitas as vezes em que vi o herói lá de casa subir rumo ao armazém carregando três sacos de açúcar, cada um com sessenta quilos. Dois iam embaixo dos braços e um equilibrado na cabeça. Outra vez, foi uma caminhada de uns quinhentos metros carregando seis engradadados de cerveja rumo ao Clube Bilhar. (Àquela época, as grades de cerveja eram de madeira.) Depois, uma palheta aflorou na praia hoje localizada em frente ao Mirante. Era de um navio afundado ali no final do século XIX. Juntaram-se os dois sujeitos mais fortes que eu já vi, o Gibiri e o Ismar. Na marra, os dois conseguiram erguer o monumento hoje exposto na praça próxima ao Terminal Rodoviário.

Alguns nomes de amigos do meu pai me vêm à memória, como o Hilário Candiru, um negrão espadaúdo, de uns cem quilos. Havia o Zé Firmino, um cearense que, ainda hoje  -  parece-me  -  vende raspadilha nas praças de Xapuri. Lembro o Zé Priquito, engraçado como o próprio nome. O Chico Aquino, falecido, cavalheiro e amigo, apesar da pouca cultura.  O Polissi, vivo ainda hoje e residente na Estação Experimental, em Rio Branco, fazia o mesmo serviço de dia e, à noite, fabricava uns colchões de capim sobre os quais a minha plebe dormia morta de cansada. O Seu Paulino Cachimbo era uma espécie de dromedário, que não pedia água em hora de serviço... Eram muitos, enfim, sob o comando do Gibiri que se tornou, depois, o primeiro presidente da associação dos estivadores de Xapuri, apesar de não ser alfabetizado. Não aprendeu a ler, nem a escrever. Mas conseguiu desenhar o nome com a simples finalidade de votar num rapaz muito bom. Era Chico Mendes, o líder seringueiro.

Das chuvas de outubro e novembro vinham o Natal e o Ano Novo. Daí, era um pulinho para o Carnaval, principalmente, porque, neste ínterim, aos domingos, organizávamos os ranchos que nada mais eram que uma banda tocando músicas carnavalescas e a rapaziada pulando e dançando à frente, em cortejo animado e bêbado. Dessas, o Gibiri não participava. Não bebia e, acima de tudo, era essa uma época de muito trabalho em que chegavam muitas embarcações que deveriam ter a mercadoria desembarcada e a borracha e/ou castanha embarcada para os portos de Manaus e Belém. No fim do inverno e mais ou menos coincidindo com o período carnavalesco, então, aparecia um navio de nome Envira, que trazia uns marujos que gostavam mais de farra que de trabalho. Depois, vinham as águas de março em que nenhum embarcadiço confiava e as lanchas e batelões eram colocados para revisão e manutenção.

Onde hoje está a Praça São Sebastião, colocava-se um tronco grosso de mulateiro e, em cruz, amarravam um outro tronco um pouco mais fino.  Aí, os estivadores puxavam, por meio de cabos de aço, as embarcações de barranco acima. Os homens fortes, suados e em calções de listas azuis e brancas, traduziam, para a criança que eu era, o significado do que vem a ser um trabalho pesado, muito pesado... O contato da madeira com o aço provocava um gemido que se ouvia ao longe. Então, as lanchas e batelões passavam a ser calafetados pelos embarcadiços liderados por Mestre Amilton e Mestre Sabá, especialistas do ofício. Vi aquela rapaziada botar muita força ali...

Certo é que, se o Estivador tinha uma certeza elaborada em pretérito mais-que-perfeito, agora, todos sabem que o verbo vir-a-ser dos lá de casa sempre estivera conjugado em futuro do presente do indicativo, na graça de Deus Pai.

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h56
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Democracia em podres pedaços

            De manhã, ao primeiro sol, vislumbrei possibilidades de um dia de graças, a partir de um alvorecer fantástico. Frio. Bastante frio. Pássaros e luz. Muita luz. O bem-te-vi da realidade pulsante cantava o meu tempo claro e ainda juvenil, àquelas horas, já na quinta década. Esperar sempre, de tudo e de todos, de mim e do outro. Eis uma das grandes dádivas que me cabem. Colaborar e ajudar e apoiar e estender a mão e abraçar, todas as vezes. Eis a melhor das estratégias dos que foram feitos à imagem e semelhança do espírito absoluto.

         Anos se foram e, paulatinamente, fui sendo obrigado a observar certas doutrinas, na prática, apenas enquanto meras figuras de retórica, ocas de sentido, vazias de fidelidade em seus dogmas tão sisudos. Instrumentos de manuseio rápido, nunca em benefício da maioria, mas em proveito de interesses particulares que, obrigatoriamente, passam ao largo dos preceitos básicos da democracia real. Cá de baixo, do chão desta minha história tenra, vejo que o exercício democrático é sempre benéfico a quem tem mais bala na agulha. O conhecimento é, sim, uma espécie de senha cujo porte permite entrar nas mais abomináveis defesas  -  em patranhas cartoriais  -  que jogam por terra a igualdade de uns para com os outros. Eu não posso dizer que sou melhor que este irmão último que pranteia a hora derramada, simplesmente, pelo fato de alguns me terem tornado um dito sábio.

         E todos correram para ver a democracia que passava ao largo, toda faceira feito messalina bem sucedida. Perfumamos-nos. Nós e a prostituta. Mas bastou-nos o contato visual e já nos sentimos traídos, impiedosamente. Lá dentro, nos porões da liberdade invertebrada, algozes e vítimas davam gritos horrendos de espasmos e de dor, de sede de sangue. Alguns batiam. Muitos apanhavam de dar dó. O nosso AI5 caboclo, há tempos, já havia sido esculpido e assistido pelos mesmos barões assinalados do Conselho Magno desta casa de excelência que nós, de próprio punho, ajudamos a erguer, deste há trinta anos... E este cronista, em ascese, viu tudo a partir de um ponto de observação imaginado tão somente pelos deuses mais velhacos que a minha mentalidade já engendrou.

         Na Universidade Federal do Acre, há programas voltados para a formação de professores das zonas rurais e urbanas, segundo convênio bastante salutar celebrado e sob os auspícios do Governo do Estado. Centenas deles já têm seus diplomas de nível superior e tiveram os salários aumentados em até quatrocentos por cento. Há professores, na Ufac, que trabalham com afinco, sim! E merecem os parabéns! Eles buscam tenazmente e alcançam objetivos que vêm para o benefício das comunidades. Mas há uma grande maioria que não sabe o que vem a ser qualidade das ações acadêmicas e pensa tão somente nos altos dividendos financeiros a serem auferidos.

         Enquanto isso, nos escaninhos da burocracia, moureja um pretenso projeto  -  que sequer saiu do papel  -  cuja finalidade é a melhoria da formação dos nossos técnicos administrativos, estes, sempre taxados de pouco afeitos ao esforço, ou até mesmo de preguiçosos. O autor destes escritos, inclusive, foi sondado por dinâmica autoridade (que já não é mais) para fazer parte de uma comissão que se encarregaria de viabilizar um programa cuja finalidade seria elevar o nível intelectual dos esquecidos. Dois anos se passaram, nenhuma palavra mais foi dita e tudo continua na estaca zero vírgula cinco.

         Vida privada à parte, sem fazer de nenhum ego a sua própria vítima, há fatos a ponderar, como é o caso do cronista de Xapuri, que fez Mestrado e Doutorado, na Unicamp, percorrendo os mesmos caminhos e sendas epistemológicas que os professores. Concluiu tudo com honrarias e em tempo hábil. Elogiaram-no lá e cá... Hoje, nove anos passados, os mandatários não o chamam para fazer nada e ele não ousa se oferecer ou pedir um naco de carne podre sequer. Reservaram-lhe, sim, o ostracismo como castigo por conservar um vínculo muito forte com a imprensa e por ter sido ousado demais. Mas o trabalho científico dele não foi abortado. Ganhou o Prêmio Garibaldi Brasil. Publicou um livro de crônicas à custa de amizades e tem outro prontíssimo para a edição, fora uns tantos projetos a executar. Dispõe de, no mínimo, quatro trabalhos à espera de instituições que os queiram levar a público, posto que escrever livros por diletantismo não deveria ser parte do desiderato de nenhum ser que consiga fazer arte autêntica por intermédio de jogos de palavras. Através da editora da Ufac, publicaram teses e dissertações cinco ou seis anos mais novas que as suas. Atestaram-lhe não ter preparo suficiente para assumir cargos comissionados, mesmo sabendo que, em março de 2008, o Doutor aclamado pela Unicamp amargou um salário de R$ 1.931,00, o que é do conhecimento de alguns próceres da Academia que até reconhecem o descalabro.

         É agosto de 2008. O Governo Federal fez pingar nas contas dos técnicos das universidades federais, depois de catorze anos de espera, um aumento de vinte por cento que, na maioria dos casos, significou cem ou duzentos reais. A este livre pensador linguarudo coube mais setenta e cinco por cento, uma vez que, segundo dispositivo legal recente, o administrativo que portar diploma de pós-graduação em nível de especialização terá vinte e sete por cento de aumento; terá cinqüenta por cento, quem tiver mestrado; e setenta e cinco por cento, os doutores, como eu... Ufa! Finalmente...

         Muitos correrão atrás dos títulos acima descritos, é claro. Resta saber até que ponto os professores estarão dispostos a tomar providências que resultem em cursos de pós-graduação para os técnicos administrativos. Uns poucos dirão tratar-se de proposta justa. Mas a maioria fará corpo mole por detestarem o fato de a reles ignorância um dia poder chegar a patamares de tanto destaque... Então, como poderemos melhorar o nível de formação dos nossos técnicos, se a maxima sapientia assim não deseja? Já pensou, se os esquecidos se unirem... Se um bom número deles buscar conhecimentos e diplomas? Será o fim da glória de uns tantos... Eles se descobrirão um tanto incompletos na sua magnífica completude...

         Uma magnólia vencida, então, fez críticas aos nossos rapazes do sindicato por fazerem uso de termos que fogem aos padrões da língua portuguesa culta. Ora, pelo que observo, a própria Ufac os quer assim. E os professores que glosam o discurso pobre dos técnicos são os mesmos que deixaram seus cursos de graduação caírem nos desvãos da baixa qualidade, segundo os parâmetros do Ministério da Educação... Se eles são tão bons, porque seus cursos são tão ruins? Sabem eles, certamente, onde não está a qualidade, porque a falta de qualidade dorme zonza sob os seus jalecos sujos de tanta discriminação e mediocridade.

         E tinha razão o Zé Alberto Lote! Na reunião do conselho, onde discutiam acaloradamente a paridade dos votos para reitor, no seu estilo pescoço-e-canela, o moço fez calar aos sicários ao dizer que “aluno é pra estudar; professor é pra dar aulas; e administrativo é pra administrar!”

         Os pseudo-democratas se coçaram e ficaram muito a contra gosto. Seus tímpanos de veludo não acreditavam no que ouviam. Logo aquele rapaz  -  segundo eles, sem formação alguma  -  fazer-lhes engolir a seco palavras tão ásperas quanto verdadeiras!

         Corifeus do atraso. Ladinos da picardia e do escárnio. Tungadores ludibriantes.  Proxenetas e caraxués... Dizeis deles tanta coisa boa ou má que até eles mesmos já acreditam que são.

 

        



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h24
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Era de perdição

            Aquele era o sol da manhã dos nossos verões tão iluminados.  Também, pudera! Não havia queimadas... Depois, torrentes caudalosas inundavam os espíritos amazônicos. E haja água. E haja esperança... Sorríamos para o nosso tempo com os pés fincados na terra fértil deste rincão e a cabeça vivendo já um futuro que logo veio. Éramos estudantes, sim, porque estudávamos desde cedo do dia, até a noitinha. Nas férias, líamos romances de aventura ou nos debruçávamos sobre o dicionário sorvendo alguma coisa aqui, outra ali. Buscamos erguer e erguemos, com esforço, muitas felicidades. Enfim, conseguimos brindar com júbilo uma época de muitas conquistas juvenis mesmo nos vestibulares e em outros concursos públicos. Graças a Deus!

Ventos do norte não movem moinhos, no dizer do poeta... E nunca moveram... Mudaram as estações do ano e a verdade das almas, como dizia Porfírio, o filósofo neo-platônico, ainda nos confins da idade média. Arrastamos-nos pelos séculos e séculos da época dos homens comuns como esta crônica. Atravessamos tempos de pragas, maldição e violência. Então, finalmente, muito exaustos, chegamos ao inesperado terceiro milênio. Por aqui, temos esperado do humano uma obra magistral em favor de si próprio, mas a desagregação dos povos e a degeneração da espécie ultrapassam os umbrais da decência e da dignidade. Serviram-nos, antes, o vinho, o pão e a cevada. Agora, fazem-nos sorver o vinagre e deliciar-nos com a rabugem. Esta, sim, é uma época de descaminhos e desilusões.

O mundo não parou. Eu próprio já completei o qüinquagésimo primeiro ciclo ao redor do sol. É verdade. Já atingi a quinta década, mas ainda não sou filósofo, felizmente. É-se, certamente, ao alcançar o oitavo decênio. Por enquanto, me comporto bem, pois dizem de mim apenas um livre pensador e um cronista de meia tigela que observa o tempo vão e não consegue parar para rir, uma vez que tudo perdeu a graça.

         Do alpendre ou da janela do meu solar e do meu tempo diviso a juventude classe média perdida em meio ao turbilhão das informações falseadas, dos alucinógenos sintéticos e da imbecilidade do consumismo desenfreado. Montado num carrão japonês prateado, o Mauricinho pode tudo e acha que o tamanho do pênis é proporcional ao tamanho da hilux... Como se tamanho valesse muita coisa... Em verdade, ensinaram-lhe que, para os mais abastados, a competência e o conhecimento não são categorias a serem aprimoradas. É preciso aprimorar, sim, as teorias e práticas relativas à burla, à malversação, à improbidade e à tramóia geral.

         - Mamãe, fui ao shopping e comprei um par de esqui para o gelo. Comprei também uma prancha de surf , roupas de escafandro e uma gaiola de chapa retorcida onde devo enfiar a minha alma encharcada de cocaína...

         O joão-das-nuvens acima mora nos trópicos esfumaçados do Acre e gasta os créditos do cartão de um pai atolado em dívidas sempre crescentes, que bem justificam o fundamentalismo babaca da nossa era de devaneio e perdição.

         Do outro lado do bosque está o bairro da Paz. Qual paz!? Lá há pobreza e a brutalidade humana atira as novas gerações no esgoto da promiscuidade e do escárnio social. Os jovens das classes menos favorecidas estão atordoados em meio ao descaso dos pais que não mais sonham em lhes ver felizes, quem sabe, um dia; e a falta de oportunidades que lhes são negadas por um sistema que privilegia a tão poucos. Aqueles moços e moças não estudarão nas universidades públicas porque não tiveram preparo intelectual suficiente. Não estudarão também nas faculdades particulares, simplesmente, porque não dispõem do dinheiro com o que poderiam ter comprado muitos diplomas e nenhum caráter.

         - Moço! Quero emprego. Quero trabalhar na sua cozinha infecta e, mais tarde, quem sabe, se for do seu agrado, preencherei outras lacunas.

         A escola não mais sequer ensina a sonhar, uma vez que se perdeu no pântano das teorias inócuas que passam ao largo da nossa realidade social escabrosa. Não valoriza os verdadeiros mestres, transmissores reais de conhecimentos, e toma poucas medidas que possam significar melhoria da qualidade do ensino para o desenvolvimento de que o Brasil precisa.

         A família se arrasta no lamaçal da indignidade, com pais tornados fantoches e almas penadas nas mãos de filhos afeitos às drogas e a prostituição.

         - Papai, empresta-me o carro que você roubou ontem?

         - Aqui estão as chaves! Vê se troca o carango por canabis sativa... Na volta, conforme o teu estado psicótico, vê se não me bate muito... Na verdade, apanhar até já se tornou agradável para a minha alma indolente...

         Com um bom pastor, outro dia, fiquei a trocar algumas idéias relativas às religiões e ao trabalho social dos religiosos. A conclusão a que chegamos é que as igrejas e credos tentam e até conseguem fazer alguma coisa, não obstante, hoje, ser necessário observar que a obra de católicos e evangélicos já mostra resultados alvissareiros, mas ainda insatisfatórios.

         E aí? Outra vez quem blefou e levou a melhor foi o financista sórdido que cobra juros escorchantes do primeiro zé-ruela que aparece com um projeto através do qual será montado um rentável negócio no mundo dos entorpecentes e/ou da prostituição. Ele não se importa com o fato de o próprio filho ou filha passarem a ser clientes do empreendimento. Todos, juntos, têm adoecido... Então, os cidadãos de bem, assaltados na calada da noite pelas vítimas das drogas, através dos impostos, erguem os hospitais e sustentam o combalido sistema único de saúde encarregado de fazer o tratamento do jovem pústula, para que ele logo volte ao convívio anti-social.

Uma merda!  Só quem leva vantagem são os grandes capitalistas que, de uma forma ou de outra, sempre acabam lucrando.

         Esta é a minha era... Uma era de perdição.

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h21
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Gente acreana

CID MAURO ARAÚJO DE OLIVEIRA*

Eventual.  Não é lá uma palavra segura.  Eventualidade, talvez, seja mais fiel.  Para falar de amizade, é melhor eventualidade ou eventual?  Talvez, nenhuma das duas.  Mas vale arriscar. 

       Porfiro, a quem me refiro, sem trocadilhos, é amigo eventual ou amigo para qualquer, para todas as eventualidades?  As duas coisas.

       Fomos lá nos encontrar, eventualmente, em encontros de professores do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, para os menos íntimos, Barão, para os demais.  Até que eu ingressei no seleto grupo da noite.  Turno da noite, bem entendido, do Barão.

       Aí cruzar com Porfiro foi mais freqüente.  E deleitante também.  Aí ocorreram as eventuais conversas.  E aí fomos aprendendo que Porfiro é amigo para qualquer eventualidade. 

       Fica, então, explicada a diferença entre eventual e eventualidade.  Veio então o livro.  Veio, então, Janelas do Tempo.  Ou teria eu de dizer vieram as Janelas do Tempo? Vieram, depois, as Perguntas esparsas, notas dispersas...

       Deixa estar porque, de qualquer jeito, elas vêm mesmo.  E aí veio, com elas, o risco.  Sim, porque não sei como, não sei das quantas, surgiu a idéia de eu fazer uma resenha sobre Perguntas esparsas, notas dispersas...

       Livro é qual filho.  A gente gesta, acalenta, dá à luz, acompanha a trajetória, tudo isso em muita angústia.  A gente sonda todos os seus sucessos.  Perscruta tudo.  Fuça mesmo, para saber.

       E aí surgiu, sabe lá como, a idéia de eu resenhar.  Tarefa árdua.  Resenhar livro de crônicas.  Eu?  Pobre de mim.  Mas aí, sucedeu a leitura.  Crônicas são como setas, para usar a figura bíblica: bem polidas, seletas, bem cuidadas, vão longe.  Atingem seu alvo escolhido, seleto.

       Assim são as crônicas do Porfiro.  José Cláudio Mota Porfiro.  Pelo menos três sensações brotaram, em mim, lendo seu texto.  A primeira delas, que invejo em todos os acreanos, miro de longe e privo de seus efeitos, é o que o autor chama de acreanidade.

        Também, como carioca, acho que entendo um pouquinho do que seja.  Nem vou tentar explicar.  Mas fui acolhido aqui, já se vão treze anos.  E há um orgulho em ser acreano para todos eles.  Há um conjunto de características bem específicas, bem demarcadas em todos eles.

        E isso tem a ver com a história, com o rio, com a mata.  Quem vem de fora, vê, sente, reconhece e inveja. Acreanidade. Conjunto de um complexo simples de características que tornam acreano só o acreano. Deu pra entender?  Invejo.

        Depois, saltam das páginas memórias.  Ah, memórias!  Ninguém vive sem elas.  Traços de pessoas.  Aliás, há alguma coisa mais importante do que pessoas?  Não, não há.  Marcas do tempo. Perguntas esparsas, notas dispersas. Para pessoas. Sobre o tempo. Saltam dessas páginas recordações, situações, convivências, vivências, reminiscências, coisas que fazem a vida.

        Nada mais importante do que pessoas.  Nada mais importante do que a vida.  Perguntas esparsas, notas dispersas...  Há uma característica muito intensa no modo acreano de ser.  Talvez a gente não sinta em nenhum outro canto do Brasil.  Este pedaço de chão, aqui, é o Brasil por último.  Marrraio!

        No jogo de bola de gude  -  aqui chamada peteca  -  lá em minha terra carioca, quando a gente quer tirar a vez, por último, para ver quem vai começar a jogar, diz marraio!.  O Acre é Brasil por marraio.  Ficou Brasil por último.  Quis assim.  Que bom pra todos!

         Já pensou um Brasil sem Acre?  É aqui que acontece a importância das pessoas.  Representadas, todas, pela gente da terra natal do Porfiro, a Xapuri.  Vamos falar “a Xapuri”, para ficar mais íntimo. A gente que convive com gente de todos os cantos desta terra percebe o orgulho de ser acreano.

         Acho que tão orgulhoso em ser xapuriense, talvez só quem seja tarauacaense.  Eu já me considero acreano.  Um pouquinho, pelo menos.  E aí acontece o terceiro dos fatores, os três muito relacionados entre si: a história.

         Por ter se tornado Brasil por último, a sensação que a gente tem aqui no Acre é que a história está bem aí, ó, ao alcance da mão.  Tudo muito recente.  Estamos com ela bem ao lado, íntima nossa, e isso tem relação viva com as pessoas, com a memória.

          A vida que vale a pena pulsa, constante, nesses recantos.  O casario, as ruas, as árvores nos quintais, os rios, os fatos, alegres ou tristes, a luta política.  Pulsa. A vida está aí, ó, bem pertinho.  A história está aí, ó, sendo feita por nós.  Ao nosso alcance.

          Pessoas.  Em poucos lugares, ainda, a gente se sente pessoa.  A gente conserva viva e vertente a memória.  A gente sente que faz história.  A gente deixa de ser anônimo.  O livro do meu amigo Porfiro apanha a gente nesse rio de vida.  Pulsa.

          Perguntas esparsas, notas dispersas... tem vida, tem gente, tem memória, tem história.  E tem momentos de luta e de raiva também, de indignação, porque sem luta é que este torrão aqui não foi conquistado, não. 

           Para toda e qualquer eventualidade, o fio condutor das crônicas de Porfiro é um caminho de viagem.  Desculpem esse termo “fio condutor”. Parece meio técnico, pedante ou até mesmo desgastado.

            Mas me refiro ao fato da gente tecer, pelo trajeto percorrido de crônica a crônica, uma outra história.  Escolhendo o modo de compor um todo bem ordenado.  Escolhendo o encadeamento.  Por isso mencionei que parece o curso sinuoso de um rio.

            O curso sinuoso da própria vida.  Gente daqui, suas memórias e a sua história.  Por isso Perguntas esparsas, notas dispersas... representa um jeito de ler e entender esta mesma terra.  Um jeito de entender a história.  Um jeito de entender a vida.  Tal qual o curso sinuoso de um rio. 

Ao peregrino José Cláudio Mota Porfiro, meus parabéns.

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* Licenciado em Letras/Português/Hebraico pela UERJ. Mestre em Teologia pela PUC-Rio. Pastor da Igreja Evangélica Congregacional de Rio Branco.

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h37
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Memorial da Terra

O homem é a sua própria personalidade no sentido mais amplo, o que inclui força, temperamento, caráter moral, inteligência e educação. O que um homem tem são propriedades e posses em todos os sentidos, física e espiritualmente. O que um homem representa aos olhos dos demais é a opinião desses ao seu respeito, e isto pode ser dividido em honra, posição e glória. É o que escreve Aristóteles em um livro chamado Ética a Nicômaco.

Alguns teóricos do nosso tempo inscreveriam estas pretensões  -  a que eu chamo projeto  -  enquanto pertencente ao campo de domínio da história das mentalidades, este viés que trata da dimensão da vida social, do universo mental, dos modos de sentir, do âmbito mais espontâneo das representações coletivas, dentre outros fatores.

Na verdade, não nos interessam os heróis erguidos para simbolizar uma nação ou um povo. Teses sobre as novas formas de fazer a história abordam a necessidade do tratamento focado em novos sujeitos, novos objetos e novas abordagens. São exatamente as bases teóricas acima que dão fundamento ao trabalho aqui denominado Memorial da Terra.

Teorias à parte, é preciso deixar muito claro, a quantos interessar possa, que a nossa história é construída, esforçadamente, pelos homens e mulheres mais humildes deste rincão. Estes são os novos sujeitos da saga de velhos caudilhos que adotaram esta terra como sua, tendo vindo do nordeste do Brasil, de Portugal ou dos longínquos Líbano e Síria, na remota Ásia. Ah! Como sofreram esses homens e mulheres em meio ao inóspito e ao desconhecido amazônico!

Então, é oportuno enfatizar que, em casa, todos têm um herói e/ou uma heroína particulares, para consumo próprio. Foram estes que derramaram suor e sangue para que, um dia, pudéssemos dizer algo de realmente muito positivo e enaltecedor ao seu respeito. Quão duras foram as suas tarefas e as suas vidas. Naqueles idos, sustentar uma prole de seis bocas famintas, a exemplo lá de casa, ia para muito além de receber no banco o salário no fim do mês. O estivador lá de casa carregava a nossa vidinha pacata de filhos de pobre, mas carregava, também, junto com alguns companheiros diletos e fortes, toda a mercadoria que chegava e que saía de Xapuri, em cangalhas atadas às costas, barranco acima, barranco abaixo, feito camelos.

Homens e mulheres como o meu pai e a minha mãe, apesar dos ingentes esforços, ficaram longe das páginas da história dos governantes e mandatários, dos donos do poder e dos seus asseclas, e têm levado consigo os relatos de vida para o túmulo. Quantas histórias se perdem porque os filhos não mais lembram os exemplos deixados pelos pais. Ademais, há uma grande maioria de filhos que sequer falam aos seus filhos a respeito da participação do velho patriarca na construção deste pedaço de chão. Os nossos heróis são enterrados junto com o seu heroísmo.

Por isto, faz-se oportuno resgatar, agora, enquanto o chão resiste sobre si o nosso peso, pelo menos parte desse legado, a partir de fatos e ocorrências que ainda estão na lembrança dos descendentes. Certamente, cabem aqui os relatos de filhos que tenham coisas boas a falar dos pais. Não são oportunas críticas revanchistas ou que tenham qualquer outro sentido negativo.

Serão enviados roteiros  -  não questionários  -  a serem seguidos por quantos se interessar possam. Não haverá pergunta fechada. Todos os itens serão abertos e abrangerão todo o tamanho do coração dos filhos saudosos. Em resumo, serão válidos tantos depoimentos quantos a família achar necessários.

Se optarem por seguir o roteiro e escrever as lembranças de próprio punho, não será necessária nenhuma preocupação com a correção gramatical ou o bom uso do português; este é o papel do autor deste projeto. Aos que preferirem entrevistas gravadas, há a possibilidade da gravação em hora e local previamente combinados. É claro que o roteiro será utilizado num e noutro casos e a assinatura do(s) depoente(s) será imprescindível. No entanto, caberá aos depoentes abordar ou não esse ou aquele item do roteiro.

Não há uma pretensão de alijar esse ou aquele cidadão do processo. Aqui não cabe nenhuma discriminação. Todavia, a prioridade é para os deserdados da história. Há pessoas que têm o nome gravado, já, nos anais por terem exercido funções de destaque na sociedade acreana, notadamente, os políticos e os grandes comerciantes. Esses já têm a sua história escrita, ou os filhos já encomendaram a sua elaboração, ou já tiveram o reconhecimento dos poderes constituídos e estarão, possivelmente, em relatos deste tipo, em momento mais oportuno.

Em termos mais práticos, registre-se, aqui, a responsabilidade do autor deste projeto por seguir, rigidamente e ao pé da letra, sem desvios de percurso, os depoimentos prestados pelos familiares. Por outro lado, é preciso deixar claro que os roteiros que forem chegando primeiro, já respondidos e assinados, terão prioridade sobre os outros. Ademais, convém enfatizar que a publicação das crônicas ocorrerá, no máximo, a cada três semanas, no jornal A Gazeta e, no fim de uma série considerável  -  talvez cinqüenta relatos de vida  -  serão acondicionadas em um livro a ser comercializado pelo autor. Cada depoente terá direito a três exemplares da obra.

A intenção não é propriamente comercializar a obra. Os dividendos financeiros oriundos do futuro livro simbolizarão uma espécie de pagamento feito em contrapartida à inclusão de um grande nome entre os grandes nomes que fizeram deste um grande Estado e que comporão o nosso Memorial da Terra.

 

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h16
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Seringal Albrácia

            A poeira é quase areia, de manhãzinha, nos caminhos e varadouros  do campo e da mata. Pés descalços pisam-na e a sentem friinha. Há orvalho nas sororocas e mata-cavalos e cipós de fogo. A caminhada é ainda lenta e preguiçosa. Tenho treze anos, sou criado na cidade e, em vista da falta de hábito, ainda estou um tanto sonolento. O roçado não é tão longe. Eu e minha tia levamos uma enxada e um terçado, cada um. O primo de doze anos vai à frente portando uma espingarda calibre 28. Há tatu, paca, cotia, mutum, canção e muitas imbiaras. A intenção é que nós menores revezemos a enxada que vou levando.

         De cima de um morrete, avisto a plantação. Aos meus olhos é gigantesca, e muito sozinha. Há mandioca de fartura. Há bastante cana caiana, algumas ainda pendoando. Há velhos pés de milho sobre os quais o feijão amadureceu. Há tocos e troncos de árvor