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Descaminhos

Sou professor, sim. Ainda gosto do que faço, com certeza. Não estou decepcionado, de forma alguma, mesmo porque colhi, durante vinte e dois anos, frutos saudáveis que me enchem de júbilo por ter um dia dado parcela de colaboração para a formação de mentes brilhantes que, inclusive, hoje, me orgulham por estarem ajudando a gerir os destinos desta terra de bravos. Já é noite. Falo e escrevo sobre orações subordinadas para um grupo sonolento. São rapazes e moças na faixa dos dezenove anos. Muitos já casados. Alguns com filhos. Parcela significativa é formada por alunos semi-alfabetizados que já estão no terceiro ano do ensino médio e planejam fazer cursos superiores. Falam mal, escrevem ruim e lêem rudimentarmente. Um teste de leitura já os reprovaria no primeiro dia. Não lhes interessa adquirir conhecimento, entender a matéria. O sistema lhes faz crer que o importante é ter nota e diploma. Pior é notar que, apesar da insuficiência da maioria, um bom número acredita estar preparado para os embates da vida. Ledo engano. A escola da vida lhes ensina muito pouco ou quase nada. Lair Ribeiro, um sujeito que ficou milionário escrevendo e vendendo livros de auto-ajuda, impregnou duas ou mais gerações com mensagens demagógicas do tipo "tem confiança em ti mesmo e a vitória não tardará", ou, "nenhum obstáculo é intransponível se você colocar na cabeça que é um vencedor", e assim por diante. Deveria o autor ter escrito que a caminhada é longa, as trilhas são íngremes, os frutos nem sempre são tão doces e que é preciso matar um leão por dia para sobreviver com alguma dignidade nesta selva de desenganos. Isso é realidade! Não adianta o moço dizer que "é fera em matemática e bamba em português". É preciso provar, para si próprio e para os outros, essas verdades vazias na hora fatal em que o demônio de sete cabeças chamado mercado de trabalho chamar para a arena. Um há de devorar o outro. Os realmente bons esfolam o bicho e arrancam-lhe as vísceras na unha. E me disse a Geovânia Torres, do terceiro ano: ora professor, o senhor é muito ranzinza! De pronto, recorri ao que disse o senhor Gates: "se você acha o seu professor exigente demais, espere até ter um chefe!" Aflige perguntar a mim mesmo sobre o que a escola tem feito. Na verdade, boa parte dos profissionais ali atuantes não fazem mais que apoiar os devaneios e os vôos desses pássaros cegos, tontos, que se chocam contra a primeira vidraça, e morrem. A clientela é composta por uma maioria de alunos - estudantes, não, porque poucos realmente estudam - que nunca se concentraram à frente de um livro ou de um exercício, uma vez que vêm de famílias que não dão valor aos estudos ou não conseguem se impor sobre as manias e vícios dos filhos adolescentes. Agora mesmo lembro a figura simpática do diretor da escola. Sempre ávido por cumprir tarefas que venham para benefício dos escolares. Sempre às voltas com mais uma exigência da instância superior que quer tirar leite de pedra e não qualifica, realmente, aqueles que permitem que muitos cheguem ao ensino médio sem saber ler ou contar... (De 999, a moça pulou para 100...) A escola, então, vê-se obrigada a aprovar um número cada vez maior de alunos, não importando o aspecto qualidade. Se assim não for feito, a administração estará em apuros, posto que os repasses financeiros para aquela unidade poderão sofrer reduções drásticas. O que ocorre depois é que o insucesso não tarda. Aí, o ex-aluno já estará ganhando um salário mínimo irrisório e passa a dizer que a sua infelicidade é devida ao professor ranzinza que o deixou reprovado por meio ponto (sempre!). Ou a culpa do seu infortúnio é da inércia do diretor que permitiu que naquele colégio houvesse reprovação. Ora, irmãos! O sistema ditado pelos organismos internacionais - como o FMI - não permite que os pobres do terceiro mundo sejam um pouco mais sábios, mais inteligentes. Importa, sim, que eles continuem a dar as ordens e nós continuemos a obedecê-las, cegamente, sofregamente, como os meus alunos do ensino médio.

* Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais / Ufac.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h21
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