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Do Immanuel
Kant é especialista em Immanuel Kant, e vice-versa. Tu conheces aos dois e a um só, desde tempos quase remotos. Recorda-te, certamente, um encontro entre tu e ele, nos corredores da Academia e, depois, numa sala de defesas de teses onde, por uma vírgula ou menos que isso, foste jogado de encontro à parede, aos trambolhões... E, mesmo assim, tu o amas!...
O homem tem descendência eslava, carrancudo, ranzinza, vociferante, e houvera nascido no antigo reino da Prússia, entre o império austro-húngaro e a moderna Alemanha. Dizem dele ter sido um dos maiores sábios do velho mundo em um milênio. Tu acreditas piamente. Eu também. Certo é que o Immanuel é daqueles amigos que houveram por bem já ter viajado dessa para a melhor, há alguns séculos. Mesmo assim, o tens na melhor das estimas. O que ele disse a ti e aos demais, em vida, é marcante. São coisas do arco da velha, mas espetacularmente muito atuais.
O Immanuel tem dessas coisas. Mesmo sendo eternamente motivado pelo belo sexo, conforme costuma referir-se às mulheres, ele disse a ti e aos outros, um dia, que o sujeito esclarecido é aquele que alcançou a maioridade, e que só deixa de ser à toa aquele que não se deixa dirigir pelos outros. Em outras palavras: quem vai pela cabeça dos outros é piolho. E mais: pedir conselhos à esposa drástica até deve ser bom; deixar-se influenciar é que é pavoroso. Em resumo, a culpa é tua, se tu te deixas explorar. À tua alma pequena estaria faltando tudo, inclusive, vergonha na cara, decisão e coragem para chegar em casa de cabeça erguida. Então o Immanuel é ou não é o cara?... Tu mesmo tens conhecido umas centenas que estão morrendo na peia e querendo mais. Há uma imensa maioria entre os humanos que apanha por amor à causa.
Num escrito de dezembro de 1783, esse garboso amigo de letras mortas foi fundo ao afirmar que a preguiça e a covardia tornam o homem menor, lacaio, subordinado. Assim, quando te falta a coragem de ir ver a onça beber água, tu dizes para todos que não é exatamente preciso raciocinar porque podes pagar para que outros pensem por ti. Que não é necessária dieta, agora, porque depois o médico dá um jeito. Que, em futuro próximo, tua irmã será menina séria porque logo arranjará um otário para dar nome à donzela leviana.
Por isto é que poucos são os que conseguem, pela transformação do próprio espírito - de vagabundo a antenado - emergir da menoridade e empreender marcha segura, sem que ninguém lhe segure pelos chifres. A maioria fica patinando no seco e comendo poeira no molhado. E tudo isso porque, de todos os lados dessa tua vidinha imbecil, tem sempre um agente inescrupuloso dizendo para não perderes tempo com essa besteira que é raciocinar. Para que isso? Já nasceste dependente dos demais.
Mas não é tão ameno ater-se à crítica ferrenha aos trejeitos e hábitos muito ortodoxos do meu pior amigo. Ainda é melhor poder notar que nunca será difícil encontrar, aqui e ali, alguns indivíduos capazes de pensamento próprio. Há, felizmente, os que nasceram, já, com luz própria e, com essa lanterna maluca, pegam da tralha cibernética e metem o cacete na humanidade.
Ora, irmãos, segundo o Immanuel, a liberdade consiste em fazer uso público da razão em todas as questões. Se tu ficas calado apenas porque tem medo do chefe e mete a porrada na mulher só porque a acha fútil e fraca, és covarde desde o teu amanhecer. Vá lá e brade no meio da rua. Ou então escreva... E todos entenderão não tratar-se de um medroso que não honra as calças que veste.
O homem sábio, esclarecido, esperto, corajoso, consciente de si próprio e das suas funções no mundo e na vida, tem a liberdade e o dever de dar conhecimento ao público de todas as suas idéias, examinadas e bem intencionadas, sobre o que há de errôneo no sentido de melhorar a instituição.
A tua obrigação maior - tu que te dizes sabido - é ser livre o suficiente para dizer para todos o que pensas e quais medidas poderão ser tomadas para a solução dos problemas dos que não têm coragem de pegar o leão pela unha, todas as manhãs de cada dia de cada semana.
* Cronista e pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais / Ufac
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 01h40
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Na linha do estômago
São coisas que só Deus explica. Um menino arteiro, de dois anos, pulou a janela alta, caiu na calçada, massageou a cabeça e, nu em pêlo, foi rumo ao porto onde o pai era estivador amazônico carregando nas costas a história da minha terra. Ah, o Mota!
E jamais pararia por aí... Dias depois, fomos nós - eu, minha mãe e ele - à casa de uma modista de quem não me ocorre agora o nome. Nós, crianças, ficamos sentados à porta vendo o movimento da rua principal. Eu, o mais velho, descuidei-me por um ou dois segundos e, num piscar de olhos, veio um sujeito e levou o Motinha pela mão. O resgate ocorreu horas mais tarde, obra de um tio pedreiro, já falecido, que voltava do trabalho e os encontrou já na saída da cidade rumo ao Seringal São João do Caramanu, na Bolívia. Escapou fedendo!
Estudar não era exatamente o forte. O garoto fugia para ver o rio, fugia para tomar banho num igarapé próximo ao cemitério, e fugia para jogar bola, à tardinha, ao que a avó matriarca cearense sempre o brindava com umas boas chicotadas pelo mal-feito.
É preciso deixar muito claro que o Motinha, meu irmão do meio da confusão de crianças lá de casa, nunca foi exatamente um gênio com a bola nos pés. Não. Ele fica longe de um Nilton Santos ou de um Falcão, por exemplo. Era, sim, um virtuose da pancadaria. Quase um maestro que, ao invés de usar a batuta para reger a orchestra, porta um martelo com a elegância de um jogador de beisebol. Agredia e era agredido. Mas não era nenhum perna de pau. Jogava muito mais que a maioria dos que se diziam jogadores de futebol no Acre da década de 1980. Ainda é melhor, hoje e antes, que alguns medalhões que o Francisco Dandão acolheu na coluna Memorial do Craque, de boa memória.
Eu gostava de vê-lo jogando, muito embora, às vezes, ficasse temeroso ante a frieza com que o garoto mordia calcanhares e panturrilhas. A marcação era duríssima. Fã incondicional da pegada do Chicão, aquele bigodudo que jogou no Santos Futebol Clube há algum tempo, não dividia para perder.
Todavia, tinha - e tem - um domínio de bola impecável, uma visão de jogo como poucos. Atua sempre de cabeça erguida, olhos de águia. O passe é feijão com arroz, mas milimétrico, sem trivela, sem firula. Bate fortíssimo só com a direita. Tem pernas e braços curtos de lutador de boxe. No mais das vezes, mira na linha do estômago do adversário como se estivesse a usar binóculos. Em rapazola, dispunha de um fôlego dito de sete gatos e, acima de tudo, ainda é um cara metido a bacana que, antes, usava esvoaçantes cabelos estilo pipoca, sempre arrumadinhos de modo a deslumbrar o belo sexo, segundo ele próprio o afirma.
De Xapuri, há trinta anos - janeiro de 1976 - viemos para Rio Branco. Nos primeiros dias, pela manhã, procurávamos emprego. À tarde, íamos com uma rapaziada da Cadeia Velha, onde morávamos, para o campinho do Seu Domingos, na Seis de Agosto, onde treinávamos no Andirá, sob o comando de uma figura simpaticíssima, criador de galos nas horas vagas, que ainda atende pelo nome de José Américo.
Saí cedo do trabalho na Ufac e lá fui ver. Corria o ano de 1978. Era verão. O bom Campos Pereira, então, resolveu convocar o Mota para a seleção acreana de juvenis, mas esqueceu de dizer que no primeiro dia haveria apenas um leve treino. Errou. Ao invés de colocá-lo na cabeça da área, ou de avante, colocou-o na lateral esquerda, mesmo sabendo que o garoto era destro. Em dez minutos, o Motinha foi expulso pelo técnico porque havia jogado o Batatinha, ponta direita hábil, duas vezes contra o alambrado do José de Melo. Dureza! Depois, a rapaziada do Acre perdeu para os rondonienses e o Mota, aos dezessete anos, encarou os microfones da Rádio Novo Andirá e esbravejou: “faltou levar macho; na hora do pega-pra-capar o pessoal daqui correu do pau. Uma merda!”
Mas não havia como progredir no mundo da bola. Também, pudera! Eu e o Marcos, nosso outro irmão, assumimos as responsabilidades pelo sustento da família e fizemos ver ao Mota que era preciso trabalhar muito mais. Ele não abraçou a idéia com tanto gosto, mas, mesmo assim, findou contratado, inicialmente, pela desaparecida Caderneta de Poupança Aruaque e, depois, pela Vasp Rio Branco, à época capitaneada por Sebastião Alencar, ex-quase tudo do Rio Branco Foot Ball Club.
E dizem que o medo de perder é que tira a vontade de ganhar. O Motinha nunca pensou em ser derrotado. Mesmo uma peladinha fútil, no campo da Embrapa ou do Senai, ainda lhe mexe os brios de guerreiro metido a macho. Vai em todas mordendo e, às vezes, com os cotovelos à flor da pele, direto na tromba do afoito marcador. E aí? Qual é? Vai encarar? Quer entrar numa?
É por estas estradas da vida que ainda hoje seguem as aventuras do Motinha no mundo da bola.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h16
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Fórmula
A melhor receita para a destruição mais irremediável estará sempre pulsante nas mãos e na cabeça desmesurada dos gênios do mal. É só lembrar a bruxa que enfiou um prego na cabeça da princesa e a coitada se danou. É só lembrar um sem número de esposas que envenenaram os maridos prepotentes, imperadores, nas épocas idas da Roma dos Césares.
Pois bem. Lula não é da realeza. É plebeu mesmo. Zé Dirceu não é feiticeiro, mas foi o principal algoz e protagonista na elaboração e execução do plano que fez o Presidente descer ladeira abaixo nos índices de popularidade. Felizmente, nos dias atuais, a recuperação é notória, já não há quem enlameie o chão do Planalto e Luiz Inácio voltou a sorrir, porque residirá, por mais quatro anos, a partir de 2007, no endereço mais cobiçado de Brasília.
Quanto à fórmula da destruição do líder, não há tanto mistério. É tão fácil quanto a receita da tapioca, ou do bodó de trigo. Basta que se coloquem ao lado e ao redor do homem forte uns cinco ou seis assessores insensíveis e, em pouco tempo, a liderança ruirá. Maquiavel, nO príncipe, aborda com muita propriedade esse tipo de tramóia.
Ora, eu vi uma vez o Delúbio Soares, em Rio Branco. Quanto aos demais, apenas os conheço pelos maus atos fartamente divulgados por setores da imprensa nacional que, também, fizeram muitos juízos de valor sem provas ou testemunhos. Fofocaram.
Receita como essa deve ser observada com muito tirocínio pelas lideranças. É preciso ligar-se afetivamente ao povo, sem falsidade. No Acre, essa erva daninha assola as ante-salas, as secretarias de governo ou municipais, e se orgulha do papel desempenhado tão ridiculamente. Conheço uns companheiros pretensiosos, puxa-sacos de carteirinha e crachá, que têm como atribuição - imposta por si próprio - afastar dos populares o Governador e o Prefeito. Embora estes queiram ir para o povo, os chefêtes os impedem por questões ditas protocolares.
As pessoas não se dirigem aos gabinetes apenas para pedir. Ora, senhores! Muita gente aí vai, também, para sugerir, para contribuir, enquanto a inépcia dos desqualificados só atrapalha.
Quanto à recente ascensão da popularidade da maior liderança que o meu povo já viu - Luiz Inácio - reafirmo o que abordei, aqui, há alguns dias, quando lembrei Luiz Fernando Veríssimo, o humorista e livre pensador. Os números, tanto ao nível econômico quanto ao nível social, sempre e notadamente superiores aos de Fernando Henrique, nunca serão suficientes para aplacar a ira da raça superior formada por uma elite bisonha que deseduca com a finalidade de subjugar mais facilmente. Há, é certo, o auto-emporcalhamento do PT. Mas é preciso observar que os mais favorecidos, encastelados nas fortunas muitas vezes erguidas à custa da malversação, nunca suportaram ter um Presidente sertanejo que saiu das profundezas da miséria nacional criada pelos ricos de ontem, de hoje e de sempre.
E não são necessários mais ingredientes. Há uma elitezinha petista com a qual se deve ficar de olhos abertos, permanentemente. Há os que afirmam estar preparado o chá venenoso que poderá levar por águas abaixo os sonhos de acreanos muito bem intencionados. Obra dos burocratas, mais uma vez!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h13
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São Sebastião de Xapuri
Décadas de 60 e 70. Estava entre o garoto que prestava atenção a tudo e o adolescente que participava ativamente da vida cultural da minha cidade, Xapuri. Tornei-me adulto, então, e parti na busca do mundo... Céus!
Passados Natal e Ano Novo, a comunidade xapuriense se organizava para a grande festa católica do meu e de todos os tempos. Praticamente todo o mês de janeiro era consagrado a São Sebastião, o milagreiro romano que curava as feridas e colocava esperanças no povo dos imensos seringais de onde brotavam o alimento de muitos e a fortuna de poucos. Repito: a festa era em homenagem ao Santo.
E como tudo está mudado nos dias de hoje! Desvirtuaram completamente os festejos, antes plenos de pura fé e agradecimento pelo empenho do Padroeiro junto a Deus para salvar a canoa e a vida da minha gente forte e teimosa. Na época do eldorado da borracha, a partir do dez, havia, a cada noite, depois da novena ou da missa, um arraial defronte a matriz. O objetivo maior era arrecadar fundos para erguer a bela igreja e continuar as obras do Colégio Divina Providência - onde acenderam as minhas luzes - e do Hospital Epaminondas Martins, tudo concebido pela mente espetacular de Felipe Gallerani, um padre italiano, arquiteto por excelência, cuja obra é hoje reconhecida pelos acreanos e pela Santa Sé.
Há quatro anos não participava da grande festa. É que a data, 20 de janeiro, sempre coincide com o meu período de férias, com as minhas viagens. Neste ano, já no dezesseis, lá estava eu a apreciar a movimentação frenética, principalmente, de uns pequenos comerciantes que vêm até de Porto Velho e armam tendas, vendem suas quinquilharias e enfeiam a cidade.
Católico praticante, ainda na segunda-feira fui à novena em ação de graças ao Padroeiro. Observador desde muito tempo, notei que, de vinte devotos, um era do gênero masculino. Em outras palavras: enquanto as mulheres rezam, a rapaziada vai pro boteco comemorar a data. Em conversa afiada com uma prima, disse-me ela que um certo amigo tinha tomado um porre só nos festejos de fim de ano; que tomaria outro no “vinte” e um outro no carnaval. A questão, aí, não está em o moço encher a cara. Problema dele. O que desvirtua é uma data essencialmente cristã ser comemorada com bebedeiras homéricas que levam muitos, literalmente, ao sono no relento, nas calçadas e nas sarjetas.
No passado, o comércio local era aquecido porque os seringalistas escolhiam a data para pagar o que deviam aos seringueiros e para encomendar os víveres que seriam logo levados para os seringais. Hoje, a informalidade tomou conta. Os chamados marreteiros lotam completamente as ruas do centro da cidade que já não comporta tantos visitantes idos principalmente idos de Rio Branco.
Fiquei estupefato com uma ocorrência. Uma moça comentou que Xapuri tinha importado, aí pelo 15, uns tantos pivetes idos da periferia de Rio Branco para fazer não-sei-o-quê. Na noite do 17, então, houve uma briga entre duas gangues que nada tinham a ver com a cidade, tudo na base da ripa de cerca. A confusão envolveu umas vinte almas que talvez tenham fumado aquele cigarrinho do demônio que deixa a garotada muito doida.
No 18 e no 19, então, chegaram amigos que não os via há vinte ou trinta anos. Foi bom saber que boa parte deles está bem situada na vida, principalmente em nível financeiro. Bebemos muito, sim, para festejar o reencontro, mas na hora marcada com o Santo lá estávamos perfilados e fervorosos em agradecimento por nos terem dado à luz naquela terra abençoada.
Em certa medida, convém asseverar que a turma esqueceu aquele São Sebastião dos seringueiros. Há uma grande maioria que para ali vai em busca de ganhar dinheiro - bom dinheiro - no mais das vezes de forma um tanto duvidosa, como nas mesinhas de cholita.
Talvez o Zé Cláudio do Gibiri não seja mais o rapazola de outrora. Certo é que ficou grisalho, ranzinza, impertinente, e vê as coisas como devem ser vistas, com os olhos da serenidade plantados e esperançosos no futuro dos seus, com as graças de São Sebastião de Xapuri.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h09
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