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Impressões gerais
 

A solidariedade do inimigo

Se o teu sol não brilha, não queira jogar água na minha tenda. Ninguém deve colocar a culpa do infortúnio naquele que caminha sossegado na vida, ao seu lado, muitas vezes a lhe dar a mão amiga em estreita colaboração.

            Meditemos, pois. Aquele a quem nossa mãe deu à luz há apenas poucos meses, nós já o chamamos irmão, e o amamos. Aquele que, diariamente, há vinte e oito anos, vive debaixo do mesmo teto, oito horas por dia, e até nos finais de semana no regozijo do lazer, pensando nos mesmos problemas, buscando as mesmas soluções, vivendo na defesa de uma causa comum, talvez seja mais que irmão, em vista dos anos e anos de convivência.

            Dia desses, então, lancei meus dardos ligeiramente infectados contra as ruínas do edifício das relações humanas da Universidade Federal do Acre. Consegui agradar parte significativa até daqueles que, por pura distração, sequer me cumprimentam. Hoje vou além. A instituição é pública e todos os fatos ali ocorridos deverão ser de domínio público.

            Não sou candidato a nada e só quero o meu quinhão. Trato aqui de inveja, perseguição, preconceito, dentre outros venenos que apodrecem o corpo doído daquela casa de excelência. E os fatos são dignos de registro porque lembram as velhas parábolas em que o irmão rico quer que o irmão pobre se lasque no meio. Lembra ainda as partilhas de bens deixados por pais abastados a filhos gananciosos, gulosos e sem formação humana o suficiente para notar que a miséria do irmão é a sua miséria, assim como a fortuna do irmão é a sua fortuna. Romântico demais!

            Pois bem. O quadro da Ufac é dividido em duas partes. Há os professores e há os técnicos. Os primeiros não se unem e, no mais das vezes, sequer se conhecem ou se falam, em vista das exageradas doses de arrogância e antipatia que lhes nutre a alma antes tão branda e risonha. Entre eles, a desunião é até pregada uma vez que uns são sempre superiores aos outros, e vice-versa. Os que têm um grau de estudos mais elevado arrebitam os narizes e passam ao largo. Os que têm cargos de chefia e ganham generosas gratificações olham para os demais com os olhos do lobo que guarda o seu naco de carne entre as patas. Esse dilaceramento é que os tem levado a não tirar proveito de reivindicações coletivas, posto que não há exatamente um coletivo. E todos perdem. Os outros, os funcionários administrativos, considerados pelos primeiros como a plebe ignara e rude que ali está pra lhes limpar as botas, são bem unidos na defesa dos direitos seus. Marcham de braços dados, teimam com o patrão, se erguem contra o Governo e, assim, paulatinamente, vão abrindo suas veredas com bastante humildade, mas sem perder de vista que, mesmo as viúvas dos que se vão, merecem uma vidinha melhor porque seus maridos muito se esforçaram. É assim! Pobre se mete na vida dos outros até para ajudar. Enquanto isto, por trás das cortinas, a nobreza trama até contra os seus pares. São capazes de mandar recados para juízes e tribunais com a finalidade, até, de sacanear uns aos outros. Imagine se for para prejudicar o pobre que na noite escura da caverna estréia uma lanterna novinha em folha... Que se dane!

            Os funcionários ganharam uma causa na justiça e tiveram seus salários aumentados. Os professores, não. Por isto, agora, a inveja corrói a alma de pessoas que um dia pensei tão justas em vista da formação e da competência indiscutíveis. A perseguição é do tamanho de um predador que só se satisfaz ao sabor do sangue. O preconceito, maior ainda, não consegue enxergar que os salários deles são parcos, sim, mas isto não justifica a ira que os tem levado a telefonemas para promotores de justiça tentando fazer com que a causa ganha seja revertida. Ora, eu torço para que eles ganhem muito melhor. Mas sinto que é necessário que me deixem ganhar um pouquinho mais, afinal de contas, são dez anos sem aumento e a inflação e a prole a crescer... E o leão a rugir!

            E a minha visão é a da maioria. É real até sem óculos. Desde 1978, época em que fui concursado para trabalhar na augusta casa, observei desde o primeiro dia estar lidando com uma espécie de inimigo oculto que, na surdina, passa-te a mão nas costas, mas te quer ver debaixo dos saltos altos, apanhando e sorrindo como se nada de ruim estivesse a acontecer. É claro que há as exceções. É claro que de minha parte não há revolta alguma porque vivo da maneira que Deus permite. Bem!

Está podre o edifício porque os alicerces foram construídos sobre bases falsas e imorais. Sempre houve uma espécie de litígio surdo e mudo, mas prejudicial. Não sei por quais vias haveremos de crescer se uma casta de dignatários quer ver a plebe na desgraça. 

            Que almas tão pequenas! Eu não ficaria a zombar se a alegria do companheiro estivesse quase a morrer na praia. Aos meus inimigos íntimos, então, que nada de ruim lhes aconteça nesta vida. Por Deus!

 

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 19h02
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