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CRÔNICA
Os turcos nossos de cada dia O Eça de Queirós, romancista luso do final do século dezenove, escreveu que, em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, o transbordamento de uma população que sobra, mas a fuga de uma população que sofre.
Entre os sírios e libaneses ocorreu algo um tanto diferente. A população era razoavelmente numerosa, mas cabia nos territórios, e o êxodo aconteceu, principalmente, pelo acirramento das guerras religiosas entre cristãos e muçulmanos. Portugueses e sírio-libaneses findaram por virem a ser vizinhos em Xapuri. Alguns deles se fizeram compadres até. Rezavam o mesmo credo na mesma Igreja de São Sebastião construída com as doações de todos. Dentre os libaneses, oriundos das cercanias de Beirute - onde foi fundada a segunda universidade mais antiga do mundo - a cordialidade e o sorriso franco e aberto são marcas principais. Demonstram viver bastante felizes. Dão gargalhadas ou sempre estão a sorrir simpaticamente. Eles já não navegam ou nunca navegaram pelos rios, como os brimos da Síria, mas estão, já, lá em cima dos barrancos, em lojas muito bem montadas, usam terno e gravata, leem aqueles jornais de letras escritas no sentido vertical, cumprimentam a todos efusivamente, riem e se fazem compadres e comadres dos nordestinos que lhes servem nos afazeres domésticos e comerciais, dentre outros, nas cidades. Um destes, grande amigo de Dom Tomás, de nome Touffic Koury, tornou-se fazendeiro lá pelas imediações do Xapuri. Tem uma fazenda bem administrada, muitos bois e cavalos tratados com bastante esmero, os pastos bem cuidados e uma casa grande e vistosa, estilo chalé, em meio a um arvoredo, no alto de uma pequena elevação nos arredores da cidade, próximo ao antológico Rio Acre. Então, num desses dias modorrentos de verão, logo que por ali chegou o Banco da Borracha, o homem foi buscar um dinheiro com o qual pagaria os trabalhadores (batedores de campo; cortadores das ervas daninhas em meio ao pasto) do seu empreendimento altamente rentável. Era sábado. Então, o turco mon-tou um burro desses grandões, chamado Piolho e, já de volta, pelo fato de o saco de estopa em que trazia o numerário estar mal amarrado à cela do animal, desprendeu-se e a dinheirama ficou no meio da rua. Atrás vinha a pé um compadre dele, conhecido por Vavá. Este, assim que viu o incidente, juntou o bendito saco e saiu correndo e gritando pela rua afora atrás de fama e reconhecimento de onde jamais poderia esperar que viesse: - Seu Touffic! Seu Touffic! Pegue o seu dinheiro que caiu na rua! E o turco nem olhava pra trás... E haja galope do Piolho e o Vavá desembestado comendo poeira. Resultado: ofegante, quase a morrer sem fôlego, chegou dez minutos atrás do burro. Os cachorros da casa já o queriam comer vivo, quando enfim conseguiu balbuciar: - Seu Touffic, o seu dinheiro, homem de Deus! - Dê cá! – Foi o que o rico disse. - Vixe! O senhor não vai me dar nenhum agradinho? - Peraí! Touffic foi ao curral, cortou três metros de corda boa de cânhamo seco e trouxe: - Tome. Isso é pro senhor se enforcar, seu abestalhado!... Se tivesse ficado com o dinheiro, nunca mais passaria fome nessa vida... Vá embora! E o Vavá foi, sim, para casa contar à esposa Ernestina o quanto o velho Touffic era birrento. E eu, depois, fiquei a pensar no péssimo exemplo que fica a partir de uma atitude em que a boa ação é interpretada enquanto estultice, burrice da grossa. Abdon Elias Kamel, segundo Dom Tomás, é um pândego, apesar da origem síria. Diz coisas bastante engraçadas, mas não ri das suas anedotas sempre bem humoradas. Corta cabelos à máquina de uma boa parte dos mais velhos e destacados da sociedade local... E conta histórias do tempo em que vivia no Oriente Médio. Num desses dias não tão belos, Abdonzinho Kamel, como é carinhosamente tratado, comeu, à noitinha, uma dessas iguarias engorduradas e, por isto, pesadas, muito próprias da região, talvez um jabuti ou um tatu ao leite da castanha, ou um ensopado de carne de porco, ou, quem sabe, uma boa buchada de carneiro, e passou mal. Também, pudera, segundo o meu interlocutor hoje bem humorado, o homem comia um bezerro no almoço e dois litros de açaí acompanhavam a janta sempre muito farta. E as dores aumentavam e os gemidos se faziam ouvir pela vizinhança, até que o turco teve a feliz ideia de tomar um efervescente da moda, e o tomou, sem pestanejar. Dois segundos depois, o moço começou a escumar pelos cantos da boca e, já em pânico, gritou para a filha que lhe era a única companhia já nesses idos da vida: - Corri aqui mi filha, a cacêta tá na guela! Sucorro! Como se fora um comprimido, ou pílula, o bom Abdon tomara o Alkaseltzer, quase sem água e partido em alguns pedaços, pelo fato de não saber como aliviar-se das dores que tanto o afligiam. Muitos desses estrangeiros não me fogem à memória nem às anotações, como o sírio Farid Abdalah, ex-regatão, de um humor insuportável, com um catarro eterno no peito e umas indefectíveis sandálias de couro que faziam um barulho esquisito, até depois de morto, pelos corredores da vivenda elegante que comprara por trás da maçonaria, com a devida vênia. Um outro amigo do meu bom Tomás é o libanês Farizaire, sempre agradável, ele e os filhos endinheirados e sorridentes. Alfredo, tio dos meninos Zaire, também é comerciante de miudezas e, pelo fato de estar sempre fazendo promoções para a venda dos seus artigos, o chamam Titiliquida, porque o titio liquida tudo mesmo, mas vive muito bem de vida, quase como um fidalgo. Um outro batrício tem por nome Jorge Eluan, fala alto e bem explicado, mas, muito bem aclimatado à terra, diz palavrões impublicáveis. Dentre os libaneses, o mais educado e gentil de todos é o Gatasse Kalume, um homem de fino trato, realmente; casado com uma mocinha de nome Carmem, filha de turcos de Belém e aparentada de Faride, uma bonita vizinha da família da minha esposa. Sobre este nobre Gatasse, Dom Tomás, sabiamente, arrotando filosofia, enquadra-o num aforismo segundo o qual a elegância é a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir. Assim é ele. Os irmãos Abrahão Felício são também comerciantes e têm embarcações, como os portugueses Galos e Costas, como os Zaires e os Kalumes. Há ainda um libanês bonachão e forte de feições chamado Jamil Bestene, sobrinho de Jorge Eluan. Há um sírio carrancudo de nome Andrias Cher Sarkis e uns outros tantos cujos nomes estão devidamente anotados em minhas cadernetas para futuros contatos .
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h12
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CRÔNICA
Ladrões do fim dos tempos Grosso modo, o pessoal que faz a história segundo o estilo positivista gosta apenas do relato e detesta a avaliação dos acontecimentos. Já do outro lado estão os historiadores dialéticos, ou seja, aqueles que emprestam ao histórico uma interpretação às vezes minuciosa demais. Quem daria legitimidade científica a afirmações como estas seria o José Dourado de Souza, historiador de boa têmpera.
Só que eu não sou historiador, sou cronista. O meu termo não é científico, é literário. Afirmo-o aqui porque há os homens de ciência que não observam uma certa prosa poética aspirada cá dos meus escritos às vezes tão sórdidos, como quer o senhor dos Prazeres. Daí que, por não ser exatamente um homem de ciência, como já o fui, há alguns séculos, prefiro lembrar os clássicos que chegaram a uma conclusão abrupta segundo a qual a história é a história e o homem é o único animal que ri. Fazendo passarem as duas possibilidades por filtros de densa tarlatana ou numa síntese arrojada da largura da boca, devo recorrer ao Millôr. Esse cara supimpa reinterpreta o adágio clássico acima usando o termo istória. Assim procedendo, ele reafirma que as interpretações podem ser mentirosas, falseadas; mas podem, de outra forma, ser estilizadas, metaforizadas, não por completo, mas aqui e ali, guardando a essência do real imaginário. Eis o procedimento. Reinterpreto. Aí o meu método chinfrin. É mais ou menos assim que eu sou, ou nesta que estou. E lá vem história!... A história dos ladrões do fim do mundo. Os gregos da época dita clássica desembainharam as espadas, deceparam pescoços inocentes, desvirtuaram virgens de tenra idade e, através deste método ainda hoje em voga, escravizaram o mundo conhecido de então. Como se ainda pudesse haver algo pior, enquanto eles venciam as guerras, os escravos já conquistados trabalhavam de sol a sol nos campos de trigo e nos imensos olivais. E assim, passada a época dos combates sanguinolentos, os helenos - também assim chamados - não iam para a labuta. Um bocado deles se descobria novamente homossexual, os outros eram filósofos e os demais faziam as duas coisas. Eles não trabalhavam, de forma alguma. Apenas se preocupavam em pensar a aventura humana na terra e, depois, cair nas orgias mais sacanas de que se tem notícia na Antiguidade. E os tempos são outros hoje. Já não há escravos. Mas eles, novamente, não quiseram se meter com o trabalho árduo que rende a dignidade. Não quiseram gastar tanta energia. Daí, um pulinho para a falência. A Grécia antes poderosa agora pede esmolas de um mundo novo onde quem não derrama o suor não mais tem direito a comer, beber, vestir-se e habitar, dizem. Os romanos foram piores, certamente, pelo fato de serem muito sanguinários, cruéis mesmo. Estes procederam da mesma forma que os gregos, pois com eles aprenderam a roubar tudo dos povos conquistados e, depois, extorquir através de impostos que chegavam a cem por cento do que era produzido pelos escravizados. E também perseguiam as virgens, colocavam fogo em cidades inteiras e delas levavam todo o ouro com o que pagavam as novas guerras e os novos saques. Ah, ladrões! E os habitantes da Roma de outrora se tornaram os italianos de hoje, um povo de pouca ação e muita falácia. Apopléticos e nervosos. Apaixonados até por eles mesmos, ficam encantados com os americanos a quem vendem as suas belas mulheres e a sua arte do jogo sujo a que eles mesmos denominam máfia. De perto, dá pra perceber que os italianos, na essência, com as exceções fugidias, são todos uns escroques. Pelo histórico de ruindade, desde o desaparecido império, o humano nascido na Itália, é inconfiável, mentiroso, vil, traidor, sente-se mais à vontade com o punhal que com a espada, melhor com o veneno que com o fármaco, é escorregadio nas negociações e coerente apenas em trocar de bandeira a cada vento. Sobre napolitanos e sicilianos - mulatos não por erro de mães meretrizes - mas pela história das gerações, diz-se terem nascido de cruzamentos que herdaram o pior dos seus antepassados híbridos: dos sarracenos a indolência, dos suevos a ferocidade, dos gregos a irresolução e o gosto por se perder em tagarelices, até procurar cabelo em ovo. De uma forma ou de outra, hoje eles não mais roubam porque lhes falta o poderio militar para a guerra de saque tão tradicional. Por isto, também estão falidos mendigando do mundo um níquel com que possam comprar pão e circo. Há! há! há! As crises econômicas e financeiras rondarão para todo o sempre a nação francesa porque os franceses são extremamente preguiçosos, além de trapaceiros, pedantes, rancorosos, ciumentos, orgulhosos além de todos os limites e incapazes de aceitar críticas. Para induzir um francês a reconhecer uma tara da sua corja, basta lhe falar mal de outro povo, por exemplo, “nós, poloneses, temos esse ou aquele defeito”. E, como não querem ficar atrás de ninguém, nem sequer no mal, eles reagem com “oh, não, aqui na França somos piores” e passam a difamar os franceses até notarem que você os apanhou na armadilha. Os franceses não amam os seus semelhantes, nem quando tiram vantagem deles. Ninguém é tão mal educado como um taberneiro francês, que parece odiar os fregueses e desejar que não estivessem ali. São maus. Matam por tédio. É o único povo que durante vários anos manteve seus cidadãos ocupados em se cortarem reciprocamente as cabeças. A sorte foi que um Napoleão efeminado desviou-lhes a raiva para os de outras raças. Acham que o mundo inteiro fala francês. Para eles, as memórias antigas de gente como Calígula, Cleó-patra e Júlio César foram escritas em francês, quando qualquer criancinha sabe que a língua usada pelos eruditos na idade média era o latim. Os doutos franceses não fazem ideia de que outros povos falam de modo diferente do francês. Talvez a ignorância seja efeito da sua avareza, o vício nacional que eles tomam por virtude e chamam de parcimônia. Vê-se a avareza pelos seus aposentos empoeirados, pela forma nunca refeita, pelas banheiras que remontam aos ancestrais, pelas escadas em caracol, de madeira instável, pra aproveitar sovinamente pouco espaço. Enxertem um francês com um judeu de origem alemã e terão aquilo que temos, uma França eternamente à beira da ruína. Depois de sugarem o suor e o sangue dos povos do norte da África, por séculos, os franceses agora os odeiam e não os suportam sequer como imigrantes que lá hoje estão para fazer o serviço pesado. A estes herdeiros do pedantismo de Antonieta, os ricos da zona do euro também os têm enquanto luxentos e pouco dados ao esforço. Lembremos o Zinedine Zidane. Quando ele enfiou três gols contra o Brasil, na Copa do Mundo, não comemorou e sequer ergueu o braço, uma vez que não se considera um herói francês, mas um cidadão argelino, tal qual o pai, um sapateiro discriminado da região do porto de Marselha. Os alemães são extremamente trabalhadores, jamais estarão de pires na mão, dão ordens na zona do euro e reergueram o seu país, inclusive em termos econômicos, destruído por duas guerras consecutivas no século passado. Busquemos, então, o que há de humano na essência do alemão. Antes, todavia, demo-lo poder e veremos que se trata do mais baixo nível concebível de humanidade. Um bismarck qualquer produz em média o dobro das fezes de um brasileiro. É a hiperatividade das funções intestinais. No tempo das invasões bárbaras, as hordas germânicas espalhavam nos caminhos e percursos das guerras montes descomunais de matéria fecal. Qualquer forasteiro rapidamente percebe quando ultrapassa a fronteira germânica pelo volume anormal de excrementos abandonados ao longo das estradas. É típico do alemão o odor repugnante do suor, e está provado que a urina de um ariano contém vinte por cento de azoto, ao passo que a das outras raças, somente quinze. O alemão vive em estado de perpétuo transtorno intestinal, resultante do excesso de cerveja e daquelas salsichas de porco com as quais se empanturra. Eles habitam aqueles ambientes fedorentos a sebo e a toucinho, até mesmo a dois, ele e ela, mãos apertadas em torno daquelas canecas de bebida, nariz com nariz, num bestial diálogo amoroso, como dois cães que se farejam, com as suas risadas fragorosas e deselegantes. Eles falam do seu espírito - geist - alemão, mas é o espírito da cerveja que os estupidifica desde jovens. É verdade. O abuso da cerveja torna os alemães incapazes de ter a mínima ideia da sua vulgaridade, mas o superlativo da sua vulgaridade é que não se envergonham de ser alemães. Levam a sério um monge luxurioso, Lutero, que arruinou a Bíblia traduzindo-a para a língua deles. Os alemães se consideram profundos porque a sua língua é vaga, não tem a clareza do português, por exemplo, e nunca diz exatamente o que deveria, de modo que nenhum alemão sabe jamais o que queria dizer - e toma essa incerteza por profundidade. Com os alemães é como com as mulheres, nunca se chega ao fundo. Em uma próxima ocasião, escreverei coisas terríveis a respeito de outros povos espalhados pelo mundo afora... É que a minha Candinha se globalizou e não tem mais limites nem fronteiras, de forma alguma.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h46
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CRÔNICAA opulência dos espíritos
As almas ali habitantes eram de uma riqueza nunca dantes vista. A pobreza de coração lá não tinha guarida. Ali não havia espíritos mesquinhos, porque todos estavam prontos a se ajudarem, a se complementarem. Na hora necessária, no momento do infausto, nos golpes aplicados pela vida, todos estavam reunidos para resolver o problema ou para chorar a dor do irmão que sofria.
Falo-vos da Xapuri do meu tempo de criança e adolescente, uma época em que os meus pais foram alvos de favores que iam da assistência ao pé do leito de minha mãe que se contorcia com as dores do parto, às aulas particulares, de cortesia, com que fui brindado por aqueles corações infinitamente benignos. Por Deus! Com relação à vida de menino pobre por mim vivida, em verdade vos digo que foi, às vezes, um tanto azeda, mas, na maioria das ocasiões, foi mesmo bem divertida, apesar das limitações e da falta de oportunidade para ir à matinê do vetusto Cine Rialto. As minhas primeiras lembranças vêm dos anos sessenta, época em que aprendi a ler, aos cinco anos, contando com o talento da Regina, irmã de criação, hoje viajante de outros mundos, que me ensinou as primeiras letras e que hoje é o meu ponto inicial de referência na arte da busca da letra e da rima doce da poesia perfeita. Benza-nos o Onipotente! Em casa, havia uma mesa grande, onde Regina, a irmã, dava aulas particulares para os filhos da elite média baixa lá dos meus cafundós. Foi lá que tomei contato pela primeira vez com José Edmilson Gomes Figueiredo, o Bacana, José Raimundo Barroso Bestene, o Marrau, e Cláudio da Costa Ferreira, o Cadite, expoentes da escolinha. Havia ainda o João Amorim Caminha, o Pançudo, e mais dois garotos um tanto arredios, atônitos, filhos do Seu Dino, o do Café, dentre outros menos cotados. Vi alguns pais - que não são necessariamente destes garotos - levarem varas de bambu para que os filhos fossem alcançados à distância pelo açoite da professora que nunca ficava enfezada e nem batia em ninguém. Mas ameaçava. Enfim, era aquela a raiz mestra do método brabo do carrancismo baseado na pancada, a fórmula básica a partir da qual grandes homens foram criados lá em Xapuri. Observador que nem coruja, bem ao lado da professora Regina, eu me postava atento aos mínimos detalhes do que devia e do que não devia aprender. Em suma, aquela primeira escola foi a grande escola da minha vida, uma vez que os alunos todos tinham idade maior que a minha, uns mais, outros muito mais. Eis, então, a base a partir de onde alcei os primeiros voos. Mas tudo ocorreu da melhor forma possível porque a pequena cidade era formada basicamente por parentes, amigos, compadres, camaradas. Lá, até havia um homem cujo nome era Parente Amigo. Verdade! E o vai e vem ainda é grande na memória mais anterior. Há personagens dos mais variados matizes possíveis. Uns marcantes. Outros bem pior que isso. Todo menino observador tem um ou dois ídolos moleques maiores que fazem as proezas mais incríveis que poucos conseguem. Tinha um molecão meio doido e um, primo dele, mais maluco ainda. A barra era uma brincadeira que consistia em um grupo correr atrás do outro até tocá-lo. Perdia o grupo que menos conseguisse alcançar os integrantes do outro. Esses dois carregavam codinomes bastante sugestivos. Um era o Índio-ruço. O outro era o Dapuí. Quanta vadiagem! Que apelidos fantásticos! As mães deles não foram tão criativas quando lhes pespegaram os nomes verdadeiros de Jorge e Antônio, como o santo da Capadócia, na Turquia, e o outro de Pádua, na Itália. Aliás, no Xapuri da minha época, todos ou quase todos tinham os apelidos mais alusivos que já vi na vida. Já pensou o tanto de poesia que cabe no nome de um moço chamado Caboclo da Morena? Es-petacular! Magistral! Certa noite, então, aí pelas oito, da janela da casa da minha tia Lourdes, na Rua Batista de Moraes, só assistia o movimento dos meninos, posto que a minha avó cearense furibunda jamais permitiria que eu participasse de uma contenda tão doida. O ápice da doidice era quando os dois primos atravessavam o Rio Acre, à noite, a nado, claro, um atrás do outro, os dois com a finalidade exclusiva de não perder o jogo... E iam e voltavam, como se nada tivesse acontecido, apesar de molhados até as almas pouco santas e nada virtuosas. Jamais. Nunca fui dado a apanhar sol, de forma alguma, a não ser quando, aos quinze e dezesseis anos, fui obrigado pela vida a trabalhar calçando as ruas da nossa pequena e famosa Xapuri. Apesar do subterfúgio que era me esconder das moças, minhas amigas do colégio, que transitavam pela cidade e poderiam me reconhecer com a camisa amarrada à cabeça, foi também um tempo de bastante aprendizado ao lado de figuras como o Aurélio da Maria de Belém, o Antônio Maria, o Fernando Rasteireiro, o Célio Tigurão, o João Uchôa, o Edgar Mão de Pilão e o Estêvão da Dona Amélia. Joias raras da coroa da cidade princesa. Pois, então. Em menino, via o sol brandir meio dia em ponto e uns moleques de famílias abastadas misturados a uns outros um tanto desfavorecidos, mais ou menos da minha idade, ficavam a empinar papagaio no meio da rua ou nos espaços urbanos entre o grupo escolar e a igreja. Era mesmo assim, minha senhora. Lá havia as famosas guerras de pipas no céu, tal e qual é descrito na poesia do Chico Buarque. E, como em qualquer área da experiência humana na terra, aí também se destacavam talentos natos na arte de ficar de cara para o sol tentando cortar a linha das pipas um do outro. De novo, eu cá da janela do meu observatório, agora instalado na Rua Vinte e Quatro de Janeiro, ficava a analisar os truques e manhas e trejeitos dos craques cujas almas voavam nos céus através dos seus sonhos de moleques de futuro. Lembro um melhor que o outro, como o já citado Cadite, o Mirim, o Luís Carlos Simão, o Bainha, o Tufizi-nho, dentre muitos. Boas lembranças estas, meus amigos! Que Deus lhes abençoe onde quer que estejam. Eu aprendia tudo, na teoria, uma vez que, na prática, nunca consegui levantar um papagaio, jamais joguei peteca bolinha de gude, não derrubei sequer uma manga porque não acertava pedradas, apesar das dezenas de mangueiras e apesar de estes frutos amadurecerem em profusão na época no início do inverno. Estrategista de dar gosto à minha mãe, não fui craque de futebol porque a escola deveria ser levada a sério porque a escola forma para a vida e a vida deve também ser levada muito a sério. Era esta uma das máximas e a filosofia dela, da Dona Nenen do Seu Gibiri. - É preciso caprichar em tudo, meu rapaz! - Eram as palavras de mamãe desde muito cedo da minha vida, até por último, quando o dia dela se fez noite escura, depois de oitenta e quatro voltas ao redor do sol de Deus. Já aos doze, quase um adulto, pela manhã, ia ganhar alguns trocados, mas também estava em busca de uma profissão. Trabalhei ou fui aprendiz do moveleiro mais exímio de Xapuri, o Elias Monteiro Luz, codinome Breque. Aprendi, principalmente, a manusear ferramentas de marceneiro que hoje não mais existem, como o grami-nho, a galopa, o sargento, a torquês, a serra de volta e o arco de pua. Ajudei o bom homem a fazer os caixões nos quais enterramos homens e mulheres de muita eminência da minha cidade. Muitos foram diretos para o céu. Outros, nem tanto. Aos domingos, na missa das crianças, às nove da manhã, lá estávamos nós, eu e os meus irmãos mais velhos e também os mais novos que sempre acreditaram nas obras da Divina Providência. De início, pouco entendia do riscado, uma vez que a Santa Missa era rezada em latim. Ave Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventri tui, Iesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen. O Padre Carlos Maria Zuchinni mandava muito bem, mas eu tinha uns cinco anos e não manjava patavina. Só depois é que estudei latim, na Ufac, e consegui entender as idas e vindas do genitivo, do possessivo e do ablativo da língua dos romanos da era clássica da Humanidade. Com as bênçãos da avó cearense iracunda, pertencente à Congregação de Nossa Senhora das Dores, aquelas mulheres que portavam uma fita roxa ao pescoço, tornei-me, enfim, um sacristão de brilho um tanto opaco cujo currículo não foi dos mais brilhantes posto que, apesar de uns quatro anos no ofício, poucas vezes cheguei ao posto máximo da ordem cuja função mais importante entre os nossos era balançar o badalo ou a campainha do Padre José na hora do Santíssimo. Também, pudera! Havia um garoto, quase um rapaz, que quase levava para casa o instrumento de fazer o barulho divinal da Consagração. Era o Tião da Dona Oneide, um quase irmão nosso que se preocupava muito mais em vigiar o badalo ou dar cascudos nos menores que mesmo com alguma outra coisa que tivesse a ver com os preceitos dogmáticos da Santa Madre Igreja. E por aí a vida foi sendo tocada de barriga cheia, porque o estivador lá de casa, além do grande pai que foi, era ainda um competente caçador .
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 03h30
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CRÔNICA
Amizades e outras tretas Fiquei em desconforto quando um bom homem sugeriu que talvez eu devesse pedir o favor de uma quase carona a um outro cidadão; este, um obreiro laureado que, naquele tempo, se fizera muito importante através de eleições majoritárias.
Cá, na vivenda da Rua Felicidade, houvera nascido um par de filhos belos e a minha pindaíba era tamanha, e até evidente, mesmo porque, depois das vantagens e bolsas das pós-graduações, o salário quase derretera igual vela ao vento noturno. Desde então, tenho pensado muito no que um dia me disse Montesquieu, o Barão, segundo quem, se eu faço uma amizade estilo pipoca, é como se celebro um contrato no qual me comprometo a prestar pequenos benefícios para que me retribuam com grandes favores. Descobri, pois, não ser ou jamais ter sido tão calhorda. Enfim... Um dia, sim, lá em casa, a poeira da decadência baixou e os ventos da bonança começaram a rugir como o leão que não comeu Daniel, o da Bíblia. De novo, a mão de Deus. Conheci - também numa nesga do tempo sujo e amarfanhado - um sujeito que distribuía sorrisos amáveis a partir de olhos pequeninos e de uma boca em que os dentes se acotovelavam à procura de lugar. Tinha um rosto afilado, magro e mortiço, cabelos grisalhos e untuosos grudados às têmporas, olhos de tartaruga e lábios delgados e arroxeados. Ele se fez prefeito do nosso sertãozinho aquiri, colocou um primo e um cunhado - rudes e ladrões! - em posições estratégicas da tal administração e hoje está na cadeia, sozinho, meditabundo, abandonado, como um cão sarnento aos sessenta e poucos outonos frios e nebulosos. Fiz visita ao indigitado ex-prefeito, a fim de obter dele algumas impressões acerca do que significa confiar em gente tão próxima, bem mais que meros amigos... Não me recebeu, porque, antes, ali havia estado um outro parente e, segundo o agente penitenciário, ele disse tantas palavras de lupanar, e com tanta ferocidade, que só se pode descrever como um novo talento da pornografia ou da tragicomédia nacional. Foi por este tempo cansado de tantas guerras religiosas que também acabei visitando velhos amigos, como o Maquiavel, o Locke, o Popper, o Adorno e o Francisco Ferraz. Em conversa braba de homens de seis tempos, acabei aprendendo que há um bom bocado de restrições ao modo comum de fazer amizades. Daí até chegar lá, foi apenas um pulinho de nada. Observei que as ambições desmedidas é que dão o tom da relação com o real ou com o suposto amigo. Em verdade vos digo, caríssima Sheila Carvalho! - que nunca foi a do Tchã. É a ambição do amigo que define muita coisa, inclusive os cargos a serem ocupados nas repartições. É a cobiça que cria as expectativas e que usa os meios ao seu alcance para chegar ao objetivo premeditado. Devo considerar que, de uma forma ou de outra, a escolha do dirigente sempre frustrará expectativas. (O amigo quer sempre mais!) A questão é ainda mais delicada quando se considera que as pessoas que ambicionam os cargos são aliados ou amigos da liderança, aquele novo chefe talvez bem intencionado que um dia supôs está fazendo benefício. E você - novo dirigente! - não pode esquecer o amigo, jamais. Esse esquecimento será sentido como injustiça ou como desvalorização pessoal. Pior é que a oferta de outro cargo também não apagará o desencanto que se instalou. Já era. A tendência é tudo ir a pique porque o chefe imediato também fica numa posição melindrosa. Quanto mais disputado tenha sido o cargo para o qual foi nomeado, maior o preço que o dirigente teve que pagar junto aos aliados e amigos para nomeá-lo. Há sempre o grito dos insatisfeitos atiradores de pedras e de dardos infectados para quem o agraciado é apenas um burrico. Ele não reúne as mínimas condições de ocupar posição tão importante. Coitado do burrico! Cercado de rivais, consciente do custo pago pelo governante para nomeá-lo, ele permanece numa posição incômoda, necessitando, periodicamente, de sinais de reconhecimento do seu valor da parte do chefe para manter-se na posição ambicionada por dezenas de outros súditos. (Muitos desses querem que o tal morra.) Uma tábua de salvação passa a ser a busca de aplausos longe da esfera de poder de quem o nomeou, isto, para diminuir a sua insegurança. Fato é que o perseguido somente conquistará mais segurança e poder se conseguir respaldos externos que tenham o poder de influir junto à liderança. Ora, na medida em que busca reforço político fora da esfera, torna-se sujeito a todo o tipo de desconfiança. Segundo Francisco Ferraz, professor emérito de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nomear, como qualquer gestor sabe, é um ônus político. Muitos governantes encontram enormes dificuldades para compor a sua administração em razão dos escrúpulos e bloqueios pessoais gerados pelo desejo de não se incompatibilizar com os amigos e aliados. Enfim, esta fase acaba por retirar muito da alegria da vitória e do entusiasmo com o momento de glória fugidia. Ademais, não se deve esquecer que há sempre mais amigos junto ao governante eleito, do que junto ao que perdeu a eleição. Pense na Universidade Federal do Acre! Num adendo ao que disse o boníssimo Ferraz, robusto é Maquiavel, mais uma vez, ao afirmar que a nova liderança não deve reforçar o favor da nomeação com afagos financeiros, pecúnias, viagens, gratificações. Em geral, este tipo de comportamento leva o amigo a querer sempre mais. Por isto, não governe, nem gerencie para os amigos porque eles um dia, com certeza, dirão que todo o benefício concedido pelo chefe foi ainda muito pouco porque a sua ambição não tem limites. Pior é que morrerão dizendo que poderiam fazer muito mais aquilo que não sabem, mas o destino e a incongruência o atrapalharam. Os amigos da ambição hão de sempre concordar com o chefe, mesmo que no seu interior discordem. Eles têm sempre os seus projetos pessoais que, na maioria das vezes, seguem rotas diferentes, quando não opostas aos da organização. Eles sempre exigirão uma quota extra de tolerância com erros; e isto o dirigente não teria se as pessoas tivessem sido escolhidas em função da qualificação pessoal. Finalmente, aquele que por ventura vier a exercer a alta função - o indivíduo que deve a sua nomeação aos laços de amizade pipoca - não se sente agradecido pelo ato. O chefe fez o que devia fazer, segundo ele. A satisfação inicial é logo substituí-da por sentimentos negativos que, pouco a pouco, vão crescendo junto ao fígado e à bílis. O favor que o dirigente lhe fez torna-se opressivo. A autoestima fica atingida: você o nomeou porque ele é um amigo, não porque você achava que ele merecia por seus méritos próprios. Ferraz chama este fator de a rota da ingratidão. Então, a relação entre o líder e o dono da ambição vai se tornando mais distante, desconfianças são frequentes e, quanto mais consideração o dirigente tiver com ele, quanto mais gestos de amizade fizer, menos gratidão e reconhecimento receberá. É paradoxal, mas é real. Ferraz empresta-nos um aconselhamento supimpa segundo o qual o dirigente não tem tantos amigos quanto imagina, nem eles são tão fiéis. Por isto, é conveniente governar com os mais capazes, sejam amigos ou não, e não se perturbe com a insatisfação dos chegados. Guarde-os para as situações de amizade pessoal e governe com os competentes. Aí, então, arranhando a realidade com os cacos do meu cantil seco torrado de tanta sede, passo a ver lá no horizonte das relações estilo pipoca que, por mais que o encanto da novidade se oponha aos velhos hábitos, sempre algo nos impedirá igualmente de ver os defeitos dos nossos chegados. O novato pode até ser bom, mas o velho amigo cheio de vícios tem uma palmadinha nas costas que encanta, e todos sabem que ele jamais conseguirá fazer aquilo que nunca aprendeu. Grande sacada!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 20h29
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CRÔNICABom dia!Realmente, alguma emoção se foi de mim em vista da idade da razão que se apodera da alma e me chega já tão sorrateiramente. Em verdade vos digo que o tempo se torna cada vez mais curto para cada um a cada dia que Deus tão generosamente nos concede. Todavia, não contenho as lágrimas quando observo que, na minha caixa de entrada, ou no meu facebook, há pessoas que falam coisas tão boas ao meu respeito. É que outras emoções substituem as primeiras dos tempos juvenis. Fico contente porque há um bocado de gente boa que diz ou escreve coisas de emocionar, como nas palavras a seguir. Talvez elas fiquem felizes com o que aqui vai. Talvez eu também fique rejubilado, digamos assim.  - Estimado Professor. Fico feliz em receber a sua crônica sobre Xapuri. A propósito, sempre leio atenta a sua coluna no jornal A Gazeta. Encanta-me e emociona muito a forma poética como escreve e trata os valores da nossa terra, em especial de Xapuri. E digo a mim mesma, de forma um tanto redundante: nem tudo está perdido, pois ainda existe quem escreve, fala e reaviva os valores tão caros a nós acrea-nos. Creio que conheço o Anselmo, pois há algum tempo fiz um voo e ele, o comandante, se apresentou, humilde, falou que era do Acre e, ao sair, eu o cumprimentei realçando o nosso orgulho. Continue a escrever e a falar da nossa história, de valores e pessoas com luz própria, frutos da luta. Deus o abençoe poderosamente e aos seus familiares, com paz e saúde. Com a estima de Eva Evangelista. (Desembargadora do Tribunal de Justiça do Acre.)
- Meu caro coestaduano maiúsculo. Textos com este nos alagam de orgulho. O melhor quadro reproduzindo aqueles momentos que compartilhamos. Muito bom. Vou enviá-lo para outros xapurienses. Saudações, Jairo Salim. - Salve, parceiro! Gostei do texto e concordo com ele. Temos tatuado em nosso DNA o princípio inarredável da omissão. E o resíduo da omissão é a ignorância. A nossa autonomia é subordinada, infelizmente. E todas as conexões associadas à cidadania ficam comprometidas. Porque não há cidadania sem autonomia e não há autonomia sem educação. Falei sobre isto ontem, em meu discurso como paraninfo da turma de Engenharia, aqui da USP. Parabéns!... E manda brasa. Jairo Salim. (Diretor do Curso de Engenharia Civil na USP, campus de Ilha Solteira). - Já as emoções rarefeitas? Que mentirinha... Prezado Cláudio. Sou sua leitora assídua e admiro, sobremaneira, seus textos deliciosos. Este de domingo, em especial, porque singelamente fui colocada no rol das grandes divas. Você é muito bonzinho... Mas discordo de que as suas emoções estejam rarefeitas, modificadas que foram pelo passar dos anos. Não mesmo! Você é um ser espiritual, emocional, dotado de extrema sensibilidade e capaz de, através das palavras, nos fazer reviver, relembrar, sentir tempos e fatos que somente os dotados de alma privilegiada conseguem tornar real. Não acredito que as suas emoções estejam rarefeitas, qual luz de vela ao vento. Não creio que seja hoje mais razão que emoção, que não seja mais paixão, mas aquele fogo que nos leva a fantasiar o simples raiar do sol, a luz do luar... Você é puri sentido, é pura emoção, é aquele que conduz nossas almas aos sonhos! Não negue a sua condição de único e continue a nos brindar com palavras tão mágicas, evocando boas e gratas lembranças. Um abraço da sempre amiga Lucilia Parra. (Professora dos tempos de graduação em Letras.) - José Cláudio. Tenho lido as suas crônicas, quando me manda. Continua escritor de primeira, pleno de boa prosa e bom verso. Espero que também ainda continue a vislumbrar a utopia da revolução. Um grande abraço do Zézo. (Zézo é José Claudinei Lombardi e foi o orientador do meu Doutorado na Unicamp.) - Meu querido Cláudio. A sua ideia de enviar a suas crônicas por e-mail é excelente, rapaz! Soube que você estava em Xapuri, mas não tive a sorte de encontrá-lo por lá. Um grande abraço. Francisco Barquet. (Funcionário do Zoobotânico da Ufac.) - Seu texto é um primor! Com sua-vidade, acaricia, enobrece e nos mostra como se deve conquistar e alimentar o amor às nossas mulheres, sobretudo as que sentem o nosso hálito, compartilham as nossas vitórias, as nossas derrotas, as nossas lágrimas, os nossos sorrisos, dando sentido à nossa vida. Parabéns a todas elas, e a você, notável escritor! - Amigo José Cláudio. É um prazer muito grande contactar com você. Parabéns por este seu dote literário e jornalístico. Sempre que posso, leio as suas crônicas. Da de domingo passado, então, gostei bastante. Nilce manda um forte abraço a você e a toda a sua prole. Estamos de férias aqui em Floripa. Bela cidade e com um ótimo clima. João Mendes. (Proprietário da Pousada Chapurys.) - Bom dia! Grande José Claudio Mota Porfiro. Meu nome é Eddyr, sou do Rio de Janeiro e já há algum tempo leio esse maravilhoso Jornal Página 20, em que a sua pessoa brilha como cronista. Venho por meio desta pedir autorização para poder publicar suas crônicas na página de meu grupo de troca de mensagens, na internet, de nome A arca do escreve o que quiser III. Ficarei muito grato se for atendido por sua pessoa. Faço saber que gostei muito das outras matérias além desta da qual lhe peço tal autorização. Desejo-lhe muita paz e estou salvando seu blog em meus favoritos para que possa acompanhar vossas obras a cada instante dos meus momentos. Abraço grande do Guerreiro Eddyr. - Sou um leitor seu e, sempre que encontro algo escrito por você, viajo também para aqueles bons tempos da terrinha, como você sempre menciona a nossa querida Xapuri. Conheci você ainda adolescente. Fui músico contemporâneo do Beleza, Magão, Almir, Guilherme, Cardozinho, Tatu, Cadite, e outros grandes intérpretes da nossa música, que lá ainda residem. Lembro muito bem dessa e de outras presepadas sadias improvisadas pelo meu amigo Zé Edmilson, que era também um tocador de viola e escritor. Um grande abraço e estamos aqui em Brasiléia ao seu inteiro dispor. Duplanir. (No futebol, ele era goleiro titular e eu o reserva, no Paissandu de Xapuri, anos 1970.) - Zé. Posso está enganado, mas acho que assisti a esse jogo. Nas minhas lembranças de infância em Xapuri, o futebol do domingo está sempre presente, principalmente, quando lembro o meu avô Guilherme Ferreira, o Guilhermão. Torcedor roxo do América. Sempre ia depois do almoço de domingo filar mil do vô para ir ao futebol. Grande abraço, Carlos Estevão. (Professor do Curso de Economia da Ufac.) - Zé Cláudio. Talvez você não se lembre de mim. Nós nos conhecemos pessoalmente lá no chapéu de palha do Julinho, em Xapuri, há alguns meses. Queria lhe dizer que gostei muito do relato dessa sua aventura no mundo do velho, bom e saudoso futebol xapuriense, e tomei a liberdade de publicá-la no meu blog, onde, mesmo estando longe de possuir a sua maestria com as palavras, procuro repercutir com os nossos conterrâneos os fatos do cotidiano da nossa cidade. Um grande abraço! Raimari Cardoso. (Editor do blog Xapuri Agora!) - Oi! Adoro mitologia! A bela forma de unir a poesia e a mitologia resultou na sua poesia! Está de parabéns! Beijos. Natacha. - Oi, ex-professor! KKKKK. Estive lendo suas crônicas e adorei! Sabe! Estamos precisando dessas verdades que esse humilde professor as ditou. Parabéns! Tenho orgulho de falar que já fui sua aluna e que com você aprendi muitas coisas e continuo aprendendo. Fique com Deus! Natacha. - Muito legal esse ping-pong contigo mesmo no teu texto Filigranas. Consegue prender a gente. Parabéns, Porfiro. Sabia que o Sérgio Souto é teu fã? Falou isso pra mim ainda ontem e disse que quer tomar umas contigo aí em Rio Branco. Disse pra ele ir ao Bar do Bigode. Ele vai lançar seu novo CD este mês, no Acre. Francisco Braga, cartunista. - Claudio Achei belíssimo esse texto. Ele nos permite uma verdadeira viagem aos tempos áureos do Acre. Nomes importantes da nossa história, que hoje são lembrados por identificar ruas e avenidas, mas não sabemos o porquê, são relatados aqui. Isso é um resgate da nossa história, das nossas raízes. Parabéns pelo texto. Muito bem escrito. Abraços! Jailene. (Prima por parte dos Porfiros) - Nossa! Gostei muito do que li. Quem não lhe conhece não acredita. És bem diferente no profissional. Muito bem rapaz! Adorei o que acabei de ler. Grande abraço. Kaká Cisoto. (Ex-aluna no ensino médio.) - A terra natal sempre é um enigma, como quase tudo, quando se é vivo. Lembro quase tudo do que você se refere. Divina Providência! Acho que, quando estudei lá, já estava quase de ponta cabeça. Mas ainda era comandado pela professora Bárbara Vieira de Santana. A última vez em que ouvi falar dela, estava lidando com dependentes químicos em algum lugar das Minas Gerais, Barbacena, parece-me. Em relação às outras pessoas de quem você fala, de algumas tenho ideia de quem se trata e outras, nem tanto. A professora Euri, sim. O Raimundão, sim. O Prof. Carlos Estevão, sim. Éden Barros Mota; acho que o conheci quando ele era garoto de bola. Thales Menezes, não sei. Wagner Bacelar, sei quem é. Entretanto, fuçando a net, atravessei vosso blog... E foi bom para matar a saudade de Xapuri, de Rio Branco, do Acre. José Porfírio da Silva. (Professor de Economia da Ufac. )
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h57
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ARTIGO
A extorsão legalizada ou a ladroagem institucionalizada É preciso, antes, deixar claro que o mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam, mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram. Por tudo o que for escrito nas linhas abaixo, também eu devo ser responsabilizado, sim, porque nem sempre tenho emprestado o meu voto a pessoas de bem, aos que realmente realizam a defesa dos direitos do povo. Boa parte dos sanguessugas de Brasília se acovarda ou esquece a finalidade daquilo que deveria ser o seu trabalho.Tenho, ao longo dos anos, percebido que aqueles que se auto proclamam agentes da defesa dos direitos do povo, especificamente os que compõem o parlamento brasileiro - uns talvez inadvertidamente, por burrice até - a partir do momento em que passam a praticar o mal, este passa a surgir como uma espécie de dever de ofício. A maioria deles tem uma forma de obrigação para com a prática de certas coisas ruins.Bondosas senhoras. No Brasil, o que vem para prejuízo do povo é logo aprovado no Congresso Nacional, uma vez que a superior maioria dos nossos parlamentares sequer entende no que ou em quem está votando. Os que sabem a respeito do que estão votando aliam-se ao que ditam os dirigentes maiores e passam a ver o mundo sob a ótica dos que gostam apenas de subtrair o dinheiro de quem já não o tem. Já não basta o imposto de renda que me agride e leva nacos bem generosos das minhas economias em prejuízo da sobrevivência normal da família segundo o que ganho, que não é real, é fictício, pelo menos em parte. Isto porque todos os meses há sempre um ladrão-leão-filantropo-pastor com os olhos postos nas minhas finanças organizadas, sim, a partir de esforços pela manhã, à tarde e à noite, trabalhando com afinco.
Insisto. Com o imposto que pago, a educação das minhas crianças poderia ser fomentada pelo governo, mas a qualidade da instrução oficial é de uma mediocridade a toda prova e, por isto, matriculo-as no colégio particular. A assistência à saúde é uma mixórdia e, assim, sou obrigado a pagar um plano de saúde que me adoece só de pensar todos os meses na qualidade do serviço que eles prestam apesar dos altos custos. Devo pagar também o sujeito da motocicleta que passa a cada hora da noite pela frente da minha casa, para que eu não seja assaltado, como se isso valesse alguma coisa. (Experimente dar um telefonema para a Polícia e hás de ver que a chegada dos homens da lei ocorrerá daí a cinco ou seis dias.)
É essa turminha da extorsão legalizada, agentes do executivo e do legislativo, que ilude o povo todos os dias, dizendo, inclusive, agora por último, que baixou o preço da energia elétrica quando, na verdade - na surdina - aumentou o preço do combustível... E o prejuízo ficará ainda maior se tudo for colocado no papel. Sacanagem demais. Agora, eles também maquiam uma baixa de preços na cesta básica, ao mesmo tempo em que aumentam os preços dos remédios. Um insulto aos mais inteligentes como eu, ou como o pé de mamão do fundo do meu quintal.
Apreciemos, então, como ficou a última tabela do imposto de renda. O número dos que recebem devolução foi reduzido drasticamente porque, por exemplo, dinheiro gasto com remédio não entra nos cômputos do que é gasto com a saúde. Qual foi o deputado que notou merda deste tamanho? Nenhum. O leão agora come não apenas o filé que já não existe no meu derriére, mas enche a barriga com as tripas arrancadas destes pagadores de impostos abandonados e sem defesa por uma classe política nefasta e arredia aos interesses dos que financiam o desenvolvimento nacional.
Alguém mais esperto já notou que as dívidas do Governo Federal, por exemplo, para com o funcionalismo público - chamadas precató-rios - antes, quando saudadas, eram pagas à vista; mas agora está já quase instituído que o pagamento deverá ser feito em parcelas ao longo de quinze anos. Os da minha geração, certamente, não viverão para ver. É ou não é sacanagem, meu nobre deputado Rufião? Enquanto isso, uns poucos saldadores de impostos já perceberam que o pagamento de fiança, notadamente nos casos de crimes de corrupção, pode chegar à casa dos dez milhões de reais. É a institucionalização do roubo, posto que apenas os detratores do bem público têm dinheiro suficiente para tal empreendimento em favor de si mesmo e das suas viagens pelos cofres nacionais. (Faz-se um desvio de 50 milhões de reais, paga-se uma fiança de 10 milhões e os 40 milhões serão o saldo de um investimento extremamente rentável... Mas quem é o corrupto idiota que quer ganhar só isso?) Por isto, há sempre uma alma insana que envereda no mundo da contravenção penal e do crime. Esse tipo de parasita social está certo de que terá plenas condições de pagar a fiança. Irá ao Uruguai comprar chocolates e, de volta, o seu competente advogado já terá liquidado a caução em juízo, tudo em nome do poder público.
É, senhoras. A classe média financiadora das firulas políticas - tanto da elite quanto da neo-esquerda - já não aguenta mais a embromação de uma gorda maioria de políticos e dirigentes nacionais que dá com uma mão e tira com a outra.
A Lei Seca, então, é mais uma forma de o Estado brasileiro extorquir - roubar mesmo - o cidadão que não pode tomar um copo de vinho, em família, fora de casa, no aniversário da concubina. Aí, o respeitável cidadão será algemado na frente dos seus, irá para a cadeia e, depois, pagará dois mil réis para quem?... Para o poder público, é claro.
Nenhum parlamentar terá coragem de proferir um discurso a partir de um texto como este. Uns porque estão comprometidos com o poder, outros porque não entendem absolutamente o que cá está escrito. Deputados e senadores - com exceções raras - poderiam fazer um estudo mais aprofundado do Código Penal brasileiro de forma a torná-lo mais atual, uma vez que ele data ainda dos anos 40 do século passado. Até fariam, sim, se tivessem inteligência suficiente para tal empreendimento.
Eles veriam que se as penas forem realmente sérias, pesadas mesmo, não haveria a necessidade de formar verdadeiras quadrilhas de policiais quase inocentes que ganham muito pouco, mas trabalham madrugada adentro com a finalidade de extorquir o dinheiro dos menos avisados que se arriscam a um gole de vinagre além do permitido.
Ora, senhores! O cidadão que fosse flagrado, pelo bafômetro, em delito, teria as chaves do carro apreendidas e as teria de volta em vinte e quatro horas após a ocorrência. Mas não é o que ocorre. O Estado brasileiro, dito de direito, prefere arrancar à unha o dinheiro de pessoas que tomam uma cerveja a mais, mas voltam para casa a quarenta quilômetros horários, isto, com o fito de não prejudicar ninguém.
Meditemos, pois. O inocente guardinha manda parar o agora marginal (eu) e nota algo de anormal na voz, no andar, nos olhos. Ele, como a não querer prejudicar, ou como a não querer apenas extorquir o meu dinheiro, bem poderia consultar o sistema contran, ali mesmo, para benefício daqueles que bebem e não espalham o terror em via pública. Bastaria puxar a folha corrida do suposto infrator e lá observar que há muitos e muitos anos o cidadão de cinquenta ou mais primaveras deixou de causar problemas no trânsito. Façam a pesquisa e verão que noventa e cinco por cento dos provocadores dos acidentes não são os mais velhos.
Alguém pensou nisso? Não. Ninguém pensou nisso porque ninguém é pago para pensar em porra nenhuma, muito menos em favor dos pagadores de impostos que sustentam a pouca vergonha nacional.
É claro que eu não sou a favor dos bêbados ao volante. Mas daí a soçobrar o direito de ir e vir de quem anda devagar porque já teve pressa, é sacanagem. É o roubo praticado por um sistema que diz trazer benesses sociais ao povo quando, na verdade, só sabe extorquir das formas mais vis e sacanas possíveis. Ademais, observemos um dado a mais: a economia que gira em torno dos negócios noturnos, bares, restaurantes e similares, está prejudicada porque a liberdade de ir e vir foi tolhida pelo poder público que quer apenas engordar contas bancárias aqui e outras acolá.
Pior é que poucos reclamam ante tanta incoerência. Um que se indigna é visto como o indivíduo que quer levar os demais ao estado de baderna. É preciso reagir, certamente. Todavia, os donos do poder já têm percebido, infelizmente, que aquele que não dá pela falta da coisa furtada é porque não foi roubado em nada.
Eu desafio um parlamentar que, em Brasília, tenha coragem de fazer deste texto um discurso em plenário. Homem ainda existe. Macho é que é difícil.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h16
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CRÔNICA
A doce arte de compreender as mulheres
Para Ana Shirley, Cris Boaventura, Ducélia Mota, Euri Figueiredo, Eva Evangelista, Filomena Cruz, Francisca Freitas, Ivete Martinello, Ivone Moraes, Isla Souza, Kárytha Crystyny, Lucília Parra, Mel Santos, Nabiha Bestene, Nete Motta, Regina Lino, Sheila Carvalho, Simone Oliveira, Socorro Jorge, Socorro Mendonça, Socorro Mota, Socorro Muniz, Socorro Sousa, Tia Madalena ...
Por aí, têm dito das mulheres algumas poucas e boas. Eu prefiro dizer uns dentre os muitos sonolentos versos meus que lembram o papel desempenhado nesta vida vivaz por uma dúzia delas, desde a que me pariu, àquela que me ensinou as primeiras letras, passando por umas tantas que a mim só fizeram o bem, e bem feito, como esta sócia no empreendimento de fazer e criar crianças bonitas. Salve-nos Deus! A caminho de perceber a vida na sua plenitude, tenho parado em estações em que o velho trem já não apenas atravessa o pantanal, mas ainda se locomove, mesmo devagarinho, e já pensa, ouve o próprio apito e até dá conselhos que quase me põem no céu antes de chegada a hora. Em curvas da ferrovia ou em dobras de vetustas esquinas, embalado por maquinista jovial e bela, vejo que a maturidade traz certezas avassaladoras, como aquela segundo a qual há homens cuja grande característica é o desagrado, inclusive para com as mulheres. Uma pena! É bom lembrar sempre o poetinha da fidelidade, Vinícius de Moraes - como eu, como quase todos aqueles que todos os dias recitam ou cantam versos e melodias dele, como se estivessem ou vivessem eternamente pensando que... Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, eu vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar, [...] e cada verso meu será pra te dizer que eu sei que vou te amar por toda a minha vida... Puxar a cadeira para a dama que ali representa o belo sexo é bem pouco, segundo penso. Abrir a porta do carro para a sua saída fotográfica não significa muito. Ajoelhar-se aos pés dela nunca foi dignificante ou aceitável, mesmo para os que delas pedem as desculpas e perdões mais legítimos ou esdrúxulos. Bom mesmo é ser fiel, como o poetinha, porque ser fiel é ser livre para viver só para o seu amor, sem nenhuma outra preocupação, por mais que os olhos e o pescoço teimem em acompanhar a curva de qualquer estrada sinuosa que passa bem aqui. O poetinha aconselha o aprendizado das artes da cozinha, preferencialmente, da melhor forma, mesmo com pouco talento, mas através daqueles cursos de arte culinária que transmitem as mágicas e os segredos que misturam ingredientes e temperos e têm como resultado aquelas poções maravilhosas dignas dos alquimistas de outra época. Dar flores empresta lirismo à alma feminina. Joias de certo preço, perfumes suaves e roupas íntimas podem dizer mais que um poema manjado recitado pela alma arredia de um homem insensível e levemente rude. E o que mais... Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor. Os homens mais inteligentes têm a certeza da existência do amor verdadeiro - com A maior - e não se encarregam de ensinar os seus filhos machos a mentirem desde a mais tenra idade com a finalidade única de enganar, de início, apenas às mulheres e, depois, à humanidade inteira nada santa e em tudo pecaminosa desde a fase mais embrionária do pecado original. Adão teria pensamentos desse quilate? Não duvide, minha senhora! Há um simbolismo danado de piegas, mas o certo é que ele foi, sim, apenas o primeiro pecador e não o único mentiroso. Viajemos nós, então, para as Sagradas Escrituras ou para as Sacadas Estruturas, como bem vós entenderdes. Em verdade vos digo que Adão foi extremamente contraditório quando o pau quebrou. Ao primeiro olhar inquisidor do Altíssimo, sem nenhuma pergunta ainda, ele afrouxou e foi logo dizendo: - A mulher que me deste por esposa, foi ela quem me deu o fruto da árvore e eu comi. - Está no Gênesis. Ele delata Eva e, por extensão, também joga culpa em Deus: - Senhor! Eu não te pedi nada. Estava até dormindo. - Gênesis, 3:12. Adão joga a responsabilidade em Deus que havia criado a primeira mulher, a causa da sua improbidade. Ele foi malandro, sutil, incoerente e irresponsável. Cara de pau! Fica aí registrado o primeiro momento da história em que observamos o quanto o homem é frouxo e a mulher muito mais sincera. Como se desse crédito ao argumento de Adão, Deus se volta para Eva e lhe faz indagação perspicaz, tipo delegado de polícia dos bons: - Que é isto que fizeste? - (Caprichemos no tom. Trata-se de Deus!) De Eva, o Divino ouviu toda a sinceridade: - Senhor! A serpente me enganou e eu comi. A serpente era o diabo matreiro, escorregadio, ardiloso, sacana; e Eva, humana, com todos os defeitos, é claro, caiu na presepada. Datam daí, senhoras, os méritos da mulher. E que lambança essa do Adão, hein! Por conta dele, ainda hoje carregamos toda a culpa do mundo simbolizada pelo pecado original. Deus poderia ter sido mais brando, certamente, não fosse o primeiro homem um delator safado. Bem pior é que nós continuamos jogando toda a treta na mulher até hoje. Há ainda os imbecis que culpam as consortes até pelo fato de estas terem concebido. Outros se enroscam em camas fétidas extraconjugais e por aí dizem que a culpa é da casta esposa porque ela não quer dar em casa. Dia desses, então, aniversário. Resolvi mandar flores. Ela gostou, apesar de não está nos melhores dias, aqueles em que as tensões pré-isso-pré-aquilo-pré-aquilo-outro ficam mais rígidas, em vista das peculiaridades femininas. Experiência ímpar. Repetirei outras vezes. Rosas brancas. Em viagem por aí, um amigo me disse que a sua cara metade gosta mais de cheques ou de recibos de depósitos bancários. Não liguei. Não acredito. É pura bazófia. Intriga dos que não sabem ou ainda não descobriram ou disseram a que vieram cá para o reino delas e, por acaso, nosso também, com amor e carinho deste sempre, sempre teu... Não satisfeito, fui à cata da alma feminina, da essência. Queria vê-la por dentro, não como o cirurgião, mas como o humanista apaixonado que se interessa por todas as belezas que fluem do humano. O método pedia que buscasse depoimentos bem diferentes uns dos outros, notadamente nas aparências, isto porque jamais colocarei numa pergunta uma vírgula sequer que ao menos queira ventilar a idade do belo sexo, até por uma questão de etiqueta social. De uma romântica de quatro ponto zero em número de primaveras, a querida Mel Santos, anotei que o homem que compartilha as decisões conjugais, os compreensivos, aqueles que se fazem agradáveis e tratam a mulher com cortesia, já quase não existem, mas ainda existem, embora escondidos nos desvãos dos relacionamentos mais verdadeiros e eternamente duradouros. De uma modernista modernosa, Susan Sarandon, de dois ponto nove, ouvi que, para agradar as mulheres, não é necessário a invenção de firulas, nem há fórmulas secretas. Basta ao homem ser inteligente o suficiente para perceber que no amor nunca sobra nada, mas sempre falta alguma coisa. É realista e maduro o depoimento de Pâmela Castro, apesar dos verdes dezoito anos. Segundo ela, na vida, nada é completo. Nunca haverá o homem perfeito. Você terá uma pessoa normal, que te fará bem, mas que te magoará; que te fará rir e que te fará chorar. Todavia, apesar das diferenças e brigas, o amor haverá de permanecer. Nós, mulheres, não buscamos o homem perfeito e sim o amor verdadeiro. Legal, né? Captei a alma de três belas mulheres que, pelo visto, não sabem apenas dizer sim, como quer o Vinícius. Elas podem ficar magoadas e retrucarão prontamente. De tudo, é preciso ver que o amor feminino deve ser conservado aceso pelo tato do homem amado. Se assim não for, não será por insuficiência dela, mas por incompetência do indivíduo nada arrojado que um dia decidiu por cortejá-la. Ah, a estupidez! Veja lá o que vai fazer, ó criatura sem cintura! Ame-a apenas, antes e primeiro que tudo .
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h23
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ARTIGO
O principado ao sopé dos Andes Ai do vento se ali não fizer a curva. Vire brasa o céu se ali não cair a chuva. Toquem as trombetas porque um povo se agiganta. Desembainhem as espadas porque a luta será tanta, que o inimigo há de clamar por misericórdia. Eu sou Zé e Zé não é um só nem é tanto, é breu, cajá e paxiúba, canjica doce, feijão gurgutuba, paçoca e mugunzá. Sou um, sou dois, sou cem, sou metade do mundo e ninguém, nem queira me perguntar. Sou cabra de Xapuri, machado, maxixe, maduro e doce, no pipoco da bala ou no arranco da foice, dependurado nos sonhos meus... E tudo pode voltar a acontecer, como aconteceu outrora, quando conquistamos todos os louros buscados pela via do destemor... É preciso ter coragem, sim. E hoje ou amanhã, se for o caso, e por assim dizer, ainda poderemos voltar a lutar bravamente, com a mesma energia, sem recuar, sem cair, sem temer, como nos versos do Chico Mangabeira.
Xapuri é mesmo assim. Uma luz própria levemente ilumina as cabeças de todos e de cada um que um dia a graça de Deus houve por bem fazer nascer ali. É esse mesmo farol, de tamanho gigantesco que, além de fazer cintilar os filhos seus, deixa extasiados visitantes que sentem energias significativamente positivas no ar respirado a qualquer hora do dia ou da noite. Estrangeiros de outra origem, asiáticos e europeus, inclusive, sentem tais eflúvios e falam de uma certa bem aventurança que é derramada dos céus. Muito embora alguns dentre os rudes tentem obscurecer a essência do mito, em ali estando, muitos se sentem como se estivessem em Santiago de Compostela. Voei, então, do aeroporto de Dumont ao Acre. Depois, a bordo do meu bólido japonês, no outro dia, às dez, já estava em Xapuri, para vivenciar com os conterrâneos os festejos alusivos ao Dia do Padroeiro, São Sebastião. Este é sempre um encontro marcadamente feliz de gente que já não se vê há dez ou mais anos. Como membro de uma das famílias pioneiras da terra, sigo de uma para outra reunião, em casa de amigos de tempos já distantes. Tais encontros são, invariavelmente, regados a cerveja e a muitas recordações dos tempos idos da Princesinha do Acre. (Do contrário, eu nem iria!) - Ô povo metido a besta! - É o que me diz um visitante da capital. - Pior é que eles se vangloriam, mas não mentem. Na véspera, dezenove, estive por todo o dia a participar de um convescote com uma turma supimpa na residência de Tia Deise Salim Pinheiro de Lima, sob a batuta de um virtuse das artes do violão dedilhado e jamais batido, o Dircinei. Para o almoço, começaram a chegar as celebridades das terras da princesa. Primeiro, fui cumprimentado pelo Regente da Banda de Música Municipal de Osasco, São Paulo, de nome Adalcimar. Este, quando garoto, foi escoteiro da tropa em que eu era monitor. A mãe gostava de promover bailes de forró, ambiente esse que fez surgir no garoto os pendores que o tornaram um dos grandes maestros do Brasil. - Cláudio, meu amigo! Eu sai daqui para tocar na Banda do Quarto BIS. Depois, passei a tocar na Banda da PM do Acre. Um dia, resolvi fazer curso superior de música em São Paulo. Notaram em mim algum talento e, devagarzinho, fui conseguindo os espaços até que cheguei à batuta. No dia anterior, ele e mais dezesseis músicos de São Paulo, catorze do nosso batalhão do Exército e doze da PM do Acre haviam feito um concerto ao ar livre para uma multidão que se reuniu no largo da Igreja Matriz. Foi aí que um raio de emoção me fez chorar a alma. O Raimundo Domingos, o Boy para os íntimos, ao violão, foi para a frente daquele grande número de músicos perfeccionistas e cantou Esse cara sou eu, aquela do Roberto Carlos. Nunca tinha visto aplausos tão demorados em terras do Acre. Aqui só se aplaude quando o artista realmente agrada. E foi o que aconteceu. - Boy! Quando olhei pra trás e vi aquele monte de músicos me acompanhando, eu tremi as pernas, mas fui em frente. - Foram palavras do violonista excêntrico e apaixonado, também nascido em Xapuri. Voltando ao convescote diurno na casa de Tia Deise, alguém me apresentou: - Este é o Anselmo, um garoto nascido por aqui, originário dos barrancos do Rio Acre. Ele é piloto de boeings da TAM que voam entre o Rio de Janeiro, Paris e Tóquio. - Caramba, garoto! Onde e como foi que você aprendeu tudo isso? - Foi o que saiu da minha surpresa. - Ora, professor! A vida ensina e a gente coloca uns pingos nos is aqui, ajeita uns esses ali, faz uns arranjos acolá e vai aprendendo tudo, como eu ainda estou a aprender, inclusive a ser humilde, como o senhor, como todos nós de Xapuri. Ao que eu completei: - Você é show! Manda muito bem na teoria e na prática da vida simples tocada em busca de nuvens e de mares e de outros destinos do lado oposto da Terra. Que Deus lhe guie pelos melhores dos céus! O nosso anfitrião é um rapazola de nome Jairo Salim, conhecido meu desde criança - ele - quando eu, de favor, o levava para assistir à matinê no antigo Cine Rialto junto com Joraí, o irmão advogado. De manhãzinha, em Xapuri, claro, ele se postava no portão da vivenda da Rua Floriano Peixoto e começava a tocar cavaquinho, isto, aos oito ou nove de idade. Impressionava. Depois, bem depois, veio morar em Rio Branco e a vida lhe foi dando um presente a cada dia. Tempos mais tarde, passei a me encontrar com ele, sempre no Dia do Padroeiro. Hoje, na Universidade de São Paulo, Campus de Ilha Solteira, chamam-no Jajá, o aguerrido professor doutor, diretor do Departamento de Engenharia Civil já por alguns mandatos. É exatamente este nosso Jajá, dono de uma estrela descomunal, que, num desses dias mais abençoados que os outros, houve por bem enviar o currículum vitae do atual Prefeito de Rio Branco, Marcos Alexandre, seu aluno recém-formado, para análise pelo Governo do Estado do Acre. Ele veio, viu, trabalhou e venceu as eleições com votos que nem nos melhores sonhos ele um dia cogitou obter... Coisa de Deus! Só para dar uma lembradinha, o ícone do ambientalismo moderno, conhecido em todo o planeta Terra, ainda é chamado Chico Mendes, um jovem seringueiro que não cortou seringa porque tinha uma perna menor que a outra e, desse jeito, não conseguia atravessar as pontes de açaizeiro que se interpunham em meio aos caminhos e estradas do Seringal Cachoeira. Em Rio Claro, há um parque ecológico que leva o nome dele. Em Porto Alegre, há uma estância ecológica que também traz o seu nome. Em Campinas, numa praça do centro da cidade, está plantada uma seringueira num grande jardim em homenagem ao ambientalista morto... Pelo Brasil afora, as pessoas mais sensíveis com a causa da ecologia reverenciam Chico Mendes e o mundo quase desolado ainda consegue lhe agradecer. Alguém por aí conheceu o Maestro Zéca Torres? Os meus pais e avós foram vizinhos dele, desde os cueiros, na Rua 24 de Janeiro. O talento musical era tamanho que mesmo hoje, por todo o Brasil, ainda se ouvem os acordes das músicas compostas por ele... Compostas onde? Em Xapuri! Naquele último dezenove de janeiro, lá na terrinha, Tia Deise cantou uma melodia composta pelo velho maestro cujos versos eu copiei em papel amarrotado: Minha princesa do Acre Minha risonha cidade Berço de grandes campanhas Conquista da liberdade. Xapuri, minha terra querida O teu solo é também brasileiro O teu grito de glórias passadas Percorre o Brasil inteiro. Tuas verdejantes florestas Cheias de encantos sem par Quisera aqui nestes versos A tua beleza cantar. Ninguém por aí viu o Océlio de Medeiros? Não. Ele morreu em 2010, não sem antes, depois de toda uma vida nonagenária de textos irônicos contra os mandões do Acre, publicar livros contra a devastação da natureza, bem como, sobre suas vítimas, como Chico Mendes. Ele é o maior cronista acreano de todas as épocas... Nascido em Xapuri. Como dizia outro bom xapuriense, o Jorge Kalume, em outros lugares, tem-se talento, em Xapuri se tem luz própria. Como diz o Jairo Salim, o Jajá, em Xapuri, as mães vão para a maternidade dar à luz com o senso de grandeza e reponsabilidade e voltam para casa com a certeza do dever cumprido. Depois, ainda no convescote ao pé da caramboleira, houveram por bem colocar entre as celebridades e falar o melhor possível de um sujeito confiado que diz por aí tecer as crônicas mais regadas de amor à terra. Bença pai! Bença mãe! Graças a Deus, eu nasci em Xapuri.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 07h15
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Já as emoções rarefeitas Primeiro, fizeram de mim um menino tímido, como hoje ainda sou, embora ninguém acredite, ninguém veja. Viajei, é certo, por mares nunca d’antes navegados e, em viagem, depois dos dez dias fora de casa, sentia saudades da mãe e, à noite, de olhos fechados, a via passar as mãos na cama de modo a fazê-la mais confortável para o meu deleite. Era a emoção viva e pulsante da velha alma infanto-juvenil.
Depois, em palavras bem estudadas, disse poesias que não escrevi, aos ouvidos do belo sexo, ainda que nem estivesse apaixonado. Penso que, a partir de meados da segunda década, fazia esse exercício ilusionista muito mais enquanto ensaio para quando as coisas se fizessem realmente difíceis, como nem sempre foram. Casei de verdade aos trinta ponto cinco, como vovó planejara. Bem feito! Quem mandou se meter a malabarista? Não. As características donjuanes-cas jamais fizeram parte do rol das manias da minha alma sacana. Não iludi, não menti, não trapaceei. Apenas omiti detalhes às vezes um tanto sórdidos, escabrosos, o que quase sempre dá no mesmo, é a mesma coisa. O pecado é grave da mesma forma. Os versos eram abstratos, mas as segundas intenções estavam sempre à flor da pele ou ao redor de uma despercebida vírgula recheada de duplo sentido. Se escorregar, é melhor cair... E fui por aí, vivendo a vida leve e folgazã, uma vez que o soldo republicano o permitia. Ganhava realmente muito bem para um moço de vinte e pouquinhos anos. Inspirava-me, e muito e sempre e tanto, no Vinícius de Moraes, o poetinha da fidelidade. Ademais, o que fiz além de sonhar com as divas do meu tempo - Caroline de Mônaco, Sônia Braga, Brooke Shields, Lucília Parra... - foi a compra de um carro um tanto luxuoso para a minha província e para aqueles tempos de devaneio. Como dizia de mim mesmo à época, fui levando uma vida de pequenos deslizes, crimes mínimos, pecados hediondos, furtos insidiosos em que corações foram arrancados de peitos arfantes e juvenis, aos pulos. No mais, nada demais. Julguei a mim mesmo sempre um inocente que deixava um olho acordado enquanto o outro dormia a sono solto. Passei então a viver pensando que os que têm alma não têm calma. Aí foi que me iniciei no mundo das emoções. Cheio de raça e fímbria desde a medula, matei a pau. Estudei o suficiente para tornar-me, um dia, um homem feliz, um sujeito realizado, em que pese as minhas limitações marcadamente humanas. Fui aprovado em tudo quanto me meti, só não em concurso de beleza, posto que a minha maré nunca esteve pra tanto peixe assim, e Deus achara demais da conta me ofertar além do merecido quinhão. O Divino acertou quando me deu de presente o amplo tirocínio. Certo é que, a ferro e a fogo, gravaram em mim a tatuagem indelével e fria da impetuosidade. Quase me tornei uma máquina programada para ir sempre em frente. Só mais tarde é que deixei de correr atrás, porque já havia alcançado tudo, ou quase tudo. Hoje, de carro, ando a sessenta quilômetros horários no máximo, porque aprecio a paisagem enquanto dirijo e, de quebra, ainda olho para quem me olha da beira da calçada. Nunca se sabe. É ela aos trinta. Vai que cola! Num dos meus dias de adolescente, ainda imberbe, começaram a brotar as primeiras paixões avassaladoras, cáusticas, lacrimejantes, fúteis, como é tão natural entre a maioria dos que têm idade reduzida e pouco aprendizado, muito embora as lágrimas não tenham caído dos olhos, mas molhado quase por completo a alma medonha. Namorei uma mocinha que nunca soube ter sido eu um dia namorado dela. Se soubesse, daria por concluído o namoro. Isso tudo só para dizer a um tio meu que era um principiante cheio de qualidades. Tudo mentira tosca. Só macaquice. Coisa de iniciante. Hoje, a família primeira ainda me dá asas aos sentimentos. É emocionante pensar nas dificuldades passadas e sentidas no decorrer de uma via-gem do sertão do Ceará até o Acre, em busca do pouso seguro e nunca encontrado, feito o pote de ouro. Os ancestrais guerreiros foram heróis que ajudaram a conquistar esses ermos em tempos de Galvez e Plácido. Os pais e os avós são lembrados e têm as suas memórias guardadas, sim, porque este poeta insano e bobo é ainda cronista que traz a história no quengo e faz remendos em vista da memória fotográfica que, com algum exagero, ainda chega aos anos cinquenta, pratrasmente. Ah, os filhos! Eles também ainda me emocionam e não o deixarão jamais. Também me causa algum sentimento ver a fímbria da sócia no empreendimento de fazer crianças. Ela é fera. Parte dela o zelo pelos bens conquistados com esforço. É tarefa que lhe cabe ainda ver preço a preço e a data de vencimento e a consistência e a qualidade de um rol de cem produtos no supermercado todos os meses. Às vezes, como em algumas madrugadas semanais, quando fico a rabiscar garatujas nessa máquina de fazer doido - o computador - bate-me uma boa saudade dos irmãos que ainda estão por aqui para me ajudar a contar as nossas histórias desde a origem nas terras dos xapuris. Tenho, a essas horas silenciosas que nos propicia o sol escondido por trás da Terra, ainda anseios por ouvir relatos encantados dos dois que se foram em busca de outros mundos e de outras glórias superiores às nossas de terráqueos urbanos fúteis e pecaminosos. Outro dia, vi um menino ainda quase menino. Ele ganha a vida esmurrando os outros dentro de um tal octógono e fazendo-os desmaiar, se possível. Dizia o rapazola ao repórter que matara a unha um leão por dia, comera o pão que o diabo amassou, dormira no chão duro e suado de uma academia de pugilistas, morava de favor num cubículo cedido por um amigo quase irmão, foi alvo de muitos favores, mas sempre lutou bravamente para, quem sabe, um dia..., um dia... comprar uma casa bacana para a sua mãe, em Manaus... É o Zé Aldo bom de porrada. Emociona muito porque tudo parece comigo. É medida grande para o meu encantamento humano ver um menino pobre que vence pensando em ajudar os pais. Lembro depois os que não são bem sucedidos, aqueles que não venceram como gostariam, como aquele que queria ser igual ao Pelé, ou aquele que se comparava ao Zico. Estes não têm sequer a oportunidade de contar as suas historinhas de vida acabrunhada... Dá pena. Um dia, já em idade bem madura, escrevi sobre as razões da emoção. Desfiei um rol delas. Talvez até esteja aqui repetindo algumas. Em verdade vos digo que, naquele tempo, eu ainda era pleno de sentimentos e escalava todo o time do Fluminense do Rio. Sabia-o de cor. E agora, José Cláudio? Numa paráfrase ao Drummond, as luzes não se apagaram e, ao contrário, estão bem acesas, mas as emoções se tornam rarefeitas, desde alguns anos. Muito daquilo que me emocionava já não me emociona. Fiquei, parece-me, um tanto áspero com o passar dos tempos e, como as velhas árvores, tenho morrido a partir dos galhos mais altos. É assim que acontece quando a razão começa a tomar o lugar da emoção. O raciocínio pode tornar-se lento, mas fica muito mais eficaz, com certeza. Já não se acredita em gnomos. O sol é um astro apenas com autossuficiência em eletricidade. A lua já não é a namorada dos sonhos, mas o satélite da Terra que jorra uma luz fria e serve para alimentar os sonhos de conquista dos americanos. Tudo é muito claro. Escuros são apenas alguns pensamentos de muitos que sonham com o dia da batalha final entre um coração fantasioso que jamais deixará de pulsar e o outro que para de bater e deixa a matéria a decompor-se e a desaparecer para todo o sempre. Tenho uns amigos que choram e têm insônia quando o Fluminense deixa de ganhar. Eu, de minha parte, já não sofro destes males escabrosos. Tenho filhos para criar. Eles todos querem ser engenheiros e os meus camaradas tricolores querem que eu seja ainda um fanático pelo futebol. Já não o sou. Já não suporto sê-lo, apesar de nutrir as simpatias por este clube tantas vezes campeão. Tento explicar que já não tenho idade espiritual para fanatizar as minhas parcas emoções. Alguns menos inteligentes desaprovam as minhas atitudes racionais por não verem que a idade me fez pensar mais claramente, que alguma leitura de livros aos milhares me fez ver que é de pão, sim, que o homem vive, e não das migalhas que caem das mesas dos mais apaixonados. Na verdade, o Fluminense já é um entusiasmo tênue. Estive lá, na primeira quinzena do janeiro último. Fotografei o irmão apaixonado na sala de troféus e no bar. Voltei muitos anos na minha história de torcedor antes fanático. Mas já não sou o mesmo. Já não respiro o império dos sentidos. Já não me tocam as paixões avassaladoras da primeira idade, embora o tilintar de copos, à noite, ainda me deixe um tanto perplexo ante a visão da vida noturna que se renova a cada bom trovador que ouço na Lapa ou no Paço, em Vila Isabel ou no Point do Pato. Mais um chope à nossa saúde! Viver é bom demais. Ser feliz é melhor ainda .
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h49
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ARTIGO
Grandes tetas, úberes desmesurados! A marca alcançada pela previdência estadual é fruto do trabalho de pessoas que levam à frente um projeto como se fosse a sua única razão de viver. É quase sacerdócio. A esses, Bertold Brecht, o dramaturgo alemão, denomina imprescindíveis. É gente que luta feito caudilho na busca de objetivos e na perseguição de metas. É bom tê-los sempre por perto. As instituições e os poderes constituídos até agradecem, penhoradamente.
Pensemos, entretanto, no imbróglio que é a previdência nacional. Considere-se, é claro, o tamanho do primeiro fator - acreano - se relacionado ao segundo. Mas observemos, principalmente, nuances e situações inimagináveis que geram o gigantismo dos problemas do INSS, levando-se em consideração, ainda, o fato deste analista de meia tigela não ser especialista em nada e muito menos em previdência social. Senão vejamos. Teríamos, nós, grana suficiente para o tratamento desta chaga social chamada desperdício? As grandes tetas estão inchadas porque não suportam a pressão de uma dívida desmesurada que cresce a cada dia. Os úberes racharam porque o leite está pedrado. Vamos, então, aos fatos que pesam mais que as tripas, posto que estas já foram, antes, bem limpas, com cal hidratada até. Aí, dois moços de classe média, há uns vinte ou mais anos, às seis da manhã, no bairro do Educandos, em Manaus, saíram do bangalô em que realizavam festinha e foram comprar basilares numa boca de fumo não tão distante dali. Os pais de um deles haviam viajado para o sul, segundo afirmaram os vizinhos entrevistados pela rádio Riomar. Os bacaninhas não estavam nem aí, como também, não andavam tão saudáveis àquelas horas matinais, tendo em vista a madrugada desvairada entre cheiradas, baforadas e destilados a dar com o pau. E partiram velozes e furiosos no rumo do conhecido desconhecido. Eis que na volta, na curva da Rua Borba, o piloto Mauricinho abriu demais no sentido do meio da pista, mas foi parar do outro lado, debaixo de uma velha caminhonete carregada de farinha. Não tiveram direito nem ao último suspiro. Pescoços quebrados, já sem vida, foram colhidos, aos pedaços, por curiosos e levados para o hospital do Aleixo, em outra picape aberta. Fraturas expostas. Muito sangue tingiu o asfalto novinho em folha. - Uma pena! Coitados deles e dos pais... Tão jovens! - Foi o que disse este humanista aparvalhado ante tanto devaneio e tanta doidice que nos prega a vida. A culpa depois recaiu sobre o Amazonino, prefeito, que, segundo a mãe de uma das vítimas, havia asfaltado e deixado todas as ruas do bairro, e as adjacentes à sua, muito bem urbanizadas, de forma a facilitar as idas e vindas dos moleques à casa do moço que negociava entorpecentes esfumaçados e pó de cheiro venenoso. - Se as ruas ainda estivessem esburacadas, os meninos não teriam morrido. Porque foram colocar tanto asfalto? - Esta foram as palavras de uma matrona de roupas rotas e cabelos desgrenhados que, depois, disse ser tia de uma das vítimas. Nota mais supimpa, no entanto, tirei do comentário fora de contexto feito por um velho marinheiro do Parque Dez, o Alcebíades: - Ora, ora! Olhando pelo único lado bom do evento trágico demais, pelo menos, eles não ficaram hospitalizados, dando prejuízo ao Estado e às pessoas que pagam impostos, mas não andam em motocicletas envenenadas dos pés às cabeças e às rodas. Veja só, minha senhora, a crueza do raciocínio do velho homem do mar. Duro de matar, mesmo. *** Anos setenta em sua segunda metade. Lupicínio das Azeitonas, menino magro, amarelo macilento, pobre feito Jó, tipo ossudo, residente e domiciliado no bairro da Olaria, desta cidade, cheirava tudo o que não devia e - o que é pior - andava numa motinha CB 400 a cento e vinte quilômetros horários, invariavelmente. É claro que ninguém sabia de onde havia saído o dinheiro para a compra do bólido infernal e caríssimo. Um dia, ele não ia em busca de nenhum líquido precioso ou sólido benéfico que lhe servissem de alimento. Saíra de casa, também, à cata de marijuana na vizinha Cadeia Nova. Compraria, ainda, vodca da braba no bar do seu Nicanor. Certo é que o projeto de cidadão inútil findou por cair da moto e foi parar na casa de saúde estatal, àquela época chamada hospital de base. Lascara a perna em três bandas e três pedaços e ficou internado por três meses. Teve tratamento demorado e bem feito às custas dos cidadãos muito menos inquietos - tranquilos, mesmo - que pagam impostos, mas não andam feito doidos em motocicletas compradas com o dinheiro de pequenos ou grandes crimes. Muito pior é que o sacana anda capengando até hoje, mas recebe dinheiro da previdência sem nunca ter contribuído com um tostão furado. E ainda bebe... E fica raivoso quando lhe perguntam porque ainda se mete a comprar bebida fiado... Coisa da peixada tipicamente acreana. *** É outro o cenário. Novo é o personagem. Um senhor de média idade pitava um cigarro em frente ao antigo bar do Ademar, um comerciante cearense estabelecido no Mercado do Bosque. Em suas calças rotas estilo faroeste e camisa puída de malha, o fumador tossia mais que fumava. Numa quinta-feira melada e de céu carregado, o Ademar colocara dez grades de cerveja para dormir. (Como nos bons manuais dos cervejeiros, a bebida só seria tomada na sexta, quando estivesse bem descansada de modo a ficar muito mais gostosa). Terminado o serviço, ainda com o pano sujo da poeira das garrafas nas mãos, ele olhou para o quase defunto e tascou: - Um sujeito malamanhado e lascado como este deveria criar vergonha na cara e parar de fumar. Preste bem atenção. Se eu fosse o dotô Manuel, secretário de Saúde, o faria engolir o cigarro e o mandaria para o hospital. De um cabra assim, a puliça deveria exigir um plano de saúde desses que se paga por toda a vida. Daí, eu diria: fume e morra! Segundo o raciocínio um tanto fascista do meu amigo distinto cearense, se posso garantir o meu tratamento futuro, na velhice, com o meu próprio dinheiro, que eu me dane e fume vinte carteiras de cigarros por dia. O Estado nada terá a ver com isso. Eu viverei como quiser e morrerei por minha própria conta e risco. Dá para considerar, certamente, o ponto de vista do nosso Ademar. É pesado, caótico, mas ponderável. É partindo de tetas tão desmesuradas e de princípios tão fortes como estes que muitos tentam analisar a quebradeira do sistema de previdência nacional. Seria um tanto desumano, sim, mas o Estado não poderia se responsabilizar pelo tratamento da saúde de quem a desperdiça entre baforadas devoradoras e goles de pinga envenenada pelos alquímicos da indústria nacional, por décadas a fio. A Dona Marisa, minha vizinha, pagadora pontual de impostos, por exemplo, não pode ser responsabilizada pela compra dos esparadrapos e pinos usados nas pernas do último herói que caiu da motocicleta fazendo malabarismos em via pública. Eu protesto! Parafraseando mais uma vez o Ademar: quem for podre que se quebre; quem for mole que se aguente. Ou, ainda, tenho a registrar que, em vez de me contentar em ficar molhado até os ossos, eu, cá de minha parte, prefiro pressentir a chuva e correr para abrigo seguro. É mais fácil a vida quando se tenta sempre afastar os riscos. Fica tudo até bem mais barato .
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 18h58
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ARTIGORoupar suja! A memória esguia busca refúgio numa frase judaica antiga segundo a qual um homem corrupto é um indivíduo fraco que perdeu as qualidades do homem equilibrado e justo.
Em qual das órbitas haveremos de estar ou permanecer, então? Essas galáxias tantas já não suportam o peso da alma brasileira arrogante e metida a burguesa. Estamos, certamente, buscando heróis que marcam gols de placa, como o Romário, nas páginas amarelas de certa revista. Mas por que palavras tão bem colocadas não saíram de um monge de nome Pedro Simon? Porque não teriam eco. Nenhuma reverberação haveria em meio à grande mídia, posto que ele é apenas um intelectual que se posta acima da altivez das palavras sempre pomposas e muito bem colocadas em frases de estilo elaborado. Colocações tão contundentes não poderiam sair da têmpera de um ex-jogador de futebol sem berço e sem letra. Mas o Romário vai muito além com o dedo apontado em riste para as nossas coisas e para as cabeças de líderes espertalhões, notadamente, políticos com vínculos com o estado do Rio de Janeiro. Falo-vos de um herói de subúrbio formado nas favelas cariocas, versado em educação física e diplomado num curso de moda da Cidade Maravilhosa. Nascido numa favela, o pai e a mãe trabalharam de sol a sol para poderem lhe oferecer além de comida. A ele foram dadas instrução, educação e consciência crítica. Não apenas jogou futebol. Frequentou ainda dois anos de um curso superior de educação física. E dois de moda. Sim, moda. É que ele sempre gostou muito de roupa boa, de se vestir bem. Queria entender como as roupas eram feitas. Mas isso é o de menos. O que importa é que esta vontade de conhecimento lhe deu preparo para ser uma pessoa consciente, forjada para a vida. É conveniente observar a consistência do Romário, hoje deputado federal, em um discurso, em Brasília: O Brasil só deixará de ser um país atrasado quando a educação for plenamente valorizada. O professor é uma das classes que menos ganha e é a mais importante. O Brasil cria gerações de pessoas ignorantes porque não valoriza a educação. As pessoas que comandam o país precisam passar a enxergar isso. A Saúde é importante? Lógico que é. Mas a Educação de um povo é muito mais. Observemos, então. A ignorância, como consequência da desinformação, é amiga íntima da corrupção. Por isto, esclareçamos o que aconteceu depois da realização dos Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro. Primeiro, gastaram quase quatro bilhões de reais. Ademais, o próprio Romário deixa muito claro que teve de se livrar de um imbróglio que lhe traria prejuízos financeiros. Havendo comprado alguns apartamentos na Vila Pan Americana do Rio, como investimento, teve que se desfazer urgentemente dos mesmos porque todo o conjunto de edifícios está erguido por sobre um grane charco. Está afundando. O velódromo, caríssimo, está abandonado. Assim como o complexo aquático Maria Lenk. É uma vergonha! Todos fingem não enxergar. Mas alguém ganhou muito dinheiro com o Pan Americano do Rio. E a ignorância da população é que deixa os corruptos tranquilos. Eles sabem que ninguém vai cobrar nada das autoridades. Pior é que a população não sabe da força que tem. Por isso, Romário defende os professores, uma vez que o brasileiro, segundo o ex-jogador, não tem base cultural nem para entender o que acontece ao lado. E muito menos para perceber a força que tem. Os mandatários não querem a população conscientizada? O Pan do Rio custou quatro vezes mais do que o do México, não deixou legado algum e ninguém abriu a boca para reclamar. Por tudo isso, já dá para notar o tamanho da farra dos corruptos com a realização da Copa do Mundo. Dos quarenta e dois bilhões previstos, já temos chegado à casa dos 100 bilhões de reais. Pior é que as arenas que estão sendo construídas não terão uso constante e sequer haveria a necessidade de serem construídas. Na verdade, tem muita coisa errada, propositalmente, para favorecer poucas pessoas. Tão somente os construtores se beneficiarão com tantas arenas a serem utilizadas apenas para três jogos da Copa. E então aparecem os dirigentes mancomunados com os empreiteiros. As promessas são muitas. Eles garantem, mas não há transparência nas contas públicas. Nunca. Estão empurrando buchas de tamanho descomunal na boca aberta do povo apalermado. O Engenhão, no Rio, foi construído com recursos públicos - dos impostos pagos pelo povo, mesmo - e foi entregue ao Botafogo, um time sem arrimo e carregado de espertalhões que lucram com a paixão do torcedor. O mesmo acontecerá com o Itaquerão. Os custos iniciais seriam da ordem de um bilhão. Mas será entregue também a um clube particular, o Corinthians Paulista. É imoral demais lançar mão dos recursos públicos - do povo, mesmo - para a construção de estádios particulares e não haveria como a população mais consciente aceitar. Mas aceita passivamente. Por isto, é conveniente afirmar que ao populacho falta compreensão. Não frequentaram boas escolas. Não tiverem professores bem preparados e condignamente remunerados. Poucos, dentre os menos favorecidos, têm consciência dos absurdos cometidos no Brasil para que a Copa se efetive. Ao triste zé-povinho, desinformado, caberá apenas a obrigação de contribuir para pagar a conta. É por isso que, segundo o deputado Romário, nós precisamos virar a cara para esses eventos literalmente sujos e mafiosos. Quem teve a ideia de promover o evento em nosso país, alguém sabe? O Brasil é uma farsa e, como sempre, irá jogar a sujeira toda para debaixo do tapete. Então, fazendo uma reapreciação sobre a questão dos royalties, convém observar que os membros da república federativa de espertalhões, notadamente os ricos cariocas da Zona Sul, amigos do Cabral, do César e do Cavendish, que se autoproclamam produtores de petróleo, apesar de as jazidas estarem em alto mar, rirão à boca larga porque o seu patrimônio nas Ilhas Virgens, acondicionado e apertado em pequenas gavetas de bancos também ladrões, será aumentado substancialmente, significativamente. Depois da Copa do Mundo, eles não mais serão milionários, mas biliardários, como diria Ibrahim Sued, o porta voz morto das elites cariocas que jamais haverão de se misturar à ralé rude da periferia local ou nacional. De minha parte, é uma grande lástima ter que ponderar sobre tanta iniquidade, tanta perfídia, tanta sacanagem contra o meu povo desprovido de informação e educação para a vida real, corriqueira, rude, difícil, dura, cheia de tantos vis enganadores e ladrões nada sutis .
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 13h34
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ARTIGO
Os cariocas querem mais royaltiesMesmo em fase de queda livre, parte considerável da elite carioca continua com este ar senhorial, pretensioso, acima de esnobe. Ainda que despenquem vertiginosamente, que devam o fundo das calças rotas compradas no cartão de crédito já em fase de penhora, não conseguem perder o nariz empinado, a feição enojada e metida a aristocrática herdada dos tempos da Princesa.
 E eu, cá dos altos da Rua Prado Júnior, em férias, fico a rememorar o fator histórico que deu origem ao estado de coisas atual. Em termos territoriais, é certo, a triste e linda zona sul não chega a ser sequer quinze por cento do Grande Rio. Aqui tudo é muito bonito, realmente. A polícia está vigilante e em cada esquina há um ou dois guardas zelando pelo sossego dos endinheirados, ou pela sede de consumo dos turistas que agora estão de volta e aumentam em número a cada ano, pelo menos até a copa do mundo de futebol.
Bom mesmo é que os cariocas descobriram agorinha mesmo que as suas indústrias foram para Sampa e Belô. Eles só dispõem hoje, enquanto fonte de renda, do turismo e das tetas da Petrobrás que já estão sendo divididas com as outras crias.
Todavia, o populacho, dependurado nos seus barracos infectos, nos altos dos morros, vive ao deus dará, desde o tempo em que a Isabel o tornou livre e os enxotou no rumo de arrabaldes e periferias tão miseráveis quanto as vilas da Etiópia ou do Sudão, da Guatemala ou do Haiti... E lá se vão cento e vinte e quatro voltas ao redor do sol de quarenta graus que deixa o ambiente ainda mais doentio. Quiospariu!
Todo esse cenário bizarro só é novidade para as lideranças deste Estado lastimável de coisas, chamado Rio de Janeiro. Hoje, os descendentes dos negros africanos aqui desembarcados alhures se fazem acompanhar de nordestinos paupérrimos e brancos pobres vindos dos mais equidistantes rincões do Brasil. Todos, juntos, mas desunidos, compõem a teia social mais repudiada de que já se teve notícia por estes rincões do sudeste brasileiro.
E tudo isso nem chega a ser chocante. A miséria dos barracos nada significa para os bacanas da zona sul que não os denomina cariocas, mas os têm enquanto aquela plebe ignara e rude que habita a periferia e só aparece quando mais uma catástrofe desafia o poder de justificativas chulas vindas do Governo do Estado.
Pior é que ando por aqui desde os anos oitenta e observo que a cada ano acontece a mesma calamidade ocorrida há doze meses, no ano passado. Quando não é um pedaço de morro que desaba, é uma cidade que se alaga, ou vice versa, ou as duas coisas juntas. Isso, sem falar no absurdo das balas perdidas que, no mais das vezes, procuram as cabeças das crianças, como se elas tivessem algum tipo de culpa além da falta de sorte que é terem nascido pobres.
O governador, como bom carioca, é um especialista em desculpas esfarrapadas. Conversador versátil e desenrolado, ele justifica tudo, a cada flagelo. É este o mesmo que há dois anos disse que faria e aconteceria quando do desastre na região serrana. E nada foi feito até os dias de hoje. Quando um mero sereno de verão ameaça a serra, é um Deus nos acuda. Bem as torneiras secam em Pedra de Guaratiba, a chuva inunda Xerém. E salve-se quem puder, exatamente porque as encostas não foram escoradas por concreto armado, as casas não foram reconstruídas, ainda há muito entulho e, o que é pior demais, na semana passada, na hora da onça beber água, quando as nuvens se derreteram e o pau d’água despencou, nenhuma das benditas sirenes houve por bem tocar porque um bêbado, um doido e um botão não fizeram a sua parte. Pô! Logo elas que, segundo o governador, salvariam a humanidade do apocalipse. Enfim, o que houve é que apenas o populacho ficou encharcado até a alma esperando pela benemerência do nosso descobridor em tempos de relativa democracia muito à brasileira.
- Cabral! Você prefere pão ou quer mais circo? Já não basta? - Foi este o brado de Ibrahim Sued que, do inferno, ainda se arvora a porta voz da nossa burguesia de cambalacho. Aí, inventaram o tal kit calamidade.
- Que porra de geringonça é essa? - Perguntaria o nordestino-carioca favelado. (Mil desculpas! A denominação politicamente correta agora não é favela, mas comunidade, como quer o descobridor.) Mas tentemos explicar mal explicado mesmo. O kit calamidade é uma espécie de pacote contendo boias para quem já sabe nadar, esparadrapo para quem não é enfermeiro, máscaras de gás sem gás, vassouras, rodos, dentre outros congêneres a serem muito mal aplicados ou usados quando da hora necessária; e está preparado desde junho, quando um incêndio varreu as encostas do Morro do Tuiuti. Repare!
Isso não é coisa de Deus, não, minhas senhoras. Observem como tudo se assemelha à indústria da seca no nordeste. Aqui e lá os improvisos são sempre péssimos. As justificativas são pusilânimes e safadas. A cada seca ou a cada calamidade votos se somam de forma a sempre eleger uma casta de políticos que tira proveitos da miséria dos mais fragilizados.
Pior é observar essa porra de afinidade do suburbano com o lixo. É estranho demais. Tudo o que não presta é colocado pela população em qualquer lugar e os governantes não dão um destino inteligente também porque parece gostarem de ver aquela porcaria toda.
É verdade! Joãozinho Trinta estava doido quando falou que pobre gosta de esplendor e quem gosta de lixo é intelectual. É até masoquismo e gozação qualquer um dizer gostar do luxo das novelas e dos desfiles carnavalescos através de um televisor de poucas polegadas colocado dentro de um barraco com janelas de lona e paredes de papelão. É pura sacanagem... E o lixo não é criação de repórter, é real. Vejamos porque acontecem os alagamentos. É porque o lixo não é recolhido, mas depositado nas esquinas aguardando que alguém não faça o que deve ser feito. Visitemos a periferia, meus amigos de cá. É uma grande imundície, apesar de muitos dizerem que não.
Ano passado, então, fui de Cabo Frio até Macaé, num ônibus roto. Passei por Búzios e Rio das Ostras e observei que a estrada é uma grande porcaria. A nossa - a de Xapuri - é de primeira categoria apesar de ainda não contarmos com os dividendos da exploração do petróleo.
Onde foram parar os royalties, senhor Sérgio? Nos cofres do Cavendish e de outros apaniguados que brindam as chuvas e os desmoronamentos com champanhe francês e caviar, em companhia do descobridor, é claro, e em viagens caríssimas de jatinhos e helicópteros pagos a partir dos impostos do cidadão comum que nada pode fazer além de indignar-se.
Então, a partir deste boteco do Leme, agora e aqui, fico a filosofar mal e rasteiramente. Entre estes hoje amigos que me sorriem porque querem gatunar o meu dinheiro, todos são oportunistas e cada um faz só por si. O Criador é que quebra o galho e tem feito muito por todos, apesar da empáfia e da antipatia dos muitos que já nasceram azedos, de mal humor... Mas até já cabe aqui dizer que Deus fez e o diabo passou a cuia. Lambuzou, sacaneou, melou... Entortou tudo o que havia sido tão bem feito.
Todavia, ainda faz bem aos olhos ver o mar, a praia, a colina, o verde, a poesia, sem o humanoide carioca disposto a tudo degradar, inclusive as suas almas.
Fazer o quê? Depois pensaremos juntos apenas no que não deve ser feito em benefício de ninguém. Por enquanto, esqueçamos as crueldades da vida. Por aqui, já chegou o Carnaval! Fiquemos todos bêbados e hipnotizados ante o império de Momo. É só a partir de catorze de fevereiro, então, às quinze horas, que a realidade se fará mais uma vez megera indomada a brandir o seu martelo na cabeça dos que pedem pão, mas gostam muito mais de circo. Por Deus!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h41
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ARTIGOO Brasil que eu amo O amor é mesmo assim. Lembra uma velha inimiga íntima, já morta, que viveu um casamento de trinta anos com um gringo tosco. Ela trabalhava na roça de sol a sol, cozinhava em fogão de barro e rachava a lenha, asseava as cuecas do marido sujas de sexo extraconjugal, levava um grito a cada instante, apanhava como cadela, era traída diariamente, intitulou-se escrava de si mesma e da vida real e, corajosa, ainda dizia que chifre é igual a assombração, pois só aparece para quem tem medo.
Que amor doido é esse, pelo amor de Deus? É, em síntese, o que eu vivo no aqui e agora desta vida terrena brasileira nata, como descendente de retirantes cearenses sem eira nem beira como a rama da figueira. Pode-se amar assim, certamente. Ame-o ou deixe-o, foi o que nos disse um dos engalanados generais da minha republiqueta de papel amassado, parece-me, o Garrastazu Médici, ainda nos anos 70. Eu preferi a primeira assertiva, mesmo sabendo que apanharia muito. Feito rapariga deprimida, eu amo demais o meu Brasil varonil, machista, impulsivo, enjoado, esnobe, posudo, bom de cama e de ginga, branco, preto, mulato como a pele macia de Oxum, numa referência a Vinícius de Mores que, bêbedo, ainda dizia que tecnologia de ponta é chifre mesmo. Hoje, a onça não virá beber água. Março está à vista e será a vez do leão do imposto de renda tirar polpudos nacos de carne da bunda de cada brasileiro que sustenta o diapasão opulento da politicanalha nacional, com as minhas honrosas e raras exceções, é claro. As obrigações de pai de família me levam ainda a pagar os impostos de dois veículos automotores, um meu e o outro do meu filho estudante focado na engenharia elétrica da Ufac. Pagarei, por todo o ano, o colégio dos gêmeos que completarão nove anos em fevereiro. O plano de saúde caríssimo não poderá ser esquecido. O homem da moto que passa à noite em frente à minha casa, a cada hora, deve receber a sua cota de participação nos meus vencimentos. Em síntese, os impostos levam quase a metade do meu salário de barnabé folgado. Todavia, as benesses que seriam garantidas pelo pagamento dos tributos nunca vêm, uma vez que a escola pública de péssima qualidade me obriga a pagar colégio particular. A assistência à saúde da família por parte do poder público não é confiável e eu me ferro nas rodas gritantes da Unimed. A segurança é meio faz de conta e o homem da moto diz dar conta do recado, mas não dá. Outro dia mesmo, na calada da noite, veio alguém e desligou a energia elétrica da minha residência e a de dois vizinhos. O projeto de engenheiro lá de casa ligou para o 190 e até hoje ninguém apareceu para contar quantas foram as vítimas do possível malfeitor. Uma grande porcaria. Eu riria como ri ao ler pela primeira vez a frase lapidar de Charles De Gaule, ex-presidente da França: não, o Brasil, definitivamente, não é um país sério e nós não podemos levar muita coisa a sério, pelo menos agora, porque chegou o Carnaval. Geleia geral. Bagunça total. Não ri. Chorei copiosamente, abundantemente. O Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol El Pais, foi taxativo e categórico quando disse não entender porque no Brasil juntam-se milhões para a participação numa parada gay, muitas centenas vão a uma marcha a favor da maconha, mas ninguém é mobilizado contra a corrupção. Boa sacada. Genial, esse cara. E outras lambanças mais me aturdem. Estou insone. O Brasil chegará, mais uma vez, em alta madrugada, bêbedo, melado de batom, besuntado nas partes pudendas e cheirando a cerveja misturada a perfume de prostituta barata. O sono prevaricador me faz lembrar que o meu amigo Malta, motorista do Senado, ganha mais para dirigir um automóvel do que um oficial da Marinha para pilotar uma fragata. É mole ou quer mais? Quer sim! Um ascensorista da câmara federal ganha mais para servir os elevadores da casa do que um oficial da força aérea que pilota um avião supersônico. Um diretor que é responsável pela garagem do senado ganha mais que um oficial-general do Exército que comanda uma região militar ou uma grande fração do Exército. Um diretor - sem diretoria - do Senado, cujo título é só para justificar o salário, ganha o dobro do que ganha um professor universitário federal concursado, com mestrado, doutorado e prestígio internacional. Um assessor de terceiro nível de um deputado, que também tem esse título para justificar os seus ganhos, mas que não passa de um aspone ou um mero estafeta de correspondências, ganha mais que um cientista-pesquisador da Fundação Instituto Os-waldo Cruz, com muitos anos de formado, que dedica o seu tempo buscando curas e vacinas para salvar vidas. O sistema único de saúde paga a um médico, por uma cirurgia cardíaca com abertura de peito, a importância de setenta reais, bem menos do que uma diarista cobra para fazer a faxina num apartamento de dois quartos. Uma meleca! O espaço que me cabe para levar aos leitores minhas mensagens às vezes tão corrosivas é mínimo diante da farra que nós patrocinamos para, em Brasília, os mandões da República agirem como se todos nós pudéssemos ser enganados. Ora, ninguém engana a tantos por tanto tempo. O que os brasileiros estão precisando, na realidade - urgentemente - é de um choque de moralidade nos três poderes da união, estados e municípios, acabando com os oportunismos e cabides de emprego. Os resultados não justificam o atual número de senadores, deputados federais, estaduais e vereadores. Temos que dar fim a esses currais eleitorais, que transformaram o Brasil numa oligarquia sem escrúpulos, onde os negócios públicos são geridos pela brasiliense cosa mostra, sem nenhum exagero. O país do futuro jamais chegará a ele sem que haja responsabilidade com os gastos públicos. Já perdemos a capacidade de nos indignar. Porém, o pior é aceitarmos essas coisas, como se tudo tivesse que ser assim mesmo, ou que nada tem mais jeito. Vale a pena tentar, sim. E tudo continuará assim, pelo menos enquanto essa nossa geração de dorminhocos sobrexistir, se nada fizermos, se nós não levantarmos as nossas bandeiras contra toda essa corja que hoje habita os corredores dos poderes públicos. Vigiai e orai! Ah, o bom Niemeyer se foi. Mas, reverenciando este poeta da ética e da estética, agora morto aos cento e cinco anos, vale registrar comentário supimpa. É de admirar uma sacada dessas vindas da verve de um cidadão em idade centenária. Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como pinico. [...] Hoje eu vejo, tristemente, que a minha cidade dos sonhos nunca deveria ter sido projetada em forma de avião, mas sim de camburão. E haja chope e pode colocar aí um filé aperitivo porque eu, cá deste boteco bacana do Leme, em verdade vos digo que o meu brasileiro amor maior me trai, mas, como um traído inquieto, indignado, tiro o laço dos chifres e não irei exatamente à forra, mas talvez haja de considerar o ditado caipira segundo o qual o casamento é como a gasolina: custa caro, acaba rápido e pode ser substituído pelo álcool. Ora tá!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h37
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O sol poente De pé, escorome à bengala para divisar o horizonte longínquo que só chega a Niterói, no máximo a Charitas. Ao longe, o majestoso observatório desenhado por Niemayer é apenas uma névoa difusa. Há no ar uma poesia de Drummond. O vento traz acordes de Jobim. Vinícius declama uma apologia à fidelidade. Candinho Portinari dá pinceladas nas nuvens fugidias do céu do meu crepúsculo cinzento que talvez não traga a aurora. Di Cavalcanti redesenha Marina Montini. Marta Rocha já não se acompanha do Bando da Lua... Ela foi para a lua. É, sim! Eles se foram. Temos ficado por aqui pelas retretas da vida apenas nós, o vagabundo e o arquiteto.
À tardinha, o mar é de um azul deveras marcante, marinho, melífluo, meloso, de pouca marola. Há infantes em calções e camisetas que fazem ginástica na Praia Vermelha. Muita energia pula dos seus músculos sólidos, angulares. Senhorinhas e babás empurram carrinhos com os bebês mais vistosos que já vi. Das castanholeiras do calçadão da Urca, aprecia-se um pôr do sol violáceo, mas a brisa é cálida e me acaricia o rosto de enormes e profundas rugas. Depois de completadas as noventa voltas ao redor do astro rei, vivo o inverno da minha vida de anjo do sol poente. Porém, pouca coisa me deixa triste. Sou feliz por ser bem tratado pelos que me cercam, inclusive, tetranetos. Este é o meu romantismo da vida em épocas de idade muito avançada. Nunca observamos que a pressa que o tempo tem de ir-se é o marca-passo da vida que flui vagarosamente, irremediavelmente. Vejo que o homem nasce, cresce, vive, se apaixona uma ou algumas tantas vezes e, então, já lhe é chegada a hora de ir-se. E agora a vida que escorre por entre as mãos não me faz triste ou infeliz, mesmo considerando que os meus dedos são grossos e ainda rijos de forma a rasgar uma tampa de garrafa de cerveja, apesar de trêmulos e tortos. Olhe! De amores e de flores já há pouco a dizer. Foi tudo muito bom enquanto existiu. Até que um dia, a ela, depois de um longo tempo de romance, houve eu por bem dizer: não me culpes pelas culpas que eu não tenho, nem me desculpes pelos pecados que eu não cometi. Vá-se embora! Ora, pois! Por que manter uma amante de trinta e poucos aos oitenta e lá vai pancada? Impensável. As finanças que o testemunhem. Estou ficando velho, mas não estou ficando bobo. Nada! É claro que não desconsidero o fato de a solidão ser, às vezes, necessária. É nestes momentos que muitas coisas vão se recompondo. Ademais, é bom pensar que todo o nosso mal provém de não podermos estar sozinhos; daí o jogo, o luxo, a dissipação, o vinho, as mulheres, a ignorância, a desconfiança, o esquecimento de nós mesmos e de Deus. E cogito agora sobre a transitoriedade da vida. O tempo que tudo transforma, transforma também o nosso temperamento. Cada idade tem os seus prazeres, o seu espírito e os seus hábitos, dependendo da altura do tempo vivido. Mas, vá lá! Os redemoinhos já não se tornam ciclones. A mansidão me toma conta da alma. A serenidade se adensa com o cair do sol do tempo que cabe a cada um. Já não corro porque nem as pernas nem a bengala permitem. Corri muito, até de automóvel, e alcancei muito do que queria. Os textos são quase sermões ou homilias papais. Há conselhos como se os mais novos deles o precisassem. As lutas já são universais. O individual já não é. Já se foi. Depois de tantas intervenções dos homens de ciência que dizem cuidar dos nossos problemas físicos, os óculos parecem estar sempre molhados. É que os vidros das janelas da alma estão muito foscos, quase opacos, mas ainda não cegos. O bem-estar espiritual houvemos nós - eu e esta alma vagante - por bem cuidar nos anos anteriores da vida, entre as solenidades religiosas e outras de permissividade da pior espécie. Recordo texto bíblico que aconselha a não nos deixarmos dominar pela tristeza e não nos afligir com os maus pensamentos. É útil iludir as nossas inquietações, consolar o nosso coração, afastar para longe a angústia, porque as amarguras mataram a muitos e dela não se pode tirar utilidade alguma. Penso, pois, nestas algaravias escritas já com mãos trêmulas. Alguém, certamente, as lerá. Quem sabe seja um sucesso de vendas na minha rua. Quem sabe os meus amigos as adquirirão e as jogarão na lata do lixo, ou no fundo de uma gaveta, ou numa velha estante, onde serão tratadas tal qual no cemitério de livros descrito por Carlos Zafón. Nunca se sabe que destino terá por aí afora um filho que se acaba de parir. Mas o pai - ou a mãe - sempre haverão de querer o melhor para a sua cria. Julgo que toda obra de arte deve ser agressiva, como escreveu Gore Vidal. Ao mesmo tempo, avalio que a vida de todo artista é uma guerra, grande ou pequena, a começar pela luta contra as minhas próprias limitações. Para chegar a qualquer lugar que se deseja alcançar, é preciso primeiro a ambição, depois o talento, o conhecimento e, finalmente, a oportunidade. Será próprio da minha arte a caça do melhor momento, quiçá! Estou tentando. Mas esta ainda não é a minha última quimera. Tropeço no mundo, sim, mas sigo no rumo norte a atravessar as veredas criadas pelo anjo caído que agora se levanta mais uma vez. Vamos retroagir. O regresso será magistral. Viremos juntos, mais uma vez, eu e a alma, para, agora, depois do estágio de amadurecimento divinal, fazermos muito mais e melhor pelo mundo e pelas pessoas, se é que até agora conseguimos fazer alguma coisa que nos empreste alguma dignidade. Certamente, depois do fim, depois do crepúsculo dos deuses dourados, quando já houvermos transposto o túnel de luz azul, e já na paz que Deus quer para os justos, tudo há de se refazer, inclusive esta minha alma sublime e demente. É assim a natureza. Tudo se regenera. Nós haveremos de nos regenerar em um futuro talvez próximo. Como na poesia a ser ainda musicada por este meu novo amigo, o Sérgio Souto, um poeta acreano por excelência. BALADA DO RETORNO EM BREVE Acenderam as luzes de um dia de horas brandas. Jorram agora vertentes de sol pela grama ainda úmida do jardim. É que tenho observado as cores do dia apenas no começo e no fim, Sem perceber, como ela, que tudo é apenas uma sucessão de matizes e pigmentos, Que fazem a diferença a cada instante que passa envolto na poeira do tempo. Agora o céu parece uma sopa, borbulhando, se mexendo. São velhas coisas e pedaços de desespero flutuante. Almas entregues à esteira rolante da eternidade. Um rosto de papelão amarrotado e aborrecido Parece segurar as palavras na mão, amassá-las e jogá-las num cesto. O abalo que se abateu sobre alma e matéria Agora do abismo se regenera a fonte de água cristalina. É hora de acariciar de novo o tempo e o vento que se fazem Uma vez mais brilhantes, mais acesos, mais intensos, mais resplandecentes, Do jeito que a natureza fez só para o nosso eterno contentamento. Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2012. *Este é o epílogo do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h14
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CRÔNICA
Felicidade tal qual avoante Éramos felizes, sim. A natureza sorria em nossa casa, no jardim, no pomar e através dos rostos pueris e nada preocupados das nossas crianças. Há muito, os ventos benfazejos da bonança habitavam o nosso lar e as nossas vidas cheias de vigor. O trabalho extenuante preenchia todo o meu tempo. De uma forma ou de outra, estava sempre a ajudar na realização dos sonhos mais mirabolantes da minha gente acreana. Ademais, divertíamo-nos muito com o que nos era possível.
Na falta de outro afazer, além da Missa e dos almoços e jantares em nossa residência e nas casas dos amigos, passeávamos de lancha no inverno e no verão, acima e abaixo pelo Rio Acre. Íamos à foz do Riozinho do Rola, de subida, ou à localidade Quixadá, de descida. Outras vezes, íamos à Fazenda Sobral, ou à Fazenda Araripe, andar à cavalo. Fomos ver algumas vezes a Estação Experimental, onde Guiomard Santos implantou uma espécie de laboratório de pesquisa natural para estudo das espécies vegetais da Amazônia, além de observatório para o desenvolvimento de animais de criação. Ocupávamo-nos, sempre, de forma a que a morosidade do tempo não se fizesse tão enfadonha a todos e, principalmente, à Latifa, que também se entretinha com as suas artes manuais que iam desde o tricô e crochê à pintura e à escultura em gesso, este, abundante nos barrancos do Rio Acre. Alguns poetas falariam nas mil maravilhas. Outros, nas mil e uma noites, talvez negras. Eis, então, que, num dos dias de março de 1952, de chegada para o almoço já preparado por nossa exímia cozinheira, a Dolores, fui informado de que, manhãzinha, Latifa saíra do quarto, fizera os asseios matinais e voltara para a cama sem se alimentar. Mesmo assim, as crianças não deixaram de ir para o Grupo Escolar Sete de Setembro. Depois do almoço, fui à residência de um jovem médico, Augusto Hidalgo, e o convidei a vir à minha casa auscultar Latifa. De boa temperança e muito solícito, ele não se fez de rogado e já me acompanhou debaixo de um sereno ameaçador de pesada chuva. Em chegando à residência da Floriano Peixoto, encontramo-la embaixo de cobertores, febril, em suores e muito pálida. Depois das providências de praxe, fui aconselhado a levá-la para a Santa Casa de Misericórdia, ali perto. Não havia sequer um carro ou charrete disponível e nós - eu e Seu Zé Cardoso, o carpinteiro marceneiro - a transportamos, na base da força bruta, sentada a uma cadeira de balanço tecida em vime. Cerca de duzentos metros e já estávamos no hospital católico. Lá estava a nos esperar uma médica chamada Laélia Alcântara para trocar ideias com Augusto Hidalgo. Aplicaram em Latifa uns sedativos e ela dormiu por toda a tarde. Receitaram-lhe uns remédios para doenças do fígado e ela melhorou, mas, no fim do oitavo dia, começou a vomitar uns excrementos enegrecidos. Segundo os médicos, ela estava acometida de tiriça preta, ou hepatite viral. No décimo primeiro dia, depois de passar toda a noite anterior à beira do leito, fui à casa da família Farhat, onde as minhas tristes crianças, em dia santo de guarda, estavam sendo tratadas muito bem. Depois, tirei um sono e, ao acordar, aí pelo meio- dia, apareceu-me um enfermeiro de nome Aristarco com a pior notícia da minha vida. Havia falecido a sempre doce e bela Latifa, a musa dos meus sonhos da juventude e também da idade crepuscular, o meu amor maior, mesmo depois de quase meio século. Meu Deus! E os meus filhos?! Além de lembrar os sogros falecidos, Radek e Marreb, e a cunhada Samira, residente no Rio de Janeiro, nada mais me passou pela cabeça além do que o que poderia vir a ocorrer aos meus filhos. Onde arranjaria coragem para dar-lhes a notícia? Como faria isto? Quem me poderia ajudar naquela hora tão trágica? Não. Nenhum ser humano jamais há de preparar-se para desconforto de tamanha magnitude. Depois das providências iniciais, fui ter com os préstimos da senhorinha Silvia Maluf Farhat e da professora Maria Angélica de Castro, minhas amigas de um bom tempo. Unidos, fomos os três para junto dos meus filhos. Nada foi tão dilacerador em toda a minha vida. O choro das crianças era cortante. E não nos era possível, enquanto adultos, conter as lágrimas. Mais de hora nós ficamos ao pé delas acalentando-as, em nome de Deus que precisara de Latifa para outras funções mais importantes no céu. Ao que ouvíamos imprecações que lançavam dúvidas em relação ao amor divino... - Deus pode até gostar de mamãe, mas não gosta de nós! - É! Esse Deus é muito ruim... Tirar logo a nossa mãezinha!... Ao que eu disse: - Deus, esse nosso grande Pai, haverá de nos confortar. Nós ainda seremos muito felizes, apesar da irreparável perda da sua mãe. Ai de mim, se não fosse, nesse e em outros muitos momentos, o apoio daquela gente acreana tão querida. *** Logo, Seu Zé Cardoso já havia tomado as medidas do corpo da falecida tão amada e já providenciava a confecção do ataúde em sua oficina, na Base. Só às três da tarde trouxeram o corpo da mulher querida para o velório na nossa casa antes tão feliz. E tudo já estava arrumado, com flores e cadeiras para os visitantes, além de biscoitos, chocolate, café e guaraná. Vieram as autoridades do Território, os amigos da repartição e os parceiros das horas festivas. Vieram muitas crianças da escola próxima frequentada pelos meus filhos. O Bispo Dom Julio Mattioli benzeu o corpo, rezou um terço e o encomendou a Deus. Só depois é que o alvoroço foi maior com a chegada das minhas tristes crianças e com o choro que vinha dos presentes, todos, condoídos da nossa tristeza maior. Na manhã do dia seguinte, o corpo foi levado para a Catedral de Nossa Senhora de Nazaré, inaugurada recentemente, ali próximo, para uma missa de corpo presente, rezada pelo próprio Bispo, este, uma espécie de soldado de Cristo e um amigo querido da família desde algum tempo. *** Chega-se ao campo santo, de nome São João Batista, através de uma estradinha que parte da minha rua, dobrando à esquerda, em sentido contrário ao rio, no rumo da Colônia Floresta, defronte ao abrigo das crianças sem berço e sem raiz. A areia úmida do caminho parece ter-se embebido das minhas lágrimas de viúvo maldito. O cortejo silencia a cidade nascente e a tristeza aumenta com os murmúrios de orações em voz abaixo do normal. Os cânticos católicos mais parecem lamúrias sem fim e sem piedade. Os véus negros na cabeça das mulheres aumentam o terrível ar do féretro daquela que vai e só deixa boas lembranças. À beira do sepulcro, discurso e loas são proferidos em homenagem à Latifa. Eu, de minha parte, nada consigo dizer. Estou engasgado e as lágrimas grossas não me deixam quase respirar. Nada pior que a volta para casa, apesar do ombro amigo de muitos, apesar dos cuidados extremos para com os meus filhos. Também esta noite foi passada em claro. Nos meus braços, as minhas crianças cochilam, mas logo acordam em choro copioso. O amparo vem de Dolores, do Seu Abílio Mendonça e do Seu Zé Cardozo que, durante todo o tempo e até durante toda a noite posterior ao velório estão de pé, ao nosso lado, sempre solícitos e condoídos da minha situação e da dos meus filhinhos. Nunca terei certeza se agradeci como deveria a esses meus ternos amigos. Certo é que, por mais de semana, eles e as famílias turcas, tão apiedados, todos, dão toda a atenção e cuidam muito bem de mim e dos meus filhos. Em verdade, esses são tempos de provação. Mas Deus é misericordioso e a grande perda seguirá sendo aliviada, paulatinamente, com o passar dos anos. Prova inconteste de todo o amor e de toda a dor foi uma espécie de flâmula que encontrei entre os pertences da esposa morta. Um poema de Florbela Espanca, a poetisa portuguesa, havia sido bordado em belas letras estilo clássico. Era Renúncia, do Livro de Sóror Saudade: A minha mocidade há muito pus No tranquilo convento da tristeza, Lá passa dias, noites, sempre presa, Olhos fechados, magras mãos em cruz... Lá fora, a Noite, Satanás, seduz! Desdobra-se em requintes de Beleza... E como um beijo ardente a Natureza... A minha cela é como um rio de luz... Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada! Empalidece mais! E, resignada, Prende os teus braços a uma cruz maior! Gela ainda a mortalha que te encerra! Enche a boca de cinzas e de terra Ó minha mocidade toda em flor! Por que teria Latifa me presenteado com tanto simbolismo? *** Samira, a cunhada, desembarcou no Aeroporto de Rio Branco três semanas depois da morte de Latifa, comunicada que foi por telegrama. A chegada foi um recrudescimento da dor. Mais lágrimas e mais pesares. Quanta tristeza junta. Mais não havia a discutir. A razão turca falava mais alto que as minhas emoções à flor da pele. As crianças já estavam em fase de conclusão do ensino primário. Não havia como continuar os estudos como nós gostaríamos. No Rio de Janeiro, os tios e mais uns amigos, todos residentes no Bairro da Urca, cuidariam dos meus filhos melhor que eu enquanto durar a minha experiência no Acre. Novas consternações e novas lágrimas já cansadas de tanta desdita. Em vinte dias, com todos os documentos prontos, inclusive os escolares, vi meus filhos tomarem um avião para se fixarem no Rio de Janeiro. Hoje, ainda sigo melhorando das dores da saudade. Às vezes os sentimentos melancólicos trazem consigo algum prazer também, um prazer suave, íntimo, consolador. Divago muito, mastigando a solidão, e concluo que muitas vezes pensamos que as infelicidades são constantes, notadamente, nesses momentos em que apenas sentimos desânimo. Ora! É preciso ir sempre em frente. Esta é a lógica mais pura na relação entre Deus e o humano. Caminhamos por essas estradas de seringa da vida até que o texto que é a nossa vida tenha, enfim, um parágrafo chamado conclusão e, depois, um ponto final, o nada, a morte. Mas, pensando bem melhor, depois de sobreviver por tantas décadas, vejo agora que a morte não pode ser pensada, pois é ausência de pensamento. Mais certo é viver como se fôssemos eternos. Como todo sertanejo calejado pelas asperezas da vida, eu também sou um forte. Vou em frente! A vida continua. Deus é pai e não é padrasto.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 00h00
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