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Caboclo esperto!
Tonico Salustiano chegou por aqui no final dos anos 40. Aprendeu a ser regatão com um turco de nome Omar, rio acima e abaixo pelas águas do Iaco. Enganou seringueiro e ribeirinho no preço do remédio e do alimento, na ponta do lápis e com a mão pesada sobre o prato da balança... Roubando desse jeito, tinha que virar seringalista. No Seringal Ponta Pelada, rio Caeté, de sua propriedade, foi aperfeiçoado na arte de enganar pobre. Fez isso por trinta anos. Depois, chegaram uns forasteiros e disseram que logo aquilo ali ia estar valorizado e o governo pagaria uns cem milhões de cruzeiros. Tonico, caboclo paraibano, cresceu os olhos e os meninos a arrogância. Vierem, então, morar em Sena, já confiando na dinheirama. E começaram a gastar com isso, com aquilo e com aquilo outro, usando já o arrendamento do seringal de sessenta colocações. É certo que se fosse trampolinagem arquitetada por algum turco ou português, tudo teria sido um grande sucesso financeiro, como houve por bem acontecer ao nosso mal lembrado Marquês de Abrantes do Acre... E já não me venham acusar de preconceito antecipadamente. Sou filho de um caboclo nascido em Óbidos, Estado do Pará, à margem esquerda do Rio Amazonas, próximo à foz do rio Trombetas. Tonico era arigó mesmo. Ficou tão rico que só jantava carne de mutum, para que lhe bafejasse a sorte... Mas os anos passaram e o nosso macunaíma nada viu. Nem o dinheiro, pois o Ponta Pelada foi invadido. O caboclo perdeu, sim, o trem da história. E os dias são outros. A borracha escasseou e o caboclo está quase morto, já perto dos oitenta. A miséria lhe bate à porta. Fala mal do Governo só porque a armação deu errada. O Incra amadureceu, ficou desconfiado e só ele não viu... E se machucou seriamente ao querer passar a perna em burocratas astutos que não mais se corrompem como no tempo do Ibra e dos militares. Hoje, a maioria dos nossos seringalistas está sepultada em cova rasa. Já morreram falidos. No entanto, alguns dos velhos patrões forjaram filhos espertos que, por medo do trabalho duro nos seringais, preferiam o conforto da cidade, onde a vida não lhes sorriu por não terem habilidades no trato com as profissões urbanas, ou porque as tentativas de golpes foram novamente um fiasco. Ora, talvez os pais não lhes tenham ensinado muita coisa além do péssimo hábito de gastar a-torto-e-a-direito. O Seringal Novo Baturité, por exemplo, pertencia a uma família que veio do Ceará por volta de 1920. Lá havia mais de duzentas estradas de seringa. O dinheiro era catado com ciscador, como diziam os arigós. Havia cavalos, bois e empregados para tarefas domésticas e de campo. Uma capela homenageava São Francisco do Canindé. Um engenho produzia açúcar preto e rapadura. Os roçados eram imensos. A riqueza foi exuberante até o fim dos anos 60, quando morreu Lindolfo Batista, o proprietário. É claro que aí a história se repete. As anotações em borrador eram tomadas sempre à lápis, para que depois pudessem ser apagadas. Então, como os que saem aos seus não degeneram, os filhos copiaram tudo dos pais, inclusive a arte do trambique, até porque aprenderam a ler apenas o suficiente para não serem enganados, como foi feito pelos avós. A sede ao pote era muita. A vontade de ficar rico sem trabalhar era maior ainda. Nada mais necessário, então, que arquitetar golpes contra algum agente público. Triste! A trapaça foi mal aprendida pelos rebentos ricos que nunca fizeram nada porque nada aprenderam a fazer. Muitos herdeiros deixaram que seus antigos seringais fossem invadidos. Segundo o ambientalista Chico Mendes, o objetivo dessa jogada era, depois, vender a terra a preços altíssimos para o Governo. Daí eles sairiam com cinqüenta ou sessenta milhões de cruzeiros nos bolsos, com o que dariam também uma vida malandra aos filhos seus. Os preços foram, sim, superfaturados. Os que mediram as terras, antes, também entrariam no lucro da trapaça. Todos ficariam ricos até que a incompetência herdada levasse-lhes tudo outra vez. Os que esperavam oitenta milhões de cruzados não receberam mais que dez ou doze contos de réis. E a fortuna jamais virá porque a ganância não deu passagem a uma aristocracia medíocre que já nem mais sabe roubar.
*Cronista xapuriense e pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais/Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 07h26
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