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Vida de príncipe
O Estado e as instituições não sobreviveriam sem a crítica mais arrazoada, segundo Gramsci no seu Os intelectuais e a organização da cultura. O papel que exerce o observador contumaz é preponderante numa sociedade que busca respirar ares da verdadeira democracia. No Brasil, as letras das leis, às vezes, ganham tonalidades românticas e tentam fugir da realidade, apaixonadas por não se sabe qual das musas do meu tempo. Aí, tá lá o garotão no auge das dezesseis primaveras, de adulto, curtindo a vida adoidado, exagerado e liberal feito o Cazuza, mesmo não tendo sequer o de comer. Viver ou morrer? Qual o problema? Quantos assassinatos! Então, a pouca fumaça que sobra dos narizes rombudos é tênue, mas fede e o olfato da polícia capta à distância. E vai o guri, agora tornado criança, recolhido a esses albergues da juventude criados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Uma beleza! É vida de príncipe aquilo lá. O desjejum é bem leve: café com leite, bolacha, pão francês, manteiga, ovos mexidos, pão de milho, às sete da manhã. Às nove, a merenda é selecionada: suco maguary, biscoitos, rosquinhas de chocolate - só de chocolate - porque as de milho foram vetadas. O almoço é frugal ou pra empaturrar: arroz, feijão, farofa de charque, macarrão, salada, bifão bovino, charque ensopado com couve, carne moída, ao meio dia. A merenda das quinze segue o mesmo cardápio da servida às nove. No jantar, são repetidas as iguarias devoradas no almoço. Enfim, vem a ceia antes do descanso merecido que conta com mingau de banana quentinho, mousse, suco e água mineral... E tudo tem que ser de marca, de grife... E tem muito mais charme na vivenda aprazível. Há creme dental, escova, sabonete, sandálias havaianas, barbeador. O líder, uma espécie de Beira-Mar seringueiro, traz o nome pomposo de Alberdan, com dois latrocínios nas costas, ao redor de quem, em certas horas do dia, no banho de sol, se reúnem todos os cupinchas como em adoração ao grande mentor intelectual e espiritual da turba infanto-juvenil, alguns já com vinte e dois anos devido o tamanho das penas. E eles fumam, mas os cigarros são invisíveis porque os carcereiros da PM nunca os encontram por mais que revirem sapatos e colchões... E fumam muito, na boa! Férias no parque! É tempo de sorrir para as paredes de uma juventude ociosa e sem futuro que não se alimenta do suor do próprio rosto. Um dia, no exército, disseram-me que o trabalho enaltece o homem. Hoje já nem acredito. À disposição dos rapazes estão psicólogos, dentistas e médicos, é claro, sem aquela chatice de enfrentar fila para ser atendido, feito pobre. Dispõem esses veranistas, ainda, de cursos de informática, artes, violão, esportes, cultos religiosos, salas de som sempre no volume mais alto. Por qualquer problema, eles batem nas grades com tanta força que todo o prédio treme, inclusive as pessoas de bem que lá trabalham. Os policiais militares são cuspidos e xingados com os piores palavrões. Só existe um remédio indispensável. Há, graças a Deus, a COE, com aqueles rapazes robustos e bons de briga, de quem os moços em férias têm verdadeiro pavor, até o Alberdan. Cruzes! É senhores! O Estatuto da Criança e do Adolescente é o pai e a mãe tolerantes e modernos que, invisíveis, contribuem para que outros crimes venham a ser praticados mais tarde, depois dos dezoito ou vinte anos, quem sabe, quando toda a mamata tiver fim. Faz-se necessário, certamente, rever essas regras. O que está ocorrendo é que nenhum desses afortunados gordos e bem sustentados pelos reles pagadores de impostos quer sair de lá. É demais. Cá do lado de fora das grades, então, o filho do trabalhador vai dormir com fome sonhando com o dia em que os justos haverão de ser premiados. Ah, este é o Brasil!
* Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Pesquisador do Depto. de Filosofia e Ciências Sociais/Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 07h44
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Educação ambiental e desenvolvimento sustentável
O fazer científico verdadeiro cobra daquele que o pratica o ineditismo. Por isto, convém ser a idéia objeto dos futuros estudos registrada em veículos de comunicação que lhe empreste foros de legitimidade. A intenção primeira aqui é marcar espaço.
Por desenvolvimento sustentável, em termos genéricos, compreende-se a possibilidade de o ser humano progredir, materialmente, sem a necessidade de agredir a natureza, numa alusão aos marxistas do século XIX. Para que tal intento seja alcançado, todavia, faz-se necessário levar ao homem o conhecimento sistematizado sobre as formas através das quais as agressões contra o meio ambiente sejam evitadas. Genericamente, tal postulado denomina-se educação ambiental.
A intelectualidade, encastelada na teorização do conhecimento, tem a mais perfeita e bem delineada noção da gravidade do momento e da importância da qual se revestem estudos que tenham por objetivo preservar o meio em que vivemos, sem deixarmos de progredir. É oportuno lançar as bases de uma educação ambiental sistematizada que tenha como princípio e fim a conscientização das novas gerações, na escola.
É preciso, então, averiguar e mensurar até que ponto os professores do ensino fundamental e ensino médio, das redes oficial e particular, têm informações mais sólidas acerca do tema. É oportuno observar o nível dos conteúdos informativos que estão sendo levados aos educandos, considerando que são eles - o público alvo maior - que estão na ponta do processo e que devem servir de multiplicadores das experiências positivas hoje levadas a efeito.
Que importância tem sido atribuída ao tema, inclusive, no âmbito das instituições de ensino superior, no nível público e no privado? Há, é claro, dentre as ciências da natureza, a área de ecologia estudada em agronomia e engenharia florestal, além da biologia. Todavia, há também os cursos de licenciatura, que preparam os professores para as salas de aula. Neste caso, um professor formado em Letras, por exemplo, teria alguma informação mais sólida acerca da preservação ambiental? Como poder-se-ia estabelecer relação de conteúdos entre as disciplinas dos cursos de licenciatura e o tema em análise? Haveria, já, essa relação? Até que ponto a temática é abordada nas escolas públicas da zona urbana? E nas da zona rural? Os professores, hoje no mercado de trabalho, estariam preparados para incumbência de tamanha envergadura.
Creio, de antemão e sem análise mais criteriosa, que o tema educação ambiental e desenvolvimento sustentável, concretamente, realmente, deveria fazer parte dos currículos, enquanto disciplina obrigatória, em vista da importância da preservação da natureza para o futuro da humanidade. A população, no todo, precisa de informações portadoras de uma prática efetiva que diga respeito ao cuidado para com os nossos recursos naturais. Tais dados e fatos seriam, obrigatoriamente, repassados de forma bastante criteriosa e metodologicamente correta.
É conveniente observar: os professores, que estão na ponta do processo, lidando com as jovens gerações, não têm o devido preparo intelectual para o repasse de informações tão importantes das quais dependemos enquanto humanos. A Universidade, em convênio com o Governo do Estado, deve promover cursos de especialização em educação ambiental que tenham como foco central o desenvolvimento sustentável. Destes cursos deverão participar todos os professores das redes oficial e particular. Dependemos, é certo, de atitudes como estas. Assim, não perecermos sob a égide da fome e da sede num planeta que um dia se chamou fartura.
A tese fica aqui perfeitamente fundamentada. A temática a que me proponho analisar, à luz do método científico, é da mais alta relevância para o desenvolvimento humano; tudo isto, é claro, a depender de agentes de financiamento que queiram custear tais estudos.
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* Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais/UFAC.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h14
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Da corrupção
Não sou economista. Negocio tão somente algumas idéias, principalmente, no campo dos estudos filosóficos. Como a Filosofia é por demais abrangente, cabe-me, aqui, fazer abordagens apriorísticas, iniciais. Preferiria, é claro, que um especialista tratasse o tema. Afinal, sou apenas um livre pensador com algum vínculo epistemológico com a Academia.
Não é da minha índole a inércia ou o pacifismo, assim como não estou aqui para justificar corruptos ou corruptores. Aquele que for julgado e condenado, dentro dos mais legítimos preceitos legais, deve ter o castigo do tamanho do crime. Se o corrupto pode ser acusado de, indiretamente, matar uma criança de fome, que se lhe apliquem a pena máxima do homicida... E amanhã de manhã estará o arrependido fervoroso a mendigar o perdão de Deus já tornado pastor de mil almas endemoniadas.
O terceiro mundo, em seu processo de desenvolvimento inconsistente, é afetado sobremaneira pelos compromissos financeiros externos e pelos juros exorbitantes das dívidas para com os mais ricos, de quem nunca consegue abater parcela mínima que seja do principal, com raríssimas exceções.
Então, conseqüência avassaladora ocorre em nível psicológico. As consciências atônitas, na busca de saídas para os impasses da vida pessoal, considerando notadamente problemas financeiros, se lançam na aventura que é apossar-se daquilo que não é exatamente seu, mas de outrem, ou do grande grupo de pagadores de impostos que quer o bem público erguido ou preservado. Esses são os corruptos que, no mais das vezes, têm como base para os seus abusos a influência nefasta dos corruptores. Estes ganham muito mais que os primeiros. Pior é notar que tribunais e corregedorias levam meses ou anos para chegar à origem dos crimes.
Assim, justos e acordados, cada qual cumprindo o seu papel, o roubo é perpetrado segundo justificativa quase óbvia. A idéia é locupletar-se e tirar do erário público o proveito máximo, enquanto não vem o gringo cobrador dos juros de uma dívida que a nossa geração não fez. É tudo na base do salve-se quem puder. Enquanto o banqueiro não rouba a Nação-povo no vencimento da parcela, o corrupto aproveita a ocasião e, em alguns minutos, frauda um programa de informática e rouba o cobrador nefasto e o povo necessitado.
No caso brasileiro, notadamente depois que FHC comprou os acreanos que votaram a favor da sua reeleição, a ação dos corruptos foi quase legitimada por uma tradição segundo a qual o caixa dois sobrexistirá a todo e qualquer solavanco. Vem da Colônia e do Império. Qualquer plantador de cana podia e pode financiar a campanha de um apaniguado seu, como fizeram as empreiteiras de obras civis, as montadoras de carros, dentre outras, desde a época de Juscelino.
Dentro dos quadros do PT, já podemos apontar um bom número de agentes da sabotagem eleitoral. É claro que há, hoje, um verdadeiro massacre promovido pela oposição. Como disse Luis Fernando Veríssimo, há certos políticos e certa imprensa que nunca aceitaram um ex-metalúrgico que fala errado na Presidência. Querem aproveitar para depô-lo, “no que seria uma vitória do preconceito sobre o bom senso”. É claro que devemos ver que, por trás da crise, há o auto-emporcalhamento do PT, mas há também o pavor que a elite tem do povo. “Querem acabar com a raça da esquerda, como disse, com exemplar honestidade Jorge Bornhausen, o senhor do PFL”.
Enquanto o dinheiro da dívida do terceiro mundo não cai nas garras do FMI, a canalha se sente até no direito de roubar o que poderia vir para benefício da Nação. Pensam os corruptos que é melhor dar pros gatos que são de casa, que pros ratos americanos que são de fora.
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* Doutor em Filosofia e História da Educação / Unicamp. Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais / Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 08h29
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Severino do Brasil
Já é quase adágio. Já se trata de lugar comum dizer que em toda e qualquer organização humana haverá sempre estes ou aqueles que, de uma forma ou de outra, destoam dos demais. No meio de tudo, via de regra, há o calhorda que luta para emporcalhar a imagem de outros tantos que não são lá tão pobrezinhos e muito menos limpinhos.
No Planalto Central - aquele recanto brasileiro de gente tão boa, que não está lá provisoriamente pelo período de um ou dois mandatos - pululam ou infestam a Praça dos Três Poderes representantes do povo que em nada dignificam o cargo que lhes foi outorgado pelo voto dos pagadores de impostos desta minha terra ensolarada. Boa parte destes pertence ao grupo que a imprensa e o povo designam baixo clero. Muito pouco simbolizam, ou representam, por despreparo no que tange ao fazer parlamentar. Fazem apenas número - ou bucha - quando a ocasião é propícia para negociar alguns trocados em real ou dólar, em troca de um voto que nem eles mesmos conseguem justificar depois. Severino Cavalcante era um dos quase dignificados cardeais desta casta de indesejáveis.
Aqueles mais de trezentos deputados que tornaram Severino Cavalcante Presidente do Congresso Nacional também deveriam ter seus direitos políticos cassados, uma vez que, segundo consta dos anais da Casa, a maioria dos que cometeram deslize histórico tão prejudicial o fizeram em protesto contra a possibilidade de o Governo elevar ao cargo um dos pares que o tem apoiado.
Por isto, é oportuno um adendo. É preciso considerar que, numa democracia verdadeiramente saudável, qualquer parlamentar mais equilibrado apoiará com o seu voto projetos que tenham por finalidade ensejar melhorias de vida para a plebe ignara que espera tudo e sofre muito mais. Aqui, nestas plagas amazônicas, um deputado tucano, por exemplo, vota contra a construção de uma escola da floresta só porque é idéia de alguém ligado ao Presidente Lula. Que se dane o povo! Importa, sim, a porca miséria da legenda contaminada pela incapacidade de lideranças opacas que teimam em não enxergar um palmo adiante dos narizes rotundos, como diria Brizola.
Então, numa dessas manhãs insalubres do verão amazônico, em diálogo com o bom Emerson Ferraz, da Academia Forma Física, chegamos à seguinte conclusão: aquele votinho safado foi um protesto irresponsável porque todos sabiam que Severino Cavalcante nunca teve condições sequer de articular uma única frase em razoável português... Isso só pra início de conversa...
Na realidade, os que votaram em Severino Cavalcante, em protesto, brincaram com a Nação e hoje o povo sofre, paga o pato, literalmente, como os aposentados que dependem de uma matéria em trâmite no Congresso para viverem a velhice com um pouco mais de tranqüilidade. Ou como as Universidades, que precisam sobreviver, mas o reordenamento do ensino superior foi colocado em banho Maria. Ou como a reforma eleitoral que poderia, hoje, ter evitado boa parte das acrobacias e sujeiras que, desde FHC, têm levado o País ao caos político que hoje vivemos. Pior é que um repórter da Globo perguntou a Severino sobre o andamento de projetos. O pobre sertanejo ficou atônito, gaguejou muito e findou por nada dizer.
Ora senhores, a República depende de homens preocupados unicamente com um projeto de humanização que vá para muito além das peias do capital. O equilíbrio recomenda que os coerentes não assumam responsabilidades maiores sem a certeza de que irão levá-la a cabo com um mínimo de seriedade.
Em verdade há que dizer muito mais, não apenas sobre um ou outro Severino inocente, rico e espertalhão ao mesmo tempo. Há que buscar João Cabral de Melo Neto, o poeta, que desnuda a pobreza brasileira de milhões de Severinos e Severinas sofredores sobreviventes destes nossos confins brasileiros.
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* Pesquisador do Depto. de Filosofia e Ciências Sociais / Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 08h17
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Partida
A intenção maior, aqui, é tantar ajudar, de alguma forma. Ajudar a pensar a atualidade. Ajudar a pensar as difernças humanas,a convivência, o caos social. José Cláudio Mota Porfiro.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 08h08
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