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CRÔNICA

Preciso de alguéns ou de muitos

Multidão-1Lucius Annaeus Seneca, filósofo e escritor dos meus círculos, dorme comigo desde os idos e aborrecidos tempos da Roma dos Césares. Ainda está em minha alma criptografado um certo adágio seu segundo o qual  é muito errado quando acreditamos em toda a gente, mas também é mais errado quando não acreditamos em ninguém. Ainda há em quem acreditarmos, certamente!

Um dia, afirmei mais ou menos por aqui que escrever é ofício vão, inglório. É desolador. Vai-se bem devagar, quase parando, apesar de uma certa crítica proclamar por aí afora que, nos escritos daquele triste e vão poeta, há muito de aproveitável. Em realidade, ele foi devorado já pelas janelas de um tempo seu, nebuloso e hostil. Uma pena.

Por esses dias de meu Deus, tenho conhecido aqueles que se arvoram a debulhar alguns milhares de reais para a publicação de um livro, às vezes de muita qualidade. Tenho contato com outros tantos que, por falta de numerário, não têm condições de levar a cabo a maldição do ofício e, apesar de produzirem, não levam ou trazem o produto do seu trabalho ao conhecimento público.

Se o escritor é pobre, os editores somem, até porque ninguém pode obrigar-se a cortesias quando o assunto deve traduzir-se em valores monetários.

O parco escriba que vos alinhava linhas tão melodramáticas, por exemplo, não pode trilhar os caminhos do diletantismo, uma vez que não tem dinheiro para dar-se a luxo tão dignificante. Tem, sim, quatro filhos saudáveis, muitos amigos escorregadios e alguns inimigos velados, por detrás da bananeira, sempre prontos a atirar-lhe, pelas costas, dardos infectados pela maledicência que teima em conviver consigo numa época em que o ser humano já se está humanizando de uma vez por todas. Vejam só!

Uma miragem à frente da minha história rasteira informa que devo buscar pessoas que queiram dar base aos meus sonhos e devaneios:

- Alguém poderia me ajudar? - Ruge o poeta da parte de baixo do pedestal.

Ele está em busca de alguéns ou alguns que lhe deem créditos suficientes para alçar voos mais altos rumo a um céu que já é de tantos. Então, o que é ter um ou muitos colaboradores?

É que, para a felicidade geral da poesia e dos poetas sem tostão, houveram por bem criar um instrumento social denominado crowdfunding... E que bicho é esse!?

São iniciativas de financiamento colaborativas. Ao pé da letra, seria algo como financiamento pela multidão. A ideia é que vá-rias pessoas contribuam, com pequenas quantias, de maneira colaborativa, geralmente via internet, para a viabilização de um projeto.

Nesse novo modelo, a pessoa que incentiva o faz porque se identifica com a causa. É a oportunidade de fazer parte de algo grande, mesmo contribuindo com pouco. É uma maneira de levantar o dinheiro necessário para a realização de um sonho através de pessoas que anseiam por ajudar.

Bem. Agora é a vez do autor da proposta ser bem prático. Mas, antes, é preciso considerar que, aqui, a confiança é a base. Se o cavalheiro ou a dama não acreditam ou não cofiam nele, não há porque fazer parte da rede de colaboradores. É compreensível até.

- Eu não disponho de dinheiro para ir além das minhas despesas domésticas, posto que tenho filhos para criar. Eis a grande verdade. Sou escritor. Muitos me leem até de vez em quando, o que é deveras gratificante. Em 2008, publiquei poucos exemplares de um livro  -  Janelas do Tempo  -  porque uma leitora bondosa praticamente o custeou... (Por muito tempo haverei de lembrar o nome de Eva Evangelista, a fada madrinha dos meus versos toscos.) Afora esta primeira publicação, tenho mais quatro obras escritas, mas engavetadas. Agora mesmo, segundo muitos sabem, estou escrevendo o capítulo de número XLIII de um romance nordestino-amazônico e universalista denominado O inverno dos anjos do sol poente. Tenho planos para a elaboração de mais uns quatro ou cinco que são extremamente viáveis. Há fôlego, com certeza. Mas falta o mais interessante, o patrocínio, a viabilização financeira. E é aí que entra a questão da confiança, uma vez que o pagamento será antecipado. Confie em mim e participe, ou não colabore e não se incomode. Tranquilize-se. Afinal de contas, há até a possibilidade da devolução do dinheiro investido.

Aqui, o objeto do crowdfunding é a publicação de um livro de crônicas sufocantes, extasiadas, espasmódicas, intitulado Tardiamente ou nunca mais: the legend of gold eyes horse, de aproximadamente 300 páginas.
Se o orçamento ficar ao custo, por exemplo, de dez mil reais, cada exemplar do livro ficará em torno de R$ 30,00, aproximadamente. A gráfica encarregar-se-á da impressão e encadernação, é claro; serviço este a ser executado no prazo de um mês. O pagamento ou repasse ou transferência será feito antes, pelos apoiadores, de forma a assegurar o valor devido ao gráfico. Uma pessoa poderá adquirir apenas um livro e pagará pelo valor exato deste. Uma empresa poderá querer dez exemplares para presentear os seus visitantes com uma obra que tem perfume de Acre e pagará meros R$ 300,00.

Firme-se, aqui, um compromisso do tamanho da seriedade e da responsabilidade do autor. O lançamento do livro será comunicado com a antecedência de quinze dias, por e-mail ou através dos órgãos de comunicação. Os colaboradores que não comparecerem ao evento haverão de receber o produto adquirido através dos Correios. Isto, é claro, porque muitos dos participantes poderão residir em outras praças.  

Então, interessa, num primeiro momento, que os colaboradores confirmem a disposição em participar da cota. Depois  -  e só mais tarde!  -  um número de conta bancária será repassado aos benfeitores que poderão dizer sobre quantos livros poderiam comprar.

Para a confirmação, basta que os interessados enviem o seu endereço convencional para o e-mail claudio.ufac23@gmail.com. Pede-se, ainda, que a ideia seja divulgada por todos quantos queiram se fazer partícipes deste empreendimento.

Para conhecer o proponente, de fato e de direito, o partícipe deve, por gentileza, acessar o www.claudio xapuri.blog.uol.com.br (entre os sete melhores do Brasil via UOL). O resto exigirá o testemunho do sa-pientíssimo Dr. Google, que já o conhece desde alguns anos.

Com os agradecimentos antecipados e os cumprimentos do JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO, um escritor sem dote e sem arrimo.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h55
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Preciso de alguéns ou de muitos

Multidão-1Lucius Annaeus Seneca, filósofo e escritor dos meus círculos, dorme comigo desde os idos e aborrecidos tempos da Roma dos Césares. Ainda está em minha alma criptografado um certo adágio seu segundo o qual  é muito errado quando acreditamos em toda a gente, mas também é mais errado quando não acreditamos em ninguém. Ainda há em quem acreditarmos, certamente!

Um dia, afirmei mais ou menos por aqui que escrever é ofício vão, inglório. É desolador. Vai-se bem devagar, quase parando, apesar de uma certa crítica proclamar por aí afora que, nos escritos daquele triste e vão poeta, há muito de aproveitável. Em realidade, ele foi devorado já pelas janelas de um tempo seu, nebuloso e hostil. Uma pena.

Por esses dias de meu Deus, tenho conhecido aqueles que se arvoram a debulhar alguns milhares de reais para a publicação de um livro, às vezes de muita qualidade. Tenho contato com outros tantos que, por falta de numerário, não têm condições de levar a cabo a maldição do ofício e, apesar de produzirem, não levam ou trazem o produto do seu trabalho ao conhecimento público.

Se o escritor é pobre, os editores somem, até porque ninguém pode obrigar-se a cortesias quando o assunto deve traduzir-se em valores monetários.

O parco escriba que vos alinhava linhas tão melodramáticas, por exemplo, não pode trilhar os caminhos do diletantismo, uma vez que não tem dinheiro para dar-se a luxo tão dignificante. Tem, sim, quatro filhos saudáveis, muitos amigos escorregadios e alguns inimigos velados, por detrás da bananeira, sempre prontos a atirar-lhe, pelas costas, dardos infectados pela maledicência que teima em conviver consigo numa época em que o ser humano já se está humanizando de uma vez por todas. Vejam só!

Uma miragem à frente da minha história rasteira informa que devo buscar pessoas que queiram dar base aos meus sonhos e devaneios:

- Alguém poderia me ajudar? - Ruge o poeta da parte de baixo do pedestal.

Ele está em busca de alguéns ou alguns que lhe deem créditos suficientes para alçar voos mais altos rumo a um céu que já é de tantos. Então, o que é ter um ou muitos colaboradores?

É que, para a felicidade geral da poesia e dos poetas sem tostão, houveram por bem criar um instrumento social denominado crowdfunding... E que bicho é esse!?

São iniciativas de financiamento colaborativas. Ao pé da letra, seria algo como financiamento pela multidão. A ideia é que vá-rias pessoas contribuam, com pequenas quantias, de maneira colaborativa, geralmente via internet, para a viabilização de um projeto.

Nesse novo modelo, a pessoa que incentiva o faz porque se identifica com a causa. É a oportunidade de fazer parte de algo grande, mesmo contribuindo com pouco. É uma maneira de levantar o dinheiro necessário para a realização de um sonho através de pessoas que anseiam por ajudar.

Bem. Agora é a vez do autor da proposta ser bem prático. Mas, antes, é preciso considerar que, aqui, a confiança é a base. Se o cavalheiro ou a dama não acreditam ou não cofiam nele, não há porque fazer parte da rede de colaboradores. É compreensível até.

- Eu não disponho de dinheiro para ir além das minhas despesas domésticas, posto que tenho filhos para criar. Eis a grande verdade. Sou escritor. Muitos me leem até de vez em quando, o que é deveras gratificante. Em 2008, publiquei poucos exemplares de um livro  -  Janelas do Tempo  -  porque uma leitora bondosa praticamente o custeou... (Por muito tempo haverei de lembrar o nome de Eva Evangelista, a fada madrinha dos meus versos toscos.) Afora esta primeira publicação, tenho mais quatro obras escritas, mas engavetadas. Agora mesmo, segundo muitos sabem, estou escrevendo o capítulo de número XLIII de um romance nordestino-amazônico e universalista denominado O inverno dos anjos do sol poente. Tenho planos para a elaboração de mais uns quatro ou cinco que são extremamente viáveis. Há fôlego, com certeza. Mas falta o mais interessante, o patrocínio, a viabilização financeira. E é aí que entra a questão da confiança, uma vez que o pagamento será antecipado. Confie em mim e participe, ou não colabore e não se incomode. Tranquilize-se. Afinal de contas, há até a possibilidade da devolução do dinheiro investido.

Aqui, o objeto do crowdfunding é a publicação de um livro de crônicas sufocantes, extasiadas, espasmódicas, intitulado Tardiamente ou nunca mais: the legend of gold eyes horse, de aproximadamente 300 páginas.
Se o orçamento ficar ao custo, por exemplo, de dez mil reais, cada exemplar do livro ficará em torno de R$ 30,00, aproximadamente. A gráfica encarregar-se-á da impressão e encadernação, é claro; serviço este a ser executado no prazo de um mês. O pagamento ou repasse ou transferência será feito antes, pelos apoiadores, de forma a assegurar o valor devido ao gráfico. Uma pessoa poderá adquirir apenas um livro e pagará pelo valor exato deste. Uma empresa poderá querer dez exemplares para presentear os seus visitantes com uma obra que tem perfume de Acre e pagará meros R$ 300,00.

Firme-se, aqui, um compromisso do tamanho da seriedade e da responsabilidade do autor. O lançamento do livro será comunicado com a antecedência de quinze dias, por e-mail ou através dos órgãos de comunicação. Os colaboradores que não comparecerem ao evento haverão de receber o produto adquirido através dos Correios. Isto, é claro, porque muitos dos participantes poderão residir em outras praças.  

Então, interessa, num primeiro momento, que os colaboradores confirmem a disposição em participar da cota. Depois  -  e só mais tarde!  -  um número de conta bancária será repassado aos benfeitores que poderão dizer sobre quantos livros poderiam comprar.

Para a confirmação, basta que os interessados enviem o seu endereço convencional para o e-mail claudio.ufac23@gmail.com. Pede-se, ainda, que a ideia seja divulgada por todos quantos queiram se fazer partícipes deste empreendimento.

Para conhecer o proponente, de fato e de direito, o partícipe deve, por gentileza, acessar o www.claudio xapuri.blog.uol.com.br (entre os sete melhores do Brasil via UOL). O resto exigirá o testemunho do sa-pientíssimo Dr. Google, que já o conhece desde alguns anos.

Com os agradecimentos antecipados e os cumprimentos do JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO, um escritor sem dote e sem arrimo.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h41
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CRÔNICA

Imaginação carrapeta

Contador de causosDe Xapuri, o Padre Felipe e o ajudante de ordens, Miguel Praxedes, desceram o rio a bordo de uma lancha denominada Lontra, à disposição do religioso que, de porto em porto, deverá seguir viagem até o Seringal Remanso. Com o início do verão e as primeiras friagens, é tempo das desobrigas, quando a palavra de Deus é levada aos mais remotos rincões.

Desembarcou junto com o vigário um homem chamado Chaga, mais conhecido pelo apelido de Lascanheta, devido à fertilidade de uma imaginação que não busca nenhum vínculo com o real. Ele conta histórias que balançam entre a fantasia e a realidade, não dando importância ao que pensam os seus ouvintes que, agora mesmo, já são muitos.

É sábado. Muita gente está aqui para casar no católico ou batizar a criançada, principalmente, das famílias que não conseguiram ir tomar a bênção ao Santo, no último vinte de janeiro.

Logo um grupo se forma ao redor do contador de causos. O homem é gaiato. Faz sucesso, sim, e fica rejubilado ao ver que muitos ouvem as suas lorotas, que são contadas uma atrás da outra. Há gente que já o ouviu em outras ocasiões e, por isso, alguns o fazem lembrar causos pitorescos da lavra do contador de histórias. Ô cabra mentiroso!

Na subida do barranco, o cabra olha para o rumo de cima e já cumprimenta o compadre Estácio, falando de um tio deste que havia esticado a canela lá no Seringal São Pedro, no Rio Xapuri. Muitos riram quando ele enfatizou que o homem batera as botas. E gargalharam mais ainda quando ele disse que o véi Zé Jaqueira dera com os costados nas labaredas do inferno.

- Arre égua! – Foi o que ele disse, num sopro cansado, já em cima do barranco, ao que percebi, pelo sotaque mais pesado, que se tratava de mais um sertanejo lá das bandas da Serra da Meruóca, no Ceará.

Na realidade, ele viera para, junto comigo, fazer uma revisão nas contas do Seringal Triunfo, Rio Xapuri, de propriedade de Júlio Oliveira. Mas isso seria feito lá pra segunda-feira. Agorinha mesmo, o homem só se ocuparia da sua pabulagem mais enrolada do que cabelo pixaim.
Com as calças arregaçadas até o meio da canela, pediu um trago de conhaque. Acendeu um porronca e se dirigiu para a escada onde sentou no degrau de riba já arrodeado de seringueiros que lhe cumprimentavam efusivamente. (Cá de minha parte, o Lascanheta é um mentiroso dotado de um estilo bem aos moldes dos tantos que conheci em Fortaleza.)

- Mas homem! Seu menino! Você não sabe o que aconteceu lá no Seringal São José. – Disse olhando logo para mim.

- Rapaz, o Gregório Calixto, o proprietário, passou uns oito meses se batendo com um problema muito sério. A cada quinze dias, sumia uma rês da criação dele e ninguém dava notícia alguma. O prejuízo era maior ainda porque as que desapareciam eram sempre vacas ou bois já em ponto de abate ou de venda. Até cavalo e burro estavam sumindo.

- E foi aí que ele, num domingo de madrugadinha, já quase na amanhecença do dia, quando chegava de uma festa na casa de um vizinho, o Pergentino Alves, olhou para o rio e focou a lanterna. Lá ele viu um par de cornos compridos que afundava em meio a um grande rebojo. Pela ponta furada dos chifres, ele reconheceu tratar-se do Folgado, um boi de arrasto muito útil em tempos de moagem. Uma grande perda.

- Ainda no mesmo domingo, ele espetou um galo velho num anzol de três polegadas. Num piscar de olhos, o bicho sumiu. À noitinha, ele espetou um carneiro num anzol maior ainda e o deixou a uns três metros da beira da água. Lá pelas dez, ele viu uma cobra muito grande que arrastou o bicho para o rio. A cabeça e o pescoço da serpente muito pareciam com o tronco de uma seringueira das maiores, a spruceana.

- Já de manhãzinha, ele mandou o Nêgo Aristide ir, durante a semana, ao maior número de colocações, chamar a seringueirada para um adjunto no domingo que viria.

Com as próprias mãos, confeccionou um anzol a partir de um pedaço de ferro de uma lancha que havia afundado por ali há muito tempo. E haja lima e haja suor. Certo é que no sábado o artefato pesqueiro já estava pronto e encastoado a uma corrente grossa daquelas que os bolivianos usaram no tempo da revolução.

- No domingo, então, já com uns quarenta seringueiros na beira do rio agarrados à corrente, ele matou com um tiro de rifle e lançou o boi Mascote que já andava adoentado há algum tempo. O bicho era grande e ficou mais ou menos na beira d’água.

- Foi aí que a cobra apareceu e quis se engasgar com o boi, mas o levou para dentro do rio. Enquanto isso, em terra, a força dos homens era enorme. Deu nove e deu dez e deu onze e deu doze e a peleja continuava. Nem um lado nem o outro cediam um passo.

- Certo é que, antes desse cabo de guerra, lá em frente do barracão do seringal do Gregório, o rio Xapuri era um estirão de mil metros. Hoje, se você for lá, vai ver é uma curva bem grande. A força dos seringueiros e da cobra, de um lado e do outro, foi tão grande que o rio entortou.

Um pigarro, uma cusparada marrom com os restos do tabaco que mascava e uma xícara de café.

- Vocês já ouviram falar do seu Santana, lá do Seringal Equador? Dessa história eu fiz parte. Eu fui lá, vi o que estava acontecendo e, juntos, findamos dando um jeito na situação.

- Em 1932, apesar do armazém novo e grande que o homem mandara construir, a castanha estava escassa como nunca, mesmo tendo sido o ano anterior de muita manga. Nunca se tinha visto algo parecido pela região. Aonde era para ter uma tonelada de castanha, tinha apenas cem quilos. Pior é que ninguém sabia a causa de tamanho prejuízo. Por mais que rezasse, as coisas pareciam ficar ainda mais difíceis. O Seringal Malheiro, no outro lado do rio, estava com a safra lá em cima e não havia mais aonde armazenar castanha. O Seringal Araquém, um pouco mais acima, também estava com a máxima produção. Só não o Equador.

- E foi aí que, numa quarta-feira, empreendi uma caçada nas terras do Seu Santana. De chegada, fui logo tomando ciência da situação. Almocei. Esgravatei os dentes.

Proseei bastante e, lá pelas quatro e meia, saí para armar uma espera no pé de uma imbiriba que estava caindo de madura. Segui pelo aceiro do campo e, já na entrada da mata, depois de passar por debaixo de uma cerca de arame farpado, fui ouvindo e seguindo um toc- toc compassado que, à medida que se distanciava, eu ia me aproximando, porque passara a andar apressadamente. E cada vez eu ficava mais perto do barulhinho.

Até que fiquei bastante próximo e me detive por trás de uma paxiúba. Tive aí então a visão mais impressionante da minha vida. Uma cotia daquelas de uns dez quilos ia à minha frente, sem me notar, andando e carregando dois ouriços debaixo dos braços, um equilibrado à cabeça e chutando outros dois: toc-toc-toc-toc... Lá na frente, avistei um monte de castanha que media uns cinco metros de altura. A bichinha estava fazendo estoque para que, nos doze meses vindouros, a sua família não passasse fome.

- E foi assim que eu descobri porque a castanha do Seu Santana estava escassa. No outro dia de manhãzinha, o homem já colocou todos os comboieiros e de tardezinha o armazém já estava novamente abarrotado para a felicidade do meu velho amigo.

E o Lascanha é um aço na arte de mentir. Nunca vi igual. Quase não toma fôlego. Antes do almoço, era um gole de café, uma ou duas baforadas no porronca, uma cusparada no chão daquelas no estilo cagada de pato, e tome prosa.

E veio a bóia. Carne de pato nu  -  sem pele, ao gosto do patrão  -  e afogado no sangue. O ordinário do visitante bradou:
- Parece que por aqui tão comendo muita carne de jacu. Tão adivinhando que é uma beleza. Tá tudo do jeito que eu gosto. Parece que foi feito por encomenda. Já agradeço.

Passada a sesta, um cochilo de uma hora de relógio grande. E o contador de causo voltou à cena com muito mais vigor. Agora, é uma dose mínima da cachaça Cocal, uma baforada e uma cusparada... E tome-lhe potoca:

- Uma vez, lá pras bandas do alto Purus, depois de Sena Madureira, no Seringal Santo Antônio, um conhecido meu de apelido Arigó tomou o rumo de uma estrada de seringa e, depois, passou a caminhar por um varador afora sem prestar atenção no quanto estava tomando distância da barraca. E haja perna. Era domingo de manhãzinha. Levava uma dezesseis na bandoleira, um bornal com vinte cartuchos e ia atrás de uma caça grande ou até mesmo uma imbiara com o que pudesse fazer um bom almoço para as suas oito crianças e a mulé. Pra lá, a mata é mais escura, mais selvagem que aqui. E ele se foi de madeira adentro. E haja pernada.

- Então, a mata ficou escura como breu. Ele não conseguia meter o dedo no próprio olho devido a escuridão... E andou uns dez minutos assim... Topa aqui, cai ali, levanta acolá, trambecando mais que bêbado em ladeira... De repente a claridade voltou. Ele continuou caminhando e só lá mais na frente é que olhou pra trás. O que o Arigó viu era muito espantoso. Lá ao longe estava a carcaça de um gigantesco jacaré de boca aberta, desses de uns trinta metros de comprimento e mais grosso que uma samaúma. Ele fizera uso da entrada de trás do bicho, houvera caminhado por dentro dele e saído pela boca do grande jacaré. Estava explicada a escuridão repentina.

Na volta, ele fez um arrodeio de modo a evitar o jacaré. Passado o susto, viu uma ninhada de cancão dos grandes. Mandou fogo, deu uma repuxada na espingarda, o chumbo espalhou e ele levou catorze frangotes para casa, onde o almoço foi farto, apesar dos canhões que teimam em não desapregar da carne da grande ave. Pense num homem de sorte!

- É como o véi Paraíba, um seringueiro lá da Vista Alegre, Rio Xapuri. Esse fez foi uma experiência muito forte no dia em que apostou com um amigo e compadre que colocara em dúvida a possibilidade de um veado em corrida ser alcançado por cachorros. Ele prometeu que traria o cervídeo apanhado a dente de dois cães, daqueles baixos e compridos, conhecidos por Totó e Zoada. Eram vinte mil réis. O velho tinha muito dinheiro porque cinco filhos adultos cortavam seringa na mesma colocação  -  Morro Velho  -  e tudo era administrado com mão de ferro por ele.

    - Então, no dia combinado, ele trouxe a caça morta a umas duas ou três dentadas no gurgumin, para espanto geral.

    - Não satisfeito, o amigo que o desafiara antes propôs que ele, mais uma vez, fosse à caça do veado, e ele topou. Correria mais dinheiro... Só que, dessa vez, no dia aprazado, o compadre ficou espiando de longe a arrumação do véi que, muito do seu esperto, arranjava umas enviras e amarrava um cachorro sobre o outro, costa com costa. Enquanto o de baixo corria, o que ia em cima descansava, e vice-versa, de forma a que, em uns quinze minutos o veado estava morto porque, na hora necessária, os cachorros desamarravam os nós que os prendiam um ao outro.

- Por isso, na casa do véi Paraíba nunca faltava carne de tudo quanto é caça, justo porque os seus cachorros eram danados de bons... E eu só fico é pensando no ensaio diário da coreografia dos bichos em altíssima velocidade... Pense num véi sacana!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h39
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CRÔNICA

Sendas e mistérios

imagesO remédio é esperar, como diz a modinha. Bons ventos apregoam que o presidente da República estabelecerá postos aduaneiros no Mato Grosso, no Guaporé e no Acre. São notícias que chegam da Capital. Pessoas com estudos superiores ocuparão os cargos. Difícil é cobrar impostos nacionais se a República sequer sabe onde fica este território. Muitos no Rio de Janeiro pensam que depois do Goiás só tem índio. Nunca ouvi falar da presença de uma autoridade federal por aqui. Vamos ver no que dá...

O meu bom amigo Sororoca e mais o compadre Estácio aparecem sempre à tardinha para uns dedos de conversa. O relacionamento agora é mais estreito. Estou comprometido e serei o padrinho da recém-nascida Leopoldina, assim que o Padre descer o rio.

- Ô nome tão grande para uma criança tão miúda. - É o que digo e é o que fica sem um comentário sequer... E haja prosa.

Em certa ocasião, na Colocação Breu Velho, no Jurupari, Amazonas, segundo o Sororoca, uma conhecida sua de nome dona Raimunda, casada com um Jóca, cuidava de uma menininha sua de uns dois anos e meio, enquanto o marido fechava a colha. Já umas quatro da tarde. A mata ao redor era um tanto fechada, por isso a claridade já estava quase sob o domínio das sombras. Como a barraca ficava bem próximo à beira da fonte, a uns cinco metros do pé do barrote, ela deixou a criança sentada sobre a mesa da cozinha e foi apanhar água. Coisa de dois minutos e não mais que isso, de volta com a água, o susto foi imenso. A menina houvera sumido como por encanto. E ela procurou daqui e dali e nada encontrou. O marido chegou para a defumação e o desespero ficou maior. Chamaram muito o nome de Rosinha. Caçaram até por dentro da capoeira, e nada. No outro dia, de manhãzinha, alguns vizinhos foram chamados e fizeram buscas até a tardinha, mas não encontraram nem rastro da desaparecida. Ali também, nada mais foi produzido. Parou o fabrico e os dois só choravam o desaparecimento da filha única.

Passados uns três meses, então, com as coisas já quase na normalidade, ela estava como sempre em casa de tarde rememorando os fatos e catando um feijão que houvera apanhado pela manhã. Mais uma vez, foi buscar água, como no fatídico dia. A demora foi a mesma. Um pé lá e outro cá. A surpresa maior aí aconteceu. Quando dona Raimunda levantou as vistas, a menininha estava sentada na mesma posição em que ela a deixara, com a mesma roupa e sorrindo como se nada tivesse ocorrido.

Como tudo isso teria acontecido? Os índios da região haviam sido dizimados nas correrias realizadas há uns cinquenta anos. Os seringueiros vizinhos tinham já de oito a doze filhos e não iriam querer mais uma. Até hoje, muitos são os que dizem que foi coisa das entidades espirituais da floresta e a culpa recaiu sobre o caboclinho da mata, pois o Jóca nunca houvera tido a compaixão de oferecer-lhe um copo de cachaça ao pé da velha cajazeira onde o antigo morador depositava as suas oferendas.

Um velho seringueiro do Albrácia, de nome Chico Broca, morava a uns quarenta minutos do barracão do patrão Raimundo Sargento. Vivia ele, a véia e uma neta filha de um dos seus que houvera se casado e ido para a Boca do Acre. Num sábado, saiu ainda com o escuro para comprar sal no armazém do seringal. Queria voltar cedo para uma pequena moagem de onde tiraria o açúcar preto para o tempero do café.

Como todo seringueiro arrochado, comprou cinco os quilos do sal  -  prevendo ter de salgar uma caça a qualquer hora  -  e voltou imediatamente. Já avistando ao longe o aceiro do seu campinho, onde criava um boi, um garrote, uma novilha, uma vaca e dois bezerros, ele arregalou os olhos de tanto medo. Uma jiboia da grossura de um camburão, de mais ou menos uns oito metros de comprimento, estava enrodilhada na sapupema de uma gameleira com uns olhões aboticados no rumo dele. Ele deu um pulo para trás e se pôs a andar quase normalmente para não espantar a bicha. E andou um bocado e passou de novo pela dita cobra. E fez o mesmo umas doze vezes. A véia talvez já pensasse que ele tomara uma cachaça a mais. Já eram cinco da tarde e ele houvera saído de casa às cinco da manhã. Até que lhe veio à mente uma ideia. Parou, olhou para a serpente e jogou um punhado de sal. Aí ela lambeu os beiços e tirou as vistas dele, ao que o encanto se quebrou e ele, aproveitando-se da abertura da boca do animal, jogou os cinco quilos de sal na bicha. Ela papou tudo de uma só vez, com o saco e tudo e, em seguida, saiu serpen-teando rumo ao Igarapé Morro Branco que corria por dentro da colocação. A sede era muita. Na verdade, segundo o compadre Estácio, a cobra queria que o seringueiro ficasse cansado e dormisse. Seria mais fácil matar o Broca no aperto.

Num desses dias de verão, ouvi e anotei boa parte do que aqui é relatado não apenas por Sororoca e Estácio, mas por outros comboieiros e seringueiros também, como o testemunho de um sujeito carrancudo, entroncado e grandalhão, meio índio, chamado Anastácio que, no Seringal Iracema, viu com esses olhos que a terra há de comer, o tal mapinguari.

Um dia à tardinha, ele chegava da colheita quando desconfiou que alguma coisa se mexia entre a folhagem de uma bananeira braba, na beira do barranco do rio. Então, com a espingarda armada, deu uma volta por trás de uma castanheira e de perto pode avistar o bicho. É metido a macho, mas ficou paralisado ante a visão do gigante peludo.

- Não me mexi de jeito nenhum, e não fui visto pela coisa medonha. O olho no meio da testa revirava como se estivesse vendo até pra trás. A boca no lugar do umbigo fazia um grunhido, como se quisesse falar, e gritava que nem caçador. Os pés tinham o formato de mão de pilão e tinha uns 3 metros de altura, ou mais. – Foi o que anotei do Anastácio.

Segundo o Sororoca, ninguém pode responder ao grito do mapinguari. Se assim for feito, ele vai ao encontro do desavisado e o mata. A criatura é feroz e não teme nem caçador, porque é capaz de dilatar o aço quando sopra no cano da espingarda. O animal sempre leva vantagem e os que conseguem sobreviver ficam com terríveis marcas no corpo pela vida afora. E o bicho só sai pela mata durante o dia, guardando a noite para dormir. Quando ele anda pela floresta, vai gritando, quebrando galhos e derrubando árvores, deixando um rasto de destruição. Mas basta ele vê uma preguiça e sai em fuga acelerada. O que ninguém explica é o motivo do medo justamente da sua prima dos tempos da pré-história.

De passagem pelo banco onde estávamos sentados contando os nossos causos, Das Dores, filha mais velha do compadre Estácio, fez com que este lembrasse o tal boto encantado que gosta de moça bonita e assombra o povo da beira do rio lá pras bandas da Boca do Acre, Lábrea e Pauini.

Durante as noites de festa, o boto se transforma num rapaz muito bonito que se veste de branco e usa uma vistosa chapeleta de abas pequenas. Dizem que dança muito bem e gosta de beber. Como um cavalheiro, ele conquista a jovem mais bonita da redondeza e a leva para a beira do rio. Tempos depois, a moça aparece grávida. E te mais: o bicho encantado, quando está transformado em homem, nunca tira o chapéu branco para que não lhe vejam o pequeno buraco que tem no alto da cabeça.

No médio Purus, quando uma moça aparece grávida e não sabe quem é o autor da barriga, logo todos afirmam que foi o boto. Além do mais, em Manaus, nos anos vinte, havia um intendente municipal em cuja certidão de nascimento não havia nome de mãe, nem de pai, nem de avô, nem a data do nascimento. Nunca se ouviu dizer que havia um parente que fosse, em qualquer lugar do mundo, apesar de ele ser dono de uma fábrica de leite em pó. O Dr. Umbelino era filho de um boto tucuxi que se enamorou por cima da mãe dele sob um luar de verão numa praia lá pras bandas de Manacapuru.

Depois, ouvi algumas constatações da dita existência fantasiosa do caboclinho da mata. É que muitos seringueiros já foram assombrados por esse indiozinho pequenino que é dono das caças e persegue e castiga aqueles que caçam sem a necessidade de carne fresca.

Também contaram de um certo índio feiticeiro, no baixo Purus, que bebe o chá do cipó gaiteiro, vê figuras horrendas que dizem ser o demônio, com cabelos grosseiros, barba de bode, pé de pato, orelha de cachorro, uma vela na cabeça e mulheres com quem o enfeitiçado pratica o ato carnal. Os feitiços são feitos por vingança, por ciúme e, ao toque do maracá, sempre uma vida está marcada para ser extinta.

Enfim, como dizem os ibéricos, não se pode acreditar nas bruxas, mas que elas existem, existem... Estas histórias seringueiras são deveras bizarras.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h59
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CRÔNICA

Rasgos da memória

crise-gregaEsta é uma crônica pretensiosa que não pensa em se dar foros de legitimidade científica, é claro. Ela sugeriu a si própria chamar-se assim para não estabelecer muitos vínculos com a verdade que Demóstenes Torres procurava com uma lamparina à mão, lá em Goiás, de olhos plantados na cachoeirinha. O vestido roto lembra as tonalidades próprias de uma literatura parca produzida por este poeta abobalhado. Aqui a viagem e a vadiagem são mais longas, porque o cronista se permite dormir hoje e acordar ontem. É isto o que a licenciosidade poética faculta aos que não têm o exato domínio da letra, como eu. Que o leitor não busque a linearidade da história, pois nem os passos deste vate já não são tão lineares, principalmente, agora, depois da quinquagésima quinta volta ao redor do sol. Quase envelheço.

Um dia, então, ao dirigir-se à Ágora, Platão estava cansado de tão somente pensar, refletir, meditar, vagabundear e mirar, libidinosamente, o corpanzil e as ancas rijas do velho e atlético mestre metido a viril, de nome Sócrates. Depois da preleção, os dois subiram uma montanha e depois outra para, enfim, avistarem um grande vale ornado de amendoeiras em flor. Era quase outono. Muito foi dito e mais ainda foi cometido. Certo é que, além do chamego fedorento, daí surgiu o princípio básico da famosa Apologia. O discípulo, então, de credor passou a devedor. Ah, sim! Está também nesse episódio a origem da palavra efebo, hoje, traduzida, no Brasil, para bofe. Era previsível.

Pô! É inacreditável. Os caras não queriam nada com atividade alguma que lhes exigisse um pouco mais de esforço físico. Não. Depois da cossação de saco que é o estudo da filosofia clássica, eles tinham toda a tarde para admirar a beleza uns dos outros, enquanto faziam exercícios esquisitos nos ginásios de esportes onde as mulheres não entravam. Nunca. Elas os denunciariam aos machos da Macedônia, por atentado ao pudor, e estes as fariam bem mais felizes em orgasmos infiéis. Os gregos não faziam nada que não fosse pensar a verdade, a sabedoria, o devir da humanidade, o metafísico, o irreal, o trivial, o sexo a três por quatro... E assim por diante.

Enquanto isso, os escravos conquistados de todas as partes do mundo conhecido, desde o século de Péricles ou até antes, ardiam de sol a sol trabalhando duro nos vinhedos e olivais, debaixo de chicote, para que os gregos homens puros pudessem se amar nas praças notívagas como animais. Não, senhores. Os helenos não gostavam de trabalhar. Jamais.

Aí surgiu o Império Romano, uma potência que teve mais de trezentos anos de apogeu. Estes, depois de dominarem os gregos, conseguiram formar uma sociedade segundo os moldes do povo conquistado, com todos os vícios e manias bestiais. O homossexualismo era tão arraigado que, por fim, em vista da falta de braços fortes para a guerra contra os bárbaros metidos a machões, o império ruiu. Os costumes, segundo Petrônio, o árbitro das elegâncias, exigiam que cada senador, como outros patrícios, só para ilustrar com um mero exemplo, deveria amasiar-se com um rapazola de dezoito ou dezenove anos e, com este, dividir ou apenas tirar o gozo das esposas gordíssimas. Coitadas!

Depois de muito vinho, os romanos mais aquinhoados se permitiam namorar uns com os outros nos banhos públicos, antros de permissividade, não como no Brasil moderno, onde, nas saunas, oportunistas falidos mentem a respeito dos negócios que nunca dão certo apenas por pura burrice em perfumes de eucalipto. Eu vi!
Também os parentes dos césares  -  e a viadagem de outras dinastias e famílias  -  deixavam o trabalho duro para os escravos trazidos das mais remotas paragens por onde se estendia o grande Império. Ou roubavam as províncias conquistadas com impostos que muitas vezes iam a cem por cento do que era produzido pelos povos sob o seu jugo. Mas que ladrões!
E tudo foi tomando ares de uma tradição que chega aos tempos ho-diernos. Vagabundear, vadiar, flautear, trotear e rodar bolsinha, para ambos os sexos, passou de esporte nacional a valor cultural preservado pelo mundo conhecido de então. Os ocidentais, principalmente os do signo do besouro, podiam tudo, até trocar de posição na hora da pegada, como hoje. Prostitutas e homossexuais eram negociados no mercado negro, em muitas ocasiões, com valores acima do ouro ou do trigo. Quem não queria ir para a cama com uma morena parecida com a Cléo? Quem tem dólares suficientes para arregalar a butuca da última vagabunda que largou o Trump? Ô povo tarado!
E vieram os tempos medievos ao fim dos quais jesuítas e templários, além das batinas que escondiam muita sacanagem, ainda assassinavam pobres diabos em nome de Deus. Aí também quem trabalhava era a criadagem. O europeu puro, aquele sangue bom, fartava-se com vinho de categoria e orgias da pesada. Arre!

Só para se ter uma ideia, da comandita de meliantes que saiu de Portugal, e acompanhou o rei frouxo rumo ao Brasil, borrando as calças com medo de um efeminado Napoleão, apenas três por cento sabia ler e todos, juntos, passaram a ser tratados por fidalgos. Estes não podiam trabalhar. Quem ia para a faina braba era a negrada trazida da África, como os meus ancestrais. Pode-se dizer que os portugueses de então eram todos analfabetos, sim, mas superdotados na arte de roubar. Além daquela sacanagem que fizeram com o Tiradentes, surrupiaram todo o ouro de Minas Gerais para pagar dívidas contraídas com a Inglaterra, cujos donos eram bem mais gatunos que os tristes lusos que foram bisonhamente passados para trás. Tome-lhe!

Vai aí de gorjeta apenas uns dois séculos de tapeação, maquiagem, gatunagem, malandragem e contra cultura. É de lascar!

Vivo hoje a pretensa modernidade. Agora, as crises financeiras e morais sacodem a velha Europa e o Império de Tio Sam. Todos, juntos, cambaleiam. Percebo, cá co’s meus botões de madrepérola, que os gregos faliram desde há vinte e cinco séculos. É só contar.

Quantos pratos foram quebrados! Quanta fanfarronice! Só a História os celebra ainda hoje. Sempre tagarelaram muito e fizeram pouco ou quase nada, a não ser uma indústria turística tão débil quanto a sua economia no mundo do euro. Triste é a senhora Merckel que acredita nos gregos e ainda leva muitos dos ocidentais também a fazê-lo.

Vai o foco agora para a França, onde a maioria da população não se dá ao luxo de trabalhar para comer. Eles querem viver apenas de champagne, caviar e turismo sexual nos seus aposentos mínimos decorados com mobílias do tempo de Maria Antonieta. Não tomam banho e são chegados aos indefectíveis lencinhos umedecidos utilizados até para secar as damas em dias de bandeira vermelha. Sequer lavam as roupas bolorentas usadas por semanas a fio. Também não lavam a louça nem cuidam dos seus jardins. Para isto tudo, eles ocupam uma horda de marroquinos, argelinos, líbios, tunisianos e egípcios desgarrados que trocam um prato de comida para lhes consertar os sapatos sempre em frangalhos.

Ninguém pense que aquelas pes-soas pálidas, infelizes descendentes dos mouros e sarracenos de outrora, são considerados franceses legítimos. Não. Muito menos aqueles de pele escura e cabelos encarapinhados. Nunca. E esses forasteiros pobres que se metam a besta e serão expulsos do paraíso em que vivem nos subúrbios infectos de Nice, Toulouse, Avignon, Dijon, Lion, Bordeaux e Paris. Quando foi para dominar o norte da África e de lá extorquir bens, suor e sangue, eles souberam fazer com a competência dos grandes gatunos da história que são. Ali por aquelas paragens francesas, o descendente dos antigos colonos africanos que estiver procurando emprego será perseguido e fugirá para os locais de onde jamais deveria ter vindo.

Por que Zidane, Lizarazu, Henry, Karembeu, dentre outros futebolistas, não comemoram os seus gols franceses? Eles odeiam aqueles que lhes tratam tão mal desde séculos. Amam, sim, a profissão, mas detestam a pátria inclemente que, depois, há de lhes querer ver pelas costas.

Ah, sim. Na Europa, há quem trabalhe duro e por isso têm dado certo apesar das seguidas derrotas em duas guerras mundiais. Os alemães vertem bastante suor nas suas minas de carvão. Os demais, ao contrário, são espíritos escravocratas empedernidos que não largam por nada a vida que antes era tão farta e que agora dá sinais de falências múltiplas que passam pela romântica Capri, Itália, vão a Saint Tropez, na França, não esquecem a Espanha e muito menos Portugal, este, um país que, hoje, tem oito milhões de portugueses residindo lá e dez milhões deles morando no Brasil. Ufa!

A África de ontem é a mesma de hoje. Os indivíduos formadores da mão de obra escrava já não apanham sozinhos, individualmente. Eles são chicoteados em grandes grupos por um sistema que lhes obriga a sair da sua terra para mendigar em países que lhes pagam salários suficientes apenas para que a inanição não lhes roube a vida assim tão rapidamente.

Noto, ademais, que os brasileiros, hoje, devem ter dinheiro no bolso para entrar em uma Espanha depauperada, falida. Se nos aeroportos de Madrid ou Barcelona o tupiniquim não tiver cento e setenta euros, volta para casa no mesmo voo. Enquanto isso, a hospitalidade brasileira recebe e dá de comer a milhares de haitianos vitimados pelos grandes sustos pregados pela mãe natureza.

Até mesmo os americanos ricos  -  ou os que se acham os mais puros etnicamente, talvez membros de uma klu klux klan moderna  -  nada fazem ou não derramam uma gota de suor porque o trabalho pesado é feito por escravos modernos importados de Governador Valadares, Minas, Brasil. O serviço sujo, lá, é feito por latino-americanos escravizados que buscam fôlego num deserto humano onde só tem direito à vida plena os escolhidos pela cor dos olhos verdes de Tio Sam. O new deal prega uma América só para os americanos. Os demais que comam as migalhas que caírem das mesas de Las Vegas, posto que Atlantic City está às moscas.

Percebei vós, irmãos do terceiro mundo, ratos de todos os esgotos. A crise de europeus e norte-americanos é ditada tão somente pela arrogância, pela ambição e pelo ímpeto colonizador de países que se dizem compor o primeiro mundo, mas, na realidade, chafurdam no lodaçal das bolhas econômicas que os têm levado à bancarrota, inapelavelmente.

Em verdade, o império romano durou trezentos anos, mas o império americano não chegou a completar um século. Que eles revejam os seus princípios e passem a olhar o mundo com os olhos de uma humildade que a sua futura pobreza haverá de lhes emprestar.

*O www.claudioxapuri.blog.uol. com.br está entre os sete melhores do Brasil via UOL.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h48
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CRÔNICA

Felizes, mas tristes

Já não penso como antes, é claro. Todos esses meses de solidão bem acompanhada me deixaram um tanto reflexivo. Aquilo a que os mais sensíveis chamam felicidade consiste na harmonia e na serenidade. Calma, portanto! É preciso viver e agir com muita parcimônia e bastante tranquilidade. É oportuno ter a consciência do tamanho da felicidade que se deseja alcançar. Em palavras mais claras, sempre convém a busca de uma orientação positiva, convencida e decidida do espírito, ou seja, a paz da alma. Foi o que pude extrair, ainda no Liceu Cearense, da leitura de um velho opúsculo em cuja capa estava gravado um título em letras douradas, Pensamentos franceses, de 1911, sem autor, trazida a público por um certo Julián le Gueulard, editor de Toulouse, França.

Ilustração
Corrijo um a um os botões da camisa cáqui, vagarosamente, como se os estivesse conferindo a quantidade e a qualidade. Os pensamentos voam feito o carcará em busca de pouso farto seja do que for. Reflito longamente, de acordo com o que permite o meu tempo preguiçoso e suarento. Sinto muita falta de todos. Estou triste mesmo. Vim para o norte do Brasil e desde sempre pensei em voltar para onde estão os filhos queridos e a esposa amada, a não ser que a fortuna me reserve coisa melhor. É esperar um pouco, então. O diploma está guardado num canudo de madeira hermeticamente fechado, ao contrário do Camões, que perdeu parte dOs Lusíadas no naufrágio de um dos navios do Vasco.

Aqui, não se vive a felicidade plena, mas a relativa. A saudade dói no osso e no tutano, como diziam as minhas cearenses lá do Baturité. Notícias que vêm de longe nos deixam mais tristes que alegres, apesar de saber que tudo continua como há quase dois anos, na santa paz de Deus.

Os negócios do sogro prosperam, vão muito bem, obrigado, não obstante a asma crônica que, vez por outra, quer se tornar tuberculose. Bom mesmo é que o homem é rijo como um cavalo árabe e tem umas boas dúzias de amigos e conhecidos próximos que manejam ervas e mesinhas no Mercado do Ver-O-Peso. Semanalmente, agora, segundo me conta a carta, ele vai, sempre aos sábados de manhãzinha, bater beira ou tirar duas ou mais horas de boa prosa por lá. Diz a missiva que é esta uma forma de aplacar a falta que faço para uma boa prosa ou uma partida de gamão.

Há uma garrafada feita à base de cascas ou raízes ou sementes de marapuama, nó de cachorro, pau tenente, guaraná de índio, dentre outras, a ser tomada todos os dias à tardinha. Há ainda uma poderosa gemada de ovo de pata com canela em pó e mastruz batida e tirada o sumo que é misturado aos demais ingredientes. Esta é tomada sempre em jejum, de manhãzinha, antes do lauto café da manhã. Às duas da tarde, logo depois da sesta, é a vez de um pequeno copo de chá de carapanaúba, para espantar o açúcar do sangue. Depois do jantar, então, o homem traça uma ou duas laranjas, segundo ele, uma antiga receita chinesa para viver mais de cem anos. Mais tarde, lá pelas dez, para dormir como um anjo medieval, conforme ele próprio, manda pro bucho uma substancial talagada de chá de alfavaca adoçado com mel de engenho.

Não há mais sequelas do naufrágio na Baía de Marajó. Há, sim, o cuidado da infatigável esposa que, à noite, amorna água para um banho de imersão do turco, antes do jantar. Lá ela coloca ervas como mucuracá e tipi, para que a alma se sinta mais feliz, o que é um eufemismo monstruoso, posto que essa prática é corriqueira entre os que mexem com macumba, lá pros lados de Batista Campos e da Rua Padre Eutíquio.

Em 31 de outubro de 1936, nasceu Jorge, nosso filho. Em seguida, durante uma viagem ao Líbano, o bom sogro foi acometido de uma crise de fígado, estômago e intestino. A cura se deu meses depois, quando ele consultou um senhor de muita idade, índio, que lhe aconselhou tomar chá de casca de laranja seca e, um pouco depois, a goma tirada da raiz do marupá, durante vinte dias. O homem ficou novinho em folha.

Então, Samira, minha filha, veio ao mundo. Era 3 de novembro de 1937. Eu me formara havia pouco, em 26 do mesmo mês e do mesmo ano. Depois, passei uns dez meses trabalhando por conta própria, como causídico  -  no dizer dos paraenses  -  e organizando os interesses financeiros do meu sogro, que eram e são muitos. Enfim, bateu-me no quengo uma vontade doida de dar uma volta pelo mundo, como a maioria dos homens do meu tempo gosta de fazer, quando têm tempo e alguma posse ou coragem. Em 29 de dezembro de 1938, iniciei a minha cruzada e aventura ou desdita bem mais que doida, mas tresloucada, insana, alienada. Vim parar no Acre. Vim para catar dinheiro com cambito ou gancho. Arranjei e vi muitos ganchos, sim. Talvez ainda não esteja enganchado. Mas o dinheiro é ralo. É preciso esforço, sangue e suor em bicas. Poucos são bafejados pela fortuna. Estamos no Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1940. É abril.

Segundo consta dos escritos vindos de Belém (sim, porque é um calhamaço de vinte e duas páginas destes que se gastam vinte dias para escrever), o meu garotinho, de três anos e meio, fala bem menos que a irmã, mais nova que ele um ano. Latifa, no entanto, foi ao Dr. Homero Teixeira e este a conformou dizendo que nenhum deles tem a língua pregada e que é normal as mulheres serem mais tagarelas desde a mais tenra infância. Permanecem gordos e corados em vista de um tal regime cujo princípio ativo é o açaí. Estão um pouco acima do peso, o que é perfeitamente normal, tendo em vista as guloseimas que a mãe dá e os paparicos próprios de um avô e uma avó corujas ao extremo.

A cunhada, agora, se arvora a ser freira. Diz ter o tal dom, muito embora eu a tenha conhecido de beiço comprido para os lados do brimo Said, filho de Farid Azad. Está fazendo curso para professora e, depois, fará um outro no ramo da enfermagem. Têm ligações diretas com a Ordem das Carmelitas que, segundo dizem, há de também embrenhar-se Amazônia adentro, como fizeram as Servas de Maria Reparadoras, as italianas que vieram para o Acre praticar a caridade. Suponho que a raiz destes pensamentos religiosos meio incompreensíveis está na tendência ao fanatismo, própria dos turcos, na carolice arraigada de minha sogra e no fato de Said, brasileiro filho de libanês legítimo, ter-se alistado no Exército e este se mostrar pronto para os embates na Guerra, assim que os Estados Unidos nos fizer a convocação. Para qualquer família e para qualquer namorada, é esta uma notícia dos diabos.

Lá pela oitava página, depois dos relatos familiares, ela conta dos bons filmes que tenho deixado de ver. A mais nova película em cartaz trata sobre o circo dos irmãos Marx, que ela ainda não viu... E o comentário logo abaixo, na carta, deixa em mim uma saudade ainda maior de casa e da vida cercada de tantas benesses, inclusive e principalmente as culturais.

Temos assistido a bons filmes, eu, mamãe e, às vezes, papai.    

Por último fomos ver O mágico de Oz e, depois, E o vento levou, ambos do diretor Victor Fleming. Como é genial esse homem! Já imaginou? Dirigir dois filmes dessa magnitude praticamente em um mesmo ano? Ah, sim! Também muito boa é a película A regra do jogo, de Jean Renoir. (...) É, meu bem! Belém é uma grande festa. Estamos já de posse de três convites para assistir à prima dona Isabela Cagliarini que se apresentará no Theatro da Paz interpretando árias do Barbeiro de Sevilha, antes da apresentação da ópera Carmem, de Bizet, pela Companhia Pariziense, no primeiro dia, e da Sinfonia de Beethoven, pela Orchestra Filarmônica de Berlim, no segundo dia. É um festival organizado pela Prefeitura de Belém. Dos deuses, meu anjo. Pena que você não está aqui para compartilharmos tudo isso. (...)
Viver é difícil, sim. Ser feliz já não é tanto. Basta que exijamos pouco de nós mesmos e tudo o que vier será saldo, desde que não se ande nu, não se passe fome ou se durma na chuva e sem uma orelha que se nos aqueça durante a friagem e as noites de chuva braba.

A razão pela qual algumas pessoas veem tanta dificuldade em ser felizes é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é, e o futuro melhor do que será. Não há como contrariar a ordem natural dos fatos. Somos o que somos, reais, concretos, humílimos, sempre por falta de uma oportunidade que não vem de onde poderia vir, principalmente, desse que se diz governar os destinos da pobre Nação.

São nove da noite. Batidas à porta dos aposentos. Uma das meninas do compadre Estácio vem me pedir um saquinho de sal amargo. Não sei o porquê do uso do remédio. Certo é que a Comadre Moça está sofrendo para dar à luz do mundo mais um enjeitado da história do Brasil. Não me preocupo porque ao seu lado está a parteira mais afamada da região, dona Maria Rita, mãe do comboieiro Mané Martins, do Seringal Palmarizinho.

Não, não há qualquer inquietação de minha parte. A parteira passa uma segurança danada, mas não consigo dormir. No meio da madrugada, então, um berro alto da criança que nasce. Alvoroço geral. Até dona Nenzinha, a patroa, desse as escadas para ir fazer o seu agrado naquela mulher de tantas qualidades, a nossa Comadre Moça de todos.

Parabéns!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h22
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VICIOSO CÍRCULO VICIADO: eis o retrato caótico do ensino da língua portuguesa no Brasil. Uma lástima a mais já é demais.
Porfiro



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h53
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Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h43
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CRÔNICA

Novas cruzadas, guerras vetustas

 Bebé Cardoso é mais um jovem navegador dos rios da Amazônia dentre os muitos que conheço. Em Xapuri, ele me passou o Jornal do Comércio, de Belém, datado de há mês e meio. Por aqui, pode-se dizer até que tais notícias são fresquinhas, tendo em vista as sempre justificadas distâncias amazônicas de Deus meu.

 Agora, enquanto a chuva fina e constante cai lá fora, aqui, nos amplos aposentos cedidos pelos donos do Seringal Boca do Lago, a rede cearense quadriculada vai e vem no compasso do pé que a impulsiona ao toque na parede. Não há muito que fazer. Ainda de chegada, em poucas semanas, consegui colocar todos os números do negócio em dia e do meu jeito. Com as cadernetas dos seringueiros atualizadas e o borrador também, o livro caixa é apenas consequência do trabalho anterior. É esta uma época em que todas as atividades do negócio da seringa ficam paradas, afora algumas raras anotações nas contas de alguns fregueses que se encorajam pelos varadouros, muitas vezes a nado, em busca de querosene ou sal, no mais das vezes.

 Fazendo uma espécie de balanço dos habitantes da terra, observo que uns vieram para o Acre de muitíssimo longe, do Oriente Médio, Síria e Líbano, e até do Extremo Oriente, Japão. Outros vieram de onde o vento perdeu a curva, da velha Europa, principalmente de Portugal. Eu vim de casca de alho, da Serra do Baturité, no Ceará. Fazemos todos parte de um grande grupo que, segundo penso, são os novos cruzados em épocas também tão difíceis quanto na Idade Média. Todos estão muito distantes de casa. Uns poucos haverão de voltar a ver os seus. Outros jamais terão essa ventura. Voltarão ao pó da terra porque é assim mesmo a vida segundo as regras brutais da natureza.

 O Jornal do Comércio está repleto de notícias da guerra já declarada e conflagrada. O mundo, lá fora, está em polvorosa. A Europa está fumegante. Os americanos estão de sobreaviso. A tendência é que o todo-poderoso exército dos Estados Unidos despeje suas bombas sobre a cabeça de Adolf Hitler, o grande encrenqueiro que fustiga o mundo com a sua megalomania compulsiva e beligerância arraigada que partem de um temperamento extremamente patriótico. Um fanático a mais na cabeça de um doido sem emoção e sem razão.

 Estou realmente muito longe dos acontecimentos. Getúlio Vargas, o nosso presidente, ainda não foi instado a tomar uma posição, se bem que se trate de um ditador que, em alguma medida, lembra o louco que lidera os italianos, Benito Mussolini, e este é já aliado declarado do alemão de bigodinhos à moda de Cantinflas. Talvez por isso umas recordações me vêm à memória. Há uns poucos anos, alguns milhões de jovens foram jogados na vala comum de cadáveres não identificados pela mesma loucura alemã. E agora, o que virá quando a paz for restabelecida, se é que um dia será? Depois de tudo, o que poderá de fato acontecer ao mundo e ao ser humano sempre beligerante?

 É claro que ninguém duvida que a Alemanha, o Japão e a Itália são os agressores reais. Os que estão sendo arrastados à guerra contra esses três não querem o conflito e a maioria tem feito o que pode para evitá-lo. A pergunta mais simples sobre o que ou quem causou a guerra se resume em duas palavras: Adolf Hitler.

 As respostas e perguntas históricas não são, claro, tão simples. A situação mundial criada pela Primeira Guerra é muito instável, sobretudo na Europa. Não se espera que a paz dure. A insatisfação não se restringe apenas aos derrotados, embora estes, notadamente a Alemanha, sintam que têm razões de sobra para os ressentimentos. Todos os partidos alemães, dos comunistas na extrema esquerda aos nacional-socialistas de Hitler na extrema direita, não aceitam os termos do Tratado de Versalhes. Os derrotados, Rússia e Turquia, estão preocupados com as suas questões internas, incluindo a defesa das fronteiras. Mesmo os vencedores, como o Japão e a Itália, estão insatisfeitos porque os apetites imperiais excedem o poder real dos seus estados e dos seus exércitos. Eles sonham mais que as suas reais possibilidades permitem. O mundo não nasceu para ter um dono. É o que o senso comum de todos apregoa.

 Se um lado claramente não quer o conflito, o outro o glorifica e o deseja avidamente. Mas os agressores  -  Alemanha, Itália e Japão  -  também não querem a guerra que chamaram para si, num momento perigoso e contra pelo menos alguns dos inimigos com os quais se veem, agora, obrigatoriamente, prestes a entrar em luta, a sangue e a fogo.

 Interessante é notar que, quando tentamos analisar um fato à luz da ciência histórica, temos o costume de nos refugiar no passado. Mas o passado, hoje aqui revisto, remonta tão somente à Primeira Guerra, há duas décadas, uma sequência de atos tresloucados de homens indiferentes ao devir da Humanidade. Está ainda muito presente em nós esse ontem tão próximo onde teríamos pensado encontrar o começo e o fim da História. Agora, já creio que, na realidade, ocorre o inverso: a História começa hoje e continua amanhã.

 Enfim, posso dispor de dias e noites inteiras para pensar sobre as possibilidades de o conflito tornar-se mundial e, inclusive, envolver o Brasil.

 Ah! E os cearenses? Mais uma vez eles estarão agindo em defesa da Pátria, como fizeram no tempo da Guerra do Paraguai, onde foram os grandes heróis logo esquecidos de uma vez por todas. Como os que estão aqui, na Amazônia, muito mais para morrer em defesa da causa capitalista, que para viver por viver, lamentavelmente.


 Penso mais uma vez na fímbria de um europeu, o Padre Felipe Gallerani, um italiano cheio de boa vontade para com o Brasil e, mais especificamente, para com o povo do Acre... E pensar que esses novos romanos sem tostão e sem cobre estão vindo para estes rincões nacionais desde o final do século passado e já contam com uma população de mais de quinze mil almas que também sofrem por estes desvãos brasileiros tão inóspitos.

 E a essas moças católicas que no Acre compõem uma célula da Ordem das Servas de Maria Reparadoras, as homenagens e os agradecimentos poderão ser feitos solenemente, já, a partir de agora. Elas praticam a caridade num momento célebre em que a humanidade tresloucada banalizou o desapego e a morte.

 Constantina Gian, Ester Bressan, Margarida Dameto, Mercedes Andreello, Rosária Vettorato e Augusta Franceschi são as pioneiras e heroínas de um Brasil distante e desconhecido que para cá vieram para fazer a caridade tão importante entre os católicos. Algumas são bem novas ainda, mas demonstram um ímpeto e uma força indescritíveis.

 Em Xapuri, as irmãzinhas, como Cruzadas de um novo tempo, chegaram trazendo a cruz de Cristo em uma bandeira de luta que significa um melhor futuro para toda a comunidade. Elas cuidam de doentes e idosos em um hospital ainda em fase de implantação. Há o curso primário oferecido no Colégio Divina Providência. Já no próximo ano, haverá também o ginasial.

 Há uma horta enorme de onde tiram o alimento para si e para as estudantes internas  -  órfãs  -  filhas de seringueiros já falecidos. Há uma pequena roça onde plantam feijão, milho, arroz e macaxeira. As mãos, antes delicadas, são grossas pelo contato com a enxada. E há uma alegria de viver e de rezar que toca os poucos mais sensíveis.
A maioria delas veio da região de Bologna, Itália, onde deixaram familiares convictos de que dificilmente voltarão a vê-las. É o sacerdócio a falar mais alto. É a palavra de Deus vivificada pelo amor devotado por essas heroínas aos semelhantes.

 Entre a população xapuryense, as missionárias vieram para trabalhar no campo da educação, transmitindo cultura formal e, no campo da saúde, contribuindo com a sua capacidade técnica profissional, como enfermeiras, no atendimento aos doentes do hospital local. Em síntese, o projeto para Xapuri, desde os primeiros tempos, foi fundar um colégio feminino e assumir a direção do hospital que se encontrava sob a responsabilidade dos maçons.

 Estas duas atividades sempre foram uma aspiração do Padre Felipe Gallerani que, desde o início da década de 1920, assumira aquela paróquia. Estivera esperando momento propício para solicitar religiosas que pusessem em prática a sua antiga aspiração.

 E os demais, os que vieram para as lavouras de café no sudeste e sul do Brasil? É uma epopeia a travessia do Atlântico em navios miseráveis. É um feito digno de menção a vinda dos italianos famintos para o Brasil, num momento (aquele) em que a Itália fervilhava tentando solidificar a sua unificação pelos esforços do rei Vitor Emanuel e do bravo Garibaldi, principalmente.

 Naquela época e por quase todo o século vinte, a maioria dos utopistas, como eu, estavam convencidos de que em breve enforcariam o último padre com as tripas do último rei, numa alusão ao Manifesto Comunista, de Karl Marx.

 Um certo pensador chinês deixa-nos bem escrito que a história humana é o resultado do conflito dos nossos ideais com as realidades, e a acomodação entre os ideais e as realidades determina a evolução peculiar de cada nação. Muitos pensam em melhorar o planeta para si. Raros são aqueles que trazem na mente e no coração a vontade de fazer um mundo melhor para todos.

 Estamos em inícios de abril e as coisas mudaram muito pouco. O rio continua lá em cima, beirando o barranco. Dizem alguns que em poucos dias haverá vazante.

 A chuva da tarde se prolongou até altas horas da noite. Pela manhã, uns pingos fininhos continuam fazendo a parte da natureza que constrói e reconstrói a Amazônia a cada estação de cada ano. Ontem, eu pensei muito nas questões que envolvem o mundo e a humanidade. Hoje, não me sai do pensamento a família que está em Belém.

 Era como se estivesse adivinhando. Ao meio dia, encostou ao portinho um pequeno vapor Amazon River carregado de uma miscelânea incontável de produtos destinados às Lojas Limitada, de Adão Galo e Filhos.

 Do alto do convés, em sotaque espanhol bastante carregado, o comandante Juan de Dios Urtado grita:
- Carta para o senhor Melchíades!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h29
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CRÔNICA

A procissão

Às duas da tarde, depois de um sol forte desde manhãzinha, um tempão azulado quase escuro começa a se formar lá pras bandas do alto Rio Xapuri. Em pouco tempo, chove a cântaros. Copiosamente.

S Sebastião 2
Abundantemente. Chuva densa pesada, vinda do céu não por milagre, mas quase por obrigação, uma vez que, se não há inverno ranzinza, duro, avassalador, não há Amazônia, e o pulmão do mundo ficará sem o ar puro, e com selo de qualidade, que a humanidade sorve enquanto presente de Deus. Uma dádiva um tanto exagerada, principalmente, para este gajo desastrado e imponderável que não faz outra coisa que não se admirar da grandiosidade de tudo o que diz respeito ao Acre... Eu.

Agora, já chego a me sentir quase um Euclides da Cunha, aqui, em missão religiosa. De lápis de carpinteiro à mão, e mais um cadernão confeccionado com agulha e linha por mim mesmo, tomo as anotações possíveis, desde o desembarque. Sou um repórter a serviço de Deus.

Como é tradição, segundo os mais antigos, às quatro e pouco, o céu se veste de um azul claro borrado por tênues nuvens branquinhas que mais parecem chumaços de algodão esvoaçante, como que tocado a mágico pincel. Uma joia da natureza. É um brinde à multidão que se acotovela no pátio da matriz.
Há um cheiro de borracha no ar. As pessoas vindas dos seringais o trazem enrustido na pele. Elas cheiram a látex amadurecido pelo sol. Não fedem, exatamente, como dizem os mais aquinhoados da terra. Dentre os seringueiros, o perfume Desejo é bastante usado, mas enjoativo deveras; quase embebeda. Os mais abastados  -  portugueses e turcos  -  usam Água de Colônia ou Patichuli. Eles, sim, podem até feder, por não serem muito chegados a banho, mas têm dinheiro com o que adquirem até produtos da perfumaria francesa.

Alguns seringueiros dentre os mais novos, e poucos dentre os mais velhos, não dormiram de ontem para hoje e ainda a carraspana do dia anterior lhes deteriora as mentes. Estão, diria, entorpecidos. Outros estão bêbados mesmo. Durante o percurso, vejo uns quatro ou cinco dormindo em via pública acostados a qualquer umbral do destino. Isto, porque a felicidade da festa mundana foi mais forte que a devoção do festejo religioso. Coitados! Estão inebriados por uma folga de dois ou três dias da faina bruta dos seringais que, logo em seguida, será retomada por um ou mais anos a fio, isto, porque nenhum sabe se no próximo ano terá condições de voltar para ver os conterrâneos cearenses  -  na sua superior maioria  -  e a cidade que cresce do dia para a noite, apesar das notícias relativas aos preços da borracha não serem lá tão alvissareiras.

Há um sem número de pelas de borracha aí pela casa dos oitenta quilos. Há bois, garrotes, vacas, porcos, carneiros, patos, galinhas... Todos irão a leilão daqui a pouco, após as homenagens religiosas. Não apenas a construção da igreja precisa da renda, mas o sonho de um colégio internato para as órfãs dos seringueiros mortos também precisa tornar-se realidade pela operosidade das Irmãs Servas de Maria Reparadoras, as formiguinhas astutas e prendadas sem as quais o Padre Felipe Galeranni não faria a metade do que faz.

Segundo muitos dos xapurienses, as freiras católicas se assemelham aos plantadores de trigo que, além da semeadura, já se preparam para a elaboração do pão que alimenta o corpo e nutre a alma.

Agora, os sinos redobram e o foguetório ameaça os tímpanos. Muitos choram de emoção, inclusive eu. A imagem do Santo é erguida nos ombros de alguns notáveis da cidade, dentre os quais o Eurico Fonseca, um português sem mais nenhum sotaque.

A Banda Municipal Santa Cecília executa, ainda parada, um dobrado bastante solene, como requer a ocasião. Aliás, tudo e todos aqui têm a sua imponência, cada um ao seu modo, do mais rico dos patrões ao mais humilde dos seringueiros.

E segue o imenso cortejo ladeira acima, pela Rua Benjamin Constant, rumo à Praça do Bosque, entoando um cântico que não me é do conhecimento:
    Salve, salve, São Sebastião
    De Xapuri orai ao Santo Protetor
    Recebei as nossas orações
    Cheios de esperança, cantemos com fervor (...)
    Abençoa as nossas famílias.
    Recebe aqui da nossa Igreja
    Todo o nosso amor e gratidão
    Grande mártir, ó meu São Sebastião. (...)

E, do alto de uma ladeirinha, olho para o povo da mata lá atrás. Todos circunspectos. Eles, com os seus chapéus à mão. Elas, com os filhos a tiracolo. Não há um que não tenha cara de necessitado de tudo, inclusive das bênçãos dos céus que, no inverno, descem impiedosamente em forma de chuva, muita chuva. Sim, as mulheres carregam as crianças de banda, escanchadas nas ancas às vezes tão magras.

Os miúdos  -  no dizer dos de Portugal  -  seguem em fileiras, como se andassem nos caminhos da mata. É o costume. Muitos são os que levam ex-votos nas cabeças chatas (jerimuns) em forma de pernas ou braços que foram quebrados, casas que pegaram fogo, lamparinas, porongas, retratos, canoas, machados e até tijolos da construção. Crianças e adultos estão trajados de anjos. Outros usam as vestes do Padroeiro quando executado em Roma. Há velas, muitas velas e, depois do hino, o foguetório recrudesce.

Um veio do Crato, outro de Barbalha, outro de Missão Velha, outro do Quixadá, outro do Quixeramobim, outro de Russas, outro de Juazeiro... Vie-ram arrastar dinheiro com o gancho e agora amargam arrependimento enorme. Todos estão ainda em busca de sonhos completamente sem bases mais reais, apenas ilusões, devaneios que, no mais das vezes, se tornam pesadelos... E eu, que quase acabo de chegar do Baturité, vim em busca de aventura, aos vinte e três anos de idade e com os olhos marejados pela dor que é não poder fazer nada por essa gente minha que daria a vida para voltar ao Ceará querido. Meu Deus!

Grata surpresa! Uma família grande formada por Raimundo e Conceição, José Calixto e Francisca, Maria das Dores e Arcelino Pereira, primos, sobrinhos e casais, incluindo umas mocinhas e uns rapazolas, todos também vieram do Baturité. Uns estão por aqui desde antes da guerra de 1914, outros, chegaram há pouco, a convite dos primeiros. Eles vivem na cidade e trabalham como carpinteiros construindo as tantas casas que se erguem a cada dia, ou como pedreiros, mas possuem colônias próximas de onde tiram algum sustento. Enfim, são pobres, mas são felizes.

- Sou grato a Deus por lhes ter conhecido em ocasião tão especial. - É o que lhes digo em tom de despedida, até porque nunca mais os vi.

- Nós também estamos muito agradecidos e lhes desejamos muitas felicidades. - É o que responde um deles.

E a voz do padre se faz poderosa, tonitruante. Ele pede a São Sebastião que proteja aqueles trabalhadores do fundo dos seringais, na mais completa adversidade, na luta contra o bicho do mato e muitas vezes contra o bicho homem.

Há terços e rosários de ouro, até. Há os de prata, também. Há os de vidro e os de madrepérola. Mas há os pobrezinhos, de continhas tiradas do mato, ali mesmo, e enfiados em linha zero... E segue o espetáculo da fé mais pura desses deserdados e desdentados que sofrem a tristeza que é serem desertores dentro da própria Pátria.

À frente do cortejo segue a imagem de São Sebastião. Em seguida, vem o padre acompanhado por um séquito de sacristãos, inclusive um, muito comunicativo, que diz se chamar Fadoul, filho de Sarah Fadoul, vinda da Síria. (Como pode? Será que esqueceram rapidamente o fanatismo islâmico que os empurrou para o outro lado do mundo? Não. Não é bem assim. Dizem que lá os Fadoul eram cristãos e, por isso, foram perseguidos e fugiram para não morrer.)

Em seguida, vêm as freiras e as internas, umas trinta, todas vestidas em vestidos azuis claros que vão ao meio das canelas. Umas, já bem graúdas, chegam perto da beleza. Outras, nem tanto. Elas residem com as freiras que lhes dão educação e bons modos. A Irmã Petronilla Trinca é a Madre Superiora a quem todas devem respeito, principalmente, pela gravidade do semblante sempre austero, à moda das melhores etnias europeias.

Em seguida, vêm as congregações religiosas. Os Praxedes homens pertencem à congregação dos Irmãos Marianos. As mulheres fazem parte das Filhas de Maria. Estes portam largas fitas azuis claras ao pescoço. Aos marianos se alinham Jorge e Carmem Gatasse, Hermes e Elisa Brasileiro, João de Arruda e esposa, Simão Antônio e Fayd, Alfredo Zaire e Juanita. Os Maias, dentre os quais a mãe, Mariquinha, e os filhos Solón, Jorge e Lourdes, são da Congregação de Nossa Senhora das Dores, de fita roxo-lilás. Alinham-se aos roxos Maria Meira, Maria das Dores Mota, Linda, esposa de Eurico, Maria Menezes e Seu Menezes, João Esteves, Benevenuto, dentre outros mais. Pertencem à Congregação do Sagrado Coração de Jesus, de fita vermelha, Maria e João Figueiredo, Antônio e Adelina Mortes, Manoel Isaías de Matos e Dona Nazaré, Seu Sabino e esposa, e outros mais.

    Sebastião, guerreiro esforçado
    Eleito por Deus general
    De novas briosas falanges
    Às ordens do Rei imortal...

Realmente, bonitas de ver são as janelas muito bem ornadas de algumas casas. São como pequenos oratórios onde se sobressai a imagem do Pa-droeiro em meio a rosas brancas e fitas vermelhas. A primeira é a da casa de Chico Camelo. A segunda é a casa de Aziz Hadad. Em seguida, vem, já na outra rua, a janela da família de Pedro Marreta. Depois, vêm as de Albertina Galo, de Edmar Koury, de Elisa Eluan, de Abrahão Felício, de Alfredo Zaire, de José Rodrigues e a de Antônio Mortes.

Rezamos o terço. Cantamos hinos católicos. Acreditamos piamente que o ano de 1940 será muito melhor que o anterior.

Senhor Jesus, rogai por nós. Livrai-nos do fogo do inferno. Levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem...

Enfim, concluímos o périplo através das ruas da pequena cidade. É esta a hora do sermão do Padre Felipe. A história do Santo nos leva às lágrimas. Quanta fé. Quanta honra. Quanta glória. Um santo!

O grande leilão se estendeu até um pouco depois das dez da noite... Enfim, as barracas já não dispõem das iguarias de há pouco. Estão encerrados o bingo, o jogo de mira e a pescaria. As pessoas se dispersam levando as prendas obtidas nas competições e apostas. A grande maioria é composta de gente da cidade.

É manhãzinha. No largo em frente ao Mercado Municipal, os marreteiros que por ali expunham os seus produtos trazidos de Belém e Manaus já desarmam as tendas. Ali, bem ao lado, em frente ao Palanque  -  desembarque para os que chegam  -  uma pequena multidão já se aglomera. É hora de voltar para a vidinha pacata, antes tão sem graça e cheia de sofrimentos e solidões, mas, agora, com as esperanças renovadas pela grande fé no que pode o Padroeiro fazer por todos e por cada um.

Assim é a vida dessa gente miúda. Prenhe de eternas esperanças e sonhos que se tornam realidade viva para tão raros. Poucos, pouquíssimos, têm direito à grande ventura que é um dia rever o longínquo Ceará.

As lágrimas incontidas não fogem aos meus olhos. Esses heróis desconhecidos merecem o algo mais que só a fé em Deus pode, talvez, lhes garantir. E garantirá.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 05h24
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CRÔNICA

 

O senhor pároco

ParocoHá umas famílias de seringueiros sentadas em bancos colocados na varanda da igreja, esta, uma construção dos anos dez, em alvenaria rústica, com paredes que me parecem ter cinquenta centímetros de largura. É um belo campanário, com alto falante. À borda desta está a construção da igreja nova, com torre de setenta metros. Este, certamente, o grande projeto da cidadezinha que muito acredita no seu vigário.

Passa pela sala uma espécie de ajudante de ordens, ou secretário. Pergunto-lhe o nome e ele, educadamente, responde:

- Miguel Praxedes, ao seu dispor. Em que posso servir?

- É que estou à espera do Padre Felipe e gostaria de saber se ele já voltou do café da manhã no colégio das freiras.

- Aguarde um momento, por gentileza. É que também acabo de chegar e devo tomar algumas anotações com relação ao dinheiro que foi apurado com o arraial que ocorreu até ontem à noite. Já houve leilão, bingo, pescaria... Essas coisas, o senhor sabe!

- Fique à vontade. - Foi o que respondi ao arguto moço.

***
O padre Felipe Galeranni é um sujeito de estatura acima da média, se comparado aos demais. A tez é clara, é educado, de poucas falas, muito objetivo no que diz e no que faz. Está vestido em uma batina preta, segundo o figurino da Ordem dos Servos de Maria. Mexe aqui e ali, com a finalidade de organizar uma mesa cheia de livros de batizados e casamentos, velas, castiçais, imagens, um crucifixo de prata, dois cálices dourados, dentre outros apetrechos clericais.

- Desculpe-me, padre! Eu poderia deixar a nossa prosa para uma outra hora. Percebo que o senhor está ocupado por demais.

- Que nada, meu rapaz! Eu sou um italiano. Daí a objetividade. Mas sei já quem és. O Eurico Fonseca há uns meses me falou muito bem sobre você. É cearense, como a maioria dos que para cá têm vindo. Tu és, então, o guarda-livros do Seringal Boca do Lago. - Foram as primeiras palavras do senhor pároco em um linguajar bastante carregado, em vista do pouco tempo no Brasil.

- Fico muito honrado em que já me conheça, senhor vigário. As informações sobre mim são sempre boas porque me encarrego de arranjar bons amigos, como o senhor. - Disse, apertando-lhe a mão.

- Sejamos uma vez mais objetivos. Como tu ficarás por aqui até o final da festa, poderias fazer-me uma gentileza das maiores. Poderemos começar um servicinho daqui a um pouco. É uma boa ação em nome de umas famílias de seringueiros que querem se casar ou batizar as suas crianças. Ao invés de ir para as cervejas do Dino, tu bem poderias auxiliar-me até umas onze e meia. Depois, almoçaremos a comida da Dona Mariquinha e, às duas e meia, viremos para ficar até as seis. O que tu achas?

- Posso ser útil, dependendo do serviço. É um grande prazer servir à Santa Madre Igreja. Em que consiste a minha colaboração?

- Tu tomarás as anotações no Livro de Batizados e as copiará nos Batistérios. É só!

É bastante serviço, sim. Eu agora estou enganchado, atado de canga e corda. Mas, como nunca tenho muito o que fazer no seringal, gastarei um pouco da energia por aqui e, à noite, vou ter com os meus amigos para uma boa prosa no Touffic Salim.

***
Os nubentes vão entrando um par a cada vez. Eu começo por lhes anotar os nomes, os nomes dos pais, as datas de nascimento, segundo os batistérios que me são passados por eles.

Depois, o Miguel Praxedes já se está encarregando de reunir os casais e os faz sentar nos bancos da igreja que quase enche. A grande maioria veste roupas brancas. Os homens trajam ternos brancos bastante simples. Muitas mulheres estão de branco, inclusive um casal que depois me surpreendeu... Mas eu fiquei preocupado. Quando é que o padre poderia concluir todas essas cerimônias. Talvez não antes da noite...

Estava enganado. O casamento foi realizado de forma coletiva. Depois, um por um, todos os pares foram aspergidos com água benta e, por fim, receberam a bênção do vigário. Para a minha surpresa, de par com a senhora Elisa Brasileiro, uma benemérita da cidade, apadrinhei o matrimônio do casal Raimundo Nonato e Nalgídia dos Santos.

À tarde, cá estão os filhos dos seringueiros para a cerimônia de batismo também celebrada de forma coletiva. Mais uma vez, então, sou surpreendido. Os meus afilhados de casamento, seringueiros do Seringal Albrácia, trazem a mim uma menina e um menino, a Maria José e o Ireno, e eu me torno também padrinho das duas crianças. Uma grande honra. Nunca pensei que alguém me escolheria para compadre. Estou regozijado.

Às cinco da tarde, já está concluída uma tarefa que se repetiria ainda nos dias 18, 19 e 21 de janeiro de 1939... Lá fora, a chuva brande tal e qual a tentação do anjo desgraçado.

Como em toda igreja que se preze sempre se esconde um bom vinho canônico, é claro, em todos os dias, ao final, não me abstive de tomar uns três cálices, não sagrados, mas abarrotados do manjar de Baco até a borda. Não apenas a bebida, mas tudo me foi deveras reconfortante, apesar do calor que ditava o andamento dos trabalhos.

A conversa se estendeu até meia hora antes da missa das sete. Enquanto isso, lá fora, na varanda, o boníssimo Miguel Praxedes anotava os nomes dos casais e das crianças a serem atendidas no dia seguinte.
Oh Deus do céu! Eu também vejo na igreja um sinal da glória de uma gente que não se cansa de ter fé e dedica todos os dias da sua vida de provações à grandeza e à pouca generosidade da natureza. Como esses desertados acreditam na Sua santa bondade e infinita misericórdia! Vêm-me lágrimas aos olhos.

***
Manhã do dia 18. Estou sentado na sala da Casa Paroquial apreciando o quão meticulosa e detalhada é a programação da semana que antecede o dia do Santo Padroeiro. O panfleto foi impresso em boa tipografia.

Território Federal do Acre. Prefeitura Municipal de Xapuri. Paróquia de São Sebastião  -  1939 - Programa Geral das festas em homenagem ao Santo Padroeiro. Dia 15, segunda-feira, seção musical pelo serviço de auto falante da paróquia, novena do Santo Padroeiro, arraial com comidas típicas, bingo e leilão e retreta a cargo da Banda de Música Municipal Santa Cecília, no adro da Igreja Matriz, a cargo dos Irmãos Marianos, das Filhas de Maria e da Congregação do Sagrado Coração de Jesus. Dia 16, terça-feira, seção musical pelo serviço de auto falante da paróquia, novena do Santo Padroeiro, arraial com comidas típicas, bingo e leilão e retreta a cargo da Banda de Música Municipal Santa Cecília, no adro da Igreja Matriz, a cargo dos professores, pais e alunos do Colégio Divina Providência. Dia 17, quarta-feira, seção musical pelo serviço de auto falante da paróquia, novena do Santo Padroeiro, arraial com comidas típicas, bingo e leilão e retreta a cargo da Banda de Música Municipal Santa Cecília, no adro da Igreja Matriz, a cargo dos funcionários da Usina de Castanha. Dia 18, quinta-feira, seção musical pelo serviço de auto falante da paróquia, novena do Santo Padroeiro, arraial com comidas típicas, bingo e leilão e retreta a cargo da Banda de Música Municipal Santa Cecília, com a participação do Coral das internas do Colégio Divina Providência, no adro da Igreja Matriz, a cargo da Associação Comercial. Dia 19, sexta-feira, seção musical pelo serviço de auto falante da paróquia, novena do Santo Padroeiro, arraial com comidas típicas, bingo e leilão de animais e retreta musical a cargo da Banda de Música Municipal Santa Cecília, com a participação do Coral das internas do Colégio Divina Providência, no adro da Igreja Matriz, a cargo dos seringalistas, como de costume. Dia 20, sábado, seção musical pelo serviço de auto falante da paróquia, Procissão em homenagem ao Santo Padroeiro, arraial com comidas típicas, bingo e leilão de animais e retreta musical a cargo da Banda de Música Municipal Santa Cecília, com a participação do Coral das internas do Colégio Divina Providência, no adro da Igreja Matriz, a cargo dos seringalistas, como de costume, organizados por Solón Maia. Obs. Todas as noites haverá bailes populares no Ponto Chic e no Dino Café. Comissão Organizadora: Tenente Manoel R. Viana Filho, Delegado de Polícia, Dr. Pedro Vale Pereira, Presidente da Associação Comercial, Raimundo Góes e Castro, Coletor Federal, Dr. Emir José Koury, Delegado de Saúde, Antônio Esteves, Chefe dos Escoteiros, e os funcionários públicos Lúcio Alves Barbosa, Dirce Sá de Figueiredo, José Eloy de Souza, Simão Dmasceno, Eugênio Brandão Filho, Pedro Matias de Oliveira, Casemiro Pontes de Medeiros, além dos comerciantes Adão da Costa Galo, Guilherme Zaire, Adão da Costa Galo Sobrinho e José Hadad.

***
No 21, à tardinha, fui me despedir do padre. Ele ainda contava o apurado durante os festejos. Em quinze ou vinte minutos, ele, enfim, ergueu os olhos da tarefa que desempenhava e pediu que o Miguel Praxedes anotasse a cifra final. Em seguida, com a chegada de um rapazola  -  o Francisco dos Santos Mota  -  que se mexia muito bem como pedreiro, passamos a falar a respeito da quantidade de cimento que  viria de Belém para uns acabamentos a serem executados na Igreja Matriz. Os tijolos seriam fabricados na olaria do Dr. Manoel do Vale Pereira, a bom preço. Segundo o padre, com mais uns oito ou dez anos estaria concluída a igreja mais bonita do Acre, digna dos esforços do povo de Xapuri.

Bate à porta outra pessoa bem especial. Trata-se de Zéca Torres.

- Ô Padre Felipe, eu tenho novidades musicais. - Disse o maestro Zéca.

- Ó! O que tu trazes?

- Xapuri, minha terra querida / O teu solo é também brasileiro / Os teus sonhos e glórias passadas / Percorrem o Brasil inteiro. / Tuas verdejantes florestas / Cheias de encantos sem par / Quisera nestes meus versos tua beleza cantar...

E por aí vai...



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h37
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CRÔNICA

Um Centro Cultural para Xapuri

Centro-xapuriO que chamamos cultura tem duas formas, ou modos. A cultura é uma espécie de aperfeiçoamento que cada um vai fazendo da sua própria vida. Esse grande estágio se faz por dois caminhos. O aprimoramento direto se chama arte e o indireto é ciência. Pela arte nos aperfeiçoamos a nós mesmos. Pela ciência, edificamos em nós o nosso conceito de mundo. Para que fique mais claro, a cultura é um caminho que nos leva à edificação do espírito.

Por isto, a cultura é uma necessidade imprescindível por toda a vida do homem produtivo. É uma dimensão que constrói o ser humano, assim como as mãos são atributos que temos para a realização de qualquer obra.

Então, no que se relaciona à questão da disseminação real da cultura, o interior do Estado do Acre se recente da falta de políticas públicas concretas que lancem luzes para o longo prazo, que se efetivem de forma a que os eventos não sejam esporádicos, mas que busquem a tradição, como outrora, quando os homens e mulheres dos primeiros tempos, no início e em meados do século passado, notadamente os nordestinos, portugueses, sírios e libaneses, fizeram erguer, a custo próprio, um teatro que recebeu companhias até estrangeiras, que traziam a ópera para estes recantos tão ermos, principalmente, se observarmos a época em que tais eventos ocorreram.

                                                                                                                                            LOJA A LIMITADA, DE ADÃO GALO E FILHOS

Foram esses mesmos pioneiros que ergueram o Cine Rialto, que exibiu o festejadíssimo, internacionalmente, Marcelino Pão e Vinho, filme com base no romance do espanhol Jose Maria Sánchez Silva, bem como muitas outras produções do tempo do cinema mudo.

Na mesma época, foi erguida uma associação comercial em estilo art nouveau. Assim como foram construídos os dois colégios Divina Providência e as duas igrejas de São Sebastião. Neste mesmo tempo, surgia o inconfundível Maestro Zéca Torres e a sua banda municipal. Por muitos anos, sob a batuta do grande músico, os desfiles de 5 e 7 de setembro foram exibições de gala a partir de um povo interiorano que ainda ama a Pátria, porque foi à guerra e derramou lágrimas e sangue, para poder viver esse amor mais pleno por todo o sempre.

Foi em Xapuri onde ocorreu a primeira partida de futebol em terras acreanas. No velho estádio da Rua Vitorino Maia, desfilaram craques que depois brilharam na capital e em outras plagas pelo Brasil afora.
Incluam-se nesta síntese, ainda, as casas comerciais e as residenciais que eram verdadeiros monumentos em homenagem à economia da borracha... E tudo apenas com o próprio dinheiro dos pioneiros ou com as arrecadações feitas pelos padres e freiras católicos junto ao povo.

Não havia a dependência das verbas governamentais. Este tipo de sensibilidade estatal só se cristalizou bem depois, com o passar do tempo. Depois dos anos oitenta, as instâncias públicas começaram a fazer a sua parte. Mas o Acre, desde sempre, deu significado às propaladas distâncias amazônicas, uma expressão imprópria, inconveniente, inadequada, que serviu de justificativa para políticos nossos que não tinham nenhum amor por esta terra.  Por outro lado, também os demais estados do Brasil, de norte a sul, com raras exceções, lutavam para se estabelecer enquanto unidades federativas viáveis e estavam  -  como estão - localizadas próximas aos centros das decisões mais importantes que poderiam ajudar a todos e não apenas a uma meia dúzia.

É oportuno levar em consideração que há pontos de cultura em todo o Estado do Acre. Boa parte deles são reflexos dos esforços dos homens e mulheres dos primeiros tempos. Outros, por demais interessantes, exuberantes mesmo, foram erguidos agora, a partir de 1998, principalmente em Rio Branco.

Assim, a ideia que norteia o projeto da construção do Centro Cultural de Xapuri tem base na revitalização do antigo Bilhar Clube e na necessidade de um uso efetivo dos espaços a partir de políticas públicas que tenham foco, principalmente, na extrema utilidade social de uma casa de cultura que tenha vida real. (Sim, porque pontos turísticos e culturais como a Fundação Chico Mendes não vivem, mas vegetam na eterna dependência de quem lhes estenda a mão com um centavo que lhes supra as necessidades mais elementares).

Considere-se, então, o benefício social de que se reveste a construção do Centro Cultural de Xapuri. A juventude sem rumo e sem perspectivas pode ter em espaços como o que propomos o seu norte e o seu futuro, principalmente, aqueles tantos que enveredaram pelo mundo obscuro das drogas por falta do algo mais que pode significar a salvação de muitos.

Um garoto ou uma garota que tem a certeza de que a partir de janeiro os esforços serão redobrados para o alcance de uma medalha, com certeza, irão treinar ou ensaiar e não irão frequentar locais onde as influências lhes levem no rumo dos caminhos sem retorno.

É claro que o espaço para os grandes bailes tradicionais deverá ser garantido. Da mesma forma, os encontros anuais dos músicos de Xapuri não serão esquecidos. Para tanto, há, já, o esboço de um calendário para as atividades do gênero.

Todavia, com a aquisição do terreno onde se localizava o Cine Rialto, ao lado do antigo Bilhar Clube, serão instalados espaços para a prática de esportes, como a capoeira e o judô. Aí, também, em uma outra sala, serão oferecidas aulas de dança popular ou de cunho clássico, oficinas de cinema, teatro e literatura. Haverá os locais para o aprendizado do artesanato e das confecções de tecido ou crochê ou tricô, dentre muitas outras possibilidades.

Uma coordenadoria de cultura planejará e executará atividades relativas aos eventos e às atividades voltadas para a área em pauta. Uma outra coordenadoria planejará e executará as atividades esportivas, como os campeonatos e os torneios anuais das mais variadas modalidades esportivas possíveis. Uma presidência responsabilizar-se-á pela absorção dos recursos do Ministério da Cultura, dentre outras instâncias inclusive da iniciativa privada, que farão frente ao cumprimento efetivo das políticas próprias do futuro Centro Cultural de Xapuri. É claro que os coordenadores e o presidente, bem como todos os funcionários de apoio, serão pessoas da comunidade que demonstrem sensibilidade para com a causa em questão.

A denominação Centro Cultural de Xapuri ainda é provisória.  Os mentores deste projeto jamais tomariam para si os direitos ina-lienáveis que têm os xapurienses. Haverá o momento certo para que a comunidade escolha a denominação que melhor lhe aprouver, segundo uma enquete (ou pesquisa) a ser feita entre os munícipes.

Certo é que a juventude não pode ficar ociosa sob pena de, mais tarde, ao invés de construirmos centros culturais e escolas, estarmos construindo mais estabelecimentos penitenciários, o que, em si, já é uma grande lástima e o problema social mais sério vivido pelos brasileiros.

Há de se considerar que o que deve caracterizar a juventude, conforme Sócrates, o clássico grego, é a modéstia, o pudor, o amor, a moderação, a dedicação, a diligência, a justiça e a educação. São estas as virtudes que hão de erguer o seu caráter.

Ainda com relação aos cuidados que os mais velhos devem ter para com os mais jovens, é oportuno lembrar o que deixou escrito e gravado o bom Elvis Presley.

Tudo o que os jovens precisam é de esperança e do sentimento de que pertencem a algo ou a alguém de um modo especial. Se eu pudesse dizer ou fazer alguma coisa que forjasse neles esse sentimento, eu acredito que poderia ter contribuído muito mais para a construção de um mundo melhor.

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O www.claudioxapuri.blog.uol.com.br está entre os sete melhores do Brasil via UOL.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 21h49
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CRÔNICA

Vicioso circo viciado

O Aloísio Mercadante não tem ainda uma ideia sequer aproximada acerca do problema que lhe está sendo deixado pelo Fernando Haddad. Afinal, a visão do economista só daqui a pouco terá um foco mais amplo de modo a fazê-lo ver que há um círculo vicioso a prejudicar, principalmente, os alunos da escola pública, onde uma grande maioria dos professores de redação não sabe escrever dez linhas de cadernos pequenos sem cometer dez sandices e licenciosidades no trato com o triste vernáculo.

Circulo-Vicioso2
O círculo vicioso se abre ou se fecha a partir do momento em que os professores que foram incumbidos de corrigir a redação do exame nacional do ensino médio conseguem detectar erros nos textos, mas não conseguem redigir. E se fecha ou se abre quando, nas próprias universidades públicas, ninguém é obrigado a tratar bem a língua pátria, quando são levados a escrever e muito pior quando são postos a falar. Sim, a maioria dos doutos da Academia redige lastimavelmente. Com certeza, parte considerável desta casta de sábios se expressa oralmente de forma atabalhoada e lamentável. Lá eu estou e tenho ficado alarmado com a situação precária a que têm levado o ensino do Português. Certa vez, a própria Doutora Reitora me fez tal confidência, verbalmente.

Os gramaticistas foram cassados, sem dó nem piedade. Estão hoje agrilhoados por aposentado-rias e atestados de insanidade. São todos uns velhos decrépitos e jogados, inapelavelmente, num ostracismo irremediável. Hoje, são tidos como peças obsoletas de uma máquina que, ao dispensar a sua experiência e os seus conhecimentos comprovados, prenuncia uma catástrofe anunciada desde alguns anos e decreta a falência do ensino da Língua Portuguesa no Brasil.

Pouquíssimos demonstram aptidão e preparo para fazer a passagem da teoria gramatical para a produção de textos, isto, é claro, com o indispensável auxílio de leituras que acompanhem o amadurecimento do aluno desde os contos do Gato de Botas, da Bela Adormecida, de João e Maria, dentre outros. Nas escolas, principalmente entre os professores de formação inidônea, ninguém mais sabe o que representam os Irmãos Grimm, por exemplo, na sólida formação de muitos garotos e garotas de gerações anteriores.

Uma moicana última - a Ducélia Mota Lopes - é uma espécie de São João Batista de saias, a voz que clama no deserto e não encontra eco, porque o impedem as untuosas e besuntadas paredes onde se enclausuram e se mancomunam os meus homens e mulheres de letras a quem eu devo de tudo um pouco. Uma lástima a mais já é demais.

O estudante que faz curso superior e não sabe o que é uma causa e uma consequência, num texto, é porque ninguém a ele ensinou postulado tão básico. Já corrigi monografias e dissertações que, no mais das vezes, foram por mim enviadas de volta ao candidato pelo fato de o futuro pós-graduado não saber como estabelecer conexões ou dar andamento, no texto, de forma linear, a uma condição, ou a uma concessão, ali colocadas, dentre outros absurdos sintáticos e morfológicos.
Mexeram nos currículos escolares, sim, mas esqueceram de dar um tratamento especial ao ensino da morfossintaxe. É só a partir daí que se pode chegar a produzir textos ao menos palatáveis. E isto é matéria que está em todos os currículos e livros do ensino médio adotados nas escolas públicas e particulares do Brasil. Falta apenas quem queira ou saiba ensinar.

Então, como é que eu vou ensinar marcenaria a um garoto, se eu não sei o que vem a ser um graminho, ou um formão, por exemplo? Como ensinarei mecânica de autos a um adolescente, se eu próprio não localizo o sistema de freios de um carro? Da mesma forma, o rapaz ou a moça, formados nos nossos cursos superiores de letras, na sua maioria, não podem dar aulas de redação, posto que não têm um domínio razoável da escrita, ou, sem eufemismos, não sabem escrever mesmo. A ferramenta básica não lhes é do conhecimento e eles tapeiam aqui, enganam acolá, e os alunos do ensino médio da rede pública nada de mais substancial conseguem aprender, porque os ensimesmados projetos de professores estão a ver navios, ganhando salários bem razoáveis para quem não diz ao que veio.

Aí chega o professor formado desde outro dia. Ele está pronto e ciente de que já não precisa aprender mais nada. O citado sábio, então, passa a corrigir os erros dos alunos, mas não tem coragem de colocar a cara na rua para levar porrada, no bom sentido, é claro. Eles não publicam o que escrevem, nem no jornal da escola, de forma alguma. Em outras palavras, os textos por eles produzidos são dignos da sua própria decepção, quando descobrem que pouco podem ensinar porque quase nada aprenderam.

(Aqui, é oportuno considerar que, nas empresas escolares do setor privado, professor bom é aquele que ensina como produzir textos e também os produz, de próprio punho, no quadro, em sala de aula, porque, caso contrário, o patrão diretor lhe pode redigir a demissão bem na hora do recreio e sem maiores explicações.)

E alguns colocariam em debate o fato de os nossos universitários em questão terem sido, antes, aprovados em vestibular. Assevero-lhes que os candidatos que produzem as redações bem elaboradas são aqueles suficientemente preparados que pretendem os cursos ditos de ponta, como as Engenharias, a Medicina, a Economia e o Direito. Os demais escrevem apenas alguma coisa entre o regular e o razoável, com exceções, é claro. No cômputo geral dos pontos, os que optaram pelos cursos menos concorridos têm, quase sempre, pontuação equivalente à metade daquela auferida pelo pessoal lá de cima das futuras tabelas salariais.

Ademais, convém deixar muito claro que os 76% de acreanos aprovados através do Enem, em 2011, optaram pelos cursos medianos. Ao passo que os programas que formam os profissionais de salários realmente dignos tiveram o amplo domínio dos alunos de outras paragens (24%). No Curso de Medicina, por exemplo, das cinquenta vagas, apenas uma foi ocupada por um bem aventurado rapaz nascido no Acre, e só.   

Pensemos, enfim, a questão das faculdades não públicas. Grosso modo, aí tudo é muito pior, posto que sequer há um vestibular sério que faça com que a exigência crucial de uma prova de redação criteriosa seja cumprida. A quantidade de alunos matriculados, com certeza, é equivalente aos objetivos de empresas que, conforme o new establishment, nasceram para produzir mais valia (dinheiro) em cima da depreciação e do colapso das mentalidades. Felizmente, o exame nacional do desempenho dos estudantes de nível superior  -  uma criação do novo MEC  -  começa a ver que tais instituições mais atrapalham que ajudam na busca pelo conhecimento real e também por escrito. Boas novas!

Fechando um pouco o tal vicioso circo viciado, é oportuno afirmar que saber escrever, hoje, virou arte. É preciso ter talento, e só. A técnica já não é necessária. Já não se aprende ou se ensina a escrita, como no tempo das caravelas, das carruagens, da obsolescência e dos obsoletos, como eu.

No Brasil, implantou-se, dentro e à mercê do dito estado de direito, um lastimável estado paralelo de mendicância intelectual crônica, onde quem tem um olho - e escreve razoavelmente - não é apenas rei mas, considerando a gestão por competência levada a efeito no ambiente de trabalho, dará todas as cartas porque consegue pensar e elaborar, colocar em papel, consubstancialmente, o projeto que permite o avanço institucional, algo bastante difícil mesmo entre os meus distantes pares na Universidade Federal do Acre.

Por duas vezes, alinhavei um triste artigo neste espaço. A ideia era sensibilizar o Daniel e o Márcio, secretários estadual e municipal de educação, acerca das salas de leitura. Certamente, eles ainda não tiveram tempo de levar o assunto à baila, digamos assim.

Não fiquem alarmados, senhores professores! Ninguém me leva a sério e eu sou mais uma voz que clama no deserto. Já que todos os alunos fazem provas, provinhas e provões, esta é a hora de o Ministério da Educação instituir um exame criterioso, também, para os professores do Brasil, inclusive os de nível superior. Os bons seriam premiados com salários de 8 a 12 mil reais. Os não tão bons seriam estimulados e, certamente, logo alcançariam os patamares salariais que todos merecem. Por Deus!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 00h38
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CRÔNICA

Redemoinhos

tornadoFui à missa no mesmo dia da chegada, à noite. Estive presente ainda à celebração nos dias 17, 18 e 19. De lá, pelas três noites consecutivas, propus-me tomar um chocolate nas ruas da beira do rio, mas findei me achegando do bar do Dino. No primeiro dia, lá encontrei o Tatu, o moço de convés e, com ele, bebi umas quatro ou cinco cervejas. Depois, partimos para o Bilhar Clube, onde um baile se desenrolou até as três. 

Às dez do dia 17, já estou em frente à igreja apreciando o movimento das famílias de seringueiros que chegam de todos os lados, em cima de burros, em carros de boi, carregando sacos de encauchado, feito formigas de roça que caminham para todos os sentidos debaixo de pesos que ultrapassam até os limites do quão pesado ou leve é o seu próprio corpo.

Penso que este Padre Felipe me parece uma boa pessoa. Se for o caso  - se ele tiver tempo - trocaremos uns dedos de prosa. Gosto muito de conversar com os religiosos. Apesar de algumas leituras mais à esquerda, guardo comigo este costume desde as minhas origens cearenses.

Ademais, tenho-me enquanto uma pessoa capaz de, um dia, colocar em papel as impressões que levo do povo do Acre e o seu dilema amazônico.

O homem é italiano e, enquanto o espero numa antessala da casa paroquial, vem à memória o que me disse o Luís Amado, com quem cheguei a ter alguma amizade na escola superior, em Belém.

O ambiente eclesiástico, tranquilo, me permite viajar no tempo. Vêm à memória mil lembranças de tempos idos.

A mãe do português Luís Amado era siciliana e, segundo ele próprio, lá ela havia passado por poucas e boas, em vista do exercício da profissão mais antiga do mundo nos portos da Calábria. Ali ela conheceu todos os tipos humanos. Por isto, as más impressões de uma prostituta acerca da humanidade se impregnaram na cabeça do filho, uma espécie de Oliver Twist à europeia.

Mas ele não era um sujeito desumanizado. Não tinha traumas e, muito pelo contrário, tornava-se um falastrão quando colocava ao nosso dispor uma análise muito sua acerca do mundo e dos homens.

Gina, a mãe do Luís, depois, fugiu para Portugal porque, quase todos os dias, depois de cumprir o seu papel em camas fétidas, ainda apanhava dos homens vindos dos mais distantes portos do mundo.

Para ele, os italianos são todos uns escroques. Aliás, para esse mal Amado, três quartos da humanidade significa pouquíssima coisa. Conforme os comentários feitos por ele, e por mim anotados em caderneta de campo, o humano nascido na Itália, com raras exceções, é inconfiável, mentiroso, vil, traidor, sente-se mais à vontade com o punhal que com a espada, melhor com o veneno que com o fármaco, é escorregadio nas negociações e coerente apenas em trocar de bandeira a cada vento.

Sobre napolitanos e sicilianos -  mulatos não por erro de mães meretrizes - mas pela história das gerações, diz-se terem nascido de cruzamentos entre levantinos desleais, árabes suarentos e ostrogodos degenerados, que herdaram o pior dos seus antepassados híbridos: dos sarracenos a indolência, dos suevos a ferocidade, dos gregos a irresolução e o gosto por se perder em tagarelices, até procurar cabelo em ovo.

Para o Luís, os judeus têm olhos invisíveis que nos espreitam. Os sorrisos maldosos, aqueles lábios de hiena arreganhados sobre os dentes, aqueles olhares pesados, infectos, embrutecidos, aquelas dobras entre nariz e lábios sempre inquietas, escavadas pelo ódio, aquele nariz que parece o grande bico de uma ave do gelo, tudo é de má recomendação. Fora os olhos que giram febris nas pupilas da cor de pão tostado e revelam enfermidades do fígado corrompido por um ódio de vinte séculos, que se apertam em pequenas rugas e se acentuam com a idade. Quando sorri, as pálpebras inchadas se cerram a ponto de deixarem apenas uma linha imperceptível, sinal de astúcia, para uns, ou de luxúria, dizem os demais.

O judeu, além de vaidoso como um espanhol, é ignorante como um croata, cúpido quanto um sérvio, ingrato como um maltês, insolente como um cigano, sujo como um inglês, untuoso como um belga, autoritário como um prussiano e maldizente como um albanês, é adúltero por um cio irrefreável  -  resultado da circuncisão, que os torna mais eréteis, dizem eles.

Nenhuma boa recomendação o Amado faz com relação aos alemães. Trata-se do mais baixo nível concebível de humanidade. Um alemão produz em média o dobro das fezes de um francês. É a hiperatividade das funções intestinais, em detrimento das cerebrais, o que demonstra a sua infe-rioridade fisiológica. No tempo das invasões bárbaras, as hordas germânicas espalhavam nos caminhos e percursos das guerras montes descomunais de matéria fecal. Qualquer forasteiro rapidamente percebe quando ultrapassa a fronteira germânica pelo volume anormal de excrementos abandonados ao longo das estradas. É típico do alemão o odor repugnante do suor, e está provado que a urina de um alemão contém vinte por cento de azoto, ao passo que a das outras raças, somente quinze.

O alemão vive em estado de perpétuo transtorno intestinal, resultante do excesso de cerveja e daquelas salsichas de porco com as quais se empanturra. Eles habitam aqueles ambientes fedorentos a sebo e a toucinho, até mesmo a dois, ele e ela, mãos apertadas em torno daquelas canecas de bebida, nariz com nariz, num bestial diálogo amoroso, como dois cães que se farejam, com as suas risadas fragorosas e deselegantes. Eles falam do seu espírito  -  geist  -  alemão, mas é o espírito da cerveja que os estupidifica desde jovens.

É verdade. O abuso da cerveja torna os alemães incapazes de ter a mínima ideia da sua vulgaridade, mas o superlativo da sua vulgaridade é que não se envergonham de ser alemães. Levam a sério um monge glutão e luxurioso como Lutero, só porque arruinou a Bíblia traduzindo-a para a língua deles.

Os alemães se consideram profundos porque a sua língua é vaga, não tem a clareza do português, por exemplo, e nunca diz exatamente o que deveria, de modo que nenhum alemão sabe jamais o que queria dizer - e toma essa incerteza por profundidade. Com os alemães é como com as mulheres, nunca se chega ao fundo.

As crises econômicas e financeiras rondarão para todo o sempre a nação francesa porque os franceses são extremamente preguiçosos, além de trapaceiros, pedantes, rancorosos, ciumentos, orgulhosos além de todos os limites - a ponto de pensarem que quem não é francês é um selvagem - e incapazes de aceitar críticas.

Para induzir um francês a reconhecer uma tara da sua corja, basta lhe falar mal de outro povo, por exemplo, “nós, poloneses, temos esse ou aquele defeito”. E, como não querem ficar atrás de ninguém, nem sequer no mal, eles reagem com “oh, não, aqui na França somos piores” e passam a difamar os franceses até notarem que você os apanhou na armadilha.

Os franceses não amam os seus semelhantes, nem quando tiram vantagem deles. Ninguém é tão mal educado como um taberneiro francês, que parece odiar os fregueses e desejar que não estivessem ali. São maus. Matam por tédio. É o único povo que durante vários anos manteve seus cidadãos ocupados em se cortarem reciprocamente as cabeças. E a sorte foi que Napoleão desviou-lhes a raiva para os de outras raças, enfileirando-os para destruir a Europa.

Acham que o mundo inteiro fala francês. Para eles, as memórias antigas de gente como Calígula, Cleópatra e Júlio César foram escritas em francês, quando qualquer criancinha sabe que a língua usada pelos eruditos na idade média era o latim. Os doutos franceses não fazem ideia de que outros povos falam de modo diferente do francês.

Talvez a ignorância seja efeito da sua avareza, o vício nacional que eles tomam por virtude e chamam de parcimônia. Vê-se a avareza pelos seus aposentos empoeirados, pela forma nunca refeita, pelas banheiras que remontam aos ancestrais, pelas escadas em caracol, de madeira instável, pra aproveitar sovinamente pouco espaço. Enxertem, como se faz com as plantas, um francês com um judeu de origem alemã e terão aquilo que temos, uma França eternamente à beira da ruína.

As mulheres fazem mal até de longe, é o que acha o Luís, sempre entre muitas gargalhadas, principalmente, depois que ele foi traído por uma zinha da Rua dos Inválidos. Segundo ele, alguns homens odeiam as mulheres apenas pelo pouco que sabem delas. E mais: nós não sabemos se os espíritos animais e o líquido genital são a mesma coisa, mas é certo que esses dois fluídos têm uma certa analogia. É por isto que, depois de uma boa noite de sexo, nós perdemos as forças, o corpo emagrece, o rosto empalidece, a memória se desfaz, a vista se enevoa, a voz se faz rouca, o sono é perturbado por sonhos irrequietos, sentem-se dores nos olhos e aparecem manchas vermelhas na face; alguns cospem matérias calcinadas, outros reclamam de prisão de ventre ou de emissões cada vez mais fétidas. Por fim, vem a cegueira.

Quanto aos padres, a opinião do nosso tratadista é que eles têm, em sua maioria, olhos fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados e mãos suadas e libidinosas. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz frade só para viver no ócio e, entre os padres mais indignos, a Santa Sé escolhe os mais estúpidos e os faz bispos.

Conforme prega o Luís, você começa a ter os padres ao seu redor quando nasce, já no batizado. São depois reencontrados nas escolas. Estão depois no catecismo, na primeira comunhão e na crisma. Lá está o padre no dia do seu casamento a lhe dizer o que você deve fazer no quarto e, no dia seguinte, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Enfim, segundo o nosso tratadista, a civilização não alcançará a perfeição enquanto a última pedra da última igreja não houver caído sobre o último padre, e a Terra estiver livre dessa corja.

Esse Luís é, na verdade, mais um dentre uns tantos escroques que se fizeram advogados na minha classe, em Belém.

A plenos pulmões, em meio às tertúlias dos acadêmicos paraenses, solenemente, bradava o Luís Amado:

- Os brasileiros são hoje, e serão para todo o sempre, o melhor povo da Terra. Prestem atenção! A cada dia tenho mais certeza do que advogo. Ainda escreverei uma tese sobre este tema.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 00h31
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CRÔNICA

Via Verde Shopping

Vai, de início, um toque balzaquia-no bastante oportuno. O romântico francês deixou escrito algo parecido com a assertiva segundo a qual é natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende e insultar o que se inveja. Quando se é, realmente, destituído de qualquer traço de sensibilidade, o coração encarquilha porque a inveja age como o ácido corrosivo que invade a alma entorpecida em altíssimo grau.

F.-VICTOR-AUGUSTO-757
Não faço propaganda para nenhum dos lojistas do Via Verde Shopping. Até que poderia embrenhar-me por tais artes e caminhos. O gênio o permitiria, certamente. Ocorre que, desde algum tempo, percebo não precisar de uma renda a mais. O que me nutre e o que quase me força a escrever estas linhas é uma grande admiração que tenho pelas pessoas que se enchem de coragem e fazem investimentos que, em muitos dos casos, podem comprometer até o próprio futuro.

Muitos dos que falam mal, ou denigrem aquele empreendimento, na realidade, desconhecem o que vem a ser um shopping e os propósitos e metas de um empreendimento daquele tamanho.

Nessa o bom Carlinhos Estêvão Xapuri até bem poderia me ajudar. É que eu não sou economista. Observo, todavia, que Rio Branco conta com apenas trezentos e cinquenta mil habitantes, hoje, e deve ter um shopping exatamente do tamanho deste que aí está.

Por que o Makro, holandês, é hoje uma realidade nossa? Por que o Carrefour, francês, já está em fase de construção, bem ao lado do concorrente de origem holandesa? Pesquisas de mercado foram feitas com muito cuidado porque comerciante é bicho esperto. Nesse ramo, só os mais inteligentes alcançam o sucesso, posto que sabem ganhar dinheiro a partir de prognósticos sempre otimistas, mas baseados na realidade mais crua. Ninguém é bobo.

Convém ilustrar. No litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, há o Macaé Shopping, que atende a cidade que lhe dá nome, de 200 mil habitantes, e mais outras próximas, como Rio das Ostras, de 120 mil moradores, e Armação dos Búzios, de 25 mil. As três juntas contam com 345 mil habitantes e o shopping de lá - onde já estive por três ou quatro vezes, posto que costumo passar férias em Cabo Frio, ali próximo -  é menor que o de Rio Branco que, por sua vez, é uma cidade que já chega aos 350 mil residentes, conforme citado acima.

Porto Velho conta hoje com 740 mil habitantes e pode dispor, sim, de um shopping de maior porte, com dois andares e mais as tais escadas rolantes tão sonhadas pelos acreanos destituídos de realidade e substância.

É bom observar, ademais, que a frágil economia do Acre gira em torno da folha de pagamento do Estado que, um dia, - na época de Orleir Cameli - atrasava salários e bonificações natalinas.

Enquanto isso, Rondônia, apesar da malta de desordeiros e grandes ladrões em campana, tem a sua economia baseada numa agropecuária e indústria pujantes que quase se compara ao Mato Grosso e já sobrepujou alguns estados nordestinos.

Manaus - os acreanos irreais não sabem! - conta hoje com mais de 1 milhão e 800 mil habitantes gravitando em torno de um parque industrial voltado para a indústria eletro-eletrônica, principalmente. O shopping deles, como o Park Shopping, de Brasília, pode e deve, sim, ter três ou quatro andares porque há consumidores suficientes para dar sustentação a empreendimentos de tal magnitude.

Todos estes empreendimentos são auto-sustentáveis porque há na base uma economia forte que não depende dos humores dos governos estaduais.

E queriam porque queriam uma escada rolante...

- Ah! Se nós tivéssemos uma escada rolante a vida seria outra. – Foi o que ouvi de uma Cinderela Mimada dessas que votam no Patetão.

A minha ideia maluca, certamente, é o boníssimo Tião Viana mandar erguer uma rolante do outro lado da pista, bem em frente ao Via Verde, para que todos se deleitem se refestelem se comprazam e gozem desta última maravilha de Beto Carreiro, uma boa e bela escada rolante que nos transporte do nada a lugar algum. Ora tá!

E alguns imbecis, lá de fora, de outros estados, montaram aquela patuscada segundo a qual os acrea-nos estavam extasiados, aparvalhados, boquiabertos com a beleza do empreendimento, porque nunca haviam visto um shopping. Veleidade pura. Babaquice geral. Esses caras são realmente burros e não sabem quem somos. Os estroinas nos desconhecem, sim, porque não fizeram o ensino fundamental e não estudaram geografia.

Eu, sim. Eu sou do Acre e conheço os usos e abusos do meu povo... Para se ter uma ideia ao menos aproximada e para que muitos me entendam, qualquer renda média acreano conhece o Rio de Janeiro, mas nunca foi a Porto Velho. Pega onda em Ipanema, mas nunca viu o Rio Purus. Importa a moda carioca já no dia seguinte ao lançamento dos jeans mais transados da Fashion Week.  

Na verdade, eu tenho visto fazendo compras no Via Verde uns 70 por cento de pessoas aqui estabelecidas, mas vindas de outros estados. São mais ou menos trinta por cento, ou até menos, o total de acreanos. Destes, a superior maioria já esteve nos shoppings do Rio, São Paulo, Brasília, Goiânia, Manaus, Natal, Fortaleza, dentre outros. Poucos por ali nunca viram um shopping. Talvez uma dúzia que tem medo de avião ou tem preguiça de encarar os ônibus que partem daqui lotados, duas vezes ao dia, em direção aos grandes centros urbanos do país.

Falta, realmente, o chope geladíssimo, da hora, sem o qual a minha visita se torna inócua e perfeitamente dispensável. Queira Deus, então! Vai ver que, de volta da minha viagem de férias, já tenha ao meu dispor o manjar dos deuses no Via Verde em grande abundância. Saúde!

Veja no que dá o movimento da roda da história. Há uns acreanos sem berço (!) que preferem fazer compras em New York. Outros já gostam do frio do Canadá. Mas há aquela inveja dos filhos e netos dos velhos barões da borracha que já não conseguem investir em nada porque não têm recursos para tal, com exceção de algumas raras e honrosas exceções. Os descendentes dos nossos ricos antigos, extremamente preguiçosos e destituídos de inteligência, por que não ligaram para os estudos, agora tropeçam nos próprios andrajos e morrem de inveja dos corajosos forasteiros e filhos de acreanos pobres que não têm medo da luta.

Que Deus faça com que aquele empreendimento - por alguns dito mínimo - dê certo. Muitos dos nossos investiram o que tinham, e até mais, e eu não gostaria de lhes ver fracassados.

Como diz o repórter gazeteiro, no Acre tudo é monumental. Somos enjoados, sim. Pior é que as coisas sempre tomam conotações político partidárias, o que garante sempre uma pitada de sacanagens, mutretas, maledicências, falsos testemunhos, dentre outros males que assolam a vida em sociedade.

Em suma, a maledicência - o mesmo que a fofoca - é ocupação e lenitivo para os descontentes.

Na realidade, fizeram uma mistura bizarra. Muitos agem agora como se o mundo dos shoppings fizesse parte da política partidária. É a me-diocridade dos que estão buscando, mas não estão encontrando, uma forma de desqualificar o trabalho exitoso dos bons políticos desta terra que, com as suas ações inteligentes, levam o empresariado a acreditar nos seus propósitos e, como resultado, os investimentos se multiplicam, não só na área comercial, como em muitas outras.

Querem ofender ou atirar farpas ou atribuir culpas inexistentes nos melhores quadros da política brasileira da atualidade, aqueles que trouxeram o progresso real para o Acre a partir da ascensão dos ideais dos meninos do PT...

E eu vos digo que, pelas artes da fofoca e da mentira, pelos liames tênues da imbecilidade dos métodos da oposição, se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não haveria quatro amigos neste mundo. Eles não poderiam tecer comentá-rios elogiosos, claro (!), posto que até um investimento privado pode render dividendos eleitorais para os que fazem a política direcionada ao progresso de todos e de cada um que investe esforços para o bem desta terra.
A estes últimos, Deus dará o que há de melhor.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 00h30
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