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CRÔNICA

Cidade que nasce

A passarada gorjeia com as cores do inverno. Ri. Fica alvoroçada. Basta que a chuva cesse por algumas horas.  O rio se faz majestoso, quase arrogante, em sua largura imensa do mês de janeiro. A natureza é feliz porque sabe que tudo se recompõe. Mas é madrasta que só o nome arrasta, insisto, porque faz parir os filhos humanos e lhes deixa à mercê da própria sorte, para depois devolvê-los ao pó da terra quando bem entender. Mães normais têm os rebentos, criam-lhes com cuidado e querem para eles um futuro cheio da felicidade mais plena. É bom pensar com carinho no quanto sofre essa gente miúda amazônica esquecida nos mais ermos grotões do Brasil.

 E lá vai o rio no rumo de baixo...

Às quatro da manhã, já ouvimos as músicas de Orlando Silva, ou de Carlos Alberto, ou de Vicente Celestino que, como água de enchente, vem invadindo o rio, a mata, os seringais, as gentes. A paisagem toda é como se fosse agora mais feliz, apesar das circunstâncias ditadas pela natureza indescritível, indecifrável.

O dono da grande lancha Maria Amélia, de nome João Barrão, mantém, acoplado a um pequeno mastro colocado acima do segundo convés, um auto-falante ligado a uma pequena vitrola que propaga a alegria pelos sombrios ermos do alto Acre. Ele ainda está a uma hora de viagem e, aqui, já estamos ouvindo as modinhas cujas melodias enchem os corações desses deserdados da história da pátria amada.

Hoje é o dia 16 de janeiro. É um ano novo como todos, depois dos festejos de Natal, quando bebemos bastante vinho espanhol, mais uma vez, da coleção do patrão. Um mutum que estava em um cercado, é mais uma grata surpresa pelo paladar bem parecido, todavia bem melhor, que o faisão, como haviam dito os amigos de Belém.

Às sete da matina, já estamos todos instalados na embarcação. Eu, o patrão, Dona Nenzinha, o cumpadi Estácio, a cumadi Moça, as crianças e mais umas quatro famílias dos seringueiros que se dispuseram a viajar e que melhor se houveram nos ajustes de contas.

- Passeia quem tem dinheiro sobrando. O sujeito que está devendo não tem nada que ir para os festejos. É como se o santo padroeiro não o houvesse abençoado durante o ano que passou. É melhor não ir porque não merece ou não fez por merecer. Está certo o São Sebastião. - É o que prega o bom patrão.

O convés de baixo está cheio e o de cima quase. Ainda apanharemos bastante gente nos seringais Palmarizinho e Albrácia. As crianças são muito desconfiadas com relação aos estranhos. Não riem, não brincam, quase não se movem. Os pais mexem nos sacos de encauchado meio va-zios que devem voltar cheios de chita, extrato, linha de costura, agulha, grampo para cabelo, brilhantina, remédio contra piolho, contra lombriga, dentre outros muitos artigos de primeira ou segunda necessidade.

 O moço de convés atende pelo apelido de Tatu. O outro funcionário  é o Ronda e um terceiro é o Zé da Trompa, além de João Barrão, o proprietário da lancha, um sujeito conversador e deveras animado, inclusive, com a economia da borracha que, segundo consta, poderá ter um novo alento dentro em breve devido alguns boatos segundo os quais os aliados -  Estados Unidos, França e Inglaterra, dentre outros - poderão precisar do produto extraído por aqui, uma vez que os japoneses invadiram e dominaram os grandes produtores, os protetorados ingleses da Ásia. Parece castigo. Eles roubaram as sementes da seringueira amazônica e agora delas não podem fazer uso.

- Parece que agora é a nossa vez de ganhar muito dinheiro. Novamente, o Acre voltará a ser rico e muitos dos nossos sairão do imprensado em que se encontram devido a queda dos preços nos anos que passaram, desde 1929, quando a economia do mundo sofreu um grande abalo porque os americanos se endividaram e quebraram, o que trouxe graves consequências também para o Brasil.

 O João Barrão, realmente, sabe do que está falando. O homem não é apenas mais um falastrão.


 A água do rio lambe a borda da lancha por onde passam os tripulantes molhados vestidos em calções de listas azuis e brancas. Há muito balseiro  -  que são as árvores da beira do rio que vão sendo arrastadas com o barranco pela enchente amazônica. A parte do rio por onde a lancha desliza é sempre a oposta às curvas. Parece lisa, sem nenhum reboliço, como no meio do caudal. Aí há menos possibilidades de irmos de encontro a um tronco qualquer que esteja descendo rio abaixo. Tudo isto prova a incrível habilidade do pequeno grande comandante Barrão junto ao leme da Maria Amélia.

 Um número menor de pessoas embarcou no Palmarizinho e outro ainda menor, no Albrácia. É que os donos desses seringais dispõem de barcos para o transporte dos seringueiros rumo a Xapuri, onde rezarão todos, juntos, para que São Sebastião, o Padroeiro, os livre de todos os males que a natureza brutal coloca em meio aos seus caminhos.

 Estou cada vez mais distante de casa. Navegamos rumo oeste. É por este caminho que se pode chegar à Bolívia e ao Peru.

O barracão do Novo Catete fica um pouco distante da margem e não é visível a partir do rio. O Seringal Boa Vista, da família França, em seguida, tem como cartão postal uma bela residência dos patrões muito bem desenhada, pintada de branco, com telhado estilo quatro-águas, varandas amplas, cortinas, beirais em madeira decorada a serrote, grandes jarros com plantas ornamentais e coqueiros no terreiro da vivenda deveras aprazível.

Navegamos mais uns quinze minutos e já a paisagem se torna diferente. Aparecem as fileiras de casas da Rua Major Salinas, conforme comentário do prático chamado Ronda.

- Enfim, estamos em Xapuri! – Exclamei!

Olho o relógio de algibeira. Belo ainda, apesar das idas e vindas. É meio dia. O sol está a pino cozinhando a moleira dos poucos que não usam chapéu. Quase todos usam alguma coisa para a proteção, inclusive as mulheres dos seringueiros que amarram panos ou lenços à cabeça.

Há dois navios de médio porte ancorados no pequeno porto, o Envira e o Sobral Santos. O desembarque é feito através do Palanque, um ancoradouro simpático, bem desenhado, elegante, que recebe os recém-chegados mais ilustres, inclusive nós que temos esse privilégio porque, a esta hora, nenhuma embarcação está por aportar.

- Isto aqui é muito parecido com a civilização. - Foi o que eu disse ao cumpadi Estácio, que nada entendeu. Então, prometi a mim mesmo não mais fazer comentário algum que seja para glosar a pequena e mais velha cidade do alto Rio Acre.

Eu e o patrão, Seu João, usamos ternos quase iguais, bege claro e amassados um quanto o outro. A grande maioria dos homens assim está trajada. São nordestinos na superior maioria. Os nossos gestos são praticamente os mesmos. Lenço passado na cara suada. Mexida no chapéu de massa. Apanhar a ou as malas e seguir para a Hospedaria Santo Antônio, logo ali, depois de um casarão verde que dizem ser um hospital. Em verdade, bate a exaustão e a vontade de tomar banho e estirar-me numa rede à sombra para um bom sono depois da bóia.

- Que folga a minha! - É o que penso.

O almoço é servido meia hora depois. Está uma verdadeira beleza. Há pirarucu fresco e salgado, jabá com jerimum, carne de porco frita e de boi cozida. Vem alguma pouca verdura de uma horta do colégio das freiras; estas vêm a ser as mesmas que viajaram comigo até a Boca do Lago.

A construção da estalagem é simples, mas em alvenaria. Há no meu aposento duas janelas e uma porta larga. Por ali corre um ventinho leve que me convida a atar a rede preguiçosa pensada anteriormente.

É um sono tranquilo embalado por sonhos que me levam de volta a Belém do Pará, a base a partir da qual alcei vôo rumo à minha aventura quase inconsequente.

Às quatro, ainda o sol está bem forte. Depois de um banho, parto no rumo do comércio que fica logo ali bem perto. A intenção é rever os amigos portugueses, principalmente os mais simples, com os quais tive contato no navio.

Um velho provérbio árabe assalta-me as idéias. Penso que nenhuma pessoa é tão desprovida de amigos para não encontrar um suficientemente sincero que lhe diga verdades desagradáveis. Eu, então, ainda não tenho nenhum desses. Talvez seja isto o que me faz falta.

Passo por um mercado público atravancado de quinquilharias pró-prias para enganar os seringueiros. Numa esquina, está um comerciante vestido em camisa de punho e calça branca, com óculos pincinê e cara de turco. Avisto um grupo de homens, também quase todos de terno branco e chapéu de massa, a disputarem festiva partida de gamão. À porta de uma farmácia, então, está de pé e garboso o bom amigo português Eurico Gomes Fonseca.

- Dá-me um abraço, ó cearense! Como estás lá por aquelas bandas? - É o cumprimento efusivo do amigo de viagem.

De lá, subimos a Rua Seis de Agosto rumo à Rua Dezessete de Novembro, na mesma direção. Na próxima esquina, a uns duzentos metros, encontro Tomás Gomes Fonseca, o outro amigo, irmão do primeiro.

Como esse mundão amazônico aproxima pessoas que moram tão distantes umas das outras e, mesmo por isso, tão pouco se vêem. Coisa de Deus!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 19h56
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CRÔNICA

Mercado Livre e dissabores

Pensando bem, tenho concordado desde algum tempo com aqueles que dizem que antes de atacar um abuso, devemos ver se é possível arruinar-lhe as origens. Os conflitos só existem porque, antes, uma causa os permitiu aflorar. É o encrenqueiro quem começa a arruaça. Sem ele, a confusão nunca teria início. Da mesma forma, a mola propulsora das grandes revoluções é o intelectual resoluto que, ao difundir idéias e ideais, acaba por forçar as grandes transformações de que a sociedade necessita para se desenvolver.
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A Revolução Francesa teve origem no pensamento de Rousseau, Montaigne e Diderot. Foi um valente vindo do Ceará  -  José Carvalho  -  quem insuflou os combates sangrentos que houveram por bem tornar brasileiros os acreanos. Bom é lembrar que as histórias sempre começam por alguém que se insurgiu. Em suma, é preciso rebelar-se.

E tudo demanda grande gasto de um tempo que pode às vezes ser considerado desperdício. Há, então, pessoas e fatos que, de tão aborrecidos, nos fazem perder um dia inteiro em cinco minutos.
Vai uma sugestão grátis, de início. Nunca mais compre o que quer que seja, via internet, usando os serviços espúrios de uma loja virtual denominada Mercado Livre. Demorei de março a outubro de 2011 para NÃO encontrar uma solução para o problema com que me deparei.

Vamos, então, aos fatos e, depois, às tripas.


Consideremos que, nos dias atuais, há mulheres e mulheres. Inclusive, há essas últimas, ou seja, aquelas que, de carne e osso, fazem regimes do outro mundo, não faltam às academias sequer aos sábados e, pela própria índole, dão conceitos cada vez mais nítidos à definição de modernidade. Este é o caso exato da musa que me acompanha pelos desvãos da vida. Para se ter uma idéia rápida, ela quase não pode respirar a não ser na dependência de uma prancha que lhe aqueça os cabelos negros. Ela idolatra aquele instrumentozinho de última geração, tecnologia de ponta, que aguça a vaidade e torna leve a alma feminina.

Melhor é que, para esse espécime subtil, ter uma prancha é como ter um carro. Só serve o do ano, o último grito da moda, no dizer dos mais antigos. Num dia desses qualquer, saltará para fora da minha televisão, bem no meio da sala atapetada, um apetrecho do gênero arrastando uma cabeleireira robô com o intuito cibernético de delinear as saudáveis madeixas da dama de honra daqui de casa. Eu viverei e verei. Por Deus!

E foi essa sofreguidão própria da fêmea da modernidade que empurrou a nossa mahadevi dos vales hindus rumo ao computador para, num tresloucado ato de heroísmo via internet, adquirir a tal prancha, segundo as instruções do filho mais velho. A desgraça maior não foi nenhuma outra senão a opção infeliz. Sem consultar a experiência de um astuto usuário do sistema  -  como eu  -  embarcou na propaganda do malfadado Mercado Livre. Coitados de nós!

A primeira impressão é sempre a que fica. Ela, então, se encantou com uma mensagem mínima, mas de muito significado: frete grátis. Depois, dentre uma dúzia de opções, escolheu uma prancha que ficaria ao custo de quarenta e seis dinheiros dos nossos e nenhum tostão a mais. Clica daqui. Clica dacolá...

O valor do artefato foi pago, na hora, sem maiores problemas. Ocorre que, no outro dia, uma correspondência eletrônica cobrava-nos o frete que, antes, teria sido gratuito não fôssemos nós acreanos. Fomos, então, ao sítio na internet onde a gratuidade já havia desaparecido. Uma grande trampolinagem.

Em um parêntese, explico como funciona o Mercado Livre, este, sim, um canal de propaganda que vincula diversos vendedores espalhados por todo o Brasil, dentre os quais o senhor Fabrício Rosa de Oliveira (agência 3006-6, do Banco do Brasil, conta poupança 13.773-1 / va-riação 1), um negociante inescrupuloso dono de um codinome altamente sugestivo: Tubarão Digital, uma tramóia que se fortalece a cada dia.  

O Tubarão, então, passou a cobrar-me o frete sem o que o produto não viria. Aí, eu fiz o pagamento no valor de vinte e sete reais, na conta de poupança acima citada, mas as cobranças continua-ram a chegar por e-mail.

Próxima fase. Uma dúzia de telefonemas tornaram maior o meu prejuízo e mais caro o meu empreendimento.

Passaram-se uns dois meses e, sem mais canais de diálogo, fui ao serviço de proteção ao consumidor, onde me receberam muitíssimo bem. Em um prazo estipulado pela agência estatal, lá estava eu de novo e, segundo o atendente, não havia nenhuma solução à vista.

Deram-me mais um prazo e lá fui eu novamente. (Não que os custos do instrumento me afetem as finanças domésticas, mas é o abuso de um espertalhão que me deixou impassível, irredutível).
Foi aí que encontrei com uma atendente do Procon  -  a boníssima Marlécia Braga  -  que deu mais uns dois telefonemas e, enfim, conseguiu falar com uma Socorro qualquer que disse que o Sr. Fabrício não queria falar com ninguém. Interveio, então, a supervisora da agência dos consumidores lesados. Esta também não obteve sucesso.

Por insistir muito, a gentil atendente ouviu da secretária paulista a seguinte pérola:

- O senhor Fabrício não vai atender ninguém porque sabe que vocês três fazem parte de um grupo que está organizado para lhe aplicar um golpe. Nenhum de vocês faz parte do Procon e não vão nos enganar. Vocês serão processados por formação de quadrilha.

Enfim, marcamos a audiência, para onde eu fui, já em outubro próximo passado, munido de todos os comprovantes de pagamentos que me foram fornecidos pelo Banco do Brasil, inclusive, com a saída do valor da prancha e do frete da minha conta e com entrada do dinheiro na conta do Sr. Tubarão. Considere-se ainda, é claro, o custo da gasolina gasta com as viagens desde o Campus da Ufac até o Procon, no centro da cidade, ida e volta.

Enfim, para deleite geral da nação que se forma ao redor do meu umbigo, veio uma notícia estúpida emoldurada por um rosto belíssimo, ou vice-versa. A advogada acreana que foi ao Procon tratar dos interesses do Mercado Livre era nada mais nada menos que a Sharon Stone. Loura, alta, saias curtas, decote encantador, ancas vistosas, sapatos à Luís XV, unhas prateadas como se atuasse em O diabo veste pradha, perfumada a Givanchy, maravilhosa nos quase 2 metros. Exageros a parte...

O acordo significou setenta e cinco reais prontamente aceitos. A mente estava turva e os meus olhos revirados. O que ela dissesse estaria perfeito. Só depois do torpor causado pela beleza estonteante da advogada do anjo, foi que perguntei se havia a possibilidade de me en-viarem a prancha. O mediador, também encantado, aconselhou:

- Professor, o senhor vai ter uns dois anos para ver atendida a sua reivindicação. Pegue a grana e compre a prancha ali na Ontem Cosméticos.

Eu estava ainda em estado de choque e concordei... Depois, o dinheiro, já um tanto desvalorizado, veio parar na minha conta.

Com relação às tripas ou às ponderações finais, devemos considerar que esse pessoal que trabalha com o maldito telemarketing não tem nenhuma idéia e nem é orientado sobre a questão das distân-cias amazônicas e brasileiras. Eles confundem Amazonas com Amazônia e pensam que depois de Minas tudo é Bahia. Não têm noção do que vem a ser a região nordeste, e assim por diante. É comum, no sul-sudeste a grande maioria das pessoas não saberem onde fica esta terra. É pura desinformação, e também burrice, como no caso do taxista que, em Campinas, perguntou a mim se o Acre ficava nas proximidades da Arábia Saudita. É muita estupidez.

Os operadores de telemarketing telefonam para as nossas casas, às doze ou à uma da tarde e, quando dizemos que aqui estamos em horário de almoço, eles não acreditam e pensam que nós os estamos querendo enganar. Este é um disparate sem tamanho.

E é exatamente essa desinformação brutal que conduz ao preconceito. O frete grátis é anunciado para todo o Brasil e, quando eles vêem que o Acre fica a três mil e seiscentos quilômetros de São Paulo, é que, finalmente, calculam o valor que terá a mercadoria a ser enviada para o Acre. A solução, então, é correr para as páginas das lojas virtuais na internet e apagar, rapidinho, a informação que nos garante o preço mais barato. E isto é também preconceito. Eles, como muito espertos e muito inteligentes, deveriam, antes, ter um mínimo de discernimento quando divulgam que o seu negócio atende a todo o Brasil.

A realidade é um grande contra senso. A vida e o ser humano também o são, por tabela. Se prestarmos mais atenção, perceberemos que são abusos como estes que vêm para destruir as boas instituições, infelizmente. Mas têm o privilégio fatal de fazer subsistirem as más.

Por conta de negociantes inescrupulosos e encurralados dentro dos meros limites das suas vidas caninas, as pessoas, a cada dia, desacreditam cada vez mais nas outras... É como se o mundo não mais tivesse conserto... É como se já estivéssemos a meio palmo do precipício para onde os calhordas e os imbecis atiraram a humanidade.
Por Deus!

 

*O http://www.claudioxapuri.blog.uol.com.br está entre os sete melhores do Brasil via UOL.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h18
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CRÔNICA

Estúpidos e alienados

Porfiro1Pensei que jamais conseguiria ver muito além do que a minha vã poesia poderia permitir. Não. Fui muito além, apesar de viver na maioria das vezes embalado pelos versos dos outros. Entre divertir-me e buscar perfis para a minha conduta quase ilibada, venho tateando em meio aos escombros de uma vida brusca, que sempre precisa ser legitimada por pessoas que sequer sabem a que vieram, mas dão ordens em meio aos desvãos de uma democracia em podres pedaços, como já deixei anotado em uma crônica da minha triste lavra.

Melhor é que antes, aos dezoito, eu aprendia uma coisa a cada dia. Hoje, aos cinco ponto quatro, estou quase desasnado e já consigo aprender cinco ou seis absurdos no decorrer do mesmo período.
Por isto, me vem à memória William Hazlitt, livre pensador inglês dos séculos XVIII e XIX. Ele deixou alguma coisa parecida com a máxima segundo a qual o preconceito é filho da ignorância. Em palavras mais claras, jamais uma atitude preconceituosa partirá de uma pessoa racional, que consiga deslindar-se das armadilhas das paixões. Um homem inteligente é sempre comedido. Não que seja proibido ao humano apaixonar-se. Sim, que o equilíbrio não nos deixe tomar atitudes intempestivas que demonstrem tamanha estupidez. Pessoas racionais engolem a discriminação em seco e não se perturbam com as diferenças próprias da natureza.  

Então, dia desses, o Júnior Alab, meu primo, consertador e montador de antenas de televisão por assinatura, foi indicado pelo patrão a fazer visita técnica a uma certa vivenda, ali pros lados do bairro São Francisco. Lá chegando, foi recebido por uma madama gorducha com cara de burguesa; só a cara. Era sábado manhãzinha, aí pelas onze, e a nobre paulista acabara de acordar com um humor do cão, bocejando e rosnando palavrões em grande estilo, posto que ela se sente educada. A última flor de plástico do randevous de Tião Medonho.

- Porra, moleque, a essa hora?

- Ora, tá! Foi a senhora que ligou.

- Entra aí!

No quarto do apêzinho miudinho, havia um guarda-roupa fixado à parede e era por ali que a antena deveria chegar ao televisor dos anos 70. Só que era impossível. O móvel estava embutido.
- Ô garoto lerdo! É só passar a antena por trás do móvel.

- Mas não dá, minha senhora. Eu teria que quebrar a parede, o que não posso fazer, uma vez que o seu apê é alugado. Seria necessária uma autorização do dono do imóvel. - Foi o que o nosso herói, equilibradamente, ainda aconselhou.

- Mas que merda! Esses acreanos são tudo sem noção! Como é que pode? – Uivou a dama.

E vinha entrando, então, uma moça, filha da bruaca, com uma camiseta da Ufac onde se lia: Curso de Matemática. Como bom descendente sírio, o acreano tascou-lhe uma resposta lancinante por cima do lombo da porca:

- Então, os acreanos são tudo sem noção, né? Sem noção é a senhora e é a sua filha que vem lá da casa do cacete para fazer um Curso de Matemática aqui. Os acreanos são muito bonzinhos, sim, porque toleram gente do seu tipo. Se a sua filha fosse realmente alguma coisa, teria passado no vestibular da USP ou da Unicamp... Vá se lascar!...    

Depois, eu estava na concessionária que me vendeu o bólido que dirijo por aí. Eis, então, que aparecem, como que saídos do nada, uma loura com cara de sanguessuga e um crioulo com jeito de mandrião, rufião, do tipo caça dotes. Usavam umas roupas estranhas, tipo sertanejo afetado. Eles se acercaram da mesinha das revistas e, de repente, olharam para a televisão onde uma moça apresentava um jornal aqui da terra. O sujeito cabotino foi quem primeiro abriu a boca fedida, como para bajular a xinóca:

- Essa moça fala errado demais. – Disse ele.

- Também, é do Acre! – Obtemperou a fêmea forte de feições.

Ocorre, todavia que, em seguida, depois de um telefonema urgente, garantiram a mim que a apresentadora de TV é de Goiás e, por questões relativas ao bom desempenho das funções televisivas, rapidamente fez adaptações bem interessantes e passou a falar com sotaque desta terra querida, que dá sombra e água fresca a tantos estúpidos e alienados daqui e dali deste rincão pátrio.

Disse-lhes, então, poucas e boas, agora em alto estilo mesmo. Para eles, eu expliquei a abrangência dos sotaques pelo Brasil afora e os convenci, facilmente. Também, eram tão ignorantes nas suas fivelas e quadriculados e botas e unhas tão demodês!

Eles passaram a perceber que os seus erres arrastados são muito estranhos para os acreanos, mas não podem ser considerados erros. Os puristas do estudo da linguagem, hoje, já não consideram desvio o paulista falar pobrema, nós vai, nós fica, nós fumo... Segundo eles, tratam-se de efeitos dos sotaques regionais. Ora, vá lá!...  

Aí, um cidadão que faz parte hoje dessa magna horda de forasteiros alienados, dessa rasa elite composta pelos novos ricos de mentirinha, chegou ao bom e velho Acre arrastando a magérrima cachorra Baleia  -  a do Graciliano Ramos  -  e a apresentou como se fosse uma perdigueira. Pousou por aqui tirando onda de ás no ramo da produção de textos bem alinhavados, segundo ele próprio. Bajulou e bajulou. Babou, sim. Entrou para o ramo da publicidade, fatura uma grana preta, mas ainda não aprendeu a escrever. Conta, sim, com um revisor acrea-no pago regiamente, a soldo, ao custo de trinta moedas de ouro sujo, e só.

Numa segunda-feira das brabas, depois de um rega bofe dominical à base de uísque escocês e pato ao tucupi, chegou o grande mentecapto à redação de um dos nossos jornais e passou a ler a Gazeta do dia anterior. De repente, chamou a um canto o solenizado bardo Beneilton Damasceno e lhe afirmou, com todas as suas letras menoscabadas, que um texto dos de minha lavra não poderia ter sido escrito por um acreano, ao que o festejado jornalista respondeu:

- Esse é acreano, sim, e dos de Xapuri... De boa cepa!

- Pô, ele tem um nível bem razoável. Parece um daqueles articulistas da grande imprensa do sul e sudeste.

Trata-se de um elogio, sim. Mas a carga preconceituosa o destitui de qualquer gentileza que pudesse existir por trás do mesmo. Eu conheço uma penca de acreanos muito simples que engendram textos melhores que os meus. Não é porque o texto seja bom que deva ter sido escrito por alguém de fora. Ou será que esse cabra está me acusando de plágio? É muito fácil buscar a verdade através de certas ferramentas eletrônicas. Mas é preciso ter um pouquinho de discernimento, substância, talvez, faro.

Então, como bom xapuriense, não poderia esquecer uma fatídica e miserável prole de expatriados vindos do Paraná que, nos anos 70, foi ao juizado de paz do Padre José, em Xapuri, onde eu trabalhava como datilógrafo, e tirou todos os documentos, pela segunda ou terceira vez e, depois, deu sumiço ao bom Chico Mendes, a tiros. Se essa corja fosse do bem, muitos dos seus descendentes não teriam cometido tantos crimes como depois houveram por mal fazê-lo.

Desses que vieram há um tempão no rumo de cá, um grupo sanguinário assassinou o grande presidente da câmara dos vereadores da maior Araçoiaba do Brasil. Coitado do Pinté! Felizmente, a Justiça os enfiou na cadeia por quarenta e oito primaveras, mas os liberará daqui a um ano e meio, no máximo. E não são os juízes os culpados, meros mortais. São as leis eternas sancionadas ao bel prazer de legisladores obtusos, sem eira nem beira, muito menos quengo suficiente para os afazeres que lhes são destinados.

Aperfeiçoando o José Chalub Leite  -  que dizia que ninguém vem para o Acre impunemente  -  mais uma vez o festejado vate Beneilton Damasceno deixa lição contumaz ao dizer que nenhum ser humano, que faz no mínimo as três refeições diárias na sua terra natal, terá motivos suficientes para fixar-se nesta terra inóspita que tão bem acolheu os nossos avós cearenses famintos de antanho.   

Hoje, a maior parte dos que vêm do Paraná assume a pobreza que lhes maltratava lá na terra natal. Não mais dizem ser ricos desde sempre. Já chegam por aqui mais leves. Praticam ilícitos mínimos. Comportam-se no trânsito, como donos do mundo, tão mal quanto os acreanos. Casam-se com as nativas de cá. Cumprimentam-nos com um meneio de cabeça em comedida polidez. Deixaram o ar de colonizadores em Umua-rama, Campo Mourão ou Rolândia, e não mais têm a grilagem como uma espécie de esporte predileto praticado com tanto afinco e tanta maldade pelos que chegaram antes por aqui. E isso é bom!

Aos forasteiros mal-educados, é preciso deixar muito claro que, quando se é chegado à terra alheia, as primeiras categorias a serem observadas para uma convivência harmoniosa são a do respeito e a da consideração para com aqueles que lhes fazem acolhida tão boa, como os acreanos, exemplo ímpar de uma hospitalidade daquele tipo que dorme no chão para que o visitante lhe ocupe o maltrapilho catre.
É preciso repetir um comentário que venho fazendo há vinte anos. Nunca é demais. Nenhum forasteiro inculto tem tirocínio suficiente para fazer crítica alguma aos meus, aos nossos. Eu, sim! Não apenas tenho o direito, mas me sinto na responsabilidade de falar mal, ou corrigir, ou apontar as falhas, mas, acima de tudo, corroborar as soluções porque sou daqui e já enxergo um palmo além do meu nariz afilado.

Preconceitos à parte, eu também nutro grande desprezo pelos muitos que aqui chegam para fazer o mal, assim como tenho grande respeito e admiração pelos que vêm para construir.
Está registrado nas Sagradas Escrituras, no Eclesiastes: o preconceito extraviou a muitos e as más suposições desviaram os pensamentos dos homens.
Por Deus!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h14
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ARTIGO

Um bulliyng a mais é demais

As bebidas amargas são, realmente, muito difíceis de tragar, numa alusão ao poeta Chico Buarque de Holanda, em Cálice. Fica-se logo entorpecido devido à ingestão brusca de doses maciças de realidade. Depois, a boca trava pelo que há de injusto na situação vivida e, enfim, os dias, os meses e os anos que se seguem são tristes, cinzas, nebulosos, desestimuladores mesmo. Dá até vontade de largar tudo e ir morar na Coréia do Sul, onde a dignidade e o respeito são cultivados e germinam mui belos, notadamente, entre os que produzem e transmitem conhecimento.

Bulliyng
Numa definição sucinta, o bulliyng compreende atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos. É praticado por um indivíduo  -  do inglês bully, valentão  -  ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia, sendo executados dentro de uma relação desigual de poder. Em outras palavras, é como aquele aluno gordinho, ou aquela aluna que tem o cabelo pixaim, de quem todos fazem chacota e até maltratam fisicamente, e nenhum dirigente percebe ou não quer perceber.
E os fatos foram sendo tratados dentro daquela rotina lerda das escolas brasileiras. Estas vinham caminhando naquela pseudo  normalidade já histórica. O problema existia, certamente, mas não era percebido. Todavia, para piorar, nos últimos anos, a prática recrudesceu e, agora, passa a existir um bulliyng a mais, o que já é mais que demais.


O novo bulliyng é também perverso porque não maltrata apenas uma vítima, mas toda uma comunidade que deixa de tirar proveito dos estudos e dos conhecimentos transmitidos nas escolas porque alguns alunos se acham no direito de agredir, física ou psicologicamente, pessoas que nada mais querem que dar algumas luzes que iluminem caminhos tão escuros, tão íngremes e tão tortuosos.


Entretanto, antes das críticas mais direcionadas, mais concretas, e que estão acima da letargia abstrata da vida escolar, é preciso afirmar que, felizmente, as escolas brasileiras conseguem, hoje, tirar muitos dos problemas das pautas de resoluções porque têm buscado recursos e saídas plausíveis, inclusive a curto prazo, apesar de algumas questões ainda não solucionadas, como o item que versa sobre a ordem e a disciplina, estes, ainda considerados fatores que levam o pavor aos dirigentes, antes de mais nada.


Há material didático em quantidade suficiente. A aquisição das novas tecnologias é uma realidade e cada aluno finalista do ensino médio dispõe de um palm top de última geração. Muitos livros foram adquiridos e até sobram. Há laboratórios bem montados. Os professores são selecionados através de concursos públicos e os diretores fazem cursos onde se especializam para a administração das escolas. Há avanços e não se pode negar.


E o novo bulliyng? A origem do problema recentemente identificado tem base em muitas famílias que perderam o controle sobre as suas crias - meninões e meninonas  -  e as deixam à solta instilando ácidos venenosos contra os muitos que ainda querem ensinar alguma coisa e contra outros que vão às escolas para aprender o algo mais que lhes pode tirar da situação adversa comum a boa parte da população.


Observemos que, infelizmente, a alçada que seria relativa aos dirigentes educacionais - como o meu ex-aluno Daniel Queiroz de Santana, hoje Secretário de Educação  -  passa a ser, nos dias que correm, uma inquietação dos setores da segurança pública. Em outras palavras, uma preocupação a mais para o respeitável Reni Graebner.


É, senhores do Ministério Público do Estado! Os professores estão sendo também chacoteados, ridicularizados, desrespeitados, ameaçados, sim, inclusive, fisicamente. Senão vejamos.


Este cronista assíduo (e professor desrespeitado), que vos deixa estas mal traçadas linhas, soube, de fonte fidedigna, em uma reunião de professores, através de mensagem do dirigente escolar, que estaria entre os jurados de retaliações físicas pelo fato de me impor em sala de aula e zelar, incansavelmente, pela ordem e pela disciplina.


E não são tantas as exigências. Peço-lhes que, sempre por gentileza, não deixem de se concentrar, pois é esta uma atitude necessária em qualquer atividade que você desenvolva, caso queira tirar algum proveito dela. Digo aos meus estudantes que a conveniência maior é sempre levar a escola muito a sério porque esta forma para a vida e a vida é algo de muito melindroso que requer cuidados demais, do contrário, os longos dias que levam ao momento final  -  o fim da vida  -  serão repletos de infelicidades e dissabores. E isto não é filosofia barata, como poderiam afirmar os meus críticos eternamente atrás das cortinas.


Aos respeitáveis dirigentes da estrutura estatal, inclusive, aos membros dos ministérios públicos, afianço, sem nenhum medo de retaliações por parte de quem quer que seja, que uma laranja ruim apodrece todo um saco repleto de duzentas delas. Apenas um insubordinado consegue prejudicar o rendimento de uma turma de quarenta alunos e o trabalho do sacrificado professor.


Certo é que, depois da notícia transmitida pelo dirigente, os receios não se abateram sobre mim, uma vez que não sou de andar por aí tendo medo de qualquer firula. O problema é que, enquanto pagador de impostos altíssimos, sinto-me na obrigação de representar, aqui, alguns dos meus pares e requerer do dito Estado de direito todas as garantias de segurança, para que nós possamos levar o nosso trabalho a bom termo. Não vou azeitar as armas que eu não tenho. Não vou contratar uma ca-broeira, que está disposta a intervir, por não achar necessário responder violência com valentia. Seria até fácil usar este tipo de expediente atirando ao léu trinta moedas de ouro.


Ademais, para efeito de ilustração das palavras aqui apostas, lembro-me que, há uns três anos, o pai de um aluno invadiu a escola e quis agredir fisicamente um professor de língua portuguesa que trabalha pela manhã. Um exemplo monstruoso para os alunos. Há pouco mais de um ano, vi escrito em algumas carteiras uma mensagem segundo a qual nós vamos matar a professora Graça Fadul. Na mesma época, o professor de matemática do matutino registrou queixa no distrito policial por ter sido agredido. Agora, muitos professores são violentados nos seus direitos à segurança e sentem ser chegada a hora de arranjar profissão que não lhes coloque à mercê de tantos riscos.


Um dos alunos musculosos perguntou, no mês passado, se o professor de matemática do noturno não tinha medo de morrer. A coordenadora pedagógica foi ameaçada fisicamente. A outra está morrendo de medo. A pequenina professora de história está sendo desafiada a manter-se em sala de aula sem recuar, sem cair, sem tremer. Alguns professores mais velhos se aposentaram ou se licenciaram por não mais suportarem as vicissitudes de um tempo dividido entre os estudiosos e os insubordinados que prejudicam, simplesmente, a comunidade como um todo.  


Ponderemos, então. A Secretaria de Educação tem, já, as fórmulas para remediar situações como esta. Eles podem contar com um pequeno grupo de patrulheiros escolares da Polícia Militar que passa a cada dois meses nas escolas. Todavia, havemos de convir que as delegacias de polícia funcionam vinte e quatro horas, o que é altamente alentador. É também muito fácil registrar um boletim de ocorrência com endereços que podem ser fornecidos pela própria escola onde os vândalos abundam.
Daí, cá de minha parte, penso que o passo seguinte e mais sensato será requerer um salvo conduto de Sua Senhoria, o Senhor Delegado de Polícia, e qualquer dano que ocorra a mim ou ao meu automóvel (um bem sob a guarda do Estado, posto que pago impostos) terá como responsabilizados, na forma da lei, alguns alunos maiores de idade que se enchem de músculos nas academias com o objetivo único de amedrontar os professores mais novos que, no mais das vezes, arrependem-se da profissão que escolheram, como aquela mestra decepcionadíssima que, aos prantos, foi socorrida pelo jornalista Rutemberg Crispim quando, na banca de jornal, buscava um daqueles manuais que aprovam qualquer um em qualquer concurso público, desde que o esforço seja a tônica do candidato.


Recorrendo e uma crônica de minha lavra, reafirmo que a melhor nova cultura de paz que poderíamos instalar nas escolas é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade, para o bem geral da Nação progressista que deve estar na cabeça e nos planos futuros de cada um, inclusive, dentre os mais determinados. Por Deus!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h50
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C R Ô N I C A

Meninice

Hoje é o dia das crianças daqui de casa também, como tem sido, diariamente, desde algum tempo. Celebridades da terra, em jornal impresso, dizem de um tempo que já vai longe. Como todas, também a minha infância foi tal qual a água que desce da bica para nunca mais subir.
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Então, minha madrinha Eulália Brasileiro, a linguagem usada aqui não pode ser recheada de salamaleques ou figuras de estilo do tipo metáforas, justo porque eu não tive exatamente um tempo de infância, mas vivi, sim, a meninice folgazã e arriscada, bem do jeito daquela época, nas colônias e seringais, a bordo de canoas ou em lombo de cavalos, ou na carreira com medo de onça, através dos varadouros e dos rios e barrancos do Acre, sempre em companhia do meu pai, o Gibiri de Xapuri, ou da minha avó materna cearense valente, a Dona Mariinha, nascida em 1896.


- Vigie, minino! Era a forma com que ela me chamava a atenção. É claro que a frase vinha acompanhada de um semblante sisudo que impunha respeito em todos da raça dos lá de casa.


Na fazendinha do meu tio Zé Maciel, ou na colônia do cumpadi Jaime de Barros, pescava do jiju e do cará, nos igarapés, ao filhote e ao jundiá, no Rio Acre, a nossa grande dádiva de Deus.

 Trotava, galopava ou corria em cavalos em pelo. Um boi chamado Macaco também passeou comigo pra cá e pra lá, sem que fosse necessária sequer uma palmada no lombo ou na anca de quaisquer dos animais. À noite, os mais velhos dançavam o forró, enquanto eu ficava batendo carapanã e pensando sobre qual fórmula poderia ser usada para, um dia, quem sabe, tornar-me doutor. Vejam só o moleque!


Um dia, lá no Seringal Albrácia, Colocação Morada Nova, montei um potro e o meu tio Perneta passou a perna na égua. O animal mais novo saiu em velocidade no rastro da mãe e, no aceiro do campo, quando ela parou, ele brecou de vez e eu passei por cima do pescoço do bicho e fui dar com as fuças numa touceira de capim santo. Pra aprender!


Como todos os meninos pobres, eu também sonhei com a ocasião futura em que haveria de me tornar um doutor, desses de consultar aqueles meninozinhos e meninazinhas cheios de vermes, com os quais eu convivia, sem problemas, a brincar na calçada da rua dos meus sonhos de ainda hoje.


Dos meninos paupérrimos da vizinha Vila Natal, tendo em vista ter contato, hoje, com um que se fez empresário forte da construção civil, lembro o que Charles Chaplin escreveu: “Uma pessoa pode ter uma infância triste e pobre e, mesmo assim, chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida”.


Não tive maiores problemas de saúde, depois dos quebrantos da primeira infância. Tomei pouca panvermina e nunca experimentei o famigerado tiro seguro, remédio terrivelmente amargo e enjoativo, bom no combate às áscaris, oxiúrus e lumbricóides.


Comia bem. Gostava das verduras e das frutas cultivadas ali mesmo no quintal. O jerimum era comum no cardápio. Estava permanentemente calçado em alpercatas de couro cru ou em bons sapatos de seringa, daqueles que são reforçados com uma palmilha de sandália de borracha, para amenizar quase todos os riscos de quem caçava de baladeira, pescava de anzol ou ajudava os tios mais velhos na lida da roça, principalmente, entre os meses de junho e julho, quando me tornava um colonheiro, ou quase um seringueiro.


A professora Orfisa Camelo Bacelar, hoje falecida e a quem devo de tudo um pouco, um dia gravou para sempre em minha mente:


- Preste muita atenção, seu Zé Cláudio. Se a escola forma para a vida e você acha que deve levar a vida a sério, então, antes, você deve levar a escola também a sério. Não tem outro jeito.
Era obediente, copiava os bons exemplos  -  mesmo em casa, do bom irmão Marcos - e não era levado. Fazia os deveres escolares nos detalhes. Como era ativo, dito esperto, trabalhador, também não escapei de pequenos acidentes, como uma ferrada de arraia enquanto pescava na boca do Igarapé Filipinas. Como o saco plástico que, por descuido, derreteu ao fogo, pingou e me furou o pé esquerdo. Como uma pedrada que sapequei na cabeça do Motinha, meu irmão, o que me rendeu umas boas lamboradas de papai.  Como os cortes de terçado, enquanto fabricava brinquedos de menino pobre. Como quando fiquei perdido por três horas na mata bruta, no seringal, de onde consegui sair ileso, mas com uma fome de cachorro de seringueiro.


À noite, sonhava novamente. De dia estudava ou trabalhava. Vendia mingau de banana ou de arroz e quibe de macaxeira. Brincava mais ou menos entre cinco e seis da tarde, ou aos sábados e domingos. A barra era uma brincadeira que consistia em um grupo de meninos correrem atrás do outro até pegar, tocar. A peteca é chamada bolinha de gude em outras re-giões brasileiras. A perna de pau era também confeccionada por mim e me fazia sonhar cada vez mais, uma vez que, através dela, apreciava pelas janelas altas as casas dos turcos e portugueses ricos ou mais ou menos.


Uma vez, no seringal, usando peconha de corda, subi num pé de jitó alto e levei lá pra cima da árvore uma tábua de caixa de sabão bem fininha amarrada na extremidade a um cordão. Aí, comecei a rodar velozmente o tal apetrecho que fazia um barulho parecido com o esturro da onça vermelha... Não demorou cinco minutos e a bicha já estava embaixo da árvore cheirando o chão e olhando pra cima. Meu pai deu-lhe um tiro de dezesseis mesmo entre os olhos, tirou o couro e o vendeu aos mascates bolivianos.


Depois, era manhãzinha, a caríssima professora Enedina Sant’Ana de Menezes passou lá por casa em hora crucial e tomou das mãos de mamãe, e atirou ao fogão de lenha, uma palmatória de madeira maçaranduba novinha com a qual nos era enfiada na cabeça  a tabuada, a separação silábica, os dezesseis pontos cardeais, as capitais do Brasil e os nomes de todos os grandes, desde D. Manuel, O Venturoso, patrão de Pedro Álvares Cabral, até João Goulart, de quem mamãe era fã ardorosa.


- Nenem, hoje em dia não se bate mais em criança, porque fica muito mais difícil esses meninos aprenderem alguma coisa. Faça com que eles estudem num local em silêncio, em voz alta, de preferência... – Foram as palavras de uma professora muito à frente do seu tempo. À tarde, lá estava a professora em minha casa, mais uma vez, para ver o efeito do fogo na palmatória de maçaranduba. Não havia sobrado nem as cinzas. Eram mais de cinco da tarde e papai foi quem reclamou do fim do instrumento de açoite, tão bem feito, quase uma obra de arte.


- Mas Gibiri, meu amigo. O Mota é ainda uma criança e o Zé Cláudio tá chegando na adolescência; já tem quase treze anos. - Ao que o meu pai, do alto da sua metodologia positivista, retrucou:
- Mas professora. Deixe disso. Fi de pobre não tem essas friscura, não. Ou o caba passa de menino bom a homi trabaiador, ou passa de minino severgõin a véi safado. Ou uma ou outra. Não tem situação diferente que seja.


Em 1970, o Brasil ganhou a copa do mundo pela terceira vez. Lá em casa, nós ouvimos  -  testemunhamos  -  tudo pelo rádio, até o último gol contra a Itália. Houve muito foguetório, o carnaval e a bebedeira correram na largura da boca e o Padre José, nosso pároco, tocou trezentas badaladas no sino da Matriz de São Sebastião. Findo o jogo, eu e uma turma de garotos da minha idade fomos para o campinho atrás da escola para colocar em prática tudo o que havíamos aprendido com a grande seleção do Brasil.


Eu tinha treze anos e era gente grande, uma vez que produzia para ajudar os pais no sustento dos irmãos menores, esta, uma tarefa que me coube até agora já próximo da virada do novo milênio.
Já não sou um menino qualquer, mas penso ainda ter Deus muito a nos presentear, inclusive nos dias das crianças lá de casa, que são todos os dias das nossas vidas felizes. Graças!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h49
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Prefeitos meninos mínimos

Basta um mínimo de discernimento e qualquer cidadão que consiga ver um palmo adiante do nariz rombudo observará que, para cada segmento da estrutura governamental, há sempre uma série de gargalos e problemas de fáceis soluções. Mas o nobre deputado não consegue ver. O pequeno edil tropeça nas pernas. Sua Excelência, o senhor prefeito, então, é muito pior porque tem formação intelectual ainda mais capenga e não vai além das mesuras que podem ser feitas para o agrado de apenas alguns munícipes.

Pisar-em-ovos
Fui instado a colaborar por quem de direito. Todavia, antes, é conve-niente ir ao âmago do problema e analisá-lo na sua real dimensão. Depois, as soluções aparecerão como num passe de mágica. Mas esta não é uma tábua de mandamentos. Apenas rumos bem interessantes aqui são apontados, inclusive, para os dignificados doutos da Justiça Eleitoral.


É claro que há, dentre os prefeitos acreanos, uma professora com nível superior, um economista de renome nacional e um doutor em humanidades. Quanto aos demais, é oportuno observar que, mesmo a vinda dos palestrantes das fundações  -  Teotônio Vilela, Perseu Abramo, dentre outras  -  encarregadas da formação dos políticos sem lastro não surte resultado, porque o que é dito nos cursos entra por um ouvido e sai pelo outro. Ademais, os participantes estão imersos na penumbra da desinformação, nada entendem porque o nível é alto demais, ou porque a conversa é intensa com o objetivo de, depois, dizerem que os temas mais importantes não foram tratados e por isso eles se dão ao direito de errar.


Na grande maioria dos casos, os prefeitos das cidades do Acre, notadamente as menores, são rapazinhos de pouca instrução, pretensiosos e empavonados, como príncipes de pequenos reinos, onde o rei é o pai e a população de súditos boquiabertos não chega a cinco mil almas. Ambos entendem muito de politiquice, politicalha, maledicência e fuxico. Nada entendem dos conceitos e práticas da política propriamente dita. Também ninguém lhes ensina nada.


Incômodo é notar que, em primeiro lugar, surge-lhes na mente o aprendizado de uma prática terrível em muitos dos casos herdada do papai também politiquinho. Eles aprendem o lado ruim do pior dos aspectos da política partidária, esta, certamente, um mal, mas um mal necessário. Os prefeitos meninos tentam dialogar consigo próprios e querem dizer que estão muito acima da sua mediocridade semi-alfabetizada. Eles não observam que a política que não é nociva é a que trata do bem-estar do ser humano. E só.


Se me viro para um lado da estrutura administrativa de um município, vejo que as políticas educacionais, por exemplo, se levadas a bom termo, colocam a merenda escolar de qualidade no cardápio diário dos alunos, promovem o dia letivo integral, adquirem livros que ensinam caminhos, pagam salários dignos e compram equipamentos e novas tecnologias facilitadoras do ensino fundamental, principalmente.
Se olho para o outro lado, percebo que as políticas públicas orientadas para a solução dos problemas da produção de alimentos levam, inclusive, o resultado do trabalho agrícola para as escolas que terão alunos melhor alimentados. Estes aprenderão muito mais e irão bem menos aos postos de saúde, dentre outros fatores extremamente positivos.


Alunos mais estudiosos darão menos trabalho aos que fazem as políticas de segurança pública. A maior parte deles preferirá freqüentar um ginásio de esportes  -  com bons professores de educação física, é claro - a afugentar-se no perigoso mundo das drogas.


Se a preocupação do administrador voltar-se para a construção de estradas vicinais, os caminhos das escolas serão menos penosos, os agentes da saúde preventiva chegarão mais facilmente às vivendas dos agricultores mais distantes, estes não terão a necessidade das visitas freqüentes aos postos de saúde, a produção agrícola será escoada em menos tempo, e assim por diante.


E o que se vê?


Incluam-se, aqui, também as cidades maiores. As obras mais concretas cabem apenas aos esforços hercúleos do Governo do Estado que, na superior maioria dos casos, não pode contar com as prefeituras municipais por pura inépcia destas. Felizmente, as secretarias de estado podem confiar em equipes formadas por técnicos de formação esmerada que partem das teorias densas e chegam a uma prática favorável através de projetos exeqüíveis, para o bem de todos, como deve ser feito. (Felizmente, enquanto um cidadão de bons propósitos e perfeitamente saudável do juízo, não posso deixar de ver o trabalho que vem sendo feito em todas as áreas da administração pública. Eu não sou cego e a senhora, minha leitora, também não é!)


No Acre, são ainda conhecidos casos de cidadãos ou pseudo-cidadãos que, por não terem uma ocupação definida, um ofício, uma profissão, um diploma, passaram a fazer da política partidária uma arte, a arte de enganar o eleitor inculto e desinformado. Não sabendo fazer nada, o indivíduo  -  politicanalha  -  se especializa em mentir. O pai o colocou na escola e queria fazer dele um médico ou um advogado ou um engenheiro, mas o menino rude só conseguiu ser político enganador da fé pública.  


Desequilíbrio seria apontar os problemas e não demandar as soluções. Elas existem. Basta um pouco de discernimento (leitura, mesmo) por parte dos políticos menores e por parte dos que dizem garantir a sua formação, como as fundações acima mencionadas.


Interessante por demais é que a justiça eleitoral atente para uma solução bem plausível colocada em prática pela nossa Secretaria de Educação. Senão vejamos.


A explicação é apenas uma síntese do processo, é claro. Em rápidas palavras, o diretor de uma grande escola é como o prefeito de uma pequena cidade. Considere-se que o Colégio Estadual Barão do Rio Branco, por exemplo, matricula mais de dois mil alunos por ano. Para que o trabalho seja levado a bom termo, então, é preciso uma análise das competências e das capacidades dos que se candidatam ao cargo de dirigentes escolares.


Em um dado momento, os diretores de escolas passaram a ter a eleição garantida através do sufrágio universal, mas os eleitos nem sempre correspondiam às expectativas da comunidade escolar porque lhes faltava preparo, inclusive, para o trato com as finanças. Foi aí que surgiu a idéia segundo a qual um número qualquer de professores pode se candidatar a dirigente. Só que, antes, esses mesmos candidatos fazem um curso de um mês ou dois meses, parece-me, e, se aprovados é que colocarão os seus nomes para a disputa. Aqueles que têm as melhores notas têm as maiores chances. Em outros termos, como no adágio antigo, só se estabelece quem tem competência real e comprovada em curso intensivo, através de concurso teórico e por meio da concorrência legitimada pelo voto.


Mesmo que as comunidades do interior não tenham pessoas com preparo intelectual para um empreendimento de tamanha envergadura, outros indivíduos com alguma ligação com as cidades poderiam participar das três etapas da mesma forma como fazem os professores que se candidatam a diretores de escolas... E tudo seria feito, também, com os vereadores gulosos e com os apaixonados deputados estaduais completamente destituídos de razão, de tirocínio. Pura emoção.


Em verdade vos digo que a culpa é da vaidade que atinge tão somente os ignorantes que não sabem dominá-la. Aos que colocam e fazem bom uso dessa carapuça - autoridades, líderes mínimos e afins - devo repetir que um pedante continua sendo um homem que tem a digestão intelec-tual extremamente difícil.


Aí eu pergunto: quem lerá estas linhas tão surpreendentes? Eu, novamente, no domingo. Por Deus!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h07
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Admirável mundo velho

Depois da farta distribuição de diplomas para uma parte da juventude semi-alfabetizada, e agora desencantada, digo-vos que ainda há uma meia dúzia de bons alunos em cada sala de aula da minha escola noturna de ensino médio, e já está bom demais. Pena que outrora esses números foram bem superiores aos atuais.

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Jogaram diplomas coloridos em papel couche, do alto de uma janela governamental, e a galerinha rude correu a apanhá-los para, depois, poder andar, orgulhosamente, com um canudo debaixo do braço como se fora desodorante.


Também, pudera. Não havia muito a fazer com essa imensa parcela de eleitores entontecidos, aparvalhados, bestificados, com a parca cultura com que foram sorteados pelo sistema que os quis  -  e continuará sempre querendo  -  apenas enquanto massa de manobra do tipo eu te esquento um diplominha aqui e tu me dá o teu votinho chinfrin acolá.


E colou. Colou direitinho. Os embasbacados projetos de novos intelectuais foram presas fáceis de uma armadilha estúpida, bocó. Aliás, todo mundo colou porque, para as elites brasileiras, vale para os filhos dos mais pobres a máxima medíocre segundo a qual quem não cola não sai da escola... E fica de esmola por toda a vida.


Não tão bem lembrada é aquela máxima bizarra da década de 70, dirigida a Gilberto Mestrinho, do Estado do Amazonas: ele roubou, mas fez.


A invenção da Rede Globo, como toda organização que torna a fantasia produto vendável, foi, mais uma vez, genial. A clientela do absurdo concluiu mais uma etapa da vida marcada por tanta enganação e subiu mais um degrau no rumo da inconsistência e da inconsciência com diploma debaixo dos braços tenros a perfumar-lhe as tristes axilas. Nas vinhetas televisivas deixaram-lhes claro que todas as portas estariam abertas, inclusive as das universidades públicas e as das penitenciárias sempre lotadas por aqueles a quem sequer foi dado o direito de sonhar e se enganar redondamente.


E, num desses dias cabalísticos, eu pedi à minha ajudante de ordens, formada pelos programas de educação de jovens e adultos, que lesse um rótulo de embalagem de margarina. Ela balbuciou uma meia dúzia de monossílabos guturais inteligíveis e disse que não conseguiria de modo algum, pois houvera aprendido apenas a escrever a assinatura, como as suas amigas que vivem das sobras que caem das mesas da rasa elite tupinambá.


Ora, esqueceram de ensinar a moça a ler. (Também! Com uma poronga enfiada na cabeça!)


Aqui em casa é que ela, com o apoio das crianças e do adolescente obcecado por livros, tem aprendido muito mais que os rudimentos do be-a-bá dos baianos ensinado nas escolas engraçadas onde se lia, desde criança, três ou mais vezes, Marcelino Pão e Vinho, o velho livro do espanhol José María Sanchez Silva.


Melhor. A Rubisnete está conseguindo ler os textinhos condensados da Bíblia do Pequeno Leitor (Editora Atos). Outro dia, inclusive, ela já estava a escrever o nome, familiarizando-se com o teclado do computador. Isto é que é uma beleza!


Esta é, sim, a realidade de um espaço bastante diferente daquela dos seringais de Sena Madureira, onde viveu até os vinte e dois anos. Penso que, para ela, este é, talvez, o admirável mundo novo a que Aldous Huxley se refere.


Ora, senhores. Nós um dia conseguiremos viver organizada e harmoniosamente, como prega o senhor Huxley.


E o que vem a ser a ação organizada e disciplinada do admirável mundo novo? Observo que os meus filhos, por exemplo, dispõem de computadores, sim, mas, antes, vão aos livros, porque sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever, inclusive, a sua própria história. (E olhe que eu me indignava quando um velho mestre da Academia, no início dos anos 80, passava, às vezes, uma aula inteira a propalar as qualidades dos filhos ditos muito brilhantes.)


Bem antes, ainda no período colegial, muito eu ouvi das freiras e dos padres que pregavam coisas do tipo a vida não é fácil e você deve se acostumar a essa realidade, mesmo que você seja um filho de seringalista.


A verdade é que não subir e apenas permanecer na base da pirâmide é relativamente fácil. Ruim mesmo é o riquinho nascer no topo e, de repente, no auge da juventude transvia-da, despencar lá de cima e se estatelar no chão duro da história dos vencidos. O pescoço de vidro perderá a correntinha de ouro e não suportará o baque. Fim da linha. (Aí cabe aquela da regência nominal: se eu vou AO cemitério, é porque voltarei para casa. Porém, se eu vou PARA o cemitério, lá deverei ficar por todos os séculos.)


Então, nasceu em mim essa inclinação por tornar-me um cê-dê-efe, de uma vez por todas; isso há muito tempo. Depois, fugidos os anos, passei a usufruir das prerrogativas e privilégios que cabem a esse tipo de gente. Disse-me um desses, lá de Xapuri, o Dr. Félix Almeida de Abreu, parece-me:


- Prestam-nos até homenagens! - Ao que respondi de bate pronto:


- É bom ser legal com os cê-dê-efes. Existe uma grande probabilidade de você um dia vir a trabalhar para um deles. - Ele sorriu divertidamente. Estávamos em Cabo Frio, Rio de Janeiro.


Àqueles que comigo tentam aprender alguma coisa, em sala de aula, tenho repetido uma das máximas mais interessantes do Bill Gates segundo a qual, se você acha que o seu professor é um grande chato, espere até um dia ter um chefe. Ele não vai ter dó nem piedade.


E veio a mim depois um desses tabareuzinhos sexualmente desvirtuados, mas boa gente, a reclamar de uma série de obstáculos colocados por pessoas muito ruins em meio ao seu caminho.


- Ora, professor! O meu pai é culpado pela metade dos meus dilemas. Mamãe tem a outra parte da culpa. O professor de matemática é o responsável por eu não saber dividir por dois. Aquele professor de português pilantra pecou muito porque eu não aprendi a separar as sílabas das palavras. A minha tia escorregou comigo, pois me colocou o primeiro copo de cerveja na boca quando eu era ainda uma criança...
Haja paciência e tolerância para uma litania tão lamentosa. Por isto, mais uma vez, recorri ao Senhor Gates:


- Esqueça quem quer que seja. Pense em você mesmo. Se você fracassar, a culpa não é dos seus pais. Por isso, não os culpe pelos seus erros, mas aprenda com eles.


É claro que estou aqui a compor uma crônica a ser lida, talvez, por ninguém. A moça da psicologia, minha ex-cunhada, Deborah Oliveira, é que prega mais ou menos que, antes de você nascer, os seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por pagarem as suas contas, lavarem as suas roupas, e assim por diante. E ela continua, agora em tom quase profético: antes de querer salvar o planeta para a próxima geração, desejando consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar o vosso próprio quarto.


E a vida peregrina anda lerdamente pelas salas de aula desse mundão. E uma das conclusões a que se chega é que a escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. A boa competição deve ser acirrada. Em muitos casos, o projeto de cidadão não entende que perder faz parte do processo, isto, claro, porque existem os livros de auto-ajuda que tornam milionários autores que vendem o otimismo acima de qualquer suspeita. Isto não tem nada a ver com a vida real.


Aqui, não há a pregação do pessimismo, mas do realismo puro e simples. Por isto, convém lembrar uma assertiva antiga segundo a qual o sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais haverão de cair com os joelhos por terra. Por Deus!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h31
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Querida Marilyn...

Tu, que ainda não trilhaste os caminhos do mundo por onde eu passei a partir dos tempos de criança. Tu, que jamais esqueces de que a vida é um eterno buscar, planejadamente, deves prestar muita atenção ao que sugere este simples plantador de futuros em meio às searas e roçados juvenis desta época e deste espaço. Tu ainda hás de te lembrar muito das palavras toscas desta crônica cheia das intenções mais dignificantes possíveis.

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As palavras aqui apostas têm, realmente, algo de romântico, talvez muito de piegas. Entretanto, o que interessa é que a mensagem chegue a um público carente de princípios básicos para a vida e ávido por informações mais consistentes e melhor elaboradas, o que para muitos críticos pode parecer simplismo em demasia.


Observe-se, de início, que a moderação e o equilíbrio nas pessoas são apenas o medo de provocar a inveja e o desprezo que merecem aqueles que não têm tanta sorte. É uma vã ostentação do nosso espírito. O bom comportamento dos homens e das mulheres, no seu ponto mais elevado, é apenas o desejo de parecerem mais honrados do que a sua própria boa fortuna permite.


Eu serei muito cortês e discreto para que os invejosos não percebam que tenho mais sorte ou que soube melhor aproveitar as oportunidades que me foram dadas. Para os maledicentes e fofoqueiros, então, eu devo parecer sempre digno, numa tentativa de que a sua revolta não recaia sobre mim. Por Deus!


Não sou de andar por aí fazendo poses, como também não dou aulas de etiqueta, de forma alguma. Exijo apenas o mínimo  -  sem muita frescura - e asseguro que os casos aqui tratados são reais, mas os personagens têm nomes fictícios.


Imagine a cena. Uma moça morena clara, pele encerada, vinte e um anos, de mais ou menos cento e dez quilos, está postada à porta da sala de aula com uma pizza de tamanho médio à mão, dobrada em quatro partes, como se fosse uma tapioca. A boca está cheia e as gordas bochechas, meladas de molho de tomate e mostarda. As banhas lhe caem por sobre o cós da calçona apertada. Uma calcinha vermelha de pobres rendinhas brancas imprensadas contra a barriga aparece como um miserável enfeite. Pior ainda é que ela chupa os dedos sujos, sofregamente, como se fosse comê-los também.


Eis então que surge no corredor comprido da escola o professor Baltazar Eleutério, um homem de boa estampa e muito polido a carregar, dentro de um carrinho de supermercado, doses maciças de dignidade, umas tralhas, talvez, dicionários, projetor de imagem, computador portátil, dentre outros. E lá vai ele entrando através da porta sob a vigilância da moça da pizza.


- Ei, professor gato! Sabia que você é um gato? - É esta a frase da moça dita em forma de cantada.


O professor sequer olha para a garotona e vai direto rumo à mesa já pensando no que fazer para ver funcionarem as tralhas eletrônicas.


Terminada a aula, vai-se embora o mestre escola. De chegada à sala de professores, outra aluna vem lhe repetir as impressões da gordinha comilona:


- Sabe, professor, a Sol, lá do 3º G? Ela veio agorinha me dizer que tem certeza de que o senhor é homossexual, gay, pois lhe deu uma tremenda cantada e o senhor sequer olhou para a cara dela.


Há de se considerar, neste caso, a falta completa, primeiro, de comedimento e, depois, de ética, dentre outros fatores. Antes de mais nada, é difícil acreditar que uma moça de bons procedimentos porte-se de forma tão grotesca a comer o que quer que seja na porta da sala, dando abocanhadas no alimento como se dali a pizza fosse empreender fuga. Atente-se, inclusive, para o aspecto falta de higiene, quando ela lambe os dedos como se fosse um macaco a comer piolhos. E mais: não se pode admitir que uma pessoa com um mínimo de discernimento, ou senso do ridículo, coma qualquer alimento que seja no interior de um recinto apropriado tão somente para a aquisição de conhecimento. Não pode.


Com relação ao fator ético, se a moça em questão tivesse orientações equilibradas dos pais, em casa, ela jamais usaria bordões tão esdrúxulos e tão destituídos de raciocínio para fazer abordagens nem aos seus colegas alunos, quanto mais a professores que, no mínimo, devem portar-se apropriadamente, como o Baltazar em questão.


A essa moça gordinha real e concreta, mais carne e mais banha que osso, falta tudo, inclusive e principalmente, educação.


Consideremos, então, as possibilidades de um bom emprego pela via do conhecimento para a moça anteriormente descrita. Depois, avaliemos que você, querida Marilyn  -  que nada tem a ver com a gordinha  -  está realmente preparada para o enfrentamento da vida fora dos muros e portões da escola. É claro que os seus esforços nas salas de aula, aí, terão valido a pena. É óbvio que estou me referindo à menina educada e gentil que busco em todas quantas alunas (e alunos) que procuram em mim alguma ajuda. Se assim for feito, se os estudos forem realmente levados a sério, você estará, já, fazendo a base a partir da qual o seu avião ganhará os céus na busca da realidade dos sonhos de sucesso. Pense, portanto, na construção do seu aeroporto. É assim que você começará a trilhar os caminhos da felicidade.


Aí, a Amazonilde Trigueiro entrou sala de aula adentro gritando feito possessa porque o Benedito Total estava a fazer uso da cadeira onde ela estivera sentada até há pouco. Um acinte incabível. Uma falta imperdoável em meio aos loucos com os quais nos temos acostumado a conviver nas salas de aula.


- Levanta daí, seu babaca! Vai perturbar o cacete, seu idiota, imbecil. Ora, um maconheiro desses! Otário!


Já é ridículo um garoto viver aos gritos em casa, na escola, em meio ao seu convívio diário, imagine uma moça a falar alto, principalmente em público. Menina educada fala baixo, comedida e comportadamente, mas com energia, quando necessário.


- Pelo amor de Deus! Agindo assim, você não conquistará sequer um namorado e muito menos um bom emprego por toda a vida afora. Contenha-se! - Foram as minhas parcas palavras, ao que ouvi dela um pedido de desculpas. Melhor. Hoje a Amazonilde é quase outra e, inclusive, não mais fede a sebo, penteia os cabelos com um creme cheiroso e passou a usar um perfumezinho barato, mas muito menos enjoativo.


Querida Marilyn, garanto a você que fêmea do mundo moderno pode descer do salto, sim, mas tão somente quando levar um empurrão, o que é um caso gravíssimo que já lhe permite agir com energia.
Em outras palavras, mulher é mulher, e só. Não é superior e nem inferior ao homem. É apenas diferente. É educada ou procura educar-se, é gentil, é compreensiva, mas, quando necessário, os seus pontos de vista devem ser colocados com muita clareza e veemência de forma a dar a entender que o seu comportamento é regido por princípios firmes e a sua competência fala, em voz comedida, mas convincentemente.


Uma outra guria, que nunca foi minha aluna, estuda no dito colégio há alguns anos. Conta mais ou menos vinte e dois verões cinzentos e libidinosos, mas ainda não conseguiu ir além da primeira série do ensino médio. Dizem ter já um filho criado pelos pais mais omissos e covardes do mundo. Ela fuma cigarros Hollywood, o mais fedido dentre todos, talvez. Fica mais na praça que na sala de aula, arranjou um namorado de uns sessenta anos, empresário. Tem estatura um tanto elevada, mas anda em cima de uns saltos de quinze ou mais centímetros. A fiel escudeira  -  dita colega  -  cujo nome também não sei, é quem agüenta e é a vítima da moça mais boçal que eu já vi. De um lado para o outro da rua, ela grita para a amiga a plenos pulmões:


- Tu vem ou não vem, seu carvalho! Ei, putinha, vê se te apressa porque nós não temos todo o tempo do mundo e as aulas aqui terminam à uma hora da manhã. - É o palavreado pitoresco usada por uma Maria ninguém que, dizem, acalenta o sonho de ser modelo. (Isso, é claro, a partir de quando começar a escovar os dentes ou antes de abrir a boca fedida.)


Não estou a exigir demais de pessoas que não tiveram a oportunidade de uma criação mais equilibrada, tanto as moças quanto os rapazes deste meu mundinho torto. Convém, certamente, ensinar modos, maneiras, posturas, sem querer ser o dono da razão nem o rei da cocada preta. Certo é que não me acostumo, por exemplo, a ver umas mocinhas, inclusive na Ufac, chupando aquele indizível pirulito do palito branco enquanto assistem digressões sobre a Física ou a Matemática. Observações como estas são coisas de gente de uma certa idade, como eu, mas não podem ser toleráveis, de jeito nenhum.
Da mesma forma, causa estranhamento ver umas mocinhas até bem fortes de feições que saem corredor afora com um palito nos dentes como se fossem camponesas ignorantes, sem nenhum demérito aos que cultivam as benesses da terra.


São essas mesmas descuidadas que, em quaisquer lugares públicos, simplesmente, dão longas espreguiçadas e abrem largamente a boca em esgares ridículos.


Em quaisquer dos casos, o mais aconselhável, para qualquer mulher que se pretenda desenvolvida, é manter a classe e tentar não se deixar levar pelos embalos da emoção, esta, uma má companheira quando a ocasião exige bom senso. Calma!


Falar em ponderação é lembrar os que têm dois ouvidos para ouvir, apenas uma boca para falar e dez dedos para escrever, além da cabeça arejada. É rememorar em alto estilo o que escreveu Confúcio, o pensador chinês, quando deixou muito claro que aqueles que são prudentes e humildes dificilmente tropeçam.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 18h10
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Estátuas de puro talco

ninas-collasO preconceito é um conceito antecipado, a priori. Antes, em criança e adolescente, participei de eventos sociais por aquelas bandas. Como naqueles tempos ainda não me havia tocado o germe da discriminação, eu não posso me aceitar enquanto um preconceituoso, posto que só agora, por último, os bolivianos se tornaram menos humildes e muito mais antipáticos, notadamente, uma grande parcela de pós-incaicos que querem tornar tudo aquilo muito pior que antes.  


Não me vem à memória a autoria, mas um certo aforismo nos diz que todos aqueles que se sentem desprezados fazem tudo na vida para serem odiados. É exatamente esta a condição dos nossos vizinhos marginais que tentam se erguer à custa da mais desprezível ilegalidade.


Conscientemente, jamais devería-mos esperar muita coisa de uma nação sustentada a partir de uma substância que faz tanto mal ao ser humano. Os bolivianos estão entre os que envenenam a humanidade, sem nenhuma preocupação. Todavia, registre-se que há, ali, ainda, um punhado de verdadeiros e poucos caudilhos que dignificam uma pátria de tantos desvalidos e de tão poucos verdadeiramente conscientes. Vivem por lá uns escassos honrados e verdadeiramente trabalhadores. Não sei até quando eles haverão de suportar tanta iniqüidade.


Vai apenas um conselho - de irmão para irmão, do tipo de pai para filho - porque eu não aprecio ver ninguém passar por apuros, principalmente, quando não existem culpas ou pecados que justifiquem os desmandos praticados por uma gente sem nenhum escrúpulo, como estes habitantes da nossa última fronteira mais a oeste do Brasil.


Não, meu amigo, nunca mais vá à Bolívia! É um apelo que faço em nome da segurança e da tranqüilidade que deveriam ser a tônica de um passeio que, dependendo dos humores dos cholos, pode muito bem se transformar em algo bastante tedioso e, o que é pior, aborrecido e traumatizante.


Sem querer justificar fatos injustificáveis  - que ocorrem principalmente nos finais de semana de verão, em Cobija  -  é conveniente considerar, antes, a grosso modo, a saga dos povos incas dizimados pelos espanhóis entre os séculos XVI a XIX. Os atuais bolivianos, por exemplo, foram escravizados e atirados em chiqueiros, feito porcos, onde faziam, inclusive, as necessidades biológicas e pariam as suas crias que, sem nenhum cuidado e sempre maltratados, foram transformados nos atuais colhas, que não enxergam um palmo adiante dos narizes de onde escorre um catarro curtido, sofrido, diuturnamente.


São fatores históricos como o acima citado que os levam, ainda hoje, a não dispor de sanitários em suas vivendas miseráveis e, por isto, à noite, urinam em garrafas e defecam em sacos plásticos que, pela manhã, são atirados em qualquer lugar ou, principalmente, nos rios Abunã e Acre, dentre outros.  Em verdade, eles foram brutalizados na mais crua acepção da palavra.


Décadas e séculos escorrem por entre os dedos todos os dias. Lá, o tempo não passa ou passa muito lentamente. Algumas melhorias foram detectadas, em especial, porque uma parcela dos bolivianos herda caráter de ancestrais vindos do oriente ainda no início do século passado, além dos que vieram de Portugal ou da Espanha. Mas, ainda assim, melhoraram muito pouco ou quase nada.


Pior de tudo é que, desde algum tempo, eles só obedecem, de preferência, às ordens que tenham a ver com a violência que, bem ao inverso, tenta aplacar a ira de um povo historicamente violentado, injustiçado.


E, do lado de cá, ficamos nós na esperança quase desesperada de que um dia as coisas funcionem a contento, não apenas na Bolívia, mas também nos outros países de latino-américa, inclusive o Peru que, agora, acaba de eleger um militar aposentado cheio de marra, uma cópia tosca do Hugo Chávez, o venezuelano. Não. Mais uma vez, não vai dar certo.


Enquanto isso, nós vamos, gentilmente, tolerando os colhas solícitos, aqui, que nos batem à porta, em Rio Branco e demais cidades circunvizinhas, a vender quinquilharias de origem duvidosa... Da China! Até quando?


O outro chavista, Evo Morales, não hesita em fazer as coisas bem do jeito que gosta a massa de ignorantes que compõe a grande maioria da população da Bolívia. Porque esse louco quer dar foros de legitimidade ao roubo de carros brasileiros? Eles banalizaram o crime. Apoderar-se do que não é exatamente seu é costume hoje oficializado por um governo liderado por um plantador de cocaína.


O narcotráfico é a base da economia boliviana. (Ufa! Descobri a América!) A consciência foi roubada de uma parte maior da população por comerciantes que têm a base do seu negócio na venda de entorpecentes, inclusive os sintéticos. No comércio, a lavagem de dinheiro é feita à vista de brasileiros atônitos que, quando compram as amaldiçoadas quinquilharias, estão financiando, literalmente, os narcotraficantes que se escondem por trás de litros de uísque escocês, perfumes franceses, eletro-eletrônicos asiáticos de péssima qualidade, na maioria dos casos, e assim por diante.


Os acreanos precisam observar que, comprando os produtos chineses vendidos na Bolívia, estamos fortalecendo a economia da China, dando emprego para mais e mais chineses fabricarem as suas bugigangas. Ao passo que os produtos brasileiros, de ótima qualidade, são deixados de lado porque não observamos que, agindo assim, deixamos de empregar os nossos irmãos que passam anos e anos vivendo de biscates ou na informalidade.  Abramos os olhos!


Dentre alguns comerciantes que exercem a sua atividade honestamente, poucos são os que escapam de ser veladamente extorquidos pelos mandões dos cartéis que fazem o que bem entendem porque o seu dinheiro sujo financiou a campanha do imbecil maior que preside aquela república erguida à custa de suor e talco.
Eles são tão desonestos que querem nos fazer crer que não precisam do consumo dos brasileiros. As nossas viagens de consumidores parvos e contumazes  -  como bem quer o capitalismo  -  para muitos deles, são perfeitamente dispensáveis. Eles fingem não saber que Cobija e adjacências sobrevivem porque há uns acreanos desavisados que correm riscos quando visitam aquele antro de tantos crápulas e de tão pouca gente de bem.


Um dia, no início dos anos 90, em Cobija, eu, a esposa e um dos filhos, acostumados à sinalização do trânsito no Brasil, entramos por uma rua na contramão. (Nenhum sinal estava visível.) Eram sete e trinta, mais ou menos, o movimento era mínimo, mas, de repente, surgiu um colha vestido de uniforme militar, com a maior cara de bêbado, e foi apitando sofregamente para que fôssemos para o acostamento. Não liguei para o homem da segurança e segui. Só parei em frente à Farmácia Flávia, onde fui socorrido por uma estimada amiga boliviana, neurologista, de maravilhosa índole.


Segundo ela, eu seria extorquido e pagaria valor considerável em dinheiro, se não quisesse ser humilhado pelo pústula, durante dois ou três dias de insultante custódia.


Ainda tem muita gente pensante por ali. Há, inclusive, alguns cambas  -  brancos ou descendentes de sírios e libaneses  -  que vieram buscar formação universitária no Brasil, mas estes se calam por temerem pelas próprias vidas que podem ser vituperadas pela loucura do senhor Morales.


Certo é que alguma autoridade boliviana um pouco mais inteligente deveria denunciar essas práticas extremamente abusivas contra brasileiros que compram quinquilharias a baixo preço, mas de qualidade péssima e sem nenhuma segurança, à exceção dos vinhos chilenos e de alguns uísques de origem duvidosa que ainda não foram batizados.


Eu sou bem tratado na casa do meu vizinho. Este também é sempre muito bem vindo à minha residência. Nós somos perfeitamente civilizados e nos tratamos muito bem. Do contrário, seria como aquela do sertanejo segundo a qual eu não vou na sua casa pra você não ir na minha, você tem a boca grande e vai comer minha farinha.


Nunca mais fui à Cobija. Não irei. Mas não sou preconceituoso. Sou um brasileiro originário desse caldeirão étnico-racial e cultural muito próprio do meu país. Não quero porque não gosto de ser maltratado por quem quer que seja.
Enfim, há males que só se curam com desprezo.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h09
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C R Ô N I C A

Ao Dr. Thaumaturgo, com afeto

De um bom homem, geralmente, mensuramos o valor da alma translúcida tendo como parâmetro básico o tamanho da obra por ele erguida.
Ilustrao
Daí, devemos considerar que há, antes, as obras empreendidas pelo e para o espírito. E há aquelas que têm a materialidade como substância primária. Uns criam filhos, constroem homens, plantam árvores, escrevem livros magníficos. Outros erguem impérios colossais, edificam palácios, templos e monumentos à grandiosidade dos seus feitos, à glória da sua brilhante passagem pelo mundo dos homens e de Deus. Há, todavia, para o ordenamento natural das coisas, aqueles que absorvem toda uma vida de quase um século fazendo as obras do espírito e também as substanciais.


Em verdade, meu bom e velho amigo, a dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros. Elas devem ser zeladas, em particular, por nós próprios, os seus reais edificadores.


E temos levado a vida, cada um ao seu tempo e ao seu modo, com bastante esforço, dignificando o período que nos foi dado de presente por Deus. Depois, talvez, outros nos dignificarão, em nosso nome, se tiverem tempo e sensibilidade. Mas nós deles não aguardamos e não devemos esperar muitos tributos ou honrarias, uma vez que os nossos próprios filhos é que haverão de salvaguardar a sua própria existência gloriosa, em conformidade com o que lhes temos conseguido transmitir. É assim que quer o Altíssimo.


Não tenho parentesco algum com o ser humano aqui tratado. O que me move é o respeito que nutro pelos homens mais sensatos e mais proeminentes, meus contemporâneos. Por isto, sinto a necessidade e o dever de, enquanto formador de opinião e escritor e, principalmente, enquanto amigo particular, tratar da simpatia e do carinho que nutro por um dos homens mais dignos que este Estado já teve a honra de reverenciar. Aqui cabem, certamente, além da homenagem pura e simples, um tributo da minha pessoa em particular, e da minha família, em especial, ainda em vida, ao ex-deputado de quatro mandatos, o Dr. Francisco Thaumaturgo.

Na época em que o Governo do Estado o reverenciou com a comenda da Ordem da Estrela do Acre, lá estava eu entre os que o aplaudiam pelo exemplo e pela importância histórica de líder popular  -  e não populista  -  que, a partir de Cruzeiro do Sul, fez-se proeminente por si só e participou de duas assembléias estaduais constituintes, a de 1963 e a de 1988, ao lado de um seu pupilo, o também ex-deputado Geraldo Maia, desaparecido no fulgor dessas batalhas seculares.

Francisco Thaumaturgo travou dezesseis anos de ferrenhas lutas em favor do povo do Acre, especialmente, dos munícipes de Cruzeiro do Sul. Filho de João Thaumaturgo Sobrinho e Maria Florinda Taumaturgo, nasceu num seringal do município de Canutama, Amazonas, onde foi registrado.


Após a queda do preço da borracha, o pai abandonou o seringal e veio para a cidade de Sena Madureira, em 1914, onde se estabeleceu como alfaiate. Aí foi criado e fez o curso primário até o quarto ano na escola municipal. O pai tomou parte em todos os movimentos pela autonomia do Acre, tendo exercido o mandato de juiz de Paz e subdelegado, dentre outros.


Em 1927, João Thaumaturgo retirou-se para Manaus ali exercendo a sua profissão enquanto autônomo. Francisco Thaumaturgo, por exigência do Secretário de Educação do Amazonas, repetiu o quarto ano. Estudou o curso ginasial no Colégio Chevalier. Depois, se submeteu ao vestibular para a Escola de Farmácia e Odontologia de Manaus.

Tornou-se doutor em 8 de dezembro de 1936. Trabalhou na Clínica do Dr. Edson Melo durante cinco anos. Especializou-se em Endodontia e Pedia-tria, pois não havia naquele tempo nenhum especialista para estes segmentos da profissão. A convite dos seringalistas do Rio Juruá, viajou para Cruzeiro do Sul, onde fixou residência a partir de maio de 1940. Aí constituiu família ao estabelecer vínculo matrimonial com a Sra. Renée Assis Thaumaturgo, filha de um dos pioneiros do Juruá, o Sr. Francisco Januário de Assis.


Durante sua permanência em Cruzeiro do Sul, excursionou para atendimento aos ribeirinhos do Rio Breu, para atender no posto da Polícia Militar do Peru. Penetrou no Rio Tejo até o Seringal Restauração. Subiu o Rio Juruá Mirim até a foz do Tamboriaco, aproveitando a ocasião para visitar o lugar “Funin”, onde Euclides da Cunha tomou posse da função de Guarda Aduaneiro. (Euclides, quando dali saiu, escreveu o livro “Inferno Verde”, numa alusão à experiência amazônica.)


Convidado a voltar a Manaus pelo governador Plínio Coelho, que lhe prometia contrato vantajoso, optou por permanecer no Vale do Juruá. Em 1962, após a elevação do Acre à categoria de Estado, a convite do candidato ao governo, José Augusto de Araújo, concorreu ao cargo de deputado estadual constituinte, tendo sido eleito com a maior votação.


Boa parte das palavras acima, atendendo a um pedido informal deste franco admirador, foram escritas de próprio punho pelo homenageado. Hoje, aos noventa e oito anos, completados em 15 de agosto último, Francisco Thaumaturgo personaliza uma das páginas mais brilhantes da história do Acre e do legislativo acreano, pela sobriedade, pela competência e, sobretudo, pelo invulgar espírito público que marcou toda uma trajetória de grandes feitos.


Tentei ser dele um mero aprendiz. Talvez um discípulo mais dedicado. Não o consegui. O bom amigo já avançara para muito além da minha época. Afinal, eu rondo o meio século. E ele quase já completa um século inteiro. Mas aprendi com ele, sim. Qualquer coisa ou muita coisa de útil ou agradável consegui reter nos magros liames da inteligência. Por isto, os meus agradecimentos pelo convívio e pelas recomendações que serão sempre lembradas aí por esta vida minha afora.


Então, um poeta português do nosso tempo  -  Alexandre O’Neill  -  salva estas pobres loas, quase uma balada, a um amigo que, feito um César, veio, viu e venceu.


Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo.
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!...

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h49
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C R Ô N I C A

A vila

escuridao-luz-mulherAli amanheciam sempre dias cinzentos, sombrios, tristes de fato. Ao sol não era permitida a entrada. Vida miserável que se iluminava por lamparinas à querosene, fumegantes, doentias. Homens e mulheres trajavam roupas rotas, quase andrajosas. Os aposentos eram abafados, fétidos, sem janelas. As esperanças de todos se limitavam à possibilidade ou à impossibilidade de, mais tarde, ou no outro dia, quem sabe, terem algum alimento para saciar-lhes a fome implacável. Os mais velhos, aqui e acolá, morriam de inanição, de fraqueza, sim. As crianças não iam às escolas, embora elas existissem quase na biqueira da vivenda prestes a cair. As mulheres traziam olhares sem brilho, perdidos num ontem que também não fora tão farto, ou num amanhã que, certamente, não seria dos mais ditosos. Os homens iam e vinham. Do mercado ou da rua do comércio, quase nunca traziam um quilo de feijão sequer. Todos haviam saído da pobreza dos velhos seringais que, por aqueles dias, já começavam a ser transformados em pastagens. A insanidade dos endinheirados via que a pata do boi marcava, a ferro quente, o coração e a alma de pessoas sem passado e sem futuro.


Então, do lado da minha casa ficava a Vila Natal. Nós éramos pobres; eles, miseráveis. Comíamos carne de boi ou de caça, e feijão e arroz e verduras retiradas da nossa horta do fundo do quintal. Eles praticamente não comiam, mas vegetavam e procriavam como as centenas de ratos e urubus alimentados pelos excrementos da Vila.


Chegaram a sobreviver, ali, às vezes, mais ou menos cinqüenta pessoas, incluindo as crianças. Na realidade, tratava-se de um imenso casarão de zinco e madeira, dividido ao meio por um corredor cujos dois lados repartiam-se em quinze aposentos, a maioria de uma porta apenas. No pequeno quintal, havia dois sanitários sem porta e sem descarga ou fossa, um para os homens, outro para as mulheres. As necessidades fisiológicas eram ali supridas, mas o banho parco era tomado nos próprios aposentos de assoalho de madeira por debaixo dos quais passava um esgoto infestado de ratazanas e baratas. Nas paredes internas, havia brechas entupidas de papel para que uma família não visse a miséria ou a promiscuidade da outra. O telhado era cheio de buracos e, um dia, aí pelos treze anos, fui chamado por uma moça da vida para tapar uma goteira que quase chovia sobre os lençóis úmidos da sua cama às vezes até bem freqüentada. Era uma da tarde e grande parte dos sobreviventes pegava a sesta. Lá de cima, então, por intermédio de um dos orifícios do zinco, eu a vi despida, sobre a cama...


Com raríssimas exceções, aquele era o último refúgio depois do inferno dos seringais. Eles não tinham mais forças para o trabalho na seringa. Também não tinham qualquer aptidão para os afazeres da cidade. Uma parte fazia pequenos mandados para os bacanas de então. Outra, limpava os quintais ou carregava água para os banheiros e cozinhas dos mais abastados. Alguns pagavam um mísero aluguel. Outros, viviam de favor a sua desventura.


Uma alma compadecida, de vez em quando, doava miúdos de boi e alguma carne. Uma ou outra vez, eu o vi distribuir entre os miseráveis um garrote inteiro. Era Elias Fadul, um misto de pequeno fazendeiro e magarefe, carrancudo e mal humorado como a maioria da gente síria.


Papai e mamãe logo se fizeram padrinhos de alguns meninos. Lembro de quando um senhor de meia idade, recentemente tornado compadre dos meus pais, foi acometido de hidropisia, ou barriga d’água. O homem passou noites e noites gemendo de dor. Quando numa manhã levaram-no ao médico, já era tarde. À noitinha, apareceu o padre italiano e lhe fez a extrema-unção. “O homem tava só esperando”, disseram alguns. É que, em dois minutos, e não mais que isso, o cumpadi Chico já tinha atravessado pro lado de lá. Palmieri, o religioso d’Itália, fez uma careta de asco e se foi pensando ter cumprido o dever. Neste tipo de reunião de pobres, onde não havia bastante comida para encher a imensa barriga do glutão, ele não permanecia, como lá em casa, de onde, nos aniversários, saía com os bolsos da batina cheinhos de quitutes.


Aí, todos se reuniram ao redor do corpo agora prostrado sobre uma velha mesa. Mamãe cedeu um lençol branco, já usado, para cobrir o cadáver. Mais tarde, um besouro mangangá dos grandões, sem que ninguém o percebesse, entrou por debaixo do lençol e foi alojar-se nos dedos dos pés do defunto. Daí começou a se mexer e a debandada dos vivos foi geral. Todos pensaram que o homem queria voltar de onde não queria ter ido. Manhãzinha, papai e mais três estivadores enrolaram o homem no lençol, colocaram-no em uma velha rede cearense e rumaram para o campo santo localizado a uns dois quilômetros da Vila, acompanhados da esposa chorosa e dos filhos menores. Lá, jogaram o fardo num buraco, cobriram com muito barro e nenhuma cruz. Só dias depois é que o arranjo cristão foi colocado sobre a sepultura, sem nenhuma inscrição.


Um dia, já à tardinha, no meio da poeira de agosto, chegaram uns quatro ou cinco burros vindos lá das bandas do Riacho de Areia, Rio Caramano. Traziam um senhor de uns oitenta ou mais anos, um rapaz mais velho e um outro que não sabia se tinha dezessete anos. Alojaram-se num dos cubículos sem janelas. O velhinho tinha barba comprida, branca, não enxergava e portava um cajado comprido à moda mais antiga. As roupas dos três, pouquíssimas, sempre da cor cáqui. A comida rala era feita pelo cego (!) em um fogareiro que enchia todo o quarto de fumaça. As panelas eram antigas latas de banha ou de goiabada. Não havia pratos ou colheres. (Até há pouco tempo, no seringal, as pessoas comiam com as mãos.) O seu Duca, sergipano, ia cedinho pedir esmolas no mercado. O menino mais velho trabalhava nas colônias dos arredores de Xapuri e só aparecia aos sábados. O mais novo, Sebastião, era doido, mas vivia capinando as ruas da cidade em troca de uns dinheiros quaisquer com os quais comprava alguma comida, perfume Desejo e botas sete léguas. Deste, lembro-me que levou uma furada de prego em cima do pé. Ele, então, com um canivete afiado, furou um buraco na parte superior da botina, de forma a deixar livre o ferimento. Uns vinte dias depois, já com a ferida sarada, foi que o Bastião descalçou a bota já muito fedida.


Num domingo depois da missa das nove, espalhou-se uma notícia triste. O mais velho havia amanhecido morto. Papai depois me disse que ele morrera de tiriça preta, hoje conhecida como hepatite do tipo C.
Certa vez, o velhinho se acercou da nossa calçada, onde conversávamos à noitinha. Ele me disse:


- Menino Gibiri? É o Zé Claudi, né?


- Sou, sim senhor.


- Você vai ser muito feliz. Tudo o que você quiser Deus vai lhe dar.


Depois, recitou, de cor, o longo Romance da Princesa da Pedra Fina, de cordel... Esta é a minha última lembrança dele.


Sebastião, hoje, apesar da saúde mental fragilizada, é vigia de uma escola e encarregado de tocar os sinos da matriz de São Sebastião nos horários de praxe, sempre sem nenhum atraso.


Morava por lá um moço, muito tranqüilo e caladão. Um dia, depois de muito esforço, conseguiu comprar uma canoa pequena e passou a sobreviver da pescaria de espinhel. Numa noite, ele foi para o rio Acre corrigir os anzóis, mas teve um desfalecimento e tombou para fora do barco. Sofria de uma doença chamada epilepsia. Só dois dias depois é que o meu tio José Maciel achou o corpo, já completamente putrefeito, enganchado em alguns balseiros. Saíram-lhe peixinhos das entranhas através da boca do defunto. E fomos então enterrá-lo. A barriga estava inchada de tanta água. Aí, um torrão maior de barro foi jogado por alguém e o ventre do cadáver estourou e aspergiu uma água fétida distribuída entre todos que estavam à beira da cova, inclusive eu.


No passado dama da noite, Donana, de uns setenta anos, morava na Vila, de graça, acometida de Alzheimer, à época popularmente chamada caduquice. Como na poesia, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Por isto, estava morrendo à míngua num quarto que só tinha um velho catre, umas latas de flandres onde fazia alguma comida num fogareiro, e um quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Um dia, ela amanheceu morta em meio a um monte de fezes.


Um outro personagem desta minha história real e macabra é Maruíla, cuja esposa o abandonou assim que soube que ele tinha um câncer no estômago, fruto de uma alimentação de péssima qualidade e do uso freqüente do álcool e cigarros tipo porronca. Numa rede, em um dos pouquíssimos aposentos que tinham janela, permaneceu o indigente com a barriga muito inchada por meses a fio, gemendo de tanta dor. Mamãe ou vovó lhe traziam uma sopa ingerida com muita dificuldade. Ao final, estava pesando apenas uns vinte quilos. Morreu abandonado no fundo de uma rede e teve enterro idêntico aos demais miseráveis da Vila.


Maria Galvão era mãe de uma garota de oito e de um garoto de uns seis anos e tinha um amante que era gerente de seringal e a visitava talvez mensalmente. Um certo dia, eu a vi ser agarrada, aos gritos e palavrões sem tamanho, sob os olhares dos vizinhos, por três homens grandões, e ela se soltava sem maiores esforços... A moça tinha um encosto. Um espírito mal houvera se apoderado do corpo dela.
Os velhos cearenses lá de Xapuri diziam que atrás dos mais pobres anda um bicho da boca grande e dentes podres, a fome... As histórias desses infelizes ainda hoje fazem parte dos meus sonhos mais tristes.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h02
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A R T I G O

O elo perdido

O Estado democrático de direito tem fundamento em alguns princípios básicos. Um deles nos leva a observar que, numa relação eminentemente social entre dois sujeitos civis, ambos agem segundo preceitos de civilidade e humanidade que, em resumo, implicam em direitos e deveres a serem observados de uma e de outra parte. Assim, eu serei justo para com o meu vizinho e dele receberei tratamento idêntico, até porque nos dizemos civilizados e vivemos tempos de relativa paz.
indeciso
Entretanto, se a minha intenção é agir em prejuízo dos demais, não deverei ficar surpreso se a recíproca for verdadeira. Se a minha vida é um jogo de cartas marcadas, se os meus coringas manipulados estiverem no bolso, devo esperar que, a qualquer momento, o meu parceiro retire um ás de ouro da manga do seu paletó encardido e me leve a parte ou o todo do patrimônio amealhado sem nenhum esforço.


No caso das instituições, então, devem-se observar pontos de vista idênticos. Uma entidade de direito público agirá de forma a conduzir-se sempre em benefício da comunidade, salvo as disposições em contrário, é lógico. Os cartórios, por exemplo, têm como objeto de trabalho atender, prioritariamente, as demandas que partem do público. Excetuam-se, aí, os casos em que indivíduos venham por ventura a agir de má fé. Nesta possibilidade, a agência especializada em documentar a população fará o seu trabalho a contento se refrear ímpetos pessoais que possam, por acaso, denegrir a imagem institucional carregada pela vida afora com tanto zelo e empenho coletivos. Aos justos e dignos, a lei; aos crápulas e imorais, os rigores da lei.


A qualidade do trabalho das universidades, hoje, é mensurada por índices que nem sempre são tão justos; mas enfiados, goela abaixo, pelo Ministério da Educação. Todavia, é preciso levar em conta que, na falta de uma outra forma de avaliação, o modelo atual supre carências antigas tão bem demonstradas por velhos catedráticos que já se sentiam o supra sumo do conhecimento quando  -  público e notório  -  seria melhor ter consciência de que este conhecimento não era eficientemente transmitido aos seus alunos. Do alto de um pedestal desprezível, consciências do tipo iluminadas apregoam ser melhores que uns tantos pares, quando, na verdade, não o são. Se o fossem, como explicar o baixo nível dos cursos quando das suas avaliações? Não basta o notório saber. É imprescindível o saber verdadeiro. Não basta um título de Doutor. É preciso ter domínio do saber e saber fazer esse saber, experienciando-o, vivenciando-o.  


O Enade  -  exame nacional do desempenho dos estudantes  -  detectou disparidades outras tão graves quanto estas acima citadas. Mas não foi às causas das deficiências. Não viu que a formação dos professores do ensino médio, levada a efeito pelas Universidades públicas e privadas, não está ocorrendo de forma razoável. Se não formamos bons professores, estes não transmitirão muita coisa de positivo.

 Neste caso, a tendência é os cursos superiores serem obrigados a receber grandes contingentes de alunos mal formados, o que empurrará ladeira abaixo os níveis de qualificação da mão-de-obra especializada de que necessitamos para alcançar o pleno desenvolvimento, apesar da consistência dos vestibulares cujo grande mérito é exigir conhecimentos traduzidos através da produção de textos. Segundo observo, a exigência de uma redação dissertativa é algo digno de aplauso, embora com algumas ressalvas a serem consideradas.


Por outro lado, ao término de um curso superior, seja de formação de bacharéis ou licenciados, é perfeitamente válida e digna de menção a exigência de uma monografia ou trabalho de conclusão de curso que não sejam colados da rede mun-dial de computadores.


A metodologia é bastante aceitável. Os caminhos estão razoavelmente traçados. Mas a qualidade dos profissionais de nível superior tem deixado a desejar. O mercado, farejado pelas altas tecnologias, quer muito mais. Por isto, louvo o patamar alcançado pela Ordem dos Advogados do Brasil  -  Secção Acre  -  quando passou a dar foros de seriedade e legitimidade ao nivelar as provas do exame de ordem aos patamares nacionais. Tenho exemplos de conhecidos, parentes e amigos meus que, por estarem bem preparados, alcançaram os índices requeridos pela Ordem... E isto é deveras interessante.


Desde algum tempo, tem-se tornado de grande importância o fato de a Ordem subsidiar boa parte das universidades e faculdades que formam os bacharéis em Direito.  Segundo a professora Rossilene Brasil Muniz, fez-se necessário observar, ava-liar, fiscalizar e sugerir diretrizes que tenham em vista a aplicabilidade prática dos preceitos da ética, da moralidade, da honestidade, da probidade, da decência, da competência técnica e do compromisso com o social.


Historicamente, o Brasil jamais houve por mal prescindir do papel da OAB. Nos momentos cruciais da nossa História mais recente, por exemplo, a Ordem exerceu o seu desideratum maior traduzido pelo nível de nacionalidade sempre colocado em primeira instância. Só para lembrar em um único exemplo, dentre muitos: quando da destituição de Fernando Collor da Presidência da República, o papel da entidade foi deveras oportuno e indispensável.


Desta forma, cada conselho ou ordem de cada carreira profissional deverá ter a mesma responsabilidade histórica e social que emprestou tamanha legitimidade e reconhecimento público à OAB. Cada carreira de nível superior deverá ter o seu órgão fiscalizador  -  ordem ou conselho  -  que aplicará provas de excelência que surtam o efeito de comprovar, obrigatoriamente, a competência adquirida ao longo dos anos nas salas de aula, nos estágios curriculares e práticas forenses.


Não é demais afirmar que tenho uns quilômetros de experiência e, em vista deste fator, coloco-me à inteira disposição de quaisquer das entidades afins. Ademais, alegra-me saber que os conselhos regionais de Economia, Contabilidade, Enfermagem e Medicina, além do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, caminham a passos largos no sentido de levar a efeito medidas que resultem numa melhor aproximação e interação entre os cursos oferecidos pelas instituições de ensino superior, a realidade social e as exigências do mercado de trabalho, tais quais são conhecidas pelos experientes profissionais que vivem e dirigem instituições deste gênero.


Ruim mesmo é observar que há cursos superiores de graduação  -  de faculdades particulares, especialmente  -  que obrigam os recém graduados a fazer pós-graduação a preços de varejo e, mesmo assim, estes não são aprovados nos exames de ordem, a exemplo do que aconteceu quando alguns se viram na obrigação de se tornarem advogados reais ao portarem a carteira expedida pela Ordem dos Advogados do Brasil, esta, sim, hoje, no Acre, uma instituição legítima que honra os bons advogados que por aqui militam. (E olhe que eu não problematizo os que compram a mercadoria avariada. Eu coloco em questão aqueles que a vendem a preços escorchantes apesar de saberem-na de péssima qualidade.)


O elo perdido é o do mérito. No Brasil, é preciso desmistificar uma assertiva corrente desde alguns anos. Nas grandes cidades, os que andam topando uns nos outros são os rábulas e bacharéis de pouca envergadura. Os advogados reais, aprovados nos exames da OAB, estão galgando postos cada vez mais elevados nas mais altas cortes, nos seus locais de trabalho, uma vez que só se estabelecem aqueles que têm competência real e comprovada.


... Mas, é como diz Marina Silva: eu perco o pescoço, mas não perco o juízo...



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h59
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C R Ô N I C A

Democracia em podres pedaços

democracia1De manhã, ao primeiro sol, vislumbro possibilidades de um dia de graças, a partir de um alvorecer fantástico. Frio. Bastante frio. Pássaros e luz. Muita luz. O bem-te-vi da realidade pulsante canta o meu tempo claro e ainda juvenil, àquelas horas, já na quinta década. Esperar sempre, de tudo e de todos, de mim e do outro. Eis uma das grandes dádivas que me cabem. Colaborar e ajudar e apoiar e estender a mão e abraçar, todas as vezes. Eis a melhor das estratégias dos que foram feitos à imagem e semelhança do espírito absoluto.


Anos que deslizam na carreira e, paulatinamente, vou sendo obrigado a observar certas doutrinas, na prática, no concreto real da história dos menores, apenas enquanto meras figuras de retórica, ocas de sentido, vazias de fidelidade em seus dogmas tão sisudos. Instrumentos de manuseio rápido, nunca em benefício da maioria, mas em proveito de interesses particulares que, obrigatoriamente, passam ao largo dos preceitos básicos da democracia real.


Cá de baixo, do chão desta minha história tenra, vejo que o exercício democrático é sempre benéfico a quem tem mais bala na agulha. O conhecimento é, sim, uma espécie de senha cujo porte permite infiltrar-se em meio às mais abomináveis defesas  -  em patranhas e arranjos cartoriais  -  que jogam por terra a dignidade e melam a igualdade de uns para com os outros. Eu não posso dizer que sou melhor que este irmão último que pranteia a hora derramada, simplesmente, pelo fato de alguns me terem tornado, talvez, um dito sábio. Não eu não sou muita coisa.


E todos correm estabanadamente para ver a democracia que passa ao largo, toda brejeira, faceira, feito messalina desgarrada bem sucedida. Ficamos, então, rejubilados, enfeitiçados. Enfeitamo-nos.

 Perfumamo-nos. Nós e a prostituta. Mas bastou-nos o contato visual e já nos sentimos traídos, impiedosamente. Lá dentro, nos porões da liberdade invertebrada, algozes e vítimas dão gritos horrendos de espasmos e de dor, de sede de sangue. Alguns batem até demais. Muitos apanham que nem gente grande. É de dar dó. O nosso AI5 caboclo, há tempos, já havia sido esculpido e assistido pelos mesmos barões assinalados do Conselho Magno desta casa de excelência que nós, de próprio punho, ajudamos a erguer, deste há trinta anos... E este cronista, em ascese, viu tudo a partir de um ponto de observação imaginado tão somente pelos deuses mais velhacos que a minha mentalidade já engendrou.


Na Universidade Federal do Acre, há programas voltados para a formação de professores das zonas rurais e urbanas, segundo convênio bastante salutar celebrado e sob os auspí-cios do Governo do Estado. Centenas deles já têm seus diplomas de nível superior e tiveram os salários aumentados em até quatrocentos por cento. Há professores, na Ufac, que trabalham com afinco, sim! E merecem os parabéns! Eles buscam tenazmente e alcançam objetivos que vêm para o benefício das comunidades. Mas há uma grande maioria que não sabe o que vem a ser qualidade das ações acadêmicas e pensa tão somente nos altos dividendos financeiros a serem auferidos.


Enquanto isso, nos escaninhos da burocracia, moureja um pretenso projeto  -  que agora por último mal saiu do papel e consegue dar passos trôpegos  -  cuja finalidade é a melhoria da formação dos nossos técnicos administrativos, estes, sempre taxados de pouco afeitos ao esforço, ou até mesmo de preguiçosos. O autor destes escritos, inclusive, foi sondado por dinâmica autoridade (que já não é mais) para fazer parte de uma comissão que se encarregaria de via-bilizar um programa cuja finalidade seria elevar o nível intelectual dos esquecidos. Alguns anos se passaram, nenhuma palavra mais foi dita e tudo continua na estaca zero vírgula cinco.


Vida privada à parte, sem fazer de nenhum ego a sua própria vítima, há fatos a ponderar, como é o caso do cronista de Xapuri, que fez Mestrado e Doutorado, na Unicamp, percorrendo os mesmos caminhos e sendas epistemológicas que os nossos caríssimos professores. Concluiu tudo com honrarias e em tempo hábil. Elogiaram-no lá e cá... Hoje, doze anos passados, os mandatários não o chamam para fazer nada e ele não ousa se oferecer ou pedir um naco de carne podre sequer. Reservaram-lhe, sim, o ostracismo como castigo por conservar um vínculo muito forte com a imprensa e por ter sido ousado demais. Mas o trabalho científico dele não foi abortado. Ganhou o Prêmio Garibaldi Brasil. Publicou um livro de crônicas à custa de amizades e tem outro prontíssimo para a edição, fora uns tantos projetos a executar. Dispõe de, no mínimo, quatro trabalhos à espera de instituições que os queiram levar a público, posto que escrever livros por diletantismo não deveria ser parte do desiderato de nenhum ser que consiga fazer arte autêntica por intermédio de jogos de palavras. Através da editora da Ufac, publicaram teses e dissertações cinco ou seis anos mais novas que as suas. Atestaram-lhe não ter preparo suficiente para assumir cargos comissionados, mesmo sabendo que, em março de 2008, o Doutor aclamado pela Unicamp amargou um salário de R$ 1.931,00, o que é do conhecimento de alguns próceres da Academia que até reconhecem o descalabro.


Era agosto de 2008. O Governo Federal fez pingar nas contas dos técnicos das universidades federais, depois de catorze anos de espera, um aumento de vinte por cento que, na maioria dos casos, significou cem ou duzentos reais. A este livre pensador linguarudo coube mais setenta e cinco por cento, uma vez que, segundo dispositivo legal recente, o administrativo que portar diploma de pós-graduação em nível de especialização terá vinte e sete por cento de aumento; terá cinqüenta por cento, quem tiver mestrado; e setenta e cinco por cento, os doutores, como eu... Ufa! Finalmente...


Muitos correrão atrás dos títulos acima descritos, é claro. Resta saber até que ponto os professores estarão dispostos a tomar providências que resultem em cursos de pós-graduação para os técnicos administrativos. Uns poucos dirão tratar-se de proposta justa. Mas a maioria fará corpo mole por detestarem o fato de a reles ignorância um dia poder chegar a patamares de tanto destaque... Então, como poderemos melhorar o nível de formação dos nossos técnicos, se a maxima sapientia assim não o deseja? Já pensou, se os esquecidos se unirem... Se um bom número deles buscar conhecimentos e diplomas? Será o fim da glória de uns tantos... Eles se descobrirão um tanto incompletos na sua magnífica completude...


Uma magnólia vencida, então, fez críticas aos nossos rapazes do sindicato por fazerem uso de termos que fogem aos padrões da língua portuguesa culta. Ora, pelo que observo, a própria Ufac os quer assim. E os professores que glosam o discurso pobre dos técnicos são os mesmos que deixaram seus cursos de graduação caírem nos desvãos da baixa qualidade, segundo os parâmetros do Ministério da Educação... Se eles são tão bons, porque seus cursos são tão ruins? Sabem eles, certamente, onde não está a qualidade, porque a falta de qualidade dorme zonza sob os seus jalecos sujos de tanta discriminação e mediocridade.


E tinha razão o Zé Alberto Lote! Na reunião do conselho, onde discutiam acaloradamente a paridade dos votos para reitor, no seu estilo pescoço-e-canela, o moço fez calar aos sicários ao dizer que “aluno é pra estudar; professor é pra dar aulas; e administrativo é pra administrar!”


Os pseudo democratas se coçaram e ficaram muito a contra gosto. Seus tímpanos de veludo não acreditavam no que ouviam. Logo aquele rapaz  -  segundo eles, sem formação alguma  -  fazer-lhes engolir em seco palavras tão ásperas quanto verdadeiras!


Corifeus do atraso. Ladinos da picardia e do escárnio. Tungadores ludibriantes.  Proxenetas e caraxués... Dizeis deles tanta coisa boa ou má que até eles mesmos já acreditam que são.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h29
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C R Ô N I C A

Aprendizes da vida áspera

Descendo de Xapuri, pelo Rio Acre, passo na Boa Vista. Vou ao Novo Catete e, daí, ao Malheiro. Chego, enfim, à Albrácia, para ficar por uns vinte dias. Durante este pe-ríodo, através dos varadouros internos, visito Palmari, o velho seringal de propriedade dos Veloso, uma família de cearenses que por aqui chegou aí por 1916.
Dificuldade1
Já por três ou quatro anos, no mês de julho, tenho feito sempre a mesma viagem; de batelão até a Albrácia e, depois, na carreira, com medo da onça, por mais de uma hora de relógio grande, até o aceiro do campo do meu velho e bom tio Perneta  - Raimundo Nonato, de batismo  -  natural de Senador Pompeu, Ceará.


Este é o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1969. Conto já com doze invernos rigorosos de idade. Verão brabo. Poeira quente. Descalço. Na costa, a mucuta com uma muda de roupa e uma sandália de sola. Mata sombria. Está já pardejando. Tenho medos. Sou bem magro e, por isto, corro a fôlego pleno, por entre seringueiras, imbaúbas, samaúmas, jitós, manitês, carrapateiras, dentre outras árvores da mata densa. Um cancão levanta vôo a partir de uma moita de capim santo. É uma ave do tamalho de um pato grande. O barulho das asas robustas provocam em mim um susto enorme. Um salto e um arrepio me percorrem a espinha dorsal gélida.


Enfim, estou chegando à colocação Socotó e já são mais de cinco e meia da tarde. Diviso umas goiabeiras, em primeiro plano e, lá adiante, uns algodoeiros aos pés dos quais está a minha avó Maria das Dores Mota apanhando alguns chumaços de algodão com os quais tece o futuro dos netos e pavios para as porongas e lamparinas de casa. Há quatro meses não a vejo e lágrimas me vêm aos olhos ao abraçá-la... Estava com muita saudade da velha matrona, mãe da minha mãe.


Alfabetizado aos cinco de idade, quando entrei no Grupo Escolar Plácido de Castro, aos sete, já sabia ler de carreirinha e ajudava a bondosa Enedina Sant’Ana de Menezes a tomar a lição do Sebastião Rodrigues Mota, do Célio do Carmo, da Gracinha Maciel, dentre outros um tanto sapecas. Hoje, de férias, venho ao seringal para ler folhetos de literatura de cordel, especialmente, para o meu tio cearense que gosta da forma e do sotaque nordestinos que imprimo à leitura. Maria José, minha prima de onze anos, quer porque quer aprender a ler para ler os cordéis e aprender ao pé da letra as músicas do “Teixeirinha te prepara para outro desafio, sou a Méri Terezinha que da fronteira surgiu, sou a rainha da trova, te cuida gaúcho frio...”


Chego na Morada Nova  -  novo nome do Socotó  -  e, assim que posso, depois dos abraços, vou direto ao igarapé tirar a inhaca na água muito fria do verão amazônico. Subo logo e, já enxuto, está na hora da bóia. Há bifes frescos tirados direto de um caititu recém abatido na boca da Central, a estrada de seringa que fica entre outras duas, a Variante e a Invernada. O porco do mato é frito em banha de porco de casa com algum molho ralo. A mistura é baião-de-dois de feijão de corda, e farinha seca. Dos deuses! Depois da janta, titia Nalgídia lava os pratos e, em seguida, todos já estão sentados no assoalho debulhando feijão, talvez a principal fonte de energia dos seringueiros. Eu não meto a mão na massa porque já começo a ler O encontro de Lampião com Dioguinho no inferno, um “romanço” escrito por Manuel Antônio de Almeida, o maior dentre todos os poetas do cordel nordestino. Leio duas vezes e as gargalhadas ecoam no campo e na floresta àquela hora banhados por uma lua cheia de fazer sonhar. Vou para a rede. Ao longe, uma coruja canta lancinante e melancolicamente. É tarde. São oito da noite. Amanhã re-estrearei nos exercícios de vida áspera. Viro-me e me reviro. O cansaço pega e o sono se abala sobre a imatura alma.


Já são quatro da manhã. Da rede, vejo partir o Tio Perneta para mais um dia na faina braba do seringal. Poronga na cabeça. Espingarda calibre vinte cruzada às costas, à moda do cangaço. Cartuchos no bolso da calça. Quatro baldes numa mão e a faca de seringa na outra... E ainda vai assobiando uma moda qualquer de Januário, pai de Luiz Gonzaga... É feliz! E eu penso cá com os meus botões: lá vai mais um herói nordestino que veio para a batalha da borracha, na Amazônia, em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial para garantir a vitória dos americanos hoje esquecidos e mal agradecidos com relação ao papel tão bem desempenhado pelos nossos sertanejos desterrados nestes confins de meu Deus.


Agora, já são cinco e eu já estou de pé pronto para aprender mais um bocado da vida dura do antigo Socotó. Há quatro vacas, dois bois capados, um touro pé-duro, dois garrotes e três bezerros, uma égua, um potro e um cavalo. Há porcos, patos, galinhas, carneiros. Há um pequeno engenho onde fabricamos mel, rapadura, alfinim, açúcar gramixó e afins. Há uma casa de farinha. O aprendizado é, agora, nas tetas da Malhada de onde consigo tirar ainda três litros de leite, praticamente, só para o meu consumo, uma vez que os demais são chegados a leite de castanha.


O quebra-jejum é macaxeira com ovos de galinha, um pouco de feijão e um caneco de jacuba ou de coalhada. Estou furnido. É já hora de ir para o roçado ajudar a tia que está às voltas com uma apanha de feijão de arranca e a limpeza eterna de uma roça imensa, na base da enxada.


E eu vou aprendendo mais e mais, e aí fico até as onze agüentando o sol ardente no lombo. Estes poucos dias são deveras felizes. Estou compartilhando as agruras destes bravos que só vão a Xapuri em janeiro, se a borracha der dinheiro... E se São Sebastião ajudar... E há de ajudar!
Oh, Deus meu, quantas saudades daquele tempo e daquele lugar!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h58
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C R Ô N I C A

A maldição do ofício

Escrever é ofício inglório. Na verdade, vai-se bem devagar, quase parando, apesar de uma certa crítica proclamar por aí afora que, nos escritos daquele triste e vão poeta, há muito de aproveitável. Ele, sim, foi devorado já pelas janelas de um tempo seu, nebuloso e hostil.
escrever
Assim como são conhecidos por estes dias de meu Deus aqueles que se arvoram a debulhar seis ou oito mil reais para a publicação de um livro, às vezes com muita qualidade, outros tantos assim não têm condições de levar a cabo a maldição do ofício. Se o escritor é pobre, os editores somem, até porque ninguém pode obrigar-se a cortesias quando o assunto deve traduzir-se em valores monetários. O parco escriba que vos alinhava linhas tão prosaicas, por exemplo, não pode trilhar os caminhos do diletantismo, uma vez que não tem dinheiro para dar-se a luxo tão dignificante. Tem, sim, quatro filhos saudáveis, muitos amigos escorregadios e alguns inimigos velados, por detrás da bananeira, sempre prontos a atirar-lhe, pelas costas, dardos infectados pela maledicência que teima em conviver consigo numa época em que o ser humano já se está humanizando de uma vez por todas. Vejam só!


Escriba marginal! Poeta vagabundo que não consegue mais que ir aos fedorentos liames da verdade! Apóstata incurável! Haverás, certamente, de escrever de modo a agradar a gregos e troianos, a mineiros e cuiabanos, da esquerda ou da direita, volver! E, assim, quando mais tarde, quem sabe, te procure a morte, angústia de quem vive, ou, quem sabe, quando tiveres a coragem de levar os teus filhos e alfarrábios a algum editor metido a Midas, poderás, talvez, ouvir dez nãos muito mais que apenas um sim...


E por aí caminha o aprendiz de beletrista, entre os empurrões de alguns que dizem poucas e boas da sua obra, outros que o aplaudem fugazmente, e uns raros, mas felizes, que vêem em tudo uma grande bizarrice, inclusive, na produção de João Ubaldo ou Pena Branca... Durma-se com uma zoada dessas! Vá entender esses tais críticos que nunca tiveram coragem sequer de escrever crônica tão ensimesmada quanto esta.


E lá se foi o corajoso bardo, de mala e cuia, espada, baladeira, arco e flecha, paramentado, com um saco encauchado enfiado na cabeça, morrendo de medo, enfrentar os esquemas das instituições que dizem apoiar o ofício das artes. Quase um literato! Se não fosse o quase. Maravilhado, desde todo o sempre e até depois do amanhã que não virá, os esquemas foram sendo detectados pelo infeliz.


Dia desses, então, os moinhos de vento do Quixote de Cervantes deixaram-no abobalhado olhando para Juvenal Antunes, como se ali estivesse Gregório Filho, plantado e encasacado em bronze de alta qualidade. Bestificado, notara haver sido engolido pelo dragão e pelas mumunhas reinantes na casa das artes do Calçadão. Atropelaram o projeto do pouco arrojado escriba e sequer disseram os porquês de reprovação tão contundente. E ele perguntava a si próprio e por ele mesmo: cadê ele ou onde estou eu?... Ora, eu já morri. Agora reino no inferno das publicações não publicadas exatamente por carência de afetos e oportunidades.


Nesta casa de sabedoria onde o trovador habita há trinta anos, aqui próximo aos jardins do Tucumã, o provocativo escriba foi aconselhado a melhorar. E foi assim que, de Mestre, houve por bem tornar-se Doutor em filosofia e história da educação, através de estudos mui aprofundados em uma instituição pouco conhecida de nome Unicamp. A dissertação foi concluída ainda nos ermos idos de 1994. O professor do cachimbo que cheirava a almíscar, então, disse a todos que o livro sairia. E haja espera... O homem findou morrendo, e nada, até os dias que correm. Em 1998, defendeu tese de doutorado. Em chegando a esta terra boa, uma autoridade acadêmica de belo porte disse a ele que deixasse o CD da obra e, em pouco tempo, o “novo” livro sairia... Hoje, quase treze anos passados, nada! O poeta está bêbado! Os moinhos de vento são menores que a beleza estonteante de Dulcinéia Del Toboso, a musa do abestalhado D. Quixote de La Mancha.


Em verdade, há trabalhos prontos e não publicados há catorze anos, talvez por serem tão desinteressantes e virem da verve de um escritor sem arrimo e sem berço.


Eis, então, que, enfim, o maltrapilho bardo se embrenha nos meandros da informática e passa a produzir uns textos toscos que jorram aos borbotões. Passo seguinte: criou um tal blog visitado por não-sei-quantas celebridades de não-sei-quantos lugares, e começou a ler elogios e até cantadas de muito bom gosto, recitadas por-não-sei-quais das mais excitadas musas deste tempo velho de guerra... Oh, Deus! Aí apareceu uma fada madrinha que, finalmente, fez acontecer o primeiro parto em parturiente com idade para ser avô. Onde está o bisturi? E os ungüentos? E as sanguessugas?...


Mesmo assim, há uma observação que causa enfado, como diria Bigode, um livre pensador de nome Francisco Carlos, dono de boteco. Tão poucos são os súditos de um rei pobre! Quão poucas são as santas almas que lêem um romance de sessenta páginas durante toda uma vida de sessenta anos!


É cristalina a verdade que leva a crê que alguns formadores de opinião e contadores de histórias estão morrendo de inanição editorial antes do tempo. Com as prostitutas, está acontecendo o mesmo, infelizmente, no caso delas. Entretanto, é preciso considerar que, como dizia Ariano Suassuna, o livro não deixará de existir jamais, mesmo porque ficará muito difícil pegar uma sesta com um computador nos peitos, como se faz tão costumeiramente com um livro.


Hoje, o senhor Suassuna não mais chegaria a conclusão tão ultrapassada, posto que, certamente, já conhece o tal e-book, um apetrecho ultra moderno que não chega a meio quilo mas carrega dentro de si, por baixo, uma média de vinte obras de tamanho maior.


Assim sendo, em vista de toda esta melopéia de péssimo gosto, estarei, a partir da próxima semana, lançando uma campanha na internet e só assim conseguirei publicar mais e mais livros, agora, com a ajuda de todos quantos queiram e possam colaborar com o projeto menoscabado deste poe-ta menor. Aguardem!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h26
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