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Cinema e literatura
A finalidade primeira de Èmile Zola ao compor o romance Germinal era, realmente, a denúncia. E o sucesso se fez retumbante. A realidade nua e crua foi colocada de forma singular pelo autor, um dos representantes mais ilustres do realismo literário.
O tempo passou. Veio, então, a época do cinema. Filmaram Germinal. A bem da verdade, atores e diretores não teriam decepcionado Zola, se vivo estivesse, em vista da qualidade de um trabalho que, desde a origem, em livro, tem como objetivo maior mostrar a realidade dos operários franceses, nas minas de carvão, no final do século XIX. E quanta realidade fria há!
Para os estudiosos das ciências sociais, então, trata-se de uma análise acurada acerca de um período da história em que o dinheiro já atropelava os destinos dos homens.
A ênfase principal do enredo é focada no processo de produção, nas fábricas, na precariedade das condições de trabalho, miséria e exploração, onde todos os membros das famílias se esfalfam - das crianças aos idosos - sendo que é o salário ganho por cada pessoa que garante o sustento de toda a família. Assim, quando alguém morre ou vai embora, é necessária a substituição, imediatamente, para que a renda familiar não diminua... E isto é realismo demais.
O guarda-comida - ou despensa - está sempre vazio. As crianças pedem pão. É o café que falta e a água que dá cólicas. Na faina da indústria, os dias são longos e a fome é enganada através da ingestão de folhas de couve cozidas.
A exploração do trabalho é contínua. As donas de casa, desesperadas por não terem com o que alimentar os filhos, vão até o senhor Maigrat, dono de um mercearia, e pedem mais crédito e pão.
Os operários não sabem quem são os patrões. Estes senhores diziam estar preocupados com as notícias da economia e da política, as quais apenas pareciam afetar os negócios, e com a provável greve que se anunciava. E os operários decidem pela greve, para tratar sobre a sua situação de miséria e fome e pedir aumento de salários.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h51
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Continuação (Cinema e literatura)
Com a greve, a fome recrudesce. O dinheiro da reserva havia sido suficiente apenas para dois dias de pão. Alguns trabalhadores esfomeados estão dispostos a voltar ao trabalho, já outros preferem continuar em greve e, se for preciso, morrer pela causa.
É assim mesmo. Patrões sempre exploram. Empregados são sempre explorados. Este é aspecto da vida real segundo a égide do capitalismo. Como mudar? Alguns falam da revolução dos pobres de ontem e de hoje...
Estas são algumas das passagens presentes em "Germinal". Fica exposta a situação de miséria em que se encontravam os mineiros franceses. Nos dizem sobre as relações entre os operários e as máquinas, entre capitalistas e operários. Tratam das greves e o sindicalismo; abordam as necessidades espirituais do ser humano em contraposição à premência das suas necessidades materiais.
Em Germinal, o processo de trabalho deve ser considerado, a partir não só da determinação tecnológica, mas também dos aspectos sociais, levando-se sempre em consideração que o imperativo tecnológico que comanda a organização da produção opera em condições econômicas, sociais e culturais determinadas segundo uma lógica e na base de um estado das ciências e das técnicas que são o produto de uma longa história.
O filme é uma breve revisão desses aspectos nos meados do século XIX, em particular na França, como também revê os fundamentos da Revolução Industrial, a qual fornece as bases para o novo processo de produção que se firma e se define.
Na França, à época da Revolução Industrial, cerca de três milhões de pessoas viviam do trabalho manual. Como nos demais países europeus, os trabalhadores estavam ligados às fiéis formas de produção detentoras dos meios de produção, tendo que vender seus corpos e a força dos seus músculos, para garantir as mínimas condições de sobrevivência.
É o socialismo científico aliado a uma realidade drástica onde o processo de produção capitalista se constitui em relações de troca, tendo o lucro como bem final, pela expropriação da mais-valia gerada pela força de trabalho, ou seja, do valor excedente que é apropriado pelo capitalista. A venda da força de trabalho torna-se a única alternativa do trabalhador livre para obter, através do salário, sua sobrevivência. De fato, o sistema de fábrica surgiu como um tipo de organização do processo que visava garantir a dominação do capital sobre o trabalho.
O novo processo de produção, instalado com as máquinas, atingiu diretamente a organização da família operária como unidade econômica. A necessidade de concentrar os operários em volta das máquinas destruiu o sistema doméstico de produção e criou a situação moderna de os mesmos terem a necessidade de sair para o trabalho. Homens, mulheres e crianças passaram a deixar os lugares onde moravam para ir trabalhar.
E hoje vivemos as asperezas do novo milênio. Já amanheceu o século XXI. As ciências que se voltam para o estudo dos problemas da sociedade estão estupefactas porque muito pouco mudou. De Èmile Zola aos dias de hoje, o mundo é praticamente o mesmo. O velho clichê é tão moderno quanto a cibernética. Os ricos ainda ficam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres.
Mesmo no Brasil da modernidade, velhos morrem amontoados nos asilos ou nas marquises, trabalhadores rurais são escravizados, mulheres vivem das migalhas que ganham nas esquinas da prostituição necessária, e crianças trabalham de sol a sol, apesar da seriedade dos estatutos que tentam lhes proteger.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h50
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Inculta e Bela
Logo atrás dos pórticos deste liceu erguido majestosamente em frente ao Tucumã, sentados à sombra de amoreiras, ainda manhãzinha, conversávamos, eu e a caríssima Ducélia Mota Lopes, acerca de algumas nuances próprias desse belo ofício que é o ensino da língua pátria às gerações que se nos chegam. Do ocidente soprava amena brisa matinal. O dia anunciava-se tórrido, como é hábito nestas paragens quando o mês é agosto.
E o diálogo se fez longo e franco, sem metáforas ou sinédoques ou prosopopéias, posto que, depois de certa idade, somos dados a fazer observações cheias de ânimo, principalmente, acerca das coisas que nos estiveram mais próximas no decorrer dos anos que somam as nossas vidas de poetas tão perscrutadores.
Mal traçadas linhas como estas, aprendi a escrever com a interlocutora em apreço, há talvez trinta anos. Lucília Parra também deu pistas muito interessantes. Gladstone Chaves e João Batistinha me fizeram ver claro que o ser é substantivo aqui, mas ali já pode ser sujeito ou objeto. Enfim, fiz um curso de Letras à moda antiga. Aprendi um tanto de gramática e outro tanto de literatura, esta última sob a batuta ritmada de Olinda Nogueira. Foi bom!
Caríssima Ducélia rapidamente classificou enquanto aberrações algumas ocorrências que se verificam não apenas na Ufac, mas, também, nessas faculdades que cobram fortunas pelo fornecimento de diplomas que não dizem nada sobre o aspecto qualidade, na considerável maioria dos casos.
Num dos dias de 2001, prestes a transferir-me para Brasília, onde fiquei por seis meses, as minhas duas turmas de terceiro ano do ensino médio precisaram de um professor de Língua Portuguesa que viria para me substituir. Apareceu, então, bela moça, estilo clássico, com jeito de prendada. Dois ou três alunos mais atentos, nos primeiros minutos de aula, notaram que, em duas ou três linhas escritas no quadro, a nova professora cometeu erros de ortografia, acentuação e concordância. Interpelaram-na, então. Lágrimas vieram aos olhos da mestra que sequer se despediu de quem quer que seja.
E um moço faceiro, professor de Português, asseverou, com uma propriedade que nunca teve, que a escola pública tinha necessidade de formar cidadãos, e não de ensinar gramática. Aí, alguns dentre nós, velhos déspotas esclarecidos, começamos a refletir. Segundo normas vigentes - os parâmetros curriculares - todas as disciplinas deverão imbuir-se desse dever. Embora reconheçamos que transmitir aos mais novos o sentido da cidadania é tarefa, mais especificamente, do ensino da Filosofia. E fomos adiante. Os alunos do Colégio Meta, por exemplo, estudam a gramática nos detalhes mais precisos e preciosos.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h48
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Continuação (Inculta e Bela)
Conforme a abordagem do professor faceiro, fica claro que apenas os meninos e meninas da classe média devem ser aprovados nos verdadeiros vestibulares, os nacionais, como os da Ufac, uma vez que, aí, sessenta por cento da prova de língua portuguesa versa sobre questões relativas à gramática. Se a clientela da escola pública não estuda gramática - muitas vezes porque o professor não quer - não logrará êxito em um concurso como este. Os alunos mais pobres serão apenas cidadãos, ou meio cidadãos, ao passo que os da classe média serão cidadãos com cursos superiores. Aos primeiros caberão as tarefas mais simples, como limpar a mesa e varrer os restos do banquete onde os demais se deliciaram. Os da classe média distribuirão entre si os cargos de mando e a sociedade permanecerá para todo o sempre dividida em classes que não se comunicam porque poucas são as possibilidades de ascensão numa sociedade onde professores, inadvertidamente, pregam as raízes de uma casta que deverá ser qualificada, e uma outra que deverá ser obediente, posto que as oportunidades de avanço não existem.
Supõe-se que, ao sair de uma faculdade, o cidadão pleno não cometerá deslizes maiores no uso do vernáculo, na forma falada ou na escrita. Os cursos superiores, então, deveriam melhor transmitir aos aprendizes conceitos mais aprofundados da língua portuguesa, uma vez que os cobra nos vestibulares. Se o professor não aprende, não consegue ensinar. Se não ensina, o secundarista não retém conhecimento, e é por isto que não tem conseguido fazer cursos superiores em universidades públicas e, agora, se depara com a situação constrangedora que é depender de cotas que o poder público distribui para negros pobres ou pobres brancos.
Num desses dias, observei comportamento de um mestre-escola. Pela manhã ele fala alto, gesticula, sobe na cadeira, teatraliza e se esfalfa no colégio particular. De tarde, cansado demais, chega na escola pública e se acomoda em cadeira confortável no canto da sala e pede, solícito, que uma aluna de caligrafia razoável copie a matéria no quadro. Depois, sonolento, transmite inépcia ao explicar o seu desestímulo para alunos desmotivados a partir de onde vieram.
Mas é preciso dizer que estas são observações apenas relativas ao ensino da língua portuguesa, "a última flor do Lácio inculta e bela", segundo Camões, agora tratada com desprezo por um sistema que dispensa a qualidade em detrimento da quantidade que explica mas não justifica.
* Doutor em Filosofia e História da Educação/Unicamp. Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais/Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h46
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