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Para bem nascidos
Nas primeiras épocas da civilização humana, o tema educação foi tratado, por séculos a fio, segundo a égide de uma tradição muito antiga que colocava, de um lado, à luz da lareira dourada, os poucos protegidos da sorte, os bem nascidos, os eleitos; e, de outro, aqueles desditosos da escuridão da caverna platônica que não houveram por bem nascer para ir além do trabalho manual, do serviço diário que esfalfa o corpo e exaure a alma já fraca.
Já nos primeiros tempos, aos bem nascidos, é natural, segundo as próprias elites, cabiam-lhes o melhor ensino, a melhor comida, a melhor bebida, a melhor habitação. Aos demais - lacaios da sociedade primária - era dado o pior pão e o pior leito de morte, uma vez que a própria sorte não lhes tinha sido generosa.
E hoje! O pão de cada dia comido sofregamente são restos que caem da mesa dos ricos que, refestelados, dormem a sesta e o sono dos justos. Que justiça! A justiça deles só serve para eles mesmos e retira dos demais as oportunidades de crescimento, inclusive intelectual. Que sorte! Nada de sorte! Eles eram e ainda hoje são os sobejos e os dejetos retirados da forma como a sociedade se organizava e se ainda organiza... Cinco mil anos de história!... E tudo ainda gera tanta desigualdade entre os convivas do banquete pós-moderno...
Se, pela bem-aventurança dos deuses, quaisquer que sejam eles, tivesse eu alcançado a glória de nascer desta casta superior da sociedade, teria o direito supremo e inalienável à toda pompa de uma vida digna de ser vivida por merecimento, vez que já nascera com destino traçado! Se fortuitamente acaso tivesse eu sido originado de um berço desabastado, teria que morrer depois de décadas de pobreza choramingando as migalhas eternas dos superiormente desenvolvidos. Deus assim o quisera! Mas assim não foi...
E refleti um pouco mais. Lembrei de um certo Mário Alighiero Manacorda, pensador italiano, da Universidade de Bologna. De tantas ponderações, finda-se por concluir, a partir do pensamento do filósofo em apreço, que o capital pensa por si e pelos demais. Poucos são os eleitos. Muitos passam fome. E mil esforços são feitos e tantas teorias já foram produzidas ao lado e entrelaçadas com um desenvolvimento caótico e degenerante de uma sociedade cada vez mais amesquinhada e separatista.
Fui à era medieval. Lá encontrei, então, Campanella, Babeuf, Buonarroti. Já no século XVIII, vi Saint-Simon, Robert Owen, Cabet, Victor Considerant e ouvi suas utopias sociais tão bem pensadas, mas tão pessimamente colocadas em prática pelas elites detentoras do poder que detestam pobres pensantes e reinvindicativos de direitos seus. E o tempo corroeu essa galera aí em cima feito traça ou ferrugem. E os mandatários os prenderam e os deixaram morrer na masmorra ou na labareda por terem tido idéias extravagantes demais para um tempo seu de bruxas e duendes, de fogueiras e inquisidores. Mas foram pensadores tão coerentes e tal foi a sua contribuição que nós, do mundo dos educadores que hoje lhes são pósteros, não esquecemos de prestar as homenagens de que são merecedores, colocando-os, ainda medrosos, entre os poucos bem feitores desta ainda tão conturbada humanidade de desesperados em busca de que lhes sejam apontados os caminhos mais felizes, que possam ser trilhados sem atalhos e sem mais delongas que venham mais ainda para retardar o tão sonhado bem-estar de pobres, este que já deveria ter sido alcançado e (que pena!) não o temos visto! E talvez estejamos ainda longe de palmilhar as veredas mais ditosas para nós e para o futuro das nossas gerações. Mas há que lutar acirradamente... E as transformações acontecerão como conseqüência da luta que não nos deve afugentar.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h16
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Continuação (Para bem nascidos)
Eis então que um dia o tempo me trouxe a dupla Marx e Engels, gente da academia, das acaloradas discussões teórico-filosóficas de nível lá em cima. Intelectuais demasiadamente competentes, depois se tornaram obsoletos, não pela volatilidade das idéias, mas pelo entendimento trôpego e roto de gente humilde que, no dia em que conseguir aprender a ler realmente, vai exigir direitos que são tão seus, mas eles não sabem e, se o souberem, farão a revolução social de que tanto precisamos. Oh, Nikita! Os trabalhadores russos do início do XIX em vão tentaram adentrar o pensamento marxista, devido o nível intelectual precário e, por isto, viram ruir todo um império de teorias mal interpretadas e práticas mal acabadas... E tudo caminha por estradas tão tortuosas através das quais ainda se vê escravos chineses lânguidos nas plantações de arroz da China hoje capitalista. E as saídas são íngremes para nós, meros mortais, nesta busca tateante por uma melhor e mais perfeita visão desta gente e deste mundo de meu Deus... Haveria de ser assim?!
E a moça meiga da Biologia foi assistir aula minha para alunos do terceiro ano do ensino médio. Ficou estupefacta porque tratava da classificação de sujeito e predicado. Ora, bela Danielle, a escola pública ainda é para os milhões de cidadãos que sequer ousaram nascer em berços. Tiveram, sim, os pobres sonhos embalados em tipóias remendadas à luz da lamparina.
E o Fragoso diria que tantos comunistas já escreveram sobre o que agora escrevo... E eu responder-lhe-ia que as letras mortas não calam o peito dos que gritam nem têm ressonância aos ouvidos dos algozes que lhes causam a dor e o infortúnio.
* Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais da Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h15
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Canção desaparecendo
A Uélido Miranda Gurgel, in memorian.
É como nota aguda, lancinante, plangente, dolorida, do violino grego afinado ou de guitarra baiana que grita. E o som é tão fluído, penetrante, ardente, flamejante, que arrancou do peito do anjo um sangue espesso, tórrido, cortante. E o anjo já é o falcão ferido, que foi por uma lança atingido e agora cai, abatido, vertiginosamente, do alto despenhadeiro, base do seu primeiro e do seu último vôo. Bate com a cabeça angelical pássaro morto, e com o peito, e com as asas, e com o coração, pedra em pedra, surgidas na seqüência do grande salto para o fim. E o penhasco é tão alto, e as escarpas tão íngremes... Pobre anjo! Não mais voltará a sonhar e voar. Lembra-me, então, a figura encarquilhada do pálido monge tibetano a morrer de frio em penitência por um erro mínimo. Ou me vem à mente esquálida, esquelética criança etíope que é vagarosamente morta pela fome que lhe presenteou a humanidade... Por tudo isto, não resistiu.
É, sim, vivemos hoje a ilusão do pássaro que não tem ninho, nem onde pousar. Ou como o urso que hiberna no inverno à espera da primavera e, ao acordar, já está velho demais para viver, pois a hibernação durou cem ou duzentos invernos. E a neve era tanta e o frio tão intenso que o sono o capturou por tanto tempo. E a criatura já não é um ser vivo. É reles espectro semi-morto... É uma tênue alma que se arrasta... É o espírito, é a representação de um gigante que um dia foi poderoso e forte... Foi!
Levanta-te, ó passaro da liberdade nossa e de todos! Vai buscar a felicidade em outras plagas, em outros mundos ou em outros mares nunca vistos por ti. Agora, sim, este paraíso é muito mais teu, pois permanecerás até a eternidade a observá-lo do alto onde te permitiu a providência divina. Voa guerreiro e vai pousar com os nossos sonhos na altitude maior onde te será permitido ajudar-nos a preencher as lacunas deixadas por ti nas vidas daqueles que tanto amaste.
Os nossos sonhos são tantos e tão grandiosos que, na maioria dos casos, não cabem no curto espaço de uma vida terrena. Nós, que temos o privilégio divino de sonhar e ousar, poderíamos estar sempre preparados para, no meio do sonho, sermos apanhados de surpresa pela mão do Criador que nos quer fazendo o bem em outros horizontes deste mundo tão azul. Projetamos o futuro e não sabemos quando será chegada a hora e a vez do irremediável ponto final.
Talvez, se nos fosse dado conhecer o futuro, tivéssemos dito muitas outras vezes muitos outros adeuses aos que têm partido todos os santos dias de meu Deus, notadamente, esses nossos do convívio diário, com quem dividimos projetos e sonhos acalentados na busca de uma humanidade mais feliz, que se vão tão prematuramente.
E das ações de quem se vai ficam resultados maravilhosos porque haveremos de nos recordar sempre dos exemplos de dedicação, tenacidade e vontade de fazer bem feito e logo, como se amanhã já não fosse mais um dia entre os vivos... Mas não nos foi dado escolher a data da partida.
Caríssimo irmão! Nós nos lembramos, certamente, do amigo que foste. Honra-nos ter estado ao teu lado, ajudando-te a pensar o futuro destas gerações de sonhadores adolescentes, nossos alunos, a quem amamos justamente porque Deus nos colocou nas mãos a responsabilidade de ensinar alguns meios de melhor gerir a vida na busca de um futuro que se possa fazer brilhante. Temos sido professores até a nossa última hora, como esta que agora foi chegada para ti.
Tu te foste tão de repente e deixaste tanta dor e tanta saudade entre os teus que meras palavras não conseguem externar a emoção que fisga o peito. E Deus, na sua infinita bondade e sabedoria, haverá de nos ensinar as vias através das quais buscaremos o consolo, posto que sofremos perda irreparável.
Esta canção de réquiem desaparecendo é uma homenagem de todos quantos fazem o dia-a-dia do Colégio Estadual Barão do Rio Branco ao Professor Uélido Miranda Gurgel, nosso diretor, desaparecido em pleno fragor da batalha por uma educação de qualidade para o futuro das nossas gerações.
Segura na mão de Deus e vai, meu querido amigo.
* Cronista.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h10
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Arrogância e Truculência
Alguns diziam-na arrogante demais, como se alguém o fosse de menos. Outros a tinham como truculenta em excesso, como se alguém o fosse em menor escala. Certo é que as antipatias andavam ao seu redor de mãos dadas com a pouca ou nenhuma humildade no trato com os demais humanos. Eis, então, que, um dia, apareceu-lhe cavaleiro andante por sobre o seu coração rochoso e transformou aquela petulante alma num poço de serenidade.
Dias desses, no Parque da Maternidade, caminhava, logo à minha frente, o Manoel Fragoso, amigo dito do peito por não ter agora como caracterizá-lo melhor. Ele o faz desde a inauguração daquele logradouro público. Digo público. Antes, exercitava-se no campus da Ufac, onde alma alguma jamais sequer o perturbou. É a retidão da índole.
Na última terça, logo à frente do caminhante, apareceu grupo de rapazes e moças vestidos de branco em corrida leve. E mais um outro grupo. Pareciam as centúrias romanas na busca por vítimas dos déspotas. Vinham ao encontro do transeunte formados em três colunas, impávidos e colossos, ocupando todo o espaço da via para pedestres. Eles não gostaram daquele intruso que não quis sair da calçada à sua augusta passagem, mas não disseram nada. Mais um pouco adiante, uma jovem senhora, uma avó e um carrinho com bebê tiveram que sair do caminho da turba elegante. Depois, soube tratar-se de aspirantes a oficiais da nossa garbosa e utilíssima Polícia Militar do Estado do Acre.
O Fragoso veio ao chafariz do parque e voltou na ação diária que, segundo ele, há de aumentar-lhe os dias de vida, a não ser que continue a trombar com aquelas raivosas criaturas de branco. Logicamente, o reencontro foi inevitável, só que, agora, em local perigoso para a saúde. Um dos sobranceiros que vinha à frente, alto e espadaúdo, ao encontro com a vítima, disse em bom som: "Esse Zé Mané teima em andar na nossa contramão!"
Ora, o Fragoso fracote não podia sequer pensar em se desviar da turba. Se pusesse um pé no asfalto, teria arrancada a perna por veículos que saíam de um sinal que acabara de abrir.
Noutro desses bons dias que Deus nos dá, eminente cadete chegou um pouco atrasado ao terminal urbano para apanhar ônibus que o levaria a destino qualquer. O infeliz motorista já houvera partido e não podia parar o carro sob pena de causar acidente. Ainda dentro do terminal, feita a curva para a rua, eis que aparece na frente do ônibus o protuberante quase oficial, postado, incólume, de braços abertos a berrar a plenos pulmões impropérios contra o chofer que apenas não quis atrapalhar o trânsito. Os populares, estupefactos, assistiam a tudo e nada diziam já com medo daquela figura apoplética a desempenhar tão ridiculamente o papel do Calígula piorado... Quanta empáfia!
No primeiro caso, o grupo dos cadetes deveria correr através do asfalto, uma vez que a calçada para os transeuntes é estreita para três colunas em fila. O pessoal do Exército assim o faz. Eles não fazem, talvez, porque sejam mais bonitos ou emoldurados pelas belas figuras de moças que enfeitam a centúria mal-humorada. Ademais, ao Fragoso foi tolhido o direito inalienável de ir e vir só porque é magro e não pretende se tornar militar aos sessenta anos.
No segundo caso, fica constatada a imensa vontade do moço fardado em tornar-se um humano superior aos demais. É claro que ele já é!
A petulância é transmitida por oficiais antigos que se revoltam porque ganham demais. Há na Justiça uma pilha de processos contra os truculentos. E tudo é fruto da precária interpretação dos preceitos democráticos tão bem sugeridos pela Carta Magna.
Ainda há inteligentes que não entendem o real sentido da democracia.
* Doutor em Filosofia e História da Educação/Unicamp. Pesquisador do Depto.de Filosofia e C. Sociais/ Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h08
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Da decadência
O edifício foi sendo erguido por séculos a fio. Trouxeram, não se sabe exatamente de onde, vergalhões da espessura de árvore mediana. Tijolos feitos de argila nobre foram mandados vir talvez do oco do mundo. Argamassas e pedras, azulejos e louças, enfim, deram moldura fantástica à imponência do saber. Malgrado, porém, é observar hoje que os alicerces foram assentados sobre bases de areia pura, ou lama densa. E tudo está desmoronando, fatidicamente, como ruem os impérios montados a partir da arrogância de déspotas ineptos que desconhecem a real validade do labor científico.
Fora um dia perguntar sobre quem poderia pagar dívida antiga que ainda quero receber, apesar da década que vi passar célere, como é próprio da era da cibernética. Nada havia mudado. O patrão ainda é o mesmo. Deve a mim e a milhares de outros. Deve ainda às viúvas de uns tantos que morreram na esperança de ter casa própria, ou tratar o câncer que lhes corroeu as entranhas. Coitados desses irmãos desafortunados.
Dada a época do ópio nacional, em que o povo brasileiro esquece as agruras da vida e só pensa em bola, rapidamente fiz analogia barata. No campeonato nacional de futebol, o maior do mundo, quando os jogadores não são pagos, ou os patrões lhes devem, os times jogam mal e vão para o inferno das divisões de acesso. Da mesma forma está, agora, o nosso serviço público federal, indo já para o ralo de um terceiro estágio, onde as almas só ficam vendo o tempo passar, à espera de que Deus lhas tire desse limbo lancinante em que estão jogadas desde a época do Prof. Dr. Cardoso, F. H.
Não existe melhor incentivo que o dinheiro, é claro, uma vez que este é um tempo em que o capital se sobrepõe aos caprichos do destino. Aumento salarial é sempre motivo de júbilo. Contudo, o funcionário público federal dos dias atuais, vergonhosamente - para ele e para os seus - passa por mau pagador, uma vez que as perdas salariais foram tantas que o nível de vida veio aos rés do chão e o traste não consegue pagar o que deve. Uma parte considerável está sob os pés de um agiota que lhes cobra juros escorchantes e atende pelo nome de Banco do Brasil. Pior é notar que a velha carroça rota anda cheia de tralhas, monótona, sem saber onde parar. Somos os maiores pagadores de impostos, apesar de pobres. Não logramos merecer direitos notoriamente constitucionais. Na Justiça, as causas são ganhas, mas o Governo as protela e não as paga, como é o caso do processo relativo à URP, do outro relativo à GAE, dentre milhares de processos individuais que demoram anos para a solução final, embora as leis desta terra de caolhos digam que as pequenas causas deverão ser pagas em, no máximo, dois meses.
E me vem à memória essa balela que são as câmaras recursais. Vi a senhora Ellen Gracie, atual presidente do STJ, dizer que são os recursos que fazem a morosidade da justiça brasileira, e com razão. Resta-me saber, entretanto, se a Meritíssima terá punhos suficientemente fortes para lutar contra a casta de enganadores que lucram porque são protegidos por este estratagema capitalista que esconde os verdadeiros maus pagadores, como o Governo Federal.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h04
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Continuação (Da decadência)
Um almofadinha que atende pelo nome artístico de Fernando Hadad, o elegantíssimo Ministro da Educação, deitou palavreado no Bom Dia Brasil da última quinta-feira. Disse o belo que, agora, logo após a aprovação do Fundeb - que já está no Congresso há um ano - a reforma universitária passaria pelo crivo da análise da Câmara dos Deputados, como se aquela coorte espúria tivesse condições de analisar o algo mais que não sejam os seus interesses domésticos e particulares, com raras exceções. Falou o Ministro, ainda, sobre a questão da melhoria da qualidade do ensino que estaria no bojo da dita reforma. Comentou sobre as quotas para negros pobres e pobres brancos. Esqueceu, todavia, de fazer referência mínima à questão salarial. Nada comentou sobre a realidade pulsante que é um professor-doutor ganhar três mil reais líquidos, para dar aulas e fazer pesquisas, enquanto um vereador de um vilarejo qualquer, sem nenhuma preparação, vai para muito além dessa merreca. Tão somente para legitimar este argumento, devo asseverar que as universidades públicas são as responsáveis diretas por noventa por cento da pesquisa científica levada a efeito no Brasil.
O Hadad sabe, com certeza! A qualidade do ensino superior brasileiro foi avaliada pelo Paiub (Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras), à época de Itamar Franco. Observou-se que havíamos regredido a níveis do início dos anos cinqüenta do século passado. As instituições particulares, na sua maioria, tropeçam na arrogância dos alunos e na ambição dos capitalistas que, ávidos, mordem tão suculentos nacos de carne. E o estado das instituições públicas é precário porque os agentes maiores da transmissão do conhecimento científico, os professores, têm sido tratados, desde sempre, como a escória social que quer dar escada para os mais afoitos das classes despossuídas fazerem a revolução que temos buscado.
E esta não é a falência das elites. É a falência de um sistema crasso que ainda não conseguiu enxergar que a transformação social deve, obrigatoriamente, passar, antes, pela valorização dos que fazem da ciência e da transmissão do conhecimento a razão e o sentido das suas vidas.
* Pesquisador do Depto. de Filosofia e Ciências Sociais/Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h02
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Orgulho e preconceito
Do arvoredo ao lado da antiga vivenda, sopra amena brisa matinal. O dia anuncia-se bem morno, como é comum quando o mês é março por estes sítios amazônicos. Estou comodamente sentado sob o alpendre da casa que foi de um dos meus avós. A mesma aragem trespassa o pano grosseiro com o qual foi feita a roupa. O ar adocicado refresca os pés nus. Este é hoje um local deveras propício para as reflexões que me têm tomado o tempo nestes dias da vida. Antes, todavia, o barulho ensurdecedor de um grupo de netos saudáveis fazia daquele um lugar bastante alegre e feliz.
Que me queira perdoar a querida amiga Jane Austen, inglesa de Hampshire. É que o título destes escritos está sendo copiado de um romance seu levado a público nos idos do século XVIII.
Cá de minha parte, assevero-vos que ainda não sou filósofo. Ainda não completei oitenta anos. Com quase meio século de idade, ainda me tenho enquanto um homem imaturo que se esconde por trás de cabelos tingidos e cremes rejuvenescedores. Contudo, o singelo poder do ofício permite ao poeta, agora, ficar sempre atento a tantos quantos buscam se afogar, antes da hora propícia, nas taças do veneno que os seus próprios rins e fígados destilam.
Tenho vivido insondáveis horas na busca por explicações e justificativas para comportamentos que, de per si, não poderiam ser rotulados enquanto próprios dos humanos que, há um tempo, houvéramos buscado ser.
Na esquina da minha vida, por último, apareceu homem tosco e rude que dizem-no detestar os mais humildes, posto que estes sequer aprenderam a gastar o pouco que ganham ou têm. Em vista de uma nova realidade minha, e tão somente minha, vez que crápulas e desordeiros sobrexistem desde que o mundo é mundo, noto-me um tanto propenso a desacreditar de uma vez por todas que a harmonia é objetivo primordial do ser. Duvido!
Eu próprio não sou exatamente aquilo que alguns o dizem. Teria sido bem melhor, se alguns meios onde convivo não me tivessem tornado um arredio, distanciado de certas convenções crassas e estratégias malévolas que as guerrinhas domésticas deles se lhes impõem. Não tenho orgulhos maiores, talvez por ter vindo das castas mais subestimadas desta sociedade encarquilhada e maltratada pela hipocrisia de muitos.
A minha parca Humanidade hoje atravessa os dias de Deus sempre numa busca incessante, numa caminhada sem fim, sempre à beira do abismo. A travessia a nado, o caminho íngreme, as fendas das rochas do despenhadeiro ao meu lado, os arbustos da trilha, tudo, tudo, tudo é severamente desordem, como se nenhum de nós buscasse a ordem para o caos em que se tornou este paraíso irrecuperável depois da invasão dos humanos. Pior é notar que estes são tempos de desesperança e as nossas incertezas são as nossas maiores esperanças. Vive-se eternamente esperando pelo que não virá, pelo que não quer chegar e pelo que não ficou de vir... E muito disto ocorre porque há os modernos escribas e fariseus, há os hipócritas e orgulhosos cujo papel mais relevante é obnubilar ou desviar da verdade os espíritos mais humildes, que crêem na farsa montada com o único fito de lhes enganar e, até, lhes tomar dinheiro ou fazer com que o justo vencimento não lhes chegue às mãos. Esta seria, sim, a fórmula única, irremediável e última que lhes resta para debelar os males físicos e espirituais que lhes afligem.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h57
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Continuação (Orgulho e preconceito)
"Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes; quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim." Esta é uma assertiva do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo São Mateus, capítulo 25, versículo 40. E eu, humildemente, acrescentaria: o pior cego não é aquele que não quer ver, mas aquele que vê e sente, mas não toma atitudes que venham para minorar o sofrimento do irmão. Castro Alves escreveu no Navio negreiro: "Deus! Oh, Deus! Onde estás que não respondes!? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus!?..."
Digo-vos, então, que não há eternidade serena para os orgulhosos e muito menos para os preconceituosos. Viemos do pó e ao pó voltaremos, juntos e irremediavelmente. Há, entretanto, diferença abrupta. O que espera os lobos lá adiante, senão um leão faminto que se deliciará com vísceras tão gordas posto que tão bem alimentadas?
Ora, irmãos! Todos deveis enxergar um palmo adiante dos narizes rotundos. O orgulho é um grande mal perante o Deus criador de todas as coisas. Os humanos, todos, hão de passar por um julgamento que é reto, onde não existe a bajulação, a apropriação indébita, o casuísmo, o apadrinhamento, a manipulação de resultados, o assalto ao erário, dentre outras ervas daninhas da minha triste realidade social. Vivamos e veremos!
* Cronista do Depto. de Filosofia e C. Sociais/Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h56
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