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O professor José Cláudio Mota Porfiro há muitos anos vem contribuindo com seus artigos nos jornais de Rio Branco, seja no Página 20 ou em A Gazeta. Ele acumulou uma vasta produção escrita a respeito do nosso Estado, focalizando, sobretudo, temas que nos remetem ao cotidiano da capital acriana. Nascido em Xapuri, a Princesinha do Acre, onde fez os primeiros estudos, Porfiro não deixa de extrair assuntos referentes ao município natal, com o qual mantém uma relação telúrica, embora residindo em Rio Branco. Tratando de temas especificamente locais, o cronista expressa sua visão filosófica sobre o mundo e as situações que o cercam. A regularidade com que publica chegou a lhe render o livro Janelas do tempo, que através de textos selecionados revela bem a alma desse povo forjado nos seringais, de origem humilde e bem nordestina. No sentido de contribuir para o fortalecimento da identidade regional, Porfiro constitui-se num personagem que muito tem a dizer sobre sua gente, seu momento e sua terra, coisas que traduz em escritos semanalmente, hoje, publicados em A Gazeta, jornal de maior circulação do Estado. Além disso, nesse mesmo periódico, Porfiro se lança ao desafio de publicar, a cada domingo, um capítulo de sua primeira obra de ficção, um romance folhetinesco, que remete à história da colonização acriana. Chama-se O inverno dos anjos do sol poente, nome pomposo para um texto escorreito e ensolarado. Enquanto o romance não é publicado em livro, podemos acompanhá-lo no referido jornal ou no blog do autor, cujo link é... Fica a sugestão de leitura, pois precisamos mesmo das produções dos artistas locais, no sentido de decifrarmos quem somos neste pedaço de chão encravado na ponta extrema do Brasil.
▪ A ilustração é de Danilo de S’Acre para capa do livro Janelas do tempo, de José Cláudio Mota Porfiro.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h51
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XI Risos e lágrimas Todos nós temos talentos diferentes, mas todos nós gostaríamos de ter iguais oportunidades para desenvolver os nossos talentos. Tantos gênios ficaram no ostracismo e se perderam porque ninguém os descobriu ou porque não foram espertos o suficiente para auscultar as possibilidades de revelar os dotes escondidos no mais recôndito da alma. É a ocasião que faz o cidadão. Em síntese, é oportuno asseverar que as chances não costumam abundar e raramente as encontramos uma segunda vez. Todavia, convém pontuar que, nos assuntos de grande importância, devemos ocupar-nos menos em criar oportunidades que em aproveitar as que se apresentam. Uma oportunidade bem aproveitada vale por outras tantas que teríamos tentado ao mesmo tempo na ânsia de que apenas uma viesse a dar certo. Por isto, é conveniente ficar à espreita e, a qualquer hora, a vez será chegada. Na manhã do desembarque em Belém, Zé do Aprígio já se fizera lambaio do Comandante Homero Melo. Na noite anterior, já havia engraxado e deixado reluzentes as botinas pretas e bem acabadas. Passou ferro e engomou as calças e camisas brancas com aqueles bordados típicos da marinha mercante. Agora mesmo, o velho homem do mar, antes tão sisudo, já ri das glosas do sacana. Eu fui esquecido pelo talentoso. Mas fiquei de ouvidos espichados prestando atenção nas histórias e gracejos do cabra. Num relato picaresco e um tanto surrealista, Vicente Tributino, tio paterno do Zé, chegara à região de Xapuri do Acre nos idos de 1921, isto, numa viagem marítima de cem dias. (Imagine só! Mar por ali... Só na mente sacana do sertanejo fantasioso!) O detalhe da viagem é que, duas horas depois de ter saído de Fortaleza do Ceará, o navio foi a pique e apenas Tributino se salvou, mas não desistiu de prosseguir, agora, a nado... E o cabra até chegou antes do previsto porque, no quinto dia de nado, deu de cara com um tubarão de uns vinte metros... A bocarra tinha uns dentes que mais pareciam adagas... E o bicho botou pra cima do herói e este teve que acelerar o ritmo da natação até que, no décimo dia, avistou o canal do Marajó. Foi aí que o herói virou mito. Já sem roupa, para poder nadar melhor, virou-se para o tubarão e disse: pode vim! E o animal veio. Tributino volteou sobre o próprio corpo e enganou o peixe ao mesmo tempo em que tirava da cintura um punhal com que cravou a jugular do bicho... O animal pode não ter morrido, mas se cansou e desistiu da perseguição. Ora bolas! Vá abocanhar o demõin! Anos depois, já vivendo de sapateiro em Xapuri, alguém perguntou sobre como é que ele havia tirado da cintura o punhal se estava nu, ao que o herói nem piscou e simplesmente pediu ao interlocutor chato que lhe poupasse de detalhes tão insignificantes e irrisórios. Depois de passados alguns dias lavando louça numa pensão em Belém, Tributino entrou em outra miséria parecida com a primeira. Inscreveu-se enquanto marinheiro mercante e rumou para o Acre. (O cabra era teimoso!) Só que, em frente à cidade de Óbidos, ainda na província do Pará, numa parte do Amazonas onde não se avista sequer a mata de um lado ou de outro, devido a largura do grande rio, o navio afundou devido a carga que era demais. O herói estava no porão, que se encheu logo de água, e a saída única ao seu alcance se dava apenas por uma brecha muito apertada, ao que a solução logo surgiu na mente fantástica do sertanejo. Ele mais uma vez tirou a roupa, besuntou o corpo com mais ou menos meio quilo de brilhantina Glostora e se espremeu até sair na flor d’água, onde já lhe esperava um fogão de ferro boiando, com uma galinha assada e farofa no forno ainda quente. Ele, que não tinha nada de besta, comeu o quitute e nadou até a Volta da Empreza, hoje Rio Branco do Acre. Contada essa doidice em Xapuri, Tributino passou a atender aos íntimos pela singela alcunha de Fogão de Ferro. Nem podia ser melhor! Mas o destino é assim mesmo. De repente, era chegada a hora e a vez do nosso herói zombeteiro, misto de bufão e cavaleiro medieval. Antes, engraçado até demais. Agora, já quase um funcionário que caíra nas graças do patrão. Louvado seja Deus! Zé do Aprígio soubera que o ajudante de ordem do Comandante iria ser promovido para o trabalho em terra, no escritório de Belém e, agora, já falava sério, pigarreava com certo ar de responsabilidade e austeridade, encomendaria dentadura novinha em folha, uma vez que, entre o meu povo, ainda é comum usar esse apetrecho antes pertencente a alguém já falecido; colocara uma roupa melhor e estava a postos, perfilado, uma vez que aquela passou a ser a grande chance que a vida agora lhe punha no caminho tortuoso e cheio de obstáculos. Entrego-me a alguns minutos de melancolia. É que estive até há pouco a conversar com o velho homem do mar. Ao lado deste estava Petrônio Rodrigues, uma espécie de sub-comandante. A tristeza se abateu sobre os dois. O primeiro tinha quatro filhas em Belém aos cuidados de uma senhora de nome Alice que tomara conta das meninas, uma vez que a mãe destas morrera. As moças o viam por, no máximo, quinze dias a cada dois meses. A mais velha, de dezesseis anos, era estudante adiantada do Colégio de Nazareth. Outras duas também estudavam, mas a mais novinha, de sete anos apenas, sofrera por dois anos de uma febre que dá nas crianças que são afastadas dos entes queridos, principalmente, por motivo de morte da mãe numa idade (cinco anos) em que sequer o pai pode arranjar outra esposa porque seria pior para todos. Por isto, o Comandante não mais se casou e agora, segundo ele próprio, desistiu de vez porque as meninas não merecem golpe tão duro. Petrônio passa por drama parecido, mas a esposa sobrevive a uma doença e agora vegeta numa cama de hospital aos cuidados de duas filhas e dois filhos que se revezam na cabaceira da moribunda já há mais de um ano. São problemas do coração aliados a uma espécie de epilepsia crônica que lhe deixou meio doida sem saber ou querer sequer levantar-se. Pior de todas, entretanto, é a tragédia do seringueiro Zé Raimundo e sua esposa Isabel que, depois de dez anos no Acre, onde já possuem alguns bens, voltaram ao Ceará à procura de um filho, Raimundo Nonato, de vinte e cinco anos, lá pras bandas de Russas. Dá pena o estado dos dois que souberam ter o filho morrido de inanição e maus tratos no campo de concentração de Senador Pompeu. Segundo Zé Raimundo, um homem razoavelmente esclarecido, os currais do governo - como os confinamentos são chamados pelos retirantes - surgiram em 1915, instalados no bairro do Alagadiço, em Senador Pompeu. Mais tarde, na seca de 1925, os campos foram ressuscitados como política do governo da República. Do ponto de vista oficial, esses campos de miséria aparecem como medida de assistência aos flagelados que não têm trabalho nas frentes de serviço. Mas a realidade é outra. Os famintos são atraídos com a promessa de comida, assistência médica e segurança. Lá não encontram a estrutura prometida e não podem sair, sendo mantidos presos. Tudo para evitar que Fortaleza seja invadida por essa gente maltrapilha e fedorenta.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h54
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Alguns campos, projetados para receber duas mil pessoas, chegam a manter até dezoito mil flagelados de uma só vez. A fome e a insalubridade dos confinamentos levam, inevitavelmente, a milhares de mortes. Os livros de óbitos das igrejas mostram que noventa por cento dos óbitos registrados acontecem nos campos de concentração. No curral de Ipu, a média é de sete a oito mortes por dia. O Comandante Homero Melo é desses cearenses que têm conhecimento da dimensão da tragédia e passa a me contar detalhes, como se estivesse à frente de um jornalista. Segundo ele, do alto de uma colina esturricada pela seca, no município de Senador Pompeu, sertão do Ceará, está escondido um pedaço da história do Brasil que poucos cearenses gostam de contar. Sentem vergonha. Erguidos para abrigar operários e engenheiros ingleses que construiriam ali um açude de grande porte, os casarões tornaram-se palco de doença e morte. Durante a impiedosa seca que mais tarde assolou a região, a Vila dos Ingleses sediou um campo de concentração para confinamento de flagelados. O gueto era vigiado por soldados, como em uma guerra. O objetivo era isolar os retirantes e evitar a invasão das grandes cidades pela miséria e por epidemias. Moradores de Senador Pompeu resolveram ajudar a desenterrar o episódio na tentativa de atrair a atenção e verbas do governo da República para a região, hoje outra vez castigada pela seca. Estamos em 1934. A estiagem já dura dois anos. Há algumas semanas, visitou o local um enviado do Presidente do Brasil encarregado de recolher provas e testemunhos a respeito do miserê. Missão relativamente simples: a lembrança do cárcere permanece viva na memória dos muitos sobreviventes que lá ainda residem. Segundo eles, a comida era a cera que escorria das velas na esperança de não morrer de fome, pois a maior parte dos víveres doados pelo governo estava estragada e o pouco que chegava em condições de consumo era roubado pelos guardas. Ainda segundo o velho homem do mar, a morte era rotina nos chamados currais da fome, criados pelo governo da República sob o disfarce de obra social para distribuir alimento. Ao todo, em 1921, construíram-se sete quartéis no Ceará e no Piauí, para onde foram levados setenta mil flagelados. A Vila dos Ingleses, em Senador Pompeu, era o maior deles. Das dezessete mil pessoas que passaram por lá, pelo menos mil morreram de fome e doenças. Sob o sol escaldante e sem nenhuma água, milhares de famintos com cabeça raspada, para evitar piolhos, eram obrigados a descarregar o alimento enviado de trem pelo governo. A maior parte chegava estragada e os melhores cortes de carne iam para a cozinha dos militares. Para os retirantes, sobravam somente o sangue, o coração e os bofes dos bois. A sopa era preparada com mato e goma (amido de mandioca). As crianças comiam rapadura e morriam de diarréia. O feijão era tão duro e ruim que ganhou o apelido de Zé Félix, nome do mais truculento guarda do campo de concentração, comenta o Comandante. À noite, luzes de holofotes vigiavam as vias de acesso e o comportamento dos prisioneiros, amontoados em barracos feitos com gravetos secos e estopas cortadas dos sacos de comida. Alguns guardas deixavam namorar num quartinho escuro, o mesmo usado para açoitar os desobedientes. - Meu avô era coveiro e guarda do cemitério – comenta o Comandante. - Os doentes não podiam sair do gueto. Rezas, choros e lamúrias cortavam a madrugada, denunciando o desespero dos famintos. Muitos morriam - cerca de 20 por dia - e os cadáveres eram enterrados às pressas em valas para evitar o ataque de cachorros e urubus. O horror desses dias talvez se perca na História devido a vergonha que tem o povo do Ceará por ter sido coadjuvante de fatos tão repugnantes. Para se ter uma idéia do abominável, a antiga casa de pólvora onde os ingleses guardavam os explosivos usados na construção da Barragem do Patu tornou-se uma espécie de antecâmara da morte para onde iam os internos em estado de saúde precário. Segundo pessoas da cidade, não se sabe da notícia de alguém que tenha saído dali com vida. De acordo com as anotações depois tomadas do seringueiro Zé Raimundo, a barragem com a qual seria criado o grande açude para a distribuição de água teve as obras interrompidas por falta de dinheiro. Hoje, as pragas e as secas estão destruindo tudo em Senador Pompeu, grande produtor de algodão de tempos anteriores. No ano passado, a questão tornou-se crítica para todos os habitantes porque choveu menos da metade do normal. - Mas a seca atual é pior que a dos primeiros tempos do campo de concentração porque os castigos do céu jogam fora todos os sonhos de um Ceará abundante que nós dificilmente veremos. Por isso, volto pro Acre onde já tenho uma padaria e um pequeno sítio com plantação e algum criame, graças a Deus! – Diz o seringueiro em lágrimas. A tristeza é um livro sábio que se tem no coração e que nos diz centenas de coisas. Impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore. Pouco a pouco vai fabricando uma provisão de ensinamentos para a vida. Todavia, segundo observo pelo exemplo de Senador Pompeu, a humanidade segue se arrastando como a serpente apocalíptica pelos caminhos tortuosos da caatinga, instilando muito veneno aqui e nenhum mel acolá...
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h53
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Verbo PUNIR | MODO INDICATIVO | Presente: puno, punes, pune, punimos, punis, punem | Pretérito imperfeito: punia, punias, punia, puníamos, puníeis, puniam | Pretérito perfeito: puni, puniste, puniu, punimos, punistes, puniram | Pretérito mais-que-perfeito: punira, puniras, punira, puníramos, puníreis, puniram | Futuro do presente: punirei, punirás, punirá, puniremos, punireis, punirão | Futuro do pretérito: puniria, punirias, puniria, puniríamos, puniríeis, puniriam | MODO SUBJUNTIVO | Presente: puna, punas, puna, punamos, punais, punam | Pretérito imperfeito: punisse, punisses, punisse, puníssemos, punísseis, punissem | Futuro: punir, punires, punir, punirmos, punirdes, punirem | MODO IMPERAIVO | Afirmativo: pune tu, puna você, punamos nós, puni vós, punam vocês | Negativo: não punas tu, não puna você, não punamos nós, não punam vocês |
Infinitivo: PUNIR Gerúndio: PUNINDO Particípio: PUNIDO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h21
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE
Vidas, idas e vindas Capítulo X
Dizem alguns, desde meses, que estou a atravessar o verão dos meus tempos, o que não é verdadeiro, nem tem nenhum atestado de validade. Sou bastante jovem e as minhas angústias e arroubos são os mesmos de um moço da minha pouca idade. Esta, sim, uma análise feita por um ente de pouca ou nenhuma envergadura no que tange à modernosa ciência filosófica denominada psicologia. Tenho sonhos juvenis e ainda mal chego à idade adulta primeira. Talvez por usar uma barba ruiva bem aparada, ou pelo tamanho incomum entre nós cearenses, ou em vista do chapéu e do terno de linho impecáveis, teimam em achar que sou um jovem senhor de tamanha importância e digno de tanto respeito. Fazem-me reverências e eu as devolvo, com bastante gentileza, em meneios de cabeça. Cumprimento a todos, indistintamente, mas não sou um político, segundo comentam. Nunca fui dado a vulgaridades. Sou gente, sou gentil e ternamente cavalheiro, como me ensinaram as tias velhas deixadas tão saudosas no Ceará. A mais passada das moças espanholas, Concepción de Avelar, de uns trinta e cinco anos, acha-me um tanto antiquado, cheio de salamaleques e mesuras exageradas, com gestos sempre muito estudados ou planejados e fora de moda num tempo em que os moços são sempre muito doidivanas e pessimamente educados. Segundo ela, faço o tipo gigolô que quer ganhar um quinhão agradando a uns e a outros, aqui e ali.
Angelita Alfonsín, a mais nova, pelo contrário, diz que eu vivo à mercê de um tipo ou de uma característica romântica que herdei da austeridade do ambiente em que vivi, em Fortaleza, por três longos anos. (Esta alma cabotina já houve por bem contar-lhe particularidades da minha vida com o intuito infantil de iludir uma prostituta clássica já passada na casca do alho.)
- Es un hombre que guarda en su hermoso semblante marcas de un romantismo a la Miguel de Cervantes y de um surrealismo a la Pablo Picasso. Hay pocos en nuestros dias. Pero mientras sobrevivam los romanticos, el amor sobrevivirá.
Esta frase dita no calor da idade fugaz, por Angelita Alfonsín, a fêmea pálida, de cabelos pretos e bela em letras garrafais, por quem minha poesia já flui, há de acompanhar-me pelo resto dos dias com que serei presenteado por Deus, até porque terei como lema uma legenda, também espanhola, segundo a qual é sempre muito feliz o homem que se faz agradável ao belo sexo, e as recompensas são fantásticas, imensuráveis.
Tiro da algibeira o relógio Ômega, herança valiosa de minha tia Chiquita. Já são quatro e quarenta da tarde. Recolho-me mais uma vez ao divã de vime branco. Uma revoada de algumas poucas gaivotas me faz lembrar que a costa brasileira está daqui a umas quarenta léguas submarinas, no máximo. O mar continua sereno. Não há nuvem alguma, mas o sol é ameno, certamente, devido ao vento que é multiplicado pela velocidade da embarcação.
- O que será de mim vivendo numa cidade completamente estranha, como esta Belém do Pará, cujos conhecidos praticamente não passam de dois rapazes um tanto broncos (segundo penso!), uma família arredia e uma matrona descompensada com cara de Madalena Arrependida?
É preciso, agora mesmo, ponderar os detalhes do meu futuro que já se avizinha, uma vez que não falta mais tanto para chegarmos ao destino amazônico. A novidade da viagem, o am-biente invulgar e as pessoas tão diferentes são fatores que me extasiaram, deixaram-me perplexo. Só agora caio em mim e me dou conta de que, na nova vivenda, devo comer, beber, morar, vestir-me condignamente, ter diversão, estudar, e assim por diante.
Vasculho os bolsos e reencontro, já amassada, uma carta de recomendação, lacrada, dirigida ao Dr. José Militão, escrita por Góis e Castro, o professor do Liceu Cearense.
Penso com os meus botões reluzentes:
- Viajo nas asas do meu tempo, um tempo de juventude e aventuras... Vivi desde sempre amea-çando o meu futuro. Não dei trégua desde a infância quando sonhava montado no lombo do meu admirável e fogoso Rocinante. Não apenas estou vindo para ver, mas para vencer. Retroceder, jamais!
Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados, é o que dizia Cervantes - o real criador de Dom Quixote de La Mancha, Dulcinea Del Toboso, Sancho Pança e o cavalo Rocinante - acima citado por este poeta destemperado e vulgar.
Lembro-me, então, o dia em que uma professora de Artes do Liceu, Dona Inglesinha, me fez decorar um poema - Juventude - de Eugênio Andrade, poeta português deste breve século XX:
Sim, eu conheço, eu amo ainda esse rumor abrindo, luz molhada, rosa branca. Não, não é solidão, nem frio, nem boca aprisionada. Não é pedra nem espessura. É juventude. Juventude ou claridade. É um azul puríssimo, propagado, isento de peso e crueldade.
Olho para mim e para todos, enxergo-os, mas não vejo ninguém. São apenas miragens, posto que ainda estou de olhos fechados. Lembro os devaneios dos tempos do Baturité, sem roupas, ao lado ou por cima de Samirâmis, a filha mais nova de Mané Fidalgo e, depois, de Fortaleza, nas aventuras despudoradas com Maria da Guia, a moça dos trilhos.
Senti essa sensação estranha nas primeiras semanas em que comecei a residir na capital do Ceará, uma cidade bem grande. Agora, entregue aos pensamentos e às preocupações, sinto-o mais uma vez... É como estar só dentre tantos. Estranho. Diferente.
Abro enfim os olhos. Acordo daquele torpor. Agora, sim, vejo-os todos, até mesmo os irmãos da maldita terceira classe, que comem farinha, carne seca do tipo jabá e jerimun, mas quase não os enxergo devido ao anonimato das suas almas encapuzadas numas tristezas opacas que já me tingem o pensamento e os sentimentos.
Os de cá, estes, não. São bem diferentes, peitos de pombo, narizes empinados, pretensiosos feito velas de jangada enfunadas, embora em quantidade bem menor. Mas são pueris, na sua maioria, um tanto bestas, meio medíocres, meio chinfrins que se vangloriam por glórias que jamais alcançarão; apenas desfaçam demais e mentem um bocado. Querem ser classudos, mas algo me diz que não o são. Nego-me a crer na sua pompa e circunstância tão alardeada. Não são lá essas coisas todas. Dá para sentir o fedor da enganação por baixo ou por trás de roupas baratas e perfumes vagabundos.
Mas é preciso não se deixar abater ou dominar pela tristeza e nem se afligir com os maus pensamentos. Convém iludir as inquietações, driblá-las, mesmo trapacear com elas. Urge consolar o coração, afastar para longe a melancolia. Esses pensamentos e devaneios tristes têm matado a muitos e neles não há utilidade nenhuma.
Ontem, ao término da janta, desci um pouco para escutar as tiradas de um cabra de nome Zé do Aprígio. É meio gazo, baixote, tem só um dente na frente, uma cicatriz abaixo do olho direito, cabeça grande (!), pescoço fino, usa umas calçolas que só chegam até as canelas, de uns trinta e cinco anos, acham-no velho para o trabalho do corte da seringa a que se destina, no Território do Guaporé. No dizer nosso, é o cão chupando manga. É do tipo do sertanejo que não dorme e, à noite, fica engendrando história besta, conversa fiada para contar, com a finalidade de provocar algum riso nos desterrados na própria pátria amada Brasil.
Ainda cedo da manhã, fui ter com o Comandante Homero Melo:
- Mestre, eu vim lhe pedir permissão para que aquele gazo, o Zé do Aprígio, suba e nos conte alguns causos aqui no convés superior.
- Olhe, meu rapaz! Você está arranjando sarna pra se coçar. Esse camarada é metido a engraçado demais, mente que só a mãe do padre e ainda tem piolho. - Tem problema não, seu Homero... Deixe comigo!
As palavras do Comandante se fizeram cheias de eco aos meus ouvidos ressequidos pelo pó da roupa e pelos depoimentos secos do meu povo que se atira, sem eira, nem beira, nem a rama da figueira na aventura amazônica. A minha pouca idade permite ver apenas um certo preconceito na atitude um tanto despótica e no semblante do velho homem do mar. Tal situação me leva a acreditar que, realmente, há uma coisa muito escassa, muito mais distante, muito mais rara que o talento. É o talento para reconhecer o talento. O sol deixara meio ranzinza o velho mestre. Também, pudera! Afinal de contas o homem não é um qualquer. É o que diz o que deve ou não deve ser feito.
E o cabra subiu todo ancho, cheio de pilhérias. Cumprimentei-o com um aperto de mão, para surpresa dos metidos a besta e dos engalanados, e pedi que nos contasse uns causos para espantar a pasmaceira. Ele assumiu um certo ar teatral. Tomou-se de uma pose como se estivesse em palco. E passou a tagarelar coisas indizíveis e até sacanas, mas um tanto engraçadas, à moda do grande número de homens espirituosos do sertão. (Quase todos riem de tudo ou fazem rir por pouca coisa.) Na verdade, o autêntico, o verdadeiro grande talento descobre as suas maiores alegrias na realização. Deixemo-lo agir.
- Oli, homi, seu minino, eu já vi de tudo nessa vida e, num dia desses, até já domei a besta fera, o cão coxo. Eu enfrentei o secretário do inferno de passeio pela terra e por isso lhe digo não ter medo dos índios do Amazona. Vou narrar pro sinhô num martelo agalopado. Eu sou o maior poeta da região da serra do Cafundó... Foi assim...
Havia festança boa Na casa de seu Mané, A cachaça era de graça E vinha carne em coité. Lá pela madrugada A zoada foi medonha Parecia um pé de peia Ou Zé açoitando Tonha. Todo mundo foi correndo, Calcanhar batia na bunda, Fui pra perto só pra ver Se a coragem era profunda. Cheguei e vi a besta fera Com dois chifres e pé pra trás. Bati nele com um rosário Vá de reto satanás! O chifrudo virou mula, Deu um rugido infernal, Fez fumaça, foi correndo, E sumiu num capinzal...
Havia uma riqueza de detalhes que eu não consegui tomar nota. Ele deu um cangapé e passou três vezes por cima do capirôto, enquanto fazia o sinal da cruz. Tirou uma água benta não se sabe de onde e se amarrou com o cordão de São Francisco, como se o sujeito fosse pra uma fuzaca já pronto pra brigar, logo com quem... com o cão! Vixe Maria! Certo é que o cabra ficou até muito mais do que eu houvera previsto, mentindo feito a peste e eu feito besta rindo do monte de doidice.
Já era noite e o tal Zé do Aprígio se tornava repetitivo, embora certamente ainda tivesse um baú, um pote e um paiol cheios de anedotas das brabas. Era preciso fazê-lo descer para a janta parca. Quando, neste mundo, um homem tem qualquer coisa para dizer, o mais difícil não é fazê-lo dizer, mas impedi-lo de o dizer vezes demais.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h21
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O inverno dos anjos do sol poente José Cláudio Mota Porfiro* Capítulo IX Em mar aberto A tristeza do dia anterior já quase se dissipa, como a névoa que vejo à frente, como se o meu destino fosse tão incerto e, como se o vapor não dispusesse de uma bússola, dentre outros instrumentos próprios para a ultrapassagem ou travessia daqueles obstáculos imensos formados pelos vagalhões da noite anterior. Encrespara-se o mar. Sonhei com o anjinho morto. Estava vestida de branco e rosa e vinha ao meu encontro, sorridente, em meio a uma chuva grossa, com uma flor e uma vela nas mãos. Eu a abraçava e a beijava. Acordei calmo e de bem comigo mesmo. Agora podia ir em frente, sem pestanejar. O sonho, à moda dos romanos antigos, era um bom presságio. A flor simboliza o futuro em bons frutos. A vela significa que os caminhos estão iluminados. À mercê e sob a proteção do meu anjo da guarda remoçado, nada nesse mundo me incomodaria, nem bala, nem faca, nem maledicência ou tramóia... A vida é mesmo assim, feita de sol e chuva, de dias alegres e dias tristes, de sucessos e fracassos, para alguns, ou para muitos, dependendo da fórmula usada na perseguição dos objetivos de cada um. São oito da manhã. Choveu durante toda a noite e só agora é que volta a calmaria... E, assim, vamos em frente... Em verdade, é oportuno lembrar que é só fechando as portas atrás de nós que se abrem janelas para o porvir.
É pesado e denso o ronco dos motores. As pessoas ainda fazem pouco barulho ou quase nenhum. A brisa é rejuvenescedora e nos faz prever um belo dia de domingo, parece-me. Estou no convés, logo atrás do bico da popa do vapor, este, um barco imenso, de cinqüenta e cinco metros, pintado de branco e frisos em vermelho e verde, avarandado e bonito até certo ponto, não fosse a concretude dos seres espectrais que nele navegam para destino talvez incerto. O barulho ininterrupto e a brisa oferecem-nos, vez em quando, a oportunidade de um sono curto, mas prazeroso. Fecho os olhos, coloco o chapéu panamá sobre o rosto e penso numa gravura ou num retrato vistos há muito tempo, em que pessoas de fino trato se divertem e fazem recreio à bordo de um barco de luxo em alto mar. Tudo é como se eu estivesse também em folguedo, em férias. Sinto que um sorriso tênue me sai dos cantos dos lábios, anjo torto, ente pecaminoso, como se estivesse em gozo celestial.
Ao meu lado, estão um rapazola paraense, até certo ponto forte de feições, a mãe deste e o pai. É gente bem apanhada, talvez com algum estudo em vista dos modos refinados e comedidos. Disseram ser da capital do Ceará, onde estão deixando parentes próximos, pais, mães, avós. Falam muito pouco ou quase nada dizem, decerto por estarem deveras chocados com o que vêem, ou devido a melancolia que nos assalta quando saímos da terra natal em busca de outros ares e recursos materiais. Observo de longe esse tipo de cidadãos pertencentes ao grande grupo dos que mal desconfiam, ou fazem questão de não tomar conhecimento, da realidade pobre gritante dos sertões do Brasil. Das poucas palavras arrancadas deles, anotei que a família é constituída por Risoleta, a mãe, Francisco, o pai, e Ramiro, o garoto. Estão de mudança para Belém onde instalarão um comércio de perfumes e cosméticos, talvez. Há quatro freiras da Ordem das Carmelitas Descalças que seguram imensos rosários como se através destes se agarrassem à vida. Não os largam nem na hora das refeições. São esbranquiçadas e pálidas, gestos muito comedidos, quase não-humanos, caladas, circunspectas, olhos sempre baixos, bonitas até onde me deixam vê-las amortalhadas em espécies de lenços sobre a cabeça e umas túnicas brancas de um modelo ultrapassado, segundo imagino. São talvez italianas, em vista da beleza própria dos originários das adjacências do Adriático. Sobre elas obtive informações pouco precisas com uma mocinha que as acompanhava e não quis dizer sequer o nome dela ou das religiosas.
Troco uns dedos de prosa com um casal que passou a lua de mel em Fortaleza. São Argemiro Soares e Otília Gama. Têm parentes bem situados em Belém. São criadores de búfalos em Marajó. (Nunca vi um búfalo!) Casaram-se há um mês, mas irão residir em Breves, uma cidadezinha da Ilha, onde tocarão os negócios do pai, dele, já velho para a lida com as reses nos alagados. Falam da beleza do verão por aqueles ermos amazônicos. Muita fartura e pouca gente. Depois reclamam da inclemência do inverno durante seis meses do ano. Segundo eles, chove tão grosso que os nordestinos recém-chegados para o trabalho de vaquejar se encolhem pensando no dilúvio, no anti-Cristo, nos cavaleiros do Apocalipse e no juízo final. É comum ouvir deles:
- Arre égua! Arrelei com tanta chuva. Ô xente, não disse que o mundo agora ia se acabar em fogo! As Escrituras não estariam enganadas? É muito água!
Uma dondoca com cara de quenga e que se diz modista viaja com três baús de papelão e é do tipo expansiva além da conta. Enxerida por demais. Baixa e com os cabelos tingidos, não se importa em empurrar com a bunda enorme e mal fabricada quem quer que se coloque no seu caminho. Pelo bafo de bode, às nove da manhã, parece-me já ter tomado um engasga-gato qualquer. Tagarela mesmo, fala com todos e a respeito de qualquer assunto. É daquele tipo de gente que já vai me entupindo os canais da paciência antes mesmo de lançar-me um olhar. Mas ela não tem nenhum pejo e passa a fazer comentários tolos a respeito de uns folhetins que só ela mesma conhece - A Gata Borralheira, O Crime do Padre Amaro, Vicente e Rosinha, dentre outros. Parece até que ninguém nunca ouviu falar dessa papagaiada toda... Comenta sobre a última moda em Belém do Pará, as novelas do rádio, as festas profanas e religiosas e a procissão - ou Sírio - de Nossa Senhora de Nazaré. Segundo ela, aventurara-se no mundo da alta costura em Fortaleza, mas o mercado estava saturado e, por isto, depois de dois anos e meio, empreendia a volta ao torrão natal e aos parentes de alta linhagem, assim considerados por ela, com quem mantinha correspondência regular, quinzenal, como se naqueles confins amazônicos os serviços de correio fossem assim tão pontuais. Está parecendo que ela me tem alguma admiração do tipo secreta, mas a idade, quarentona, não me convém, de forma alguma. Vá pro raio que a parta! Dona Maria Anunciada faz jus ao nome e se dá ao luxo de dizer para uma outra viajante que um vizinho seu, em Fortaleza, doente, não tinha ereção quando a via despida. Imagine! Ora, é como se os homens fossem obrigados por alguma lei a levantarem o instrumento diante de tanta gordura, ou de sovacos que peidam, ou de bocas e virilhas que fedem mais que latrinas... Não! Ser homem é outra coisa. É apreciar o belo sexo de forma cautelosa e educada, sem a necessidade de fazer-se vítima de mulheres que fedem a partir da alma e falam mais que papagaio de prostíbulo.
E me vem à memória comentários libidinosos de João Omena que envolvem o sexo tântrico e essas damas despudoradas. Segundo ele, na posição da flor do mandacaru (milk and water embrace), quando o homem fica sentado por trás da moça também sentada, sem roupas, é claro, é hora de uma massagem que vai das costelas magras até a ponta dos dedos das mãos espalmadas, passando pelos mamilos e pelas axilas que não podem feder, nunca. E depois, na hora da pose do marreco (widely opened), quando o hálito doce almiscarado dela é sorvido pelo sujeito, não pode haver bafo de onça, de forma alguma, nem dente podre. Ora tá! Mulher deve ser sinônimo de higiene e o homem não pode se valer do contrário, inclusive nas partes mais baixas, senão desequilibra a severgonhice.
Escorrego na cadeira de vime e fecho os olhos. Ela para de chilrear e sinto que se vai rebolando os traseiros e espalhando a mediocridade da sua alma e da conversa mole pelo ar puro que se suja com o bafo daquela matrona descompensada.
- Que não volte nunca mais, pirua doida! - Disse eu.
Duas outras criaturas falam pouco, não dizem ter profissão alguma mas, pelo ruge carmin e pela cor do baton e dos cabelos avermelhados, diria serem mulheres de vida fácil, ou nada fácil, mesmo porque eu não quero nem de presente enfrentar o que elas enfrentam para ganhar o pão ou as libras esterlinas de cada dia. Comportadas, ali. Até um tanto sisudas ou circunspectas. Apenas na ocasião anterior, uma delas tão somente ouviu o que a tal Anunciada comentou a respeito da ereção daquele fulano de tal acima citado.
Na janta do segundo dia fiquei muito próximo delas, de frente, posto que as mesas são compridas e estreitas. Como ninguém é de ferro, nem eu, fui logo chicoteando no estilo cearense de dar cantada: - As donzelas estão muito tristes e, na verdade, eu não tenho nada a ver com isso, mas bem que poderíamos trocar dois dedos de prosa logo depois da refeição. O que acham?
Para o meu espanto, não se tratava exatamente do tipo de dama que eu estava pensando:
- Sobre quais temas poderíamos discorrer? Asseguro-lhe que nós lhe entediaríamos com o que por ventura teríamos a tratar com o senhor! Passe muito bem!
Mais ou menos uns vinte minutos depois, eu as encontrei encostadas à amurada do convés: - Talvez eu tenha sido um tanto intempestivo na minha abordagem e, por isto, estou a lhes pedir desculpas.
- Não tem problema se tomarmos um Chateau Duvalier juntos. É uma idéia pelo menos avaliável? As duas agora estão desarmadas e eu curioso. Concepción e Angel são os belíssimos nomes talvez de aluguel. São naturais da Espanha, de Pamplona e Barcelona, respectivamente, embora não tenham sotaque algum, e agora estão de volta a Manaus onde são sócias de uma casa de permissividade, La Távola Redonda.
Vagamos em conversas bestas até altas horas e findamos por ficar amigos. Eu não vencera o choque inicial e não conseguira passar os pés adiante das mãos, como era já costume... O outro dia seria mais proveitoso, com certeza, uma vez que uma delas vira umas notas de mil réis que apareciam pelo bolso do paletó.
Pela manhã, dou de cara com os dois baixotes de cabelos lisos. Cumprimento-os tirando o chapéu mas, parece-me, eles me acharam um tanto pedante. Mais tarde, disse-lhes que me fixaria em Belém, ao que os dois soltaram sorrisos breves. Falaram muito sobre as mulheres pa-raenses e o seu apetite sexual. Contaram sobre as maravilhas de um tal açaí e de um tal tacacá, ambos, com grandes poderes extremamente afrodisíacos. Mesmo desacreditando-os, fiquei bastante curioso e com vontade de provar, não pelo gosto das iguarias, mas pelo fato de ativarem a libido de homens e mulheres de qualquer idade, sexo, raça ou religião.
Os passageiros acima citados, com quem tive algum contato, pagaram a passagem antecipadamente e a preços altos, por isto merecem tratamento estilo primeira classe. Acomodam-se em camarotes no terceiro convés, lá em cima, como se para não serem misturados à gentalha que se amontoa lá embaixo...
Os demais, retirantes, desvalorizados pelo próprio destino, terão as passagens pagas por agentes dos seringalistas em Belém, por isto o tratamento indigno, como nos navios negreiros.
A tripulação é numerosa em vista do tamanho da embarcação. Talvez umas dez ou onze pes-soas. Estão lá o comandante e seu ajudante de ordem, o moço de convés, o taifeiro, o cozinheiro e um auxiliar de cozinha, o operador da casa de máquinas e seu ajudante, e mais uns dois que fazem os serviços gerais, principalmente de limpeza, só nos locais por onde passam os privile-giados e sua majestade incólume, como se também não enjoassem ou cagassem como qualquer ente respirante sobre a Terra.
Contorço-me sobre o divã de vime pintado de branco e bordado de marrom. Removo o chapéu de sobre os olhos. Vislumbro, lá embaixo, quase no rés da água, a dura realidade do meu navio negreiro cheio de redes atadas em busca de melhores ares a serem respirados na longínqua Amazônia. É cruel demais o quadro.
* N. do A. Este é o capítulo IX do folhetim O inverno dos anjos do sol poente. Os anteriores poderão ser encontrados no www. claudioxapuri.blog.uol.com.br.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 18h25
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Verbo AMAR MODO INDICATIVO | | Presente | Eu amo, tu amas, ele ama, nós amamos, vós amais, eles amam | Pretérito imperfeito | Eu amava, tu amavas, ele amava, nós amávamos, vós amáveis, eles amavam | Pretérito perfeito | Eu amei, tu amaste, ele amou, nós amamos, vós amastes, eles amaram | Pret. m.-que-perfeito | Eu amara, tu amaras, ele amara, nós amáramos, vós amáreis, eles amaram | Futuro do presente | Eu amarei, tu amarás, ele amará, nós amaremos, vós amareis, eles amarão | Futuro do pretérito | amaria, amarias, amaria, amaríamos, amaríeis, amariam | MODO SUBJUNTIVO | | Presente | Q. eu ame, q. tu ames, q. ele ame, q. nós amemos, q. vós ameis, q. eles amem | Pretérito imperfeito | Se eu amasse, se tu amasses, se ele amasse, se nós amássemos, se vós amásseis, se eles amassem | Futuro | Qdo. eu amar, qdo. tu amares, qdo. ele amar, qdo. nós amarmos, qdo. vós amardes, qdo. eles amarem | MODO IMPERATIVO | | Afirmativo | Ama tu, ame você, amemos nós, amai vós, amem vocês | Negativo | Não ames tu, não ame você, não amemos nós, não amem vocês |
Infinitivo: AMAR - Gerúndio: AMANDO - Particípio: AMADO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h11
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Verbo CANTAR | MODO INDICATIVO | Presente: eu canto, tu cantas, ele canta, nós cantamos, vós cantais, eles cantam | Pretérito imperfeito: eu cantava, tu cantavas, ele cantava, nós cantávamos, vós cantáveis, eles cantavam | Pretérito perfeito: eu cantei, tu cantaste, ele cantou, nós cantamos, vós cantastes, eles cantaram | Pretérito m.-q.-perf.: eu cantara, tu cantaras, ele cantara, nós cantáramos, vós cantáreis, eles cantaram | Futuro do presente: eu cantarei, tu cantarás, ele cantará, nós cantaremos, vós cantareis, eles cantarão | Fut. do pret.: eu cantaria, tu cantarias, ele cantaria, nós cantaríamos, vós cantaríeis, eles cantariam | MODO SUBJUNTIVO | Presente: que eu cante, q. tu cantes, q. ele cante, q. nós cantemos, q. vós canteis, q. eles cantem | Pretérito imperfeito: se eu cantasse, se tu cantasses, se ele cantasse, se nós cantássemos, se vós cantásseis, se eles cantassem | Futuro: qdo eu cantar, qdo. tu cantares, qdo. ele cantar, qdo. nós cantarmos, qdo. vós cantardes, qdo. eles cantarem | MODO IMPERATIVO | Afirmativo: canta tu, cante você, cantemos nós, cantai vós, cantem vocês | Negativo: não cantes tu, não cante você, não cantemos nós, não cantem vocês |
Infinitivo: CANTAR - Gerúndio: CANTANDO - Particípio: CANTADO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h11
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Verbo VENDER | MODO INDICATIVO | Presente: vendo, vendes, vende, vendemos, vendeis, vendem | Pretérito imperfeito: vendia, vendias, vendia, vendíamos, vendíeis, vendiam | Pretérito perfeito: vendi, vendeste, vendeu, vendemos, vendestes, venderam | Pretérito mais-que-perfeito: vendera, venderas, vendera, vendêramos, vendêreis, venderam | Futuro do presente: venderei, venderás, venderá, venderemos, vendereis, venderão | Futuro do pretérito: venderia, venderias, venderia, venderíamos, venderíeis, venderiam | MODO SUBJUNTIVO | Presente: venda, vendas, venda, vendamos, vendais, vendam | Pretérito imperfeito: vendesse, vendesses, vendesse, vendêssemos, vendêsseis, vendessem | Futuro: vender, venderes, vender, vendermos, venderdes, venderem | MODO IMPERAIVO | Afirmativo: vende tu, venda você, vendamos nós, vendei vós, vendam vocês | Negativo: não vendas tu, não venda você, não vendamos nós, não vendam vocês |
Infinitivo: VENDER Gerúndio: VENDENDO Particípio: VENDIDO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h10
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Verbo CEDER MODO INDICATIVO | | Presente | cedo, cedes, cede, cedemos, cedeis, cedem | Pretérito imperfeito | cedia, cedias, cedia, cedíamos, cedíeis, cediam | Pretérito perfeito | cedi, cedeste, cedeu, cedemos, cedestes, cederam | Pret. m.-que-perfeito | cedera, cederas, cedera, cedêramos, cedêreis, cederam | Futuro do presente | cederei, cederás, cederá, cederemos, cedereis, cederão | Futuro do pretérito | cederia, cederias, cederia, cederíamos, cederíeis, cederiam | MODO SUBJUNTIVO | | Presente | ceda, cedas, ceda, cedamos, cedais, cedam | Pretérito imperfeito | cedesse, cedesses, cedesse, cedêssemos, cedêsseis, cedessem | Futuro | ceder, cederes, ceder, cedermos, cederdes, cederem | MODO IMPERATIVO | | Afirmativo | cede tu, ceda você, cedamos nós, cedei vós, cedam, vocês | Negativo | não cedas tu, não ceda você, não cedamos nós, não cedam vocês |
Infinitivo: CEDER - Gerúndio: CEDENDO - Particípio: CEDIDO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 14h30
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Verbo PARTIR | MODO INDICATIVO | Presente: parto, partes, parte, partimos, partis, partem | Pretérito imperfeito: partia, partias, partia, partíamos, partíeis, partiam | Pretérito perfeito: parti, partiste, partiu, partimos, partistes, partiu | Pretérito mais-que-perfeito: partira, partiras, partira, partíramos, partíreis, partiram | Futuro do presente: partirei, partirás, partirá, partiremos, partireis, partirão | Futuro do pretérito: partiria, partirias, partiria, partiríamos, partiríeis, partiriam | MODO SUBJUNTIVO | Presente: parta, partas, parta, partamos, partais, partam | Pretérito imperfeito: partisse, partisses, partisse, partíssemos, partísseis, partissem | Futuro: partir, partires, partir, partirmos, partirdes, partirem | MODO IMPERAIVO | Afirmativo: parte tu, parta você, partamos nós, parti vós, partam vocês | Negativo: não partas tu, não parta você, não partamos nós, não partam vocês |
Infinitivo: PARTIR - Gerúndio: PARTINDO - Particípio: PARTIDO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 14h30
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Verbo PUNIR | MODO INDICATIVO | Presente: puno, punes, pune, punimos, punis, punem | Pretérito imperfeito: punia, punias, punia, puníamos, puníeis, puniam | Pretérito perfeito: puni, puniste, puniu, punimos, punistes, puniram | Pretérito mais-que-perfeito: punira, puniras, punira, puníramos, puníreis, puniram | Futuro do presente: punirei, punirás, punirá, puniremos, punireis, punirão | Futuro do pretérito: puniria, punirias, puniria, puniríamos, puniríeis, puniriam | MODO SUBJUNTIVO | Presente: puna, punas, puna, punamos, punais, punam | Pretérito imperfeito: punisse, punisses, punisse, puníssemos, punísseis, punissem | Futuro: punir, punires, punir, punirmos, punirdes, punirem | MODO IMPERAIVO | Afirmativo: pune tu, puna você, punamos nós, puni vós, punam vocês | Negativo: não punas tu, não puna você, não punamos nós, não punam vocês |
Infinitivo: PUNIR Gerúndio: PUNINDO Particípio: PUNIDO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 14h28
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE (Capítulo VIII) Pará Belém José Cláudio Mota Porfiro* Alma que parte é coração que fica, ou voa nas asas do destino incerto e através do tempo, esse tempo por nós inventado, humana e marcadamente inexorável. Se sorrimos na partida, teriam dito os deuses que jamais nos poderemos perder nos desvãos do caminho pedregoso e nas incertezas. Se choramos, os anjos do sol poente, por certo, de nós terão piedade e nos ajudarão na busca da bem aventurança. Se corre vento brando, o coração e o peito se calam e rejeitam as lembranças dos infortúnios. Se é tempestade no deserto ou no Oceano, acautelar-nos-emos, uma vez que, depois dos tempos difíceis, é que vem a bonança. Na verdade, o homem, ainda que reconheça a onipotência, não desiste da aventura, da novidade... Assim sou eu também. Belizário, o gerente da livraria, partiu à procura de um tal Viriato Nepomuceno, nas docas do porto. Havia muita pressa e medo o suficiente, do lado de cá, ou de minha parte. Como a partida rumo a Belém seria aí por volta das oito da noite do mesmo dia, um sábado, dificilmente haveria uma vagazinha que fosse até no porão do vapor Marcílio Dias. Mais uma vez, então, jogou ao meu favor o prestígio de tia Chiquita que era contra a minha ida, mas a favor da minha vida que estava talvez por um fio.
(Nunca é bom duvidar. Mais vale um covarde vivo que um herói morto). Segundo ela, em Fortaleza havia dois bons cursos de advocacia, certamente muito melhores que os de Belém e, inclusive, os cabras que estavam no meu encalço bem poderiam ser levados a mudar as opiniões com relação a mim por meio de umas ameaças básicas, como uma surra de umbigo de boi em cada um dos quatro, a bom dinheiro, é claro! Mas já não era exatamente o que esta alma atribulada e abespinhada queria. O gosto pelo desconhecido falava mais alto. Gritava. Urrava. Do Baturité a Fortaleza havia sido uma aventura sem tamanho. Imagine, agora, de Fortaleza a Belém, cinco dias de viagem, alcançando o alto mar, muito depois da barra, com direito a enjôo e tudo. Sentia que havia dado uma boiada para não entrar na confusão e agora daria duas para não sair dela. Precisava entrar na floresta amazônica, ir mata adentro, sem medo, como os ancestrais cearenses que começaram a chegar por ali ainda a partir da metade do século passado para a extração do látex da seringueira. O espírito sertanejo, calejado das peripécias e diabruras juvenis, enfrentaria esse e muitos outros desafios que tivessem por vir, do jeito que fossem ou na medida em que viessem, como vieram depois. Imagine só! Foi muita ousadia minha embarcar numa viagem para o estrangeiro, pras Oropa, já na década de 1960. Quem diria?!
O velho cais entre a Ponte Metálica e a Ponte dos Ingleses está tristemente emoldurado por trapiches toscos que quase se entortam à passagem dos transeuntes que vão ou vêm das embarcações. Há longos corrimãos borrados por dejetos de pássaros marinhos, principalmente pela manhã. As tábuas ainda rangem aos meus ouvidos. Todavia, carregadores e marinheiros sonham com o dia em que, finalmente, poderão atracar e trabalhar no novo Porto do Mucuripe, ainda um delírio em concreto armado. (Convém deixar claro que o citado Porto só há pouco foi inaugurado, depois de vinte e tantos anos de peleja de todos aqueles entes que regurgitavam entre a rua e a velha praça sem jardins, mas apinhada de biroscas e meretrizes, a praia dos banhistas saudáveis e o cais dos estivadores desvalidos).
Naquele momento último no Ceará, assim sou eu também, entregue à aventura, triste, preocupado, por enquanto, porém, sobretudo, nutrido de muita vontade pelo desconhecido.
Ao longe, vislumbro a Volta da Jurema e o porto das barcaças do Meireles. Lá mais adiante, quase envolto pela bruma, o Mucuripe. Por ali vivi parte dos meus dias de folguedo em companhia, dentre outras, da moça da Rua dos Trilhos. Arranjei amigos que se acostavam a mim em vista da possibilidade de sorverem um copo a mais de uma cerveja gelada que, apesar da idade, me vendiam os bodegueiros justificados pelo tamanho físico sem a exata mensuração do volume de aleivosias que a cabeçorra portava...
Ah, sim! Olhando do navio, lá embaixo está um dos indivíduos que juraram dar cabo de mim assim que me colocassem as mãos sujas, isto, só por causa de uma vadia que resolveu me atrapalhar a vida... São cinco e vinte da tarde, mas só às oito da noite haveremos de zarpar.
Minhas tias vieram ao convés e por ali ficaram até depois das badaladas do sino da Matriz de São José, ali perto, a terceira e última chamada para a missa das sete. Zizi, todos os dias depois das cinco já estava com um véu branco sobre a cabeça e vestida a caráter. Mas neste dia ficara em casa uma vez que não gostava de chorar em despedidas. O grande objetivo dela era ir para o céu depressa demais, com toda pompa e galhardia, e virgem.
Conversamos sobre os negócios que ficavam sob a batuta geral de um guarda-livros de grande experiência, notário antigo no ramo e, agora, exclusivamente cuidando de tudo o que era da única viúva do grupo. Fizeram recomendações sobre os meus arroubos na direção do belo sexo. Disseram que para onde eu ia estava infestado de tudo o que era de nordestino brabo, ignorante, sem sensibilidade, e com a tal da honra pendurada no pé-da-goela, ou no cordão do saco, ou a um palmo abaixo do umbigo das moças. Pediram que não deixasse de escrever, a cada quinze dias, contando as novidades, como se o Correio existisse lá pelos cafundós do Judas ou onde o cão perdeu as botas. Enfim, disseram que tinha direito a cinqüenta mil réis mensais até o fim dos meus dias pelos serviços prestados à família. Era uma fortuna para um sujeito solteiro como eu.
Certo é que na hora das despedidas ninguém chorou. Nem podia. Não nos era dado o direito, de forma alguma. As véias porque eram do tipo que tinham sangue no olho, ou areia. Eu, porque era macho e meio e não derramaria uma lágrima sequer, logo ali, naquela hora, na frente dos outros... Só depois, é claro!
De cócoras no convés, estão uns garotos atarracados, baixos mesmo, de catorze e até quinze anos que vão para as aventuras da Amazônia sem nenhum sobroço. Por que eu choraria? Logo eu! Imagine! Um cabra passado na casca do alho! Zêro e vezêro. Acostumado já com as vicissitudes da vida, tinha cabelo nas ventas para o que desse e viesse.
Penso, então, com o meu terno de gabardine bege e os botões prateados, que a perseverança não é uma corrida longa, mas são muitas corridas curtas, uma após a outra... Talvez um dia alcançasse o outro lado do mar, quem sabe? Na época, segundo o meu ponto de vista prático, independente dos conhecimentos adquiridos no liceu, logo depois de Belém ficava o estrangeiro, isto, sem olhar para o lado oeste do mapa, onde eu jamais pensei um dia poder e querer me enfiar.
Como é bonito o reflexo das luzes na água para quem está nas embarcações que se afastam. A noite está intensamente iluminada por uma lua cheia que começa aos poucos a subir a abóbada celeste. A impressão que tenho é a de que a natureza está feliz porque, finalmente, jogo-me na aventura amazônica.
Um raio de luz comprido lança-se ao mar calmo e vem no rumo de quem está em terra. É como se uma imensa estrada feita de brilhantes incrivelmente fosforescentes, por cima da água, me ligasse ao satélite. E eu viajo naquela ilusão do caminho luminoso que, um dia, quem sabe, poderá me levar para um planeta bem distante, como Marte, por exemplo.
Com o vapor parado, o cais parece estar imensamente feliz talvez seja por estar se livrando de mais um traste. Talvez não. De repente, três apitos. Em cinco minutos, mais dois. Em mais cinco minutos, apenas um. Ouço o ronco que vem da casa de máquinas onde os motores já estão definitivamente em funcionamento. Saio do convés. Acosto-me a um banco próximo onde estão outras pessoas que não querem saber de despedidas. Observo, ao meu lado, um rapazinho franzino com o rosto entre as mãos. Ouço um murmúrio. Talvez seja soluço.
- Meu companheiro, queira me desculpar, mas você é de onde? - De Maranguape. - Desculpe a intromissão: vai para onde?
- Estou indo para o Acre cortar seringa. Deixo aqui no Ceará oito irmãos menores, uma mãe viúva e uns poucos teréns... Mas eu volto, com a graça de Deus. Trabalharei, ganharei dinheiro, ficarei bem de vida e venho para ficar por aqui mesmo, montar um negócio, ou levar minha raça lá para o Rio Xapuri, Seringal Triunfo, onde devo ficar por alguns anos.
- Ah, sim. Meu nome é Melchíades, mas pode me chamar de Melqui. Estou indo para Belém continuar meus estudos e, talvez, um dia, nós nos encontraremos no Acre.
- Meu nome é Raimundo Nonato de Souza e não tenho estudo nenhum, não senhor.
Ele tem apenas quinze anos. Tantos objetivos. Quantos sonhos. Infelizmente, a grande maioria dos que adentram a floresta amazônica morre de cesão ou impaludismo ou outras doenças desconhecidas, muitas vezes, por pura falta de informação ou, noutros casos, enquanto vítimas da insensibilidade de patrões, donos de seringais, que só pensam em tirar lucros em cima da miséria destas levas de sertanejos que saem, principalmente do Ceará, em busca de um dia ser rico, como se fosse possível para todos.
São oito da noite. Primeiro, a popa do vapor começa a se mover até que as amarras sejam desatracadas. Depois, a proa é que se move. Um sujeito magro e só de calção dá um salto para o mar e começa a nadar em direção à arrebentação guiando o comandante rumo ao canal que sai do porto. Agora ele vai até o quebra-mar e de lá voltará, à nado, assim que a embarcação não mais estiver sujeita a ficar encalhada, o que seria o caos, não fosse a habilidade e a coragem desse tal Pergentino. O Marcílio Dias já está a cinco nós. Parece-me uma velocidade razoável. As ondas batem vagarosamente no caso do navio que avança cortando as águas do Atlântico. Dói na alma ver as luzes que vão ficando cada vez menores, depois pequeninas, em seguida mínimas, apenas pontinhos na escuridão e, enfim, somem para sempre.
Melancolia Oh doce luz! oh lua! Que luz suave a tua, E como se insinua Em alma que flutua De engano em desengano! Oh criação sublime! A tua luz reprime As tentações do crime, E à dor que nos oprime Abres-lhe um oceano! É esse céu um lago, E tu, reflexo vago D’um sol, como o que eu trago No seio, onde o afago, No seio, onde o aperto? Oh luz órfã do dia! Que mística harmonia Há n’essa luz tão fria, É a sombra que me guia N’este areal deserto! (João de Deus, in ‘Ramo de Flores’)
Nunca tinha visto a pobreza tão de perto. É tudo muito triste ao meu redor. Um dia por certo também haverei de voltar, quem sabe de vez. Quem sabe a passeio para rever as minhas tias.
O rapazola já não soluça. Parece dormir. Uma família ao lado acomoda-se nas redes. A mãe reclama. A filhinha de uns dois anos de idade está com febre altíssima. Há gente solidária entre os tantos retirantes. Dão-lhe quinino. Só pela manhã é que tomo conhecimento de que a garotinha dormiu para nunca mais acordar. A mãe se desfaz em lágrimas. O pai clama por Deus. As demais crianças, quatro, ficam encolhidas, talvez, com medo de morrerem também. Todo aquele inóspito navio negreiro é tomado pela comoção.
Vêm-me lágrimas aos olhos que eu pensava ressequidos. Choro copiosamente encostado à amurada do navio. Não mais existe o machão que até há pouco pensava ser. Só agora começo a pensar seriamente nos desvãos da sina dessa gente que, como tantos, como todos, vai em busca apenas de viver, mas morre no meio do caminho da aventura... O que poderá acontecer com um aventureiro que se lança ao desconhecido apenas pela sede de aventurar-se?
Às nove da manhã, as velas trazidas pelo moço de convés para iluminar o anjinho morto são apagadas. Embrulham-na em panos como um pacote. Amarram uns cordões para que os peixes demorem a devorar-lhe o corpo esquálido. O funeral é rápido demais para um ser humano.
Ainda não se completaram sequer doze horas do início da viagem e a realidade se faz tão nua quanto crua... A tarefa de lançar Maria Balbina ao mar, agorinha mesmo, coube ao pai... Meu Deus!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h16
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo VII
Aprendiz de tudo
Desde algum tempo, venho prestando atenção em tudo ao meu redor de modo muito mais cuidadoso e prazeroso. Como é bom ter cautela!... Ingeri, enfim, doses exageradas desta... Tornei-me já e celeremente um quase filósofo, principalmente, pela contemplação das esquisitices humanas a que se entregam uns tantos que os afirmam estarem na idade da razão, ou quase senis. Observei que aqueles que têm um grande auto controle, ou que estão totalmente absortos no trabalho ou em qualquer tarefa, falam pouco, ou quase nada, ou não dizem coisa alguma. Conclui que palavra e ação juntas não andam bem. Está lá um falastrão a arrotar bravatas e valentias e eu lhe digo, em cima da bucha que, na hora em que o pau quebrar, ele será o primeiro a borrar as cuecas de renda. Ora, pois! Reparemos na natureza. Ela trabalha continuamente, mas em silêncio. Na semana posterior à nossa chegada à Fortaleza, falamos já com um velho amigo de tia Chiquita, o professor Damasceno de Freitas, oficial encarregado do ensino público no Ceará. Tudo certo, como não poderia ser diferente, nunca, em vista dos jogos de interesses entre os que têm poder, ou algum dinheiro, ou os dois. Fiz um exame em que a base eram os rudimentos da matemática, expressões numéricas e mais álgebra linear, juros simples e compostos, regra de três simples e composta e equação do primeiro e do segundo grau. Elaborei também uma composição, ou redação crítica, sobre a realidade das cidades litorâneas e o sertão nordestino. Da ante-sala do diretor, um ambiente de muito luxo, onde fiquei esperando o resultado do teste de aptidão num cara a cara indigesto com um velhote en-joado, baixinho e de óculos muito pequenos e redondos, já fui direto para uma sala de aula onde estavam, muito bem alinhados, em terno e gravata, uns trinta rapazes da minha idade. Fui estudar um tal segundo ciclo, depois denominado cien-tífico. Havia um velho padre, Frei Antônio de Pádua, que dava aulas de matemática tão boas que um dia eu o chamei de Arquimedes, ou Eu-clides... Um dos matemáticos dos primeiros tempos... (Não lembro direito!) Ele ministrava também aulas de ciências da natureza, uma matriz teórica que incluía a Física, a Química e a Biologia. Dona Inglesinha se responsabilizava pelos estudos sociais, ou seja, História e Geografia. Enfim, vinha o maior osso duro de roer: era o velho Raimundo Góis e Castro - apelidado quandú pirento - que se encarregava do Português, do Latim, e da Filosofia, daí a minha aversão pelas duas primeiras e a obsessão pela última, até hoje.
- Você é grego, rapaz? – Rosnou um dia o professor Góis.
- Sou não, senhor! Sou daqui do Ceará mesmo. – Respondi mais desconfiado que gato de açougue. - É porque esse seu nome Melchíades tem origem na velha Grécia dos grandes sábios, entretanto parece mais pornografia e eu sempre gostei muito mais dos latinos, especialmente de Cícero. – Disse o mestre me fazendo lembrar o poeta João Omena que também gostava do grande orador da Roma antiga.
Vim a descobrir posteriormente que se tratava de birra, de marcação, e ele estava querendo apenas me deixar constrangido, uma vez que, depois, em todas as aulas, o velho quandú reconhecia a superioridade dos helenos em relação aos romanos, enquanto aqueles os grandes ba-luartes da civilização ocidental.
- Depois de Platão, houve um hiato de mais de vinte séculos, meus caros estudantes! Até que um outro filósofo se fez brilhante, Karl Marx. Os dois são pensadores de fato e de direito; os demais fizeram apenas comentários relativos aos grandes, meras notas de pé de página. – Era o que bradava a plenos pulmões o enjoado Góis até que, um dia, foi chamado a atenção, posto que o Liceu Cearense era dirigido por um teólogo italiano, católico apostólico, Dom Tomaso Casavechia. É que os marxistas ainda hoje afirmam com todas as letras que a religião é o ópio do povo.
Foram três anos de estudos. Ali aprendi de tudo um pouco. Estudava das seis e meia às dez e meia da manhã, no liceu da Rua Monsenhor Tabosa, e vinha para casa, a dois quarteirões dali. Não havia moças por lá, o que me deixava inquieto. Aquelas pertencentes às famílias mais abastadas estudavam no Colégio Nossa Senhora de Fátima, um pouco distante, na Rua Senador Pompeu. Algumas outras estudavam, de favor, em qualquer saleta que a diziam escola, de qualidade duvidosa ou ruim mesmo.
Certo é que mais da metade das mulheres da época não ia à escola, posto que as famílias lhes reservavam a profissão de serviçais de maridos broncos feito portas de presídio, envenenados pelo ciúme e violentos como a cobra do ôco do pau. No máximo, o que elas podiam fazer era aprenderem a cozinhar - nem sempre comida boa, exatamente porque a maioria das cearenses nunca cozinhou nada que prestasse - e podiam bordar e fazer renda, e muito bem, visto que sempre foram as melhores bordadeiras e rendeiras do Brasil. As outras tarefas eram tão somente criar filhos truculentos e obtusos enredados nos exemplos dos pais, e tolerar os abusos que minha Tia Nair jamais tolerou porque, segundo ela, derramar água em fervura nos ovos do cabra dormindo era o melhor remédio pro sujeito que gostasse de bater em mulher. No primeiro ano de estudos deste tal segundo ciclo, pelo fato de ser novato, fiquei com a nota geral em torno de setenta. No segundo ano, tive seis das oito provas finais expostas no mural da diretoria do liceu, uma vez que a média global subira para noventa e oito. Aí, então, foi no terceiro ano que tudo desandou, apesar de haver concluído o curso com algum parco brilhantismo... Não havia dois anos e eu acabara de desvanecer de Dalva por completo, e conheci uma tal Maria da Guia que findou me guiando - ao meu gosto - por caminhos um tanto íngremes e tortuosos.
Tinha de dezessete para dezoito anos, metro e setenta e cinco. Era, certamente, alto para os nossos padrões do povo da cabeça grande e chata. Meio magro, meio gordo, diria, forte, mas sem bochecha. Crescera uma barba bem aparada, talvez herança de Honorato Polidoro, meu pai. Cabelos claros e penteados para o lado e para trás à custa de óleo de mutamba. Bem vestido, bom emprego, cheiroso e bonito, residindo num casarão muito do seu alinhado, com duas tias endinheiradas fazendo uma bruta propaganda da minha pessoa; faltava apenas um carro que só vim a comprar muitos anos depois.
Era ingrediente demais para uma alma pouco pura como a minha... E veio a parte doida da receita. Eu, o macho, virei estopa; ela, a fêmea, virou pólvora. Apareceu, então, o capiroto e acendeu o isqueiro... Acabou-se! A explosão abalou toda a redondeza quadrada num raio de cinco ou seis léguas.
Entre outubro e dezembro daquele ano, viramos a cidade de pernas pro ar. Foi um Deus nos acuda. Eu até tenho anotadas, numa espécie de diário, uma parte das doidices. Passeávamos por praias distantes levados por automóveis de aluguel. Ela não tinha pai e nós saíamos sexta à tarde e chegávamos domingo à noite. Íamos para festas e até para um cassino. Às vezes, voltávamos de madrugadinha, pulávamos o muro, a janela e não dormíamos, mas ficávamos acordados, e muito acordados. Só um pouco antes das cinco é que eu a levava para a casa dela, na Rua dos Trilhos, à beira mar. Era muito bom. Tínhamos a mesma idade mas, gostar por gostar, acabei caindo em mim. Da Guia e a véia mãe dela tinham um plano: amarrar o bode pelos chifres e pelas ventas.
Aquilo não era hora para acontecer o que aconteceu. Ela, por último, tinha os peitos inchados e a pele macilenta. E eu aprendera nos romances de Pedro Navarro, literato mexicano, que na vida o que vale são as amantes e as aventuras intercaladas e a prazos curtos. Poderia eu até sumir no eito e ir-me embora deixando tudo para trás.
– Por que não experimentar outras sensações, quem sabe, longe das saias das tias? – Ponderava. Mas essa talvez não fosse a hora de tomar atitude tão drástica. Os negócios iam tão bem! Eu teria que aprender ainda muito. Seria talvez mais coerente um rompimento com aquele embuste que era o coração volátil e volúvel da moça dos trilhos sem trilhos... Foi então que o meu espírito arredio e indócil de repente ficou triste, por alguns minutos, é claro, e buscou apoio nas Ruínas, de Florbela Espanca, a genial poetisa portuguesa:
Se é sempre Outono o rir das Primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair... Que a vida é um constante derruir De palácios do Reino das Quimeras! E deixa sobre as ruínas crescer heras, Deixa-as beijar as pedras e florir! Que a vida é um contínuo destruir De palácios do Reino das Quimeras! Deixa tombar meus rútilos castelos! Tenho ainda mais sonhos para erguê-los Mais alto do que as águias pelo ar! Sonhos que tombam! Derrocada louca! São como os beijos duma linda boca! Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar. Por aquela época, uns disseram estar a parecer o Nicanor. Com os olhos da águia e a agilidade do lince, ative-me, sim, ao aprendizado daquilo que era, na época, a menina dos meus olhos, os negócios. A livraria O Nicanor necessitava de mudanças. Convenci minha tia Chiquita e o espaço foi aumentado, com a construção de paredes novas e novos ambientes, dentre os quais uma sala de leituras e um recanto onde era servido um cafezinho. Foi contratada uma funcionária, Eulina Pacheco, para a minha surpresa, extremamente competente enquanto vendedora. Aumentara a clientela em mais ou menos trinta por cento no último ano, com a chegada, inclusive, de alguns moradores oriundos de outros países - a maioria engenheiros, em busca de informações sobre a terra - que trabalhariam nas novas casas e pré-dios da cidade que crescia, também para o alto, vertiginosamente. O gerente da loja de ferragens, Manoel Brito, enveredara pelos caminhos tortuosos do alcoolismo. Como tinha os bofes fracos, pegou uma tiriça preta e morreu em dois meses. O filho, Manezim, foi declarado seu substituto e, por muitos anos, cumpriu a contento o seu papel, em casa, enquanto responsável pela mãe e pelas irmãs, e na loja, fazendo-a crescer muito, em tamanho e em volume de vendas. As três casas de moradia da Rua Dr. João Moreira e o palacete da Rua José Avelino passaram a ter os aluguéis administrados por Belizário, o manda chuva da livraria.
Jean Cocteau, um príncipe nas artes da filosofia, deixou grafado em bom pergaminho que quando uma obra parece avançada para a sua época, é simplesmente porque a sua época está atrasada em relação a ela.
Foram quatro meses de intenso trabalho principalmente de minha parte que não poupei fôlego atrás de mestres de obra a preços melhores, pedreiros, carpinteiros e outros profissionais. Era papel que não acabava mais, tudo no contrato, conforme queria a dona dos porcos, tia Chiquita, enquanto a Tia Véia ficava apenas no aplauso:
- Êita menino zeloso! – Era só o que ela dizia.
Mas não havia cansaço que me fizesse parar. Segundo alguns, teriam se reunido em mim a sofreguidão dos mais jovens, o ímpeto dos corajosos e a calma dos que têm talentos natos.
Por isto, à noite, passei a freqüentar ambientes um tanto perniciosos, ou periculosos - di-ziam - para um rapaz da minha idade. Não perdi as estribeiras nem o dinheiro da minha tia em mesas de carteado. Como já disse, também não afoguei as saudades de Dalva nem o mel de Da Guia em mesas de bar. Fiz pior. A libido aparvalhada falou mais alto e eu passei a freqüentar bordéis a respeito dos quais ouvira falar através de João Omena. Daí, veio o envolvimento com prostitutas baratas e diversificadas, seis noites por semana sem deixar cair o ritmo.
Numa dessas noites, na famosíssima Taverna de Dona Rute, depois de muito apreciar e aprender os passos, chamei uma devassa de nome Zuleide para dançar o miudinho, ao que ela assentiu. Todavia, lá pelo meio da dança, ela mesma se encarregou de passar para o tal maxixe, e eu fui só acompanhando, e ela foi só gostando. E deu-lhe uma, e deu-lhe duas e deu-lhe três... Aí ela pediu que nós parássemos de dançar. Só que, na saída do salão, ela encontrou um tal de Nenem França, e disse a este, no ouvido, que eu havia passado a mão na perseguida dela. Ora, ele era um abestalhado! Ela ia para a cama com todos os fregueses, ele vivia da renda que ela fazia com o negócio do sexo e o cabra achou de ficar com ciúme, logo de mim.
- Frangote fi-duma-égua. Tu respeita a minha mulher. – Foi só o que ele disse. Eu fui saindo no rumo da rua e já ouvi os pipocos, logo ali, um cabaré tão arrumado.
Não fui alvejado, graças a Deus!
No outro dia, soube por Manezim dos Arreios, nosso gerente, que o cabra se ajuntara a uns comparsas, inclusive um primo de Da Guia, um tal de Jóca, e estaria planejando fazer um serviço-muito-do-seu-bem-feito, logo comigo. Vixe Maria!
A ação não surge do pensamento, mas de uma disposição para assumir responsabilidades. A moça dos trilhos não estava buchuda. Teria sido arrebate falso. (Teria!) Eu me responsabilizara para comigo mesmo e chegara a hora de uma atitude. Era já maior de idade e poderia seguir os conselhos do velho Góis e Castro que me informara haver, em Belém do Pará, um certo Curso de Ciências Jurídicas e Econômicas, de qualidade ímpar, dirigido por um professor cearense seu conhecido, Dr. José Militão. De um jeito ou do outro, eu estaria jogando tudo fora... Se corresse o bicho me alcançaria, se ficasse, teria os troços abocanhados pelo Nenem França e sua cabroeira. Ou pau, ou pedra e nunca os dois de uma só vez.
Era chegado o momento de conhecer Belém do Pará. Desenharam e me deram de presente o meu futuro, este sempre belo futuro de quem viaja nas barquinhas do Cais do Ver-O-Peso da esperança, cujas velas dilatam aquela brisa inebriante, as velas que são as asas das nossas fantasias. Fui!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h16
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Estes dois rapazes são os meus filhos gêmeos ALAN e ADRIAN, de cinco anos, estudantes animados da Escola Sheila Nasserala.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h05
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