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Impressões gerais
 

Nome de mulher

De outrora lembrava um tempo em que retirantes de todas as áridas plagas, morrendo de sede, acorriam rumo à capital em busca de ar, água, vida, sobrevida, morte e vida... Ânsia de ir e não voltar. Vontade extrema de vir e ficar, aqui, sorvendo o ar adocicado da mata levemente cortada por rios caudalosos, lindos, como se um pintor clássico em tênues pincéis houvesse caprichado tanto. Deus! E como gostaram do cheiro verde que se esparrama a partir da árvore de onde jorra o látex que criou a mim e toda a raça lá de casa.

Os ancestrais vieram do alto sertão do Brejo Santo, ali não tão perto da Meruoca, onde o homem nasce macho e o carcará bota quebranto no cavalo velho, para que morra logo e lhe mate a fome aquilina. Arrastaram-se por dias e findaram por subir altitude impressionante. Era o Baturité. Lá em cima da serra, tudo era verdejante e fazia um friozinho bom demais. Arrearam as tralhas poucas e rotas, beberam água limpa que há muito não viam e, de tardezinha, observaram nuvens e depois chuva... E tome-lhe chuva! Então, ergueram moradias, fizeram filhos e ficaram abastados em fins do século dezenove.

E ali Maria nasceu, no Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1896. E a vida já era boa. Poucos anos mais tarde, em 1906, aos dez anos, Maria arranjou um tal que lhe queria por esposa. Ela o queria, mas a família, já arrogante, o tinha por gente de pouca ou nenhuma qualidade. E haja encrenca. Certo é que, por causa da discórdia, veio com a mãe, o pai e um irmão, José, para Belém do Pará, onde se fixaram até 1911. No ano seguinte, houveram por bem partir rumo ao desconhecido da floresta densa, em busca de nova fortuna, visto que no Ceará haviam deixado o que tinham aos cuidados de tios e primos inescrupulosos - os Mota - depois tornados senadores e governadores de lá... E arribaram para o Acre. Para cá trouxeram, sim, dignidade, vergonha na cara e vontade de trabalhar.

De Belém, Maria tinha pouca lembrança. Contou-me que, em certa ocasião, já garota comprida, vinha dos primeiros dias na escola, com um bando de crianças menores, ao que alguém disse que parecia ela ser a mãe do grupo. Envergonhada, nunca mais estudou. Não aprendeu a ler. Depois, numa noite, entraram em um navio, no Cais do Ver-o-Peso. Zarparam. E as luzes da cidade brilhante foram ficando cada vez menores e cada vez piscando mais, até desaparecerem sob o manto da escuridão. Disseram ao pai que, em Xapuri do Acre, moravam uns turcos e uns portugueses, bons empregadores, principalmente de mão-de-obra barata. Aqui chegaram em janeiro de 1912. Na atual Rua 24 de Janeiro, Zé Calixto, o pai, construiu um barracão imenso, de mais ou menos cinqüenta de frente por uns treze de fundos, paralelo ao passeio público, com a ajuda de Maria, a mãe. Depois, dividiu-o em cinco casas de parede-e-meia, escolheu uma e vendeu as demais, a preço de banana, para outros sertanejos que cá chegavam para não morrer de fome.

Um desses cearenses recém chegados era Arcelino, homem de quarenta anos que, em seguida, desposou Maria, de vinte e dois, em quem fez sete filhos. Aos sessenta anos, já fraquinho de tanto sol e chuva, morreu o marido, de pneumonia, ficaram os filhos e Maria, prontos para enfrentar as asperezas do destino. As três meninas mais velhas foram trabalhar numa usina de beneficiamento de castanha que havia na Batista de Moraes.

Depois, a mais velha casou com um cearense de nome Vicente Ivenção. A do meio casou com outro cearense de nome Raimundo. E a mais nova esperou um pouco mais. Dos filhos homens de Maria, dois morreram de febres palustres, ainda crianças, o outro contraiu o tétano e um quarto a hepatite. Foram-se e ficaram as moças.

Contava Maria que, no início da década de sessenta, havia em Xapuri um aspirante a prefeito chamado Jorge Kalume. Moço novo, rico, bonito, de idéias brilhantes e atitudes um tanto inconseqüentes, fez campanha política em estilo pesado. Um dia, Maria estava em sua máquina Longlife a costurar o presente e o futuro dos seus. Eis então que, numa tarde calorenta, chega à velha casa o candidato que, em tom autoritário, disse que precisava falar-lhe, ao que Maria, na sua infinita afoiteza cearense, sequer levantou os olhos, e continuou a trabalhar. Ela sempre quis votar no PTB de Getúlio mesmo sem conhecer uma letra do alfabeto. O moço era autoridade, se ofendeu e colocou o pé na pisadeira. De pronto, a máquina parou. E Maria, já com o sangue pelas ventas, levantou rapidamente e meteu a mão nos peitos do aspirante que foi parar no pé da parede, sentado. Agrício, um apaniguado, ajudou-o a levantar-se. À noite, Sabiá, um menino de nome João, a mando do candidato, veio soltar rojões que batiam na parede frontal da casa de Maria. Um desrespeito pra quem veio do Ceará e não gosta de desaforo. Maria, então, pegou de um terçado e saiu correndo pela rua atrás do moleque que se enfiou em baixo das saias de Maria Meira, madrinha do sacana. Esta, ao saber do acontecido, aplicou-lhe uma sova da qual ele jamais se esqueceu.

E Maria já se foi, mas não deveria ter ido, em vista de tantos exemplos de vida e persistência. Aos noventa e cinco anos, cega, ainda tecia crochê e contava casos reais de uma vida concreta.

Esta não é uma homenagem a uma mulher em particular, mas a todas quantas atravessaram tantos sertões na busca pela construção da dignidade dos seus... Maria era Das Dores. Maria era minha avó matriarca cearense cheia de fibra. Obrigado por tudo, Maria!

Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h14
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E Deus fez o homem!

No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne e habitou entre nós. O Verbo era a palavra e a partir desta todas as coisas foram criadas. E Deus, então, partiu para a elaboração do ser humano, tarefa sublime que seria a sua obra prima, segundo as antigas escrituras. E o paraíso era de uma harmonia total. Todavia, o perrengue teve início quando Adão bolinou Eva, a mais afoita dentre todas... Acabaram-se os tempos de calmaria e a zorra começou, mas, só bem depois, é que surgiu entre nós a figura enigmática do professor. E haja discórdia!

         E aqui nesta terra de meu Deus, todos hão de lembrar muito claramente que, um dia, Alexandre Herculano, o médico, atendeu Inês de Castro, no pronto socorro da Unimed. A moçoila, já quase advogada, sentira-se tão somente indisposta, mas aplicaram-lhe uma injeção que a matou. A classe médica se uniu, rapidamente, arranjou uma viagem para o curandeiro português e findaram até por livrá-lo do flagrante e dos processos que poderiam correr vagarosos, solertes, aqui e ali... E também havia um outro, o Ramalho Urtigão, que amputou membro de quem estava gripado ou era pobre, ou as duas coisas. Jamais foi melindrado pela lei, até que Deus o levou aí pelo século XIX. Ô povo unido!

         Dia desses, fiz abordagens sarcásticas a respeito de advogados que não sabem usar o dicionário ou desconhecem a utilidade dos índices onomásticos, e ainda se dizem doutores da lei. O máximo! Taxei-os de rábulas. E foi pouco. Veio a mim, então, sisudo procurador federal a exigir que baixasse o tom dos meus ditos e feitos, posto que estaria mexendo com parte bizarra de uma categoria que dá nó em pingo d’água. Que classe esperta!

         Depois, um programa de televisão colocou no ar Lílian Witefibe, a âncora magra. No meio da prosa, ela asseverou secamente que jamais leria Diogo Mainard pelo fato de o mesmo não ser jornalista. Todos os presentes perceberam e tentaram relevar ou compreender a gafe, mas ninguém contrariou a moça, a fim de não prejudicar ainda mais a estilhaçada imagem. Ô categoria compreensiva!

         Então, fui convidado a participar de uma reunião entre professores, nas dependências do Ceseme. Lá estavam alguns próceres, como Mário de Sá Carneiro, Gil Vicente, José Régio, Sá de Miranda, dentre outros. Entrei e fiquei ali pelas últimas cadeiras, como querendo explicar a mim mesmo a ojeriza por reuniões cuja finalidade é decepar pescoços muitas vezes inocentes. Na mesa central, postavam-se os quatro mais eficientes e responsáveis professores dentre todos deste rincão acreano, segundo eles mesmos. Discutiam sobre a irresponsabilidade da grande massa dos

Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h13
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cont.

professores da rede estadual. Ative-me apenas a observar, já me sentindo um protozoário que em nada contribui com a coletividade que me deu guarida. Eis, então, que, de lá, um dos grandes mestres citou o nome deste escriba e professor acusando-me de ter abandonado, em outubro de 1994, um certo Liceu Lisboeta. Vesti, então, a camisa do ineficaz que nunca fui. Agradeci as palavras elogiosas e solenes do amigo professor que a mim se dirigia. Era muita deferência ser lembrado por pessoas de tão fino trato. Depois, acrescentei que tinha estado por cinco meses à espera de uma liberação do Governo que me permitiria cursar pós-graduação a nível de Doutorado, uma vez que o meu projeto de tese tornara-se apto na insignificante Unicamp. O secretário titular da administração, Paulo Pedrazza, havia reprovado todas as minhas pretensões posto que, segundo ele, não seriam necessárias cabeças pensantes para desenvolver um Acre como este. O tal almofadinha adoeceu gravemente e deixou em seu lugar alma benévola que atende pelo nome de Terezinha Marçal. No mesmo dia, o meu processo foi deferido e o imediato afastamento também. Consideraram que tinha família e precisava providenciar a transferência da minha galera para São Paulo. Pense numa Terezinha bacana!

         Em síntese, sem saber exatamente a realidade dos fatos, o caríssimo professor meteu-me uma camisa de força e já estava prestes à consumação do ato que seria tirar o banquinho que me ligava ao laço da forca. Ali mesmo, com todo o respeito ao santo, fui crucificado, morto, sepultado e voltei ao terceiro dia, tudo por obra e graça de um genial professor que não enxerga os demais enquanto parceiros da grande obra que é a transmissão do conhecimento para as novas gerações. Ô povo desunido!

         Jamais um potentado mestre como este Ramalho Urtigão sensibilizar-se-ia com uma mensagem de união e compreensão para com o papel desempenhado pelos reles professores que ralam nesta nau de pau-a-pique. Seria demais! Estaria plantada a semente de uma classe que não mais faria da difamação e do despeito armas tão brutais e inexoráveis contra os próprios irmãos.  



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h12
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A ordem do mérito

            E quando a injustiça se levanta, o poeta incansável não cala e a sua pena fala e grita, a plenos pulmões, clamando revoltada contra os imorais. E brande a espada que é a arma e a arma que é o verbo que, se bem conjugado, a pessoa, a tempo e a bom modo, fere feito o açoite ardente no lombo também daqueles que vomitam palavras desgovernadas, a torto e a direito, contra os mais justos dentre todos os justos da vida minha. Levanta-te, ó bardo, e vai em defesa da verdade nua e crua saída da memória das almas boas que houveram por bem fazer tanto bem a ti.

         Em Xapuri, conheci João e Maria, que também eram Dias de Figueiredo. Conheci Eurico e Linda, que também eram Gomes Fonseca. Tenho-os como meus avós longínquos, e muito próximos, posto que eram vizinhos da rua 24 de Janeiro e da Floriano Peixoto. São eles, junto com os meus parentes, seus amigos do início do século XX, meus respeitáveis mortos que velam pelas nossas melhores ações, lá em cima, muito acima, onde Deus houve por bem lhes acolher.

         Maria era parteira e viu muitos dos nossos nascerem. E, num dos dias de abril de 1963, ouviu gemidos de dor no meio da madrugada silenciosa. Era minha mãe que dava à luz o Jorge, um irmão que também partiu para outros mundos preferidos de Deus. E à cabeceira úmida e quente onde foi feito o parto estava uma mulher a quem o meu povo deve de tudo um pouco. Portava ela à mão um copo com um remédio que aliviaria as tensões da parturiente. Era a Euri, de mim, um pouco de tudo, de professora a mãe e irmã e tia e meu exemplo... Ó céus! Ó candura em pessoa!

         Euri é filha de Eurico e Linda. Ele, oriundo de Portugal, sempre risonho, sempre de bem com a vida até que a morte o levou. Ela, do lar, especialista em criar filhos e filhas prendados e úteis à comunidade.

         E dizem que já se nasce devendo. Comigo não aconteceu diferente. A primeira professora, Enedina Sant’Ana, atirou ao fogo a palmatória que me acalmava. Orfisa Camelo Bacelar, do quarto ano primário, ensinava-me, gratuitamente, Matemática, enquanto quebrava castanhas na sua fabriqueta de sabão em barra. E Euri, do ginásio e do pedagógico, me fez aprender datilografia, de graça, numa escola sua montada na varanda de casa... Em verdade, meus pais não tinham posses e elas o percebiam, e queriam ajudar. E eu sou feliz,  e nós lá de casa somos muito felizes porque tais mulheres fizeram por mim e por todos tanta coisa boa. Também, pudera! Deus as enviou para fazê-lo.

         Este ano, na festa do Padroeiro São Sebastião, permanecemos, eu e meu irmão Marcos, quatro dias na terra natal. Por três vezes tentamos reencontrar a

Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h06
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cont.

musa da minha didática, a Professora Euri. Se íamos à residência, estava ela na Igreja organizando a festa. Se íamos à Igreja, ela estava ocupada, inclusive, prestando assessoria de alta competência ao Padre Chagas. Enfim, no dia do santo, findamos por encontrá-la depois da procissão. Abracei-a carinhosamente e ela perguntou por minha mãe. Quanta meiguice! Tanta solicitude! Quanta dedicação! Tanto amor!

         Júlio Figueiredo, esposo de Euri, era filho de Maria e João. Foi prefeito de Xapuri entre o final dos anos sessenta e início dos setenta do século passado. Aos doze anos, eu já atijolava ruas e era servente de pedreiro. E o homem trabalhou, sim, na medida do possível, conforme registros da revista Momento, edição de 1969, que faz parte dos meus arquivos.

“Ao assumir a Prefeitura Municipal, em 15 de novembro de 1966, Júlio Dias de Figueiredo voltou sua atenção para o trinômio Educação, Energia e Obras públicas.”

            Reabriu dezesseis escolas que se encontravam fechadas, inclusive o Ginásio Antero Soares Bezerra, construiu a Escola Profa. Luzia Otávio Veloso, dentre outras na zona rural. Recuperou os serviços de energia elétrica e doou terras do município para a construção da termelétrica da Eletroacre. Durante o seu mandato, foi construída a caixa d’água que ainda hoje serve à população. Foram construídas quatro pontes no interior, inclusive, a ponte do Bosque, e ainda foram feitos serviços de conservação nas existentes. Recuperou o prédio da Prefeitura Municipal, adquiriu terreno para a Câmara dos Vereadores. Trabalhou na pavimentação das ruas 6 de Agosto, 17 de Novembro, Coronel Brandão, Batista de Moraes e 24 de Janeiro. Construiu uma olaria para a produção dos tijolos utilizados na pavimentação das ruas. Recuperou o Posto de Puericultura.

Para que dizer que um homem desses roubou o erário público? As verbas eram mínimas para um rincão enfiado no meio da Amazônia. Se vivo Júlio estivesse, aqueles que lançaram as acusações não teriam coragem para tal.

         Ofensas por acaso dirigidas aos membros mortos ou vivos da minha família estarão causando danos morais à tradição da gente pobre e trabalhadora que nós sempre fomos. Em casos como este, o Ministério Público seria acionado dentro da maior urgência possível, tudo sob o amparo da eficácia e da competência de um advogado, procurador federal aposentado, filho do meu pai e da minha mãe.

         Deixa-me perplexo o fato de a canalha ofender pessoas mortas a quem sequer conheceu verdadeiramente. O respeito maior é o justo merecimento dos que deram toda uma vida por uma cidade, pelos seus filhos e pelos filhos dos outros que eram considerados filhos seus. Entristeço porque a imoralidade sobe as escadas dos dignos e os deixam pensantes acerca dos porquês que poderiam justificar o injustificável achincalhamento. Todavia, fico feliz por poder dar a mão amiga à memória dos que foram vilipendiados pela sordidez de um crápula que não me faz bem sequer lembrar o nome.

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h05
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A política às avessas

Prometi fazer algumas observações relativas à política, principalmente como a vemos e a temos cá entre nós, no Brasil. É que estou atendendo aos meus alunos e, também, a dois amigos: ao Manoel Severo, doutor em filosofia, meu guru, e ao Fernando Melo, nosso bom secretário de segurança durante algum tempo.

         É oportuno dizer aos mais jovens que a participação no processo de escolha das lideranças políticas é deveras importante. É fato que todos têm o direito de reclamar pelo que não foi feito ou pelo que foi mal feito. Mas, antes, é preciso que assumamos a responsabilidade de votar em pessoas da nossa inteira confiança, aquelas em quem já não sobra nenhuma sombra de dúvida com relação ao caráter de homem íntegro comprometido com os demais membros da sociedade. Se houver uma pontinha de desconfiança, por menor que seja, é melhor averiguar ainda mais, isto, sem dar crédito a conversas vazias que têm por finalidade apenas denegrir imagens.

         Marilena Chauí (Convite à filosofia. SP : Ática, 2003) leva à reflexão ao fazer a seguinte pergunta: a política é uma atividade específica de alguns profissionais ou concerne a todos nós, porque vivemos em sociedade?

         Como se observa, usamos a palavra política ora para significar uma atividade específica (o governo),  realizada por um certo tipo de profissional (o político),  ora para significar uma ação coletiva, como o movimento estudantil nas ruas, por exemplo. Afinal a política é uma profissão entre outras ou é uma ação coletiva?

         No dia-a-dia, temos nos deparado com expressões como "política universitária", "política da escola", "política do hospital", "política da empresa", "política sindical". Aí não há referência nem ao governo nem aos políticos. As pessoas que estão à frente dos destinos das universidades ou das escolas, os professores, devem estar convenientemente preparadas para a solução dos problemas relativos a esses setores da sociedade. Assim como o médico, o empresário, o sindicalista devem estar seguros para o bom desempenho das responsabilidades atinentes aos seus afazeres. E a grande parte das universidades, das empresas e dos sindicatos são bem dirigidos e cumprem o seu papel na sociedade, isto, porque há gente preparada intelectualmente para este fim. Se assim não fosse, a falência seria do povo-Nação. Enfim, para cada setor haverá dirigentes capacitados. Se não o forem, a coerência aconselha demiti-los, urgentemente, para o bem de todos... E é também assim que devemos fazer com os maus políticos, os sanguessugas, os mensaleiros, os incluidores digitais e toda essa fauna do mal que só quer para si.

         Na verdade, é conveniente desaconselhar a covardia. Acovardar-se é a pior saída. Se fugir o bicho pega e se ficar se come o bicho. Nas salas de aula desse Brasil de meu Deus, aqui e ali, há sempre aqueles professores ou alunos que dizem não gostar de "discutir política". Ora, senhores, a política ampla, aquela que diz respeito à educação, deve fazer parte do dia-a-dia de todos quantos vivem a instituição escolar. O professor que escolhe outro caminho deveria largar o posto de uma vez por todas.

         A política educacional acima tratada não pode ser confundida com política partidária. Enquanto professores e diretores têm muito claro e estão preparados para as providências que resultem no bom aproveitamento dos alunos, os partidos políticos, na maioria dos casos, são compostos por proxenetas e subservientes que não visam o bem público, mas apenas abocanhadas salivares nos gordos nacos do erário. São estes tais que, inclusive, sequer têm condições ou nunca tomaram conhecimento da linha ideológica que suas agremiações muitas vezes só as têm nos estatutos nunca lidos e, quando lidos, sempre interpretados de modo a prejudicar os interesses do povo.

         Por isto, há que reafirmar: a política é uma ação coletiva, com certeza. E é este coletivo  -  notadamente os mais pobres, mais prejudicados  -  que deve tirar do emprego esses tantos que têm se afeito à mentira, à apropriação indébita, à manipulação de resultados, ao assalto ao erário, à extorsão e ao crime de uma forma geral.

         Outubro virá. As eleições serão comentadas pelo Brasil afora. É claro que o candidato escolhido é gente de alta confiança. Sobre ele não pesa nenhuma acusação. O homem é bom realmente... E  se não o for? Aí entraremos, juntos, num prejuízo que perdurará por anos a fio, uma vez que o meu "político" gostará da "profissão" e não a quererá largar nunca por causa do bom salário. Convém observar que, se deixarmos o poder nas mãos dessas ratazanas públicas que, além de enganadoras, não têm preparo intelectual suficiente para o cargo, a tendência é a ruína social pelo roubo e pela obstinada incapacidade de fazer bem feito o que quer que seja.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h40
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A inveja absoluta

A inveja é um sentimento tão destrutivo que corrói o invejoso por dentro, pela medula; fustiga-lhe a alma e faz sumirem as melhores amizades. Trata-se de um mal que muitos psicólogos denominam "complexo de Caim".

         Está no dicionário Aurélio: "complexo é um conjunto de representações ou idéias estruturadas e caracterizadas por forte impregnação emocional, total ou parcialmente reprimidas, e que determinam as atitudes de um indivíduo, seu comportamento, seus sonhos etc."

         O problema de Caim não foi propriamente ciúme, mas inveja. Ao ver que Deus se agradara do sacrifício de Abel, ficou consternado com a felicidade que viu no rosto do irmão e demonstrou, aí, um sentimento pernicioso que corrói outros nobres sentimentos. A inveja incontrolável leva o seu possuidor a desejar o que não é seu ou o que é alheio. Mas o problema não é querer possuir algo semelhante ao que o próximo tem, mas querer aquilo que pertence ao próximo, que não é seu naquele momento, como a felicidade que rejubila um casal vizinho.

         Quando é alimentado, esse tipo de inveja pode levar à violência. Uma pessoa invejosa maltrata e pisoteia os que estão em seu caminho como se tudo fosse normal. Ela perde a noção do que é fraternidade, amor e respeito ao outro. Para o invejoso, poucos são os humanos que têm algum valor. A inveja, como está na Bíblia, “é a podridão dos ossos” (Provérbios 14:30). “Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins” (Tiago 3:16). E dizem que a inveja tem cinco filhas: murmuração, maledicência, ódio, felicidade pela desgraça do próximo e aflição pela prosperidade do irmão. Em verdade, fazer a vontade de Deus (não mentir para prejudicar, por exemplo) pode despertar a ira até mesmo de alguém muito próximo de nós.

         É preciso, sim, buscar o autocontrole dos maus sentimentos. Vivemos num tempo em que a inveja é estimulada pela febre de consumo de nossa sociedade. É mais ou menos assim: um parente trocou de carro, é hora de trocar o meu também; o vizinho fez uma piscina, por que eu também não posso ter uma? O colega recebeu uma promoção, por que não eu? É nossa obrigação dominar desejos que podem vir a prejudicar a vida financeira, a relação familiar e o semelhante.

         Pois bem. Renato de Oliveira é um moço que um dia disse ser eu o irmão que ele não teve. (Nem tanto!) E então veio a mim defender tese mais esdrúxula pela falta de coerência do que pela ilegitimidade da parca defesa. Segundo o viajante tresloucado, a respeito de quem lhes escrevo, o Partido dos Trabalhadores, no Acre, deveria ser derrotado nas eleições de outubro porque existe uma meia dúzia de coordenadores, gerentes, secretários e chefes de gabinete que são de uma arrogância ímpar. Fiquei bastante meditativo e concluí que esses tais arrogantes assim são porque não sentem que os cargos lhes subiram à cabeça. A bem da verdade, até as suas esposas os amam apesar do bizarro que é o pedantismo ostentado em público. Essa meia dúzia a que se refere o moço em apreço, segundo ouso pensar, deve ficar exatamente onde está, no poder. O projeto do PT de Jorge Viana e companhia é muito maior que a pose destes tais. Amo o Acre e não é porque o fulano e o sicrano não falam comigo que eu deixaria de dizer aos quatro ventos que os melhores nomes são os que, hoje, constroem este Estado segundo a escala de grandeza que um dia sonhei.

         Em suma, as raízes da inveja estão carcomendo o juízo de um pobre moço que nunca teve nada porque jamais lutou para construir coisa alguma. Melhor de tudo é sentir que o Acre e o meu povo são muito maiores que as tristes mentalidades dos que não conseguem ver que hoje, finalmente, temos marchado céleres rumo ao desenvolvimento porque tudo o que é nosso foi "conquistado nobremente com armas na mão".

         Ser egoísta não é viver segundo os nossos próprios desejos. É egoísmo, certamente, exigir que os outros vivam da mesma forma que nós gostaríamos. Assim, se o teu sol não brilha, não queira jogar água na tenda do vizinho. É inveja pura. É desvio de um caráter doentio digno dos esforços de Freud e sua bela ciência.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h05
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