Declínio Foi por aquele tempo da morte do Coronel Plácido de Castro que chegou ao Acre o bom João Veloso, acompanhado da jovem esposa, Doninha, com uma pequena fortuna no alforje, deixada pelo pai, um próspero comerciante de Araripina, sertão pernambucano, que havia morrido de uma febre dessas que leva o sujeito em três ou quatro dias. Já nos estertores, o velho, de uns cinqüenta e poucos anos, disse-lhe entre lágrimas tardias e as mãos nas mãos do filho único: - Vá, meu filho. Esse lugar não é seu. Vejo muita tristeza nos seus olhos. Você é muito jovem e não merece ficar à mercê das saudades minha e da sua mãe que também já não é deste mundo. Suba no rumo do Belém do Pará, desça pelo Amazonas, entre pelo Purus e, depois, pelo Rio Acre, até um povoado chamado Xapuri. Lá você encontrará um primo meu de nome Vicente Invenção Pereira, um pequeno comerciante de couros e peles de animais silvestres. É um sujeito muito decente. Venda tudo o que temos por aqui e, lá, você e ele saberão o que fazer com o dinheiro que será seu... – Foram as últimas palavras de Miguel Marcelino Pereira, um cabra trabalhador que ganhou a vida debaixo de um sol de rachar, carregando cana, puxando bagaço e, depois, vendendo a preço baixo açúcar, mel, rapadura, alfinin, sal, farinha, arroz, feijão, jabá, pano, linha, agulha, querosene, lamparina, arreios, folhetos de cordel, e mais um bocado de bugiganga própria para o consumo do povo do sertão. Uma semana em Recife, seis dias de viagem de navio e mais uma semana em Belém foram o suficiente para contornar uns problemas com os documentos e com o dinheiro, uns três mil contos de réis... Uma fortuna que, junto com a muié, seriam defendidas, se fosse a ocasião, no arranco do parabelo ou na ponta do punhá, no dizer de João Veloso. Dois meses de viagem, depois de Belém e, enfim, chegaram ao Xapuri, um povoado que não dispunha de mais de dez ruas, mas com um comércio rico, em vista da quantidade de borracha de que dispunha a região nas mãos de uns turcos e portugueses muito conscientes de que não era lá tão importante preocupar-se com a vida de um magote de sertanejos que chegavam para viver ou morrer. Já do palanque, o simpático ancoradouro de Xapuri, João viu um homem moreno claro e de uma cabeça bem grande e bicuda no rumo da frente, como a sua. Ele se aprochegou e disse: - Sou João Veloso Pereira, filho do Miguel Marcelino, de Araripina. - Pois não é! Mais não me diga! A cara dum é o focinho do outro. E a cuma vai ele por aquelas bandas? - Meu pai está morto e me recomendou lhe encontrar aqui e, para a minha sorte, nem foi preciso procurar!... - Que tristeza! Como é que Deus leva um homem bom daquele. Se viesse para cá, ficaria rico, com o tino que tinha para os negócios. Minha Nossa Senhora! Meu São Francisco do Canindé! - Ah, sim! Esta é Maria das Dores, a Doninha, com quem sou casado. - Ah, pois bom! Sou Vicente Invenção, seu primo e seu criado... Mas vamos rumando lá pra minha casa. A casa ficava ali perto, no fim da rua do comércio, depois da antiga Intendência Boliviana, ou Casa Branca. João e Vicente trataram de negócios na mesma noite e, no outro dia, já foram à casa do Coronel Vitorino Maia, herói da revolução contra os bolivianos, que, segundo souberam, não mais se sentia com coragem ou com forças para tocar o seringal São Pedro, ainda muito perigoso em vista da existência de alguns índios que até começavam a fugir para o Peru. - É o Seringal São Pedro, no Rio Xapuri. Fica tudo dentro. Um barracão de palha, um armazém com alguma mercadoria, uma casa de farinha, uma moenda de engenho puxada a boi, um paiol, dezoito burros, catorze reses, algum criame e a terra que mede cento e quarenta e seis léguas em quadra. São sessenta e duas colocações que, com esforço, rendem mil e trezentos contos por ano. Quero dois mil e quinhentos contos de réis em tudo e vou embora pra Manaus na semana que vem mesmo. Feito o negócio, foi passado e dado o recibo com selo assinado por João Castelo Branco, tabelião da comarca. Passaram-se alguns tempos de muita labuta e muito lucro. Em dez ou doze anos, João multiplicou por muitas vezes o que trouxe da herança do pai. Trabalhava dia e noite, pois, agora, já contava com quatro filhos: Epitácio, Caboclo, Carmem e Nenen. Veio-lhe, então, uma madrugada traiçoeira e a esposa morreu de uma asma contraída no eito enquanto, mesmo à noite, ajudava o marido a acumular a fortuna que crescia a olhos vistos. A menina mais nove tinha seis anos e passou a ser cuidada por uma moça muito atenciosa que atendia pelo nome de Nazaré, filha mais velha de Francisco Abdoral, irmã de Marissanta e Belisária.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h41
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Os cuidados eram muitos e os meninos cresciam gordos e bem bonitos. Até que um dia o João se saiu muito bem, para um sujeito de poucas palavras: - Olhe, Zeré! Você é moça solteira e desimpedida, zelosa e trabalhadeira, não é? - Sou, sim! - Entonces, vosmecê aproveita, arruma as trouxas e casa comigo, em Xapuri, no padre e no juiz, e nós já viaja amenhã. - Nem concordo, nem deixo de concordar! Meu pai é que vai lhe arrespondê. Era o que o véi queria. Um homem daqueles só o destino é que poderia colocar no caminho de uma filha tão boa como a Zeré... Casaram-se e a riqueza só aumentava. João Veloso adquiriu, a preço de ocasião, um outro seringal a que deu o nome de Nossa Senhora de Nazaré, para homenagear a esposa nova, a pedido de Padre Felipe, o pároco de Xapuri. Alguns anos depois, com a renda das duas propriedades mais velhas, adquiriu o Palmarizinho, já no Rio Acre. Naquele tempo, mais cinco filhos já haviam chegado ao mundo: Estácio, Lafaete, João, Ruzevelto e Maria das Graças. Os mais velhos, já adultos, ficaram tomando de conta dos seringais São Pedro e Nazaré e as filhas do primeiro casamento vieram estudar no Colégio Divina Providência. Como se não bastasse tanta bondade, o agora Seu Veloso levou para junto de si uma das irmãs da mulher e mais o pai, e os alocou numa fazendinha do outro lado do rio Acre, um pouquinho abaixo da sede do Palmarizinho. De tanto subir, os negócios do Seu Veloso começaram agora a despencar, a declinar. Os meninos mais velhos não tinham o tal tino para ganhar dinheiro e os mais novos eram muito pequenos. Vieram as preocupações. Veio uma bronquite que se tornou crônica. O catarro do peito subiu de volume porque o cigarro porronca só contribuía para tal progresso. Em outubro de 1958, sob os cuidados do doutor Atel, o homem morreu num suntuoso bangalô, de sua propriedade, localizado na rua Floriano Peixoto. O declínio financeiro ocorreu com a venda, pelos filhos, das propriedades do rio Xapuri. Mas faltava vir a derrocada fatal. Nazaré, uma mulher de poucas letras, ficou com uma parte do dinheiro dos seringais mais velhos e, ainda, com o Palmarizinho, o que causou grande inveja à irmã Marissanta, agora casada com um traste de nome Raimundo Carneiro, irmão de outro traste, João Carneiro, ambos filhos de Zé Carneiro, agora todos amoitados na fazendinha herdada de Seu Veloso. Um dia, Marissanta, fez proposta a Nazaré: - Já que o teu filho João, de dezoito anos, gosta muito da minha Mariinha, já que ele pelejou e pelejou e findou arrancando o cabaço dela, e ela está buchuda dele, ela casa com ele e eu mais o Raimundo meu marido viremos morar com vocês no Palmarizinho, pra ajudar. A proposta não foi aceita porque a vontade da viúva era arrendar o seringal e morar em Xapuri, no palacete adquirido pelo marido morto. Pior foi o fato de a família do lado de lá não ter tomado conhecimento da história. Aí, quando Raimundo tomou ciência dos fatos, deu uma surra de umbigo de boi em Marissanta, botou Mariinha pra correr roçado adentro e jurou João Veloso Filho de morte, assim que o encontrasse. O outro João, irmão do insatisfeito, por sempre acalentar a vontade de ter para si a sobrinha como mulher, morto de ciúme, disse que o ajudaria a fazer o serviço pior. José, o pai dos dois, também deu o apoio de que eles precisavam para levar a cabo a ação final. - Ora, eu caso com ela, com certeza, embora só tenha dezoito anos. Amanhã, eu atravesso o rio, de manhãzinha, e converso com eles. Não vai haver confusão nenhuma. Eu vou conversar direito com o pessoal de lá. – Foi o que disse o João à mãe sem saber que lhe armavam a tramóia que lhe daria fim à vida. - Eu vou contigo! Eu e os meninos teus irmãos. – Respondeu a mãe preocupada. E todos se aquietaram, menos João que, ali pelas cinco da tarde, sorrateiramente, pegou uma canoa e foi ter a conversa com a família da tia traidora que já concordara com a solução final. À tardinha, no silêncio da floresta e do rio, qualquer batida mínima do remo na canoa é ouvida à distância considerável. Os que estavam lá em cima do barranco se aperceberam da aproximação de João Veloso Filho e se armaram. A vítima optou por subir atravessando um pequeno plantio de melancia e, depois, uma roça de macaxeira, indo dar na frente da casa de farinha, onde viu um pilão deitado e se sentou, na maior calma. Em seguida, por trás, sorrateiramente, o outro João, o tio enciumado, soltou-lhe uma pancada com uma cacete de bater borracha, de maçaranduba, no meio da cabeça do jurado que não caiu mas, ao contrário, de posse de uma acha de lenha, passou a travar luta mortal contra o primeiro algoz. Foi então que Raimundo, o pai de Mariinha, vendo que o irmão levava desvantagem na contenda, mirou com uma espingarda calibre dezesseis os peitos da vítima e lhe meteu chumbo. O corpo caiu estrepitosamente, já morto. João, o assassino primeiro, então, desferiu-lhe mais umas três bordoadas na cabeça de forma a destampar-lhe o cérebro. José Carneiro, o avô, ainda deu uns chutes nas costelas da vítima, como para cumprir a sua parte na ação macabra. O corpo foi velado no palacete da Rua Floriano Peixoto. As crianças do grupo escolar, localizado em frente à vivenda, entravam na sala e ficavam perplexas ao ver os miolos da vítima que caíam, pingando, numa bacia ali colocada pata tal fim. A única precaução contra os remorsos da morte é a inocência da vida. Uma cantiga russa de muitos séculos diz que das grandes traições é que podem se iniciar as grandes renovações. Ao fruto da inveja sem medida, da discórdia incontrolável e do declínio moral também deram o nome de João. Depois, com os três parentes mais velhos na cadeia e as mulheres sem condições de dar sustento às muitas crianças da família de assassinos, aos quatro de idade, o garotinho foi adotado por um casal de pastores evangélicos americanos, Mark e Fernanda Trimble, que o transformaram no atual jornalista e publicitário renomado de Montana, nos Estados Unidos da América.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h40
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O preço da auto-suficiência A inveja é uma úlcera aberta. Onde quer que no mundo haja um trono, pode-se observar, detalhadamente, toda a loucura e a maldade de que o ser humano é capaz, sob o esmalte das boas maneiras e o dourado da hipocrisia. Matam-se almas e mentalidades de gerações e gerações, a sangue frio, pelo simples fato de um líder bizarro qualquer não ir com as fuças de outros. Basta prestar atenção para o debilóide máximo da atual Venezuela. Concordemos: ter um cara desses de vizinho não é aconselhável a Hitler no inferno. O império romano foi uma superpotência e viveu seu apogeu por, aproximadamente, trezentos anos. Foi aí que começaram a aparecer os vizinhos pobres - ditos bárbaros - que passaram a solapar as bases de Roma que, nos dias que correm, ainda se diz eterna. A partir de então, o poderio dos latinos foi sendo, paulatinamente, desbaratado, desmembrado, destruído em seu conceito de soberania e grandiosidade. A Inglaterra foi a senhora dos mares por pouco mais de cem anos, tendo, antes, usurpado tecnologias portuguesas, holandesas e francesas, dentre outras. De repente, deu asas à imaginação de um filho robusto e, hoje, naturalmente, vive sob a sua proteção pela terra, pelo ar e pelo mar. Sim, os Estados Unidos, conforme Geoffrey Blainey - Uma breve história do mundo (São Paulo : Fundamento, 2007) - passaram de uma situação de súditos a uma posição de senhorios. A velha Inglaterra, de tantas colônias, no passado, hoje não passa de um nobre protetorado americano e judeu, com certeza, posto que são estes últimos os grandes financistas do capital internacional e da cobiça das superpotências. (É bom deixar claro que Israel não deve desaparecer do mapa, como quer o Ahmadinejad, o déspota do Irã.) A China dos dias atuais alcançou um patamar de desenvolvimento louvável, embora os seus problemas sociais flutuem pelas águas do Amarelo e remontem à dinastia Ming. A Índia também prospera, mas o atraso das mentalidades hinduístas ainda atira os seus mortos nas águas barrentas dos rios Indo e Ganges. O Brasil, cujo povo é o mais bonito do mundo, hoje uma super-colônia que viceja no quintal dos Estados Unidos, ainda convive com a corrupção, com a produção e o tráfico de drogas, com a violência dos morros insalubres e com um sistema educacional que não forja os talentos de que tanto necessita para alcançar o pleno desenvolvimento. Aqui, certamente, no mais das vezes, a competência técnica é colocada de lado em detrimento do compadrio e da barganha cartorial, como tem ocorrido desde os tempos da Colônia. Mas é oportuno tentar uma abordagem sobre a questão Brasil no âmbito das relações com o G8, o grupo dos oito países mais espertos do mundo, dentre os quais eu não me incluo, até porque sou um mero caboclo amazônico que é leal porque assim aprendeu e porque gosta. Um dos nossos vizinhos mais próximos, o mais próspero - o mais astuto entre todos - esse, sim, como os outros, deve ser tratado com respeito. Não como o faz esse tonto, o Hugo Chávez, que pensa tripudiar, mas é tripudiado. Sim, é conveniente não dormir porque os americanos podem burlar a vigilância e levar o pouco da dignidade que já conseguimos ter, apesar dos séculos de escravidão sob o couro cru da chibata lusitana. Vigiai e orai, porque não sabeis quando será chegado o dia ou a hora. Assim registrou Mateus, nas Sagradas Escrituras. Entretanto, depois dos estilhaços, bom é notar que o novo Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, tem razões de sobra para sugerir que o Exército deve vigiar e punir quem atravessar a fronteira. Qualquer estrangeiro, notadamente esses vinculados às Ongs internacionais, deve passar por uma quarentena, a pão e água, sob vigilância atenta, para que, aí, sejam detectados os seus reais propósitos. Eliminem-se da face da Terra esses abjetos traficantes de drogas e feiticeiros do absurdo. Esses piratas da modernidade usam de novas estratégias, mas os fins se assemelham aos dos celerados de outrora. É claro que esta abordagem é feita, aqui, a grosso modo. Há muito abandonei as fileiras do exército e o gorro. Mas pensemos no fato de que há um punhado de quase caudilhos, oficiais e suboficiais, sargentos e meros praças, refestelados no aconchego dos seus apartamentos, sustentados por robustos soldos, no Rio de Janeiro, em Brasília ou no Manoel Julião... A nova pátria desses medalhões deverá ser os recantos da Amazônia, em Tabatinga, quem sabe, ou mais ao norte, na região da cabeça do cachorro, o rincão mais inóspito deste País. Os salários são bons e o retorno em serviço, um dia, quem sabe, deverá ser melhor ainda. Hoje, em qualquer clareira da mata, pode-se muito bem instalar aparelhos de ar condicionado e ver televisão a cores. Os ashaninkas, por exemplo, estão plugados na internet e poderão ser os nossos soldados camuflados pela rede mundial de computadores... E nem será preciso vencimentos tão exorbitantes... Há, certamente, algum egoísmo nas minhas palavras. Nós temos onde plantar alimentos em quantidade suficiente para suprir as demandas nacionais e, ainda, oferecer assistência técnica para que a América Central produza (plante) mais e faça menos confusão, em que pese estar entendendo a tempestade moral que se abate há séculos por sobre aqueles povos a partir de líderes corruptos e imbecis. (Até o povo do vale do Juruá, no recanto norte do Acre, a partir dos esforços da nossa Seater, haverá de um dia, enfim, entender a utilidade da merda do boi.) Os biocombustíveis deverão ter incentivos do Governo Federal, porque há um infinito de áreas degradadas que deverão ser recuperadas para o plantio das espécies que lhes servem de matéria-prima, como a cana-de-açúcar, a mamona, dentre outros. Basta que os interesses escusos e a ganância doentia sejam fiscalizados com mão de ferro por quem de direito, quiçá, um Ministério da Justiça remodelado em quadros de policiais federais em números suficientes para uma demanda do tamanho do Brasil. Hoje já contamos com uma reserva de petróleo que nos tornou uma das nações mais competitivas do mundo; e isto deixa os Estados Unidos pouco à vontade. Já dominamos e somos detentores das tecnologias dos biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar, dentre outros. Tornamo-nos preparados para, em futuro próximo, celebrarmos a nação a que Ariano Suassuna se refere. Estamos a um passo de juntarmos o conceito de justiça à prática da liberdade, e vice-versa. O vizinho rico tem medo de que o vizinho verde-amarelo progrida. Nas minhas Janelas do tempo está registrado que os grandes mantenedores da instrução das nações periféricas - FMI e Banco Mundial - não querem ver o terceiro mundo competindo com as nações que devoram as demais. Aos pobres restam apenas as migalhas do banquete dos ricos. Se os nossos negros, mulatos e brancos pobres tiverem educação de qualidade, não será difícil, em pouco tempo, sobrepujarmos os tigres asiáticos, os ursos da América do Norte e o preconceito europeu. Em verdade vos digo. Há que observar um aspecto curioso da sociedade humana: raramente tomamos medidas preventivas para evitar desastres, mesmo quando a exata natureza da calamidade é conhecida por todos. Tchau, mamãe e filhos homens! Nem é preciso ser convocado pelo Ministério da Defesa. Estou feliz e vou para o front!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h32
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XVII Tempos de glória De repente, cessaram as chuvas amazônicas torrenciais. Já não cantam sabiás e bem-te-vis que as chamam do alto das mangueiras do Belém do Pará. À tardinha, é a vez da cigarra fazer o seu trinado. À noite, grilos substituem os sapos. Surgem longas praias em Icoaraci, Marudá, Chapéu Virado, Outeiro e Mosqueiro. Não são tão distantes, como antes me haviam dito. É para aqueles lados que, agora, os paraenses festeiros debandam em cima de caminhões animados pelo toque de violões, clarinetes e sanfonas. Por ali, as saias rodam ao ritmo de um tal carimbó. Lá estive no sábado último, mas voltei à tardinha, posto que ando de braços dados com a ciência e até já tenho um lema a seguir, elaborado por mim mesmo. Devo certamente fazer o melhor que posso e, assim, o pior não haverá de me acontecer. Em números reais e representativos da vida acadêmica, são seis professores, vinte e oito alunos numa sala de nove por catorze metros, oito disciplinas: português, latim, matemática aplicada, matemática comercial e financeira, introdução ao direito, economia clássica, história do pensamento econômico e filosofia do direito. Chego às oito da manhã e almoço às doze. Volto às catorze e completo o ciclo diário às dezessete, quando passeio pelas ruas do centro e pelo cais, tomo sorvete de taperebá, ou graviola, ou cupuaçu. Grandes novidades, como o tacacá, do qual sou, já, adepto. Depois do jantar, invariavelmente às dezenove e trinta, subo e reviso, sem nenhuma pressa, as matérias ministradas durante o dia que passou. Durmo às dez da noite, isto, até quinta-feira, posto que na sexta todos os gatos são pardos. Deixo muito claro que mesmo as horas do divertimento devem ser rigidamente controladas. Sou um rapazola a mais no meio da multidão de desconhecidos que, inclusive, até falam línguas estrangeiras. Busco tenazmente agarrar-me à disciplina e não largá-la, mas conservá-la, porque esta é a vida que Deus me deu. É lição tirada dos Provérbios, das Sagradas Escrituras. É setembro de 1934. Passei a economizar o dinheiro que me mandam as tias do Ceará. Até que já juntei um bocado. Há seis meses, sou acadêmico da Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará. Estou indo muito bem. Os graus que me atribuem os mestres estão entre os melhores. Fico sempre entre as médias oitenta e cem. O meu amigo de Portugal está agora dividido entre os negócios, que prosperam a olhos vistos, e Ignácia Morgado, a noiva portuguesa prometida há dez anos, ainda quando lhes eram vivos os pais. Dia desses, então, durante a janta, ouvi da mesa ao lado um rapaz branco avermelhado e forte a falar sobre o longínquo Acre, uma terra de caudilhos e heróis que, um dia, fizerem uma guerra de quase dois anos apenas com o objetivo de serem reconhecidos enquanto brasileiros. Subi aos meus aposentos e fiquei pensando no moço de olhos verdes e cabelos claros com as suas histórias e os novos comentários sobre o Território do Acre. Em sonho, vivo a aventura de subir os altos rios da Amazônia de parceirada com aquele cabra que canta samba e bate em caixinhas de fósforos. De manhã, começo a pensar nas possibilidades reais de ver a realidade amazônica de perto, tomar contato direto, conversar com os nordestinos que vivem por lá... Quem sabe, um dia eu viverei tal experiência que tanto me extasia... Num desses sábados de sol, pela manhã, aparece-me novamente o moço que vive falando sobre o Acre. Aproximo-me, vagarosamente. Tiro-lhe o chapéu e faço-lhe as reverências devidas. - Bons dias! O meu nome é Melchíades Ferreira de Lajes. Sou cearense do Baturité, estudante da Faculdade do Pará e tenho o maior prazer em apertar a mão de vossa mercê! - Opá, opá! O meu nome é Garibaldi Carneiro Brasil, também estou batalhando na Faculdade do Pará, sou paraense, vivi no Acre e para lá um dia eu hei de voltar. Basta-me concluir os estudos por aqui. Daí em diante, passamos a nos encontrar quase todos os dias. Ele, oito anos mais velho que eu, diz-se com maturidade para me encher as cuecas de conselhos às vezes úteis, às vezes fúteis, às vezes necessários. É um pândego e tira chacota com todos. Engraçado é observá-lo enquanto um dos poucos paraenses com mais de metro e setenta, e branco. Diz-me sempre ele: - É a tal miscigenação!... Aposto que é! – E solta uma gargalhada que estronda e ecoa nas esquinas e no porto. Vejo-o envolto nos sonhos da ciência jurídica, sempre, na Faculdade, como eu, mas com uma diferença: muito em breve ele concluirá os estudos e embarcará no primeiro navio que o levará a esta fantástica terra chamada Acre, terra boa para se viver e para se morrer, no dizer dele. Cumprimentamo-nos cordialmente e até o acompanho, vez por outra, no tacacá de D. Amélia. Depois, ele sobe a Rua São Jerônimo e se vai para o convívio com uns parentes, no Umarizal, ou no Batista Campos, bairros um pouco afastados do centro da metrópole amazônica.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h23
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No último sábado, depois de um certo tempo sem comparecer ao que alguns chamam a confraria dos beatificados, no agora empório do Galego, eis que surge o Garibaldi, com um terno branco de linho amassado, rebengue numa mão e chapéu de massa na outra, tranqüilo, altivo, todo malemolente e cheio de prosa. - Bom dia para quem eu já vi e para quem eu ainda não conheço também. Encurta a prosa, bota um bom vinho português e muita batata no bacalhau, ô Portuga! Almoçamos à tripa forra ou beliscamos alguma coisa. Não importa. Sábado é sábado e não é dia de comer. Todas as vagas estão destinadas à cerveja Paraense e ao fantástico vinho do Porto, claro! E haja prosa. Bom mesmo é ter a oportunidade de travar diálogo com pessoa tão lúcida e tão bem humorada, esta a maior virtude do grande amigo Garibaldi. Conversamos bastante sobre a obra A luta pelo direito, de Rudolf Von Ihering, célebre jurista alemão, que dá ênfase à luta eterna do homem pela conquista e pela manutenção dos direitos que nos são inalienáveis, como beber, comer, vestir, habitar, ir e vir. Vem à baila, ainda, Etienne de La Boétie e o seu Discurso da servidão voluntária que vai de trechos leves a parágrafos densos sobre as formas que devem assumir a nossa defesa pelas liberdades individuais e coletivas. Em companhia de mais dois comparsas, Raimundo Alemão e Leônidas Ribeiro, à noite, tocamos para as bandas da Ladeira do Presépio, em um carro de passeio, um Ford 1929, guiado por um chofé que atende pelo escandaloso nome de Pelópidas Cavalcante. Olhe! Há pequenas vivendas de madeira ornadas com muitas flores. Há bebida, há comida e há sexo barato para quem vende e para quem compra. Mas já são três da madrugada e o Pelópidas - agora por mim alcunhado Panelada - está à nossa espera refestelado no seu Ford. É bom lembrar-me de que os deveres de católico fervoroso me chamam às onze da manhã, na Catedral da Sé, onde sempre leio a epístola evangélica de Paulo aos Tessalonicenses, ou outra qualquer, a mando do Padre Antão, agora meu conhecido, confessor e conselheiro. Antes da vinda de Garibaldi Brasil para o Acre, em 1937, aos vinte e nove anos (dele), ainda participei de uma despedida régia regada a vinhos, cervejas, queijos e carnes de primeira qualidade. O gajo imponderável estava de partida, mas levava no peito um coração cheio de amor pra dar. Estava apaixonado. Num guardanapo de papel, ainda sóbrio, eu o descobri poeta de primeira grandeza. Ali mesmo, no arrepio da paixão flamejante, ele escreveu Melodia de amor. Depois eu a recolhi e guardei no bolso do paletó HJ. Dias mais tarde, então, das quatro estrofes, consegui entender as duas que seguem. É que a moça dos serviços gerais havia lavado e ensaboado o amor de todos os sonhos do amigo que já partira, definitivamente, para o Acre. Nada mais me acalenta, me entontece Que o colo perfumado da mulher amada A brisa, o frescor do sol brando que anoitece E versos na viola de pinho enluarada. ... O cheiro morno das ervas que embriaga A água doce da baía verde que cintila Nada há de melhor que quando me afaga A musa que aplaude da primeira fila. ... Vivo um tempo de acontecimentos rotineiros. Não tenho muito a contar. Não apenas li, mas estudei as obras de Malthus e David Ricardo, clássicos da Economia. Só os pensadores me fazem pender o espírito, para um lado e para o outro, de conformidade com as circunstâncias, deles, é perfeitamente racional, como Kant, o filósofo pai do racionalismo dogmático e inspirador de Descartes, Leibniz e Espinoza, e do empirismo cético que tem como seguidores Bacon, Hume e Locke. Em síntese, para esses loucos espetaculares, o conhecimento seria fruto de uma simples faculdade, a razão, o raciocínio, a inteligência. Fácil, né? Nem tanto! Nos outros três anos, depois dos clássicos da Filosofia do Direito acima, passei a beber em fontes brasileiras fantásticas, como Rui Barbosa, Tobias Barreto de Menezes, Augusto Teixeira de Freitas, Pontes de Miranda, Clóvis Beviláqua, Francisco Clementino de San Tiago Dantas, dentre outros não menos importantes. Hoje, são sete de setembro de 1935. Desfilam estudantes e militares em homenagem ao Dia da Pátria. Os enfatiotados acadêmicos da Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará estão sentados em cadeiras especiais ao lado do palanque das autoridades que discursam sob um sol abrasador. O traje é passeio distinto. Haja suor e orgulho. Estou me achando um lorde, como diriam as minhas tias velhas do Ceará. O retratista Marabá Nascimento tira uma meia dúzia de fotos minhas e, não mais que de repente, cruzo repetidos olhares instantâneos e acho, ali mesmo, a musa da primeira fila da minha opereta sertaneja. Do lado de lá da avenida, portando um leque florido, vestido de seda branco e luvas da mesma cor, está uma moça magra, pálida e de cabelos negros que descem até quase a cintura. É Latife Al Kalid, por quem os meus sinos já dobram, apesar de não a conhecer. Pense numa mulher que está acima do conceito mais exigente de beleza! Não tiro os olhos de lá. Estou perdidamente enfeitiçado, encegueirado... Danou-se! - Cadê a flor? Venda-me uma apenas ou todo o ramalhete. Não importa o preço. - Tome essa rosa branca aqui, é de graça! – Foi a resposta de uma senhora de mocotós grossos, distinta, que levava umas flores que seriam entregues a alguém do primeiro escalão do poder. Não é preciso ensaiar nada. A alma matreira já traz tudo de cor e salteado. Sigo o que me diz a inequívoca prudência e o que me aconselha o juízo. Como os antigos, é preciso que Deus me dê sorte, porque coragem eu já tenho demais, de sobra. - À senhorita, ofereço uma rosa branca, com muita estima e respeito. – Disse eu à bela, com a voz quase trêmula. - Fico-lhe muito grata e lisonjeada com tanta deferência. Muitíssimo obrigada. – Foi o que me falou uma boca emoldurada por lábios carnudos e pintados de um vermelho bem suave. Os olhos eram grandes e as sobrancelhas muito bem feitas. Não era mais alta que eu, talvez um pouquinho menor. Cheirava a Colônia Matinal, do Pará, e tinha o hálito doce das divas que apaixonam homens como eu sempre à primeira vista. Tenho passado dias e noites sem dormir, ou em sonhos pecaminosos em cujo centro está sempre ela. Ontem recebi a resposta de um telegrama que lha havia enviado há três dias. Ela e a irmã Maida irão para a matinê do Cinema Olímpia, às cinco e quinze da tarde, e eu sou convidado especial. Ave Maria do céu! As pernas estão bambas. Preciso me controlar. Estou a caminho do paraíso. Sinto-o em todos os odores, em todos os instantes do relógio da matriz, em todas as paisagens de todos os lugares por onde tenho andado. Penso agora como o pequeno príncipe, do Exupéry: se busco o significado da palavra felicidade, indispensável se torna entendê-la como recompensa e não como fim. Todo ser humano busca e merece ser feliz, como agora o sou.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h21
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A competência enfim premiada Não é sempre que advogo causas defendidas por tecnocratas. No geral, eles são bastante pusilânimes e costumam esconder-se por trás de justificativas pálidas que cabem tão somente nas cabeças tingidas dos seus chefes também omissos, posto que tornados obesos e opulentos a partir dos gabinetes climatizados, sempre eqüidistantes da realidade e do rés do chão da história feita pelas dores e pelos suores dos que não morrem de medo quando o pau quebra. Esses licenciosos são como os nossos profissionais da política partidária que, com as honrosas exceções reconhecidas, passam a desempenhar o papel de prostitutas bíblicas em nome da famigerada governabilidade. Estou certo, sim. Uns são como os outros. Os primeiros dizem que não agiram porque as circunstâncias não lhes deixaram operar, ou porque faltou a propina que lhes sustenta a opulência bizarra e o ar senhorial. Os demais, mesmo quando o projeto é de cunho estritamente social, como a construção de uma creche para as crianças índias de São Paulo de Olivença, não votam a favor porque o partido não lhes permite, ou porque o seu líder não ganhou os dólares que queria na cueca, ou porque, mesmo sendo coisa boa para os mais pobres, passa a significar nada, posto que o adversário é que é o autor da idéia, isto, tudo, como se a organização macabra - especificamente, o PMDB - não fizesse parte desta Pátria de oportunistas. Há umas semanas, nas páginas amarelas da Veja, o economista Paulo Renato de Souza, hoje Secretário de Educação de São Paulo e ex-Ministro da Educação de Fernando Henrique Cardoso, ao mesmo tempo em que aplaudiu os sistemas de avaliação do MEC - como a Prova Brasil, o Enem e o Enade - teceu comentários nada elogiosos a uma troupe de sindicalistas que não gosta de argumentos que dêem base concreta para a melhoria da qualidade do ensino real. Segundo o economista, os sindicatos buscam uma isonomia impraticável, quando lutam por melhorias salariais para o todo da categoria dos professores. É do conhecimento público que uma boa parte destes sodomiza a transmissão do conhecimento porque não vai à escola ou à faculdade, ou porque, se vai, é para demonstrar a sua completa falta de apego à profissão que exerce quando, em vez de dar aulas, conta anedotas, ou pede que uma aluna de boa caligrafia faça apontamentos rotos no quadro, enquanto ele cochila refestelado a uma confortável cadeira. Ao passo que o professor vizinho, ali mesmo na sala ao lado, sobe na mesa, faz mesuras, canta, declama, expõe com clareza, conjuga verbos, cobra a atividade do dia anterior e aplaude a participação da turma. Quem deve ser valorizado? O que enrola ou o que trabalha? Paulo Renato de Souza foi também Reitor da Unicamp na época em que eu cursava por lá o Doutorado. Uma vez, fiquei deveras chocado quando ele falou que as universidades brasileiras de baixa produção científica deveriam receber menos recursos do Ministério, a fim de que estas se vissem na obrigação de produzir... Para tanto seriam cobradas. Senti nele um muito de preconceito. A paixão falou mais alto porque, mesmo sem estar oficialmente investido da responsabilidade, naquele momento eu representava a Universidade Federal do Acre, uma instituição periférica, no dizer da autoridade. Hoje, passados quase doze anos, a minha paixão amadureceu e não mais se apaixona. O Paulo Renato tem razão quando afirma que o avanço no campo do desenvolvimento educacional só será possível com salários atraentes e valorização dos melhores professores. “O reconhecimento por mérito parece no mínimo razoável, sobretudo quando combinado a outras iniciativas como melhor infraestrutura e boa gestão escolar”. São palavras do ex-Ministro. No Brasil, a premiação ou a recompensa pela competência não é uma norma. Por aqui, ainda são muito preservadas uma familiocracia imorredoura, um clientelismo cretino e um compadrismo que viceja em todas as instâncias do poder, com raras exceções. De acordo com o Programa de Valorização por Mérito, lançado pelo governo paulista no início de agosto, professores, diretores e supervisores poderão ter a sua remuneração inicial multiplicada em até quatro vezes a partir de janeiro de 2011. “Para isso, deverão cumprir regras de promoção e obter notas mínimas em uma avaliação aplicada anualmente pela Secretaria de Educação”. É o que hoje denominam a ordem da meritocracia. Em palavras mais sucintas, para que os salários sejam aumentados, vai depender somente do desempenho do professor.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h16
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Para o economista, segundo as regras atuais, depois de vinte e cinco ou trinta anos de serviço, o professor não consegue nem ao menos dobrar o seu salário base, e isso não é atraente para ninguém. “Precisamos, primeiro, incentivar os jovens que estão escolhendo a profissão e mostrar que ser professor também pode ser atraente. Em segundo lugar, precisamos promover o aperfeiçoamento dos nossos profissionais, e é por isso que devemos desenvolver uma carreira que valorize o esforço e o mérito desses professores.” Conforme se observa do todo da exposição do Secretário, será a partir da implantação do Programa de Valorização por Mérito que vislumbrar-se-á a possibilidade de dar saltos rápidos na carreira. Em outros termos, “se o professor for promovido, receberá vinte e cinco por cento de aumento sobre seu salário inicial.” Haverá, assim, “cinco faixas de promoção e, portanto, a possibilidade de quatro aumentos salariais durante a carreira. Para isso, será estimulado o aperfeiçoamento do professor, pois para passar de uma faixa para a outra, ele será submetido a um concurso de promoção, cujos critérios levarão em conta sua vida profissional - assiduidade e tempo de permanência na mesma escola - e o desempenho em uma prova de conhecimentos sobre a disciplina que ele leciona.” Professores! Temos caído todo dia na estultice - estupidez - de dizer que, depois de uma pós-graduação de melhor nível, já não precisamos aprender nada, que chegamos ao status quo da sabedoria humana, que galgamos enfim o mais alto dos degraus. Calma, Mestre! Segura a onda, Doutor! Vá até a escrivaninha, pega lápis e caderno, e começa a escrever, agora, sozinho, em razoável português, sobre o que você tem a ver com a educação ambiental ou o desenvolvimento sustentável, em vinte e cinco linhas apenas, sem escorregões prosaicos em termos de ortografia, ou de sintaxe de concordância, regência e colocação. Faça isso! Conseguiu? Parabéns! É oportuno observar que cá entre nós - acreanos! - virou costume o cidadão sair por aí dizendo aos quatro ventos que sabe tudo e, muito mais especificamente, aquilo que jamais será capaz de entender. Uma pena! Convém observar que mentir para os outros é muito ruim; mas mentir para si próprio deveria ser crime passível do Código Penal. O Teófilo Fortuna, grande mestre rural, por exemplo, não deve provar a ninguém que é bom. Ele também não deve dizer que a culpa pelo seu salário irrisório é do patrão ou do sindicato. Basta que ele prove a si próprio que é excelente ao fazer a avaliação do Paulo Renato para aumentar o salário significativamente. Afinal, nada será exigido além do conhecimento do conteúdo da disciplina que leciona, além de métodos didáticos e da utilização das novas tecnologias no processo de aprendizagem. - Estuda, Fortuna! – Digo eu, cá com os meus botões. Então, para colocar mais um ponto cruz neste alinhavo pequeno burguês, tenho observado, desde alguns anos que, professores de Língua Portuguesa, por exemplo, devem saber redigir um texto, de próprio punho, é claro, sem a necessidade de consultar nenhum apontamento. Se ele fizer isso, aí, sim, estará apto a enfrentar uma turma de oitava série do ensino fundamental sem o perigo de passar vergonha, como uma professora que, em meados da década de 1990, foi chamada a substituir-me, uma vez que fora aprovado no programa de Doutorado da Unicamp. Eu permaneci na sala do terceiro ano do então denominado segundo grau, a pedido do diretor, para aparar alguma aresta teórica ou metodológica por acaso existente. A moça adentrou o recinto e escreveu três linhas no quadro. Já era outubro e uma aluna mais aplicada, sem mais delongas, apontou um erro de ortografia, um de pontuação e outro de concordância ou regência, ao que a minha virtual substituta encheu os olhos de lágrimas, balbuciou algumas palavras ininteligíveis e se foi sem dizer adeus. Dias depois, fui ter com Ducélia Mota Lopes, professora de Português à moda antiga, que escreve redações e não apenas as corrige, de quem ouvi relato preocupante: - Ora, Zé Cláudio! Como é que os alunos do Curso de Letras vão aprender a escrever se eles não chegam à Ufac para isso? Os estudos da sintaxe de concordância e regência verbal e nominal, por exemplo, são armas poderosas nas mãos dos que buscam aprender ou ensinar a escrever, mas tal prática afirmam-na ultrapassada. Por isto é que de lá saem professores de redação que não sabem escrever e, mesmo assim, vão para as escolas ensinar o que desconhecem, o que é uma pena. Ademais, se observamos mais especificamente o meio escolar em que nós acreanos temos vivido, podemos concluir claramente que há outros problemas a serem solucionados. Uma das células base da sociedade, a família, perdeu ou nunca teve sentido, principalmente, entre as classes C e D. O sinal está fechado para os mais jovens, sim, porque os pais não se importam com o desenvolvimento intelectual dos filhos, desconhecem ou não ligam para o bom papel da escola e lhes deixam muito à vontade para que enveredem por outros mundos como o das drogas e o da prostituição, estes, certamente, caminhos sem volta. Com uma parcela significativa da classe média ocorre o contrário. Embora muitos não queiram ver, são os alunos das escolas particulares que preenchem todas as vagas dos melhores cursos, como os de Medicina, Direito e Engenharia. A burguesia brasileira continuará no poder, ou perpetuar-se-á nesta condição porque há investimentos maciços destas famílias na formação dos filhos. Esses futuros médicos, advogados e engenheiros assumirão os postos de comando e os transferirão para os seus filhos que também freqüentarão as boas escolas. A superior maioria dos que pagam caro por diplomas inócuos nas faculdades particulares serão secretários, se forem bem treinados. Os outros comporão as massas de manobra e tentarão vagas enquanto oficce boys, infelizmente... E este é um preceito que vem do velho e bom Marx, queiram ou não. Imagine! - Estes rapazes e moças da escola pública não têm estímulo a partir de casa e, vez por outra, prometem agredir, ou agridem, fisicamente o professor que, de alguma forma, lhes force a aprender alguma coisa. – É o que me contava outro dia um diretor de escola do ensino médio. Um professor de Matemática do sistema estadual, já experiente no trato com os escolares, afirmou sem pestanejar que há líderes e diretores, na sua superior maioria, que não querem sugestões dos que vivem o dia a dia das salas de aula. Atividades como assistir a um bom filme, ir a um espetáculo teatral, visitar uma biblioteca ou um jornal, deliciar-se com um recital de música clássica são, para muitos, apenas mais uma forma de o professor não trabalhar. Ora, senhores! Os temas de grande importância surgem a partir de fatores como estes, como surgem também no cotidiano de cada um. É na sala de aula onde deveriam ocorrer os debates sobre as grandes causas cujos elementos fomentarão o discurso do aluno a ser utilizado na elaboração das suas dissertações pela vida afora. Por tudo isto é que os melhores professores deverão ser premiados por seus esforços. Em qualquer empreendimento humano digno são aqueles comprovadamente competentes que assumem a vanguarda das ações que significam prosperidade.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h15
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Seringal Albrácia A poeira é quase areia, de manhãzinha, nos caminhos e varadouros do campo e da mata. Pés descalços pisam-na e a sentem friinha. Há orvalho nas sororocas e mata-cavalos e cipós de fogo. A caminhada é ainda lenta e preguiçosa. Tenho treze anos, sou criado na cidade e, em vista da falta de hábito, ainda estou um tanto sonolento. O roçado não é tão longe. Eu e minha tia levamos uma enxada e um terçado, cada um. O primo de doze anos vai à frente portando uma espingarda calibre 28. Há tatu, paca, cotia, mutum, canção e muitas imbiaras. A intenção é que nós menores revezemos a enxada que vou levando. De cima de um morrete, avisto a plantação. Aos meus olhos é gigantesca, e muito sozinha. Há mandioca de fartura. Há bastante cana caiana, algumas ainda pendoando. Há velhos pés de milho sobre os quais o feijão amadureceu. Há tocos e troncos de árvores mortas, enegrecidas pelo fogo do roçado, sobre os quais o gurgutuba já está seco e em ramas emboladas, pronto para ser batido. É julho no seringal. A grande roça de macaxeira deve ser conservada limpa a enxada, por obra das mãos grossas de minha tia, irmã de minha mãe, uma índia grande, bonita e de cabelos longos e brilhantes em banha de porco perfumada. O feijão de arranca - gurgutuba - deve ser arrancado à mão, mas só a partir de amanhã, terça. Na sexta, cortaremos e transportaremos cana no lombo do Fogoso, um burro bastante dócil, quase preguiçoso, e, no sábado, faremos uma grande moagem para a produção de rapadura, mel, alfinim e açúcar gramixó... Bom é lembrar que a bóia, o pão nosso do almoço e da janta, fica por conta de Maria José, minha prima de sete anos apenas... Espírito e coração de valentes!... É terça de manhãzinha e o caminho orvalhado é o mesmo. São seis e meia e já estamos colocando a rama do feijão seco sobre uma velha lona. Às nove, de posse de cacetes de maçaranduba, passamos a bater na trouxa amarrada onde os feijões se soltam das vagens. A russara dá coceira no corpo inteiro do aprendiz da vida dura. É isso o dia todo e também na quarta e na quinta. Acabamos, enfim. Agora, tudo fica por conta da tia Nalgídia que, habilmente, sacode o gurgutuba no ar, a partir de uma peneira grande, com a finalidade de livrar-se dos restos de folhas e gravetos. É sexta e a faina dobra porque, a partir das cinco da manhã, já é hora de ir para o roçado cortar a cana, cedinho, para pegar menos russara. É muita cana. O burro Fogoso dá umas vinte viagens, cada uma, carregando umas cem ou mais. A tia foi cortar uma estrada de seringa e nós, meninos, de tarde, vamos colher o látex com o qual será feita uma bola de jogar e uns sapatos de seringa caprichados. O tio está azeitando as moendas e limpando o vasilhame a ser utilizado na moagem, inclusive o tacho. Dormirão no Morada Nova - nome da colocação - o Aprígio, o Arigó, o filho do seu Salvador e um peruano conhecido por Valvito. Chegaram já era tardinha para botar força na engenhoca. Às três da manhã faz um frio da peste, no dizer do tio Perneta. Porongas e lamparinas iluminam a madrugada. Os quatro homens se abraçam com a engenhoca; e haja força. Eu, o primo Ireno e o menino do seu Salvador ficamos pegando o bagaço para devolvê-lo à minha tia, esta, encarregada de, mais uma vez, enfiá-lo nas moendas gritantes. Às dez, a parte mais pesada está concluída. É hora do fogo no tacho. É a vez de a minha avó mostrar todo o engenho e a arte nordestinos para dar o ponto na garapa que vira mel. E é abelha pra todo lado! Agora mesmo uma me pega pelos beiços que logo ficam por acolá. Doeu que só o cão! Domingo não é dia de trabalho. É dia de divertimento. Por isto, a pedida é pescar no igarapé Miguel Doido. Fomos de manhãzinha... Comemos traíras fritas fresquíssimas com feijão e arroz. Dos deuses! Conversamos potoca, chupamos laranja e lemos folhetos de cordel sentados na beira da barraca. Agora, colocamos arreios em dois potros, para os mais novos. O tio monta uma égua quase dourada de nome Lalinha. Na primeira arrancada rumo à porteira, de repente, eis que a minha montaria estancou e eu fui cuspido indo ter com as fuças numa toceira de capim santo... Fiquei todo ralado... É pra aprender...! É domingo novamente. É bom chegar ao barracão do Albrácia aí pelas oito para uma pescaria no rio Acre ou no igarapé Morro Branco, porque os adultos ainda não estão bêbados. Depois, a cachaça corre farta e, lá pelas cinco quase seis, passou por mim um pai trambecando, com um garotinho de uns dois anos num jamaxi, uns três outros meninos ou meninas atrás, a pé em suas roupinhas quase andrajosas, e a ainda jovem mãe atrás da turminha tão triste... E pensar que o pai, naquele estado, está acostumado a atravessar as famigeradas pontes, no escuro, e as crianças também, inclusive, o que vai dormindo no jamaxi... Se morre, não sabe nem porque já está no céu e já tem asas... Ó Deus de misericórdia! Num desses domingos, o menino do comboieiro Guilherme, de uns onze anos, campeava o gado e viu um seringueiro bêbado querendo atravessar o igarapé Morro Branco. O homem disse-lhe que jogasse a corda amarrada na chincha do burro; ele se amarrou pela cintura e saltou no igarapé em repiquete, pela última vez, o burro empacou, não saiu do lugar e o Zé Vaz morreu afogado deixando a mulher e oito filhos. Ó céus! O parapeito é quase uma instituição seringueira. De tardezinha, aos domingos, é praxe ficar ali planejando não-sei-o-quê. Eles sonham em “derribar” a casa de palha e fazer uma nova, agora coberta de zinco, o sonho de qualquer morador da mata. Fato é que, depois, a madeira foi comprada e serrada, o zinco também. E tudo ficou aguardando o verão, época em que seria tornado realidade o grande sonho. Mas veio o infausto. O menino mais novo, de criação, acendeu um cotôco de vela por sobre uma barata cascuda. Esta, num piscar de olhos, subiu pelo barrote da casa velha, foi pela parede de paxiúba e, enfim, alcançou a palha. Pegou fogo a madeira. O zinco derreteu. O sonho ruiu. Fazer o quê!... Compraram uma casa “na rua”, em Xapuri. No aceiro do campo, perto da cerca, há uma cajazeira enorme, onde os meus tios depositam quase sempre um copo de cachaça em honra do caboclinho da mata, uma entidade dita espiritual em que a seringueirada toda acredita, apesar dos milagres de São Sebastião, o guerreiro que, lá de cima, nos livra da onça, da cobra ou da queda de uma ponte qualquer, estas, sempre feitas de um só troco de bacaba ou patoá ou jitó ou manitê... São tantas, principalmente no inverno... Atividade difícil também é cortar cavaco para o defumador. O instrumento é o machado sobre o qual também tenho alguma habilidade; mas o corte na árvore já derrubada deve ser milimetricamente calculado, a olho, de forma a que o cavaco saia perfeito para os fins que lhe cabem. Há uma certa árvore cujo lenho faz mais fumaça que as outras na hora da coagulação do látex. Vai-se pela floresta adentro até encontrar o bendito pé de breu rosa. Todo o relato acima data de três ou mais décadas de vida de uma família que, como tantas, sonhou que sonhou, mas realizou quase nada ou muito pouco. Os igarapés, os varadouros, o verde, os roçados e aquela gente concreta, hoje, já não são os mesmos. Viraram defuntos que já não sonham mais, com raras exceções. O próprio barracão do Albrácia ruiu há uns trinta anos. Tudo são coisas de um outro tempo... Tudo por lá é, hoje, tão melancólico, principalmente, porque me vem à lembrança um excerto de 1859, de Robert Ave-Lallement (citado por Laélia Rodrigues): “impenetrável floresta ensombra a superfície da maioria dos rios e cobre imensas planícies de eterna verdura que, com as torrentes, oferecem a imagem do infinito.” Já não é bem assim... Antes tão rijo e sonhador, Raimundo Nonato, o velho tio cearense de Morada Nova, ficou cego devido a fumaça do defumador que lhe envenenou os olhos. Depois, emagreceu, arqueou pra frente, arranjou uma bengala e, enfim morreu, na Rua Major Salinas, em Xapuri. Com a velhinha, minha tia, um ano depois, aconteceu o mesmo. São vidas de pessoas humílimas que também contribuíram com o seu esforço e o seu sangue para a honra e para a glória desta terra de caudilhos.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h04
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Tempos de desencantar Talvez eu tenha conseguido, já, alguma maturidade pensante, embora ainda não me dê por vencido. Estou muito longe da oitava década, a dos reis filósofos de Platão. Mas é oportuno observar que a idade não nos poupa mesmo. Como as árvores antigas, vamos morrendo, fisicamente, de cima para baixo, ainda que velhos pensamentos regurgitem e teimem em pular do meu barquinho grisalho para fazer parte de um escrito menor como este. Para Aristóteles, o filósofo grego, os céus enviam mensagens importantes aos homens adormecidos, embora, para que o sonho tenha significado, seja preciso que os olhos, sob as pálpebras fechadas, não estejam voltados para a esquerda nem para a direita, mas para a frente, o que costuma ser difícil de se conseguir. Na verdade, a vida, ou a passagem por ela, só terá valido a pena se estivermos sempre buscando sentidos dignificantes para as nossas ações. O óbvio, então, será caminhar com quem sabe marchar, ou vice-versa. Em frente! Eu, por exemplo, tenho aprendido a caminhar com os bons. O grande José Luiz Sigrist, professor de filosofia, pós-doutor em Bolonha, Itália, aos setenta e oito anos, do alto da sua dignidade de metro e oitenta, nos corredores da Academia, colocava um braço sobre os meus ombros e dizia ter muito ainda a aprender com este caboclo que vos escreve. Quanta humildade! Certa vez, no entanto, espreitava-me um burrico a querer ouvir de minha alma - às vezes lúcida - explicações sobre como navegar, porque navegar é preciso, sempre, como na toada portuguesa. Fiz-lhe, então, observação enfática: - Ora, irmão! Nunca fui dado a ouvir atrás das portas. Não por virtude, mas porque, realmente, não quero saber o que pensam de mim ou, para ser mais exato, o que dizem ao meu respeito, o que quase sempre é a mesma coisa. Posso imaginar as opiniões desagradáveis, pois somos aquilo que os outros precisam acreditar que somos. Por isso, nossa reputação está sempre sofrendo alterações drásticas, refletindo não apenas mudanças específicas em nós, mas tão somente uma mudança no estado de espírito dos que nos observam. - É claro que ele entendeu muito pouco, ou quase nada, em virtude do espírito vegetativo que lhe envolve as banhas. E eu continuei quase que em monólogo com os meus moinhos de vento quixotescos. - Alguns pensam de mim coisas escabrosas. Dizem que os meus projetos e escritos, em geral, são todos e exclusivamente pessoais, e não vêem que os atuais caciques da minha tribo nunca me chamaram para fazer coisa alguma. Fiquei preso por oito anos numa sala branca. Enjoei as teorias. Passei a ler a ficção hispano-européia moderna de Carlos Ruiz Zafón, notadamente em A Sombra do Vento. Ademais, não faria sentido, segundo penso, pedir-lhes - aos patriarcas e matriarcas da Ufac - de pires na mão, o favor da bênção desgraçada que seria conviver com gente tão altaneira. Estes, não concordam com a minha mãe, nem com os meus irmãos, que ainda me querem muito bem. Outros, vêem este livre pensador apenas enquanto um estorvo teórico vivo, e muito vivo, que teima em apontar aos hipócritas o caminho da verdade; a verdade que dói. Aprendi a andar modestamente, de olhos baixos, para não tropeçar e não ir ter com as fuças no chão da minha história comum. Não. Não vejo a necessidade de me pavonear ou de me preocupar com o efeito que possa vir a causar nas outras pessoas. Sou o que sou. No interior deste meu espírito insondável, há uma luz pequenina que se diz minha, e tão somente minha. É a tal luz própria que os cometas e asteróides não têm. Aprendi também alguma auto-disciplina, o que me leva, inclusive, a não falar demais, apesar dos circundantes assim o exigirem. Só em alguns parcos momentos a verdade, como o vento da friagem, bate-me o rosto e reclama de mim a defesa intransigente. Há, também, como este poeta insano, aqueles que sentem dificuldade em olhar algumas pessoas nos olhos, porque aí vêem apenas egoísmo, cobiça, medo ou bajulação. Recebemos nosso lugar no tempo, assim como recebemos nossos olhos. Fracos, fortes, claros, estrábicos, a escolha não depende de nós. Afirmo, então, ser esta uma época vesga, caolha feito Luiz Vaz de Camões. Felizmente, quando vários olhos vêem tudo distorcido, nada lhes parece estranho, e só uma visão nítida é considerada anormal. Senão vejamos a formação tosca a que os nossos moços e moças têm sido levados quando distribuem-lhes diplomas de nível superior antes que comecem sequer a pensar o racional equilibradamente. O mercado não poupa ninguém. Quem sabe tem que provar a si próprio e aos demais, ou irá para o limbo dos desesperados que buscam um lugar ao sol da meia-noite. Quo vadis?! Onde ides?! A crise de competência atual leva lideranças profanas a distribuir cargos e comendas entre fantoches e meirinhos despreparados, semi- alfabetizados, que quase colocam o ensino superior em marcha ré. Acredito que, na maioria das instituições públicas de ensino superior, as figuras principais raramente se encontram. Em parte, por opção. Quanto menos se encontrarem, menor a probabilidade de inconveniências. Um, aí, não dirá ao outro que a sua democracia está bêbeda e intolerante ao amparar aqueles que desconhecem a verdadeira ciência, nosso fim e nosso meio, aquela que busca a felicidade para todos através da competência real e comprovada. Convém até mantê-los razoavelmente distantes, porque isso aumenta a importância dos intermediários que podem correr de um lado para o outro fazendo intriga e politicanalhice. E, um dia, fui levado ao debate com um burocrata despótico. Construíram o meu primeiro inimigo. E construíram outros... A verdade, então, surgiu brilhante. E eu, como os antigos, passei a acreditar que as vitórias em discussões são inúteis. Às vezes, são apenas espetáculos sem cor. O que é falado sempre provoca maior cólera que o silêncio. Debates assim não convencem a muitos. Além do despeito que uma vitória desse tipo provoca, há também o problema do vencido. O derrotado, mesmo que chegue a compreender que está lutando contra a verdade, sofre porque o seu erro é publicamente exposto. Pior foi que a pena encardida deste escriba houve por bem dar título à matéria imensa, de duas páginas: Absolutamente certo! Vigiai e orai, irmãos, pois não sabeis quando será chegado o dia ou a hora. Em verdade vos digo: a loucura dos inteligentes é sempre maior que a dos medíocres. Em outras palavras, nenhum relacionamento deverá ser tão marcadamente criminoso quanto o da aranha com a mosca. Ah, sim! Antes que eu desça das árvores e lá em cima deixe os meus irmãos macacos se divertindo com a sua alforria relativa, atirarei dardos infectados e fezes tardias na cabeça desses tantos réus que teimam em me fazer inocente... Apodrecemos, sim, juntos, mas desunidos, perversos e impiedosos...
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h58
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DETRAN E CIATRAN Resido cá pras bandas da Nova Avenida Ceará, entre dois pardais do Detran que nunca me multam porque, principalmente, sei que a faixa dupla sequer deve ser tocada, coisa que por aqui poucos sabem, ou fingem não saber, uma vez que o mais importante é avacalhar mesmo o trânsito. Não há apenas malucos por trás dos volantes. Os imbecis são em número bem maior. É só observar que, entre o Universitário e a AABB, todos os dias ocorrem batidas por excesso de burrice ou pelo fato de o cretino posar ao volante, com o celular na orelha, como brinco, mesmo sem estar falando com ninguém. Cumpre-me alertar os órgãos afins para um fator gravíssimo. É que muitos meninos e meninas do Conjunto Esperança, que estudam numa escola do Tangará, de manhã e à tarde, vêm por um portão dos fundos do Araújo/Daiane e atravessam a avenida mesmo em frente ao citado supermercado, isto, a trinta metros de uma faixa de pedestres com semáforo e tudo. Outro dia, então, um motoqueiro, inadvertidamente, deu passagem a uma turminha de uniforme branco, em local indevido, bem distante da faixa. Eu, que vinha logo atrás, por muito pouco não acertei o ciclista apalermado. Tomem alguma providência, antes que a miséria abale a família estúpida de uma dessas crianças desinformadas e sem criação. (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h35
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A INVEJA MATA O INVEJOSO Eu tenho uma história digna de ser contada para o mundo. Nunca fui muita coisa, mas influo até um pouco. Sou de origem humilde. Vim de Xapuri. Meu pai era estivador e minha mãe, lavadeira; e por aí vai. LUIZ INÁCIO também tem uma história de vida muito bonita e deve servir de roteiro de filme, sim, como serviu. Lula é um exemplo para as camadas mais pobres que buscam um lugar ao sol, com os devidos cuidados e limites. O filme LULA, O FILHO DO BRASIL vai bombar, principalmente no exterior, onde o metalúrgico é tido como o maior estadista do século XXI, apesar de não falar como o Caetano Veloso recomenda. Aí, apareceu o José Aníbal, o Cérbero do PSDB, a dizer que se trata de uma grande armação propagandística. Ora, o Zé é paulista e filho de rico, logo, não tem história alguma para contar. É como o Fernando Collor cuja história agora fica ainda mais podre porque há um ano não paga a pensão da ex-primeira dama. É como a história da Iêda Cruzius que enlameia o elenco dos grandes governadores gaúchos. É como a história do Aécio Neves que é escorada na do velho Tancredo Neves, seu tio morto. E, no Acre, quem é esse Geraldinho? É o violonista do Paço? É o cantor ressuscitado? De quem se trata? (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h03
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AO PROFISSÃO REPÓRTER Um grande número de acreanos, diria um sexto, mais ou menos, principalmente os de Rio Branco, a capital com 400 mil habitantes, desde os anos setenta, viaja em média 70 horas de ônibus para chegar ao Rio de Janeiro, à Florianópolis, à Fortaleza, dentre outras. Como as passagens de avião ficaram relativamente baratas num Estado onde os professores ganham um piso salarial de cerca de 1.600 reais, uma parcela significativa das classes A e B possui apartamentos e casas à beira-mar, a 3.500 quilômetros de distância. O Acre foi povoado por cearenses que aqui chegavam, no início do século XX, depois de três meses de viagem de navio, através do Oceano (cabotagem) e pelos rios. Isto já explica essa mania de tirar férias e ir buscar prazer em cidades tão distantes. (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 01h47
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MAUS LEITORES Aquela turma que queria melar o último Vestibular da Ufac, antes de dormirem muito, muito mesmo, são péssimos leitores. O pessoal do Ministério Público Federal já os viu e, antes mesmo da sessão de lamúrias próprias dos que querem jogar a culpa da sua incompetência em alguém, ou em algum fato, ou no professor que não lhes deixou colar, ou no pai que não funcionou como despertador pós-bebedeira, chegou à triste conclusão segundo a qual, se o concorrente não consegue interpretar (ou ler) o Manual do Candidato, ou até mesmo o simples cartão de identificação, como poderá entender as obras da relação de leituras obrigatórias, como as intrincadas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou o escorregadio Macunaíma, de Mário de Andrade? Porra! É como aquele Adão que jogou a culpa na Eva que jogou a culpa na cobra que jogou a culpa na maçã que jogou a culpa em Deus... Vão estudar, magote de doidos! Não! Eles não sabem o que é isso... (José Cláudio Mota Porfiro)
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h45
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MÉDICO E VERDUGO Há, em Xapuri, pago a peso de ouro, um tal Rafael, médico, que, no interior, apelidam-no doutor, mesmo sem nunca ter feito sequer um mestrado. Dizem-se e comprovam-se atitudes arrogantes, imtempestivas e petulantes. O cara não fala, mas esturra, relincha. Ética não é substantivo que habita o dicionário roto do homem da saúde do município. Respeito nunca foi a meta nem o princípio, haja visto que, na Sibéria, um bairro periférico, o homem conseguiu atender trinta pacientes pobres em quinze minutos, com o seríssimo agravante de, para todos, prescrever o mesmo medicamento. (E haja panvermina!) É como o cidadão, pagador de impostos escorchantes, ir dormir saudável e acordar morto, a depender de um pústula tal. E, como se não bastasse, o tal Hipócrates - o pai da Medicina - é completamente desconhecido do gajo. Sensibilidade não lhe restou nenhuma, mesmo porque não nasceu com tal adereço espiritual. É esta a maior contribuição que eu e a Câmara Municipal da princesinha do Acre estamos dando à saúde dos heróicos xapurienses, na a graça de Deus. Com os respeitosos cumprimentos do JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h40
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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XVI A Academia *JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO No ponto mais alto do frontispício do prédio, acima de uma cabeça de leão esculpida na alvenaria, está a inscrição 1916, coincidentemente, o ano do meu nascimento. O palacete, em estilo colonial, é pintado de um amarelo quase ocre, com janelas e portas de vistas brancas. Depois de um compartimento com jeito de recepção, há um vestíbulo, ou átrio, bastante espaçoso e iluminado pela luz natural. Vêem-se espécimes da flora amazônica - parecem-me tajás - em jarros estilo cerâmica marajoara. Há um bom número de bancos onde algumas pessoas lêem jornais ou livros. Em seguida, no rumo dos fundos do grande terreno, está um pavilhão comprido e avarandado, de dois pisos, onde, suponho, estão instaladas as salas de aula. Rente à edificação e em fileira, há mangueiras, talvez dez ou doze, de meia idade, que emprestam algum frescor ao ambiente um tanto sombrio. Há grandes pés de abacaxi espalhados pelo terreno de médio porte. Há umas palheiras magras que suponho serem açaizeiros. Cá embaixo, está uma placa metálica de bom tamanho onde se lê o nome pomposo da Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará, inaugurada por um tal provedor, o Doutor Aristides José de Paula Lôbo, antigo juiz da Comarca de Belém, in memorian. Conforme está escrito, desde os primeiros anos da instituição, o Honorável Diretor é o Doutor José Militão Arruda de Carvalho e Fagundes. Depois de ter atravessado todo o átrio em divagações, dentre outras, a respeito do muito que poderia aprender ali, sou instado, por mim mesmo, a voltar e tomar informações com uma senhora de bochechas rosadas, óculos pequenos e redondos, corpo avantajadinho, que me vira passar e me olhava de soslaio, de longe. Sobre uma mesa de tamanho médio, preta e de pernas tortas pelo trabalho de algum marceneiro metido a artista, lê-se Profa. Maria dos Prazeres de Albuquerque e Moura, Regente. - Bons dias, professora Maria dos Prazeres! O que me traz aqui é a possibilidade de uma audiência com o senhor Diretor a quem devo entregar esta carta de recomendação. – Digo-lhe, passando o envelope já um tanto amarrotado e, por assim dizer, não mais tão apresentável. Com os oculozinhos já dependurados no nariz redondo acima de uns bigodes mínimos, diz-me a matrona que, pela manhã, a agenda do chefe está lotada. Permanecia, desde cedo, reunido com professores da Faculdade e, às dez, estaria tratando dos currículos do curso com o Major Interventor Joaquim de Magalhães Cardozo Barata, Governador do Estado do Pará, com quem almoçaria. À uma da tarde, já lá estou eu à espera do grande mestre. Às duas, ele chega, dá boa tarde e, apressadamente, quase correndo, apesar dos aparentes sessenta de idade, sobe rumo ao que presumo ser o seu gabinete. Atrás dele segue quase que bolando escada acima a senhora Prazeres com um mazarôi de papel nas mãos. Em quinze ou vinte minutos, a professora dos mocotós carnudos desce e diz que o diretor já houvera lido a carta e que está à minha espera. Subo os dois lances de escadas com o coração latejando. O homem, segundo soube na pensão, é bem calmo e educado - disseram-me refinado! - mas altera o humor talvez devido a convivência com o militar interventor tido como nervoso, durão, mas, à noite, este, sempre às voltas com damas de comportamento impublicável. Bato à porta com os nós dos dedos e torço a maçaneta de fundição antiga. Atrás de uma enorme mesa está o Professor José Militão Arruda de Carvalho e Fagundes que, de pé, aponta uma cadeira estofada de espaldar comprido e me pede que - por gentileza! - sente. O homem é bem grande, talvez um e setenta e cinco, ou mais. Mãos compridas que me cumprimentam têm unhas destratadas, talvez, depois soube, por ser um solteirão convicto. Os olhos, como se fossem de águia, encimam o nariz de ponta. Sobrancelhas espessas e óculos minúsculos vêem além da minha alma profana. Os cabelos ralos estão cheios de iluminuras em vista do uso demasiado da brilhantina glostora. Não há barba na cara da autoridade, mas a figura espadaúda e magra impõe respeito pela austeridade da voz, sempre em tom grave e compassado, e pelos gestos meio didáticos, muito próprios dos que fazem da ciência e da transmissão do conhecimento as razões únicas do viver. - Então, senhor Melchíades Ferreira de Lages, segundo o bom amigo e professor Góis e Castro, estou a cumprimentar um dos melhores alunos que já passaram pelo Liceu Cearense... É um grande prazer! É claro que não acredito no que ouço. Nunca pensei ser simpático àquele professor que tantos detestavam pelo grau de severidade com que tratava a todos. E o diretor continuou: - Se é da sua vontade fazer carreira por aqui, digo-lhe que o esforço é primordial. Não basta querer ser alguma coisa, é preciso o estudo persistente e cauteloso, cotidianamente. Não há a necessidade de dizer para os outros que se é bom. Antes de qualquer coisa, deve-se provar para si próprio que se está na luta para vencer e vencer. Por isto, quero do senhor o certificado de conclusão do Liceu, o histórico com as notas, a certidão de nascimento ou o batistério, e um retrato de frente e outro de perfil, além desta carta de recomendação. Por ter sido instruído no Liceu, tudo o que é necessário está às mãos dentro de um tubo de papelão com extremidades de metal em que guardo documentos desde o tempo em que trabalhei nos negócios da minha tia Chiquita, em Fortaleza. Uma sineta é batida e, em segundos, surge a figura arredondada da Senhora Prazeres que, ofegante, traz nas mãos um grande livro, tipo cartório, e passa a fazer algumas anotações de olho na minha papelada. Em dez
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 05h04
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