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Impressões gerais
 

Ensaiando o cartel

Ensaiando o cartel

O Supermercado Araújo é um empreendimento digno dos aplausos da comunidade, principalmente, porque tem orgulho de ser acreano, numa alusão muito bem aproveitada ao mote publicitário do nosso Governo da Floresta. Quem é da terra, como nós, temos visto o espetáculo do desenvolvimento resplandecer, para a alegria dos bem aventurados que acreditam fazer desta parte do sopé dos Andes um pedacinho da civilização brasileira marcado pela justiça social e pelo trabalho perseverante.

Eu vi os irmãos Araújo crescendo à custa de muito trabalho a partir da bravura de um pai que saiu do fundo do seringal para dar melhores dias aos filhos. E lutou e lutou. E conseguiu. Nos idos de 1986, inclusive, fui professor de um deles, o caríssimo Ádem, ainda hoje um amigo de quem faço questão de preservar a amizade. Sempre gentil, sempre solícito, de repente, aquele garoto tranqüilo, comportado, é hoje o líder maior dos comerciantes desta minha praça hoje tão promissora, por obra e graça desses outros garotos que tão bem dirigem este meu ótimo Estado d’alma chamado Acre. De parabéns estão todos!

Ocorre-me, entretanto, sem querer dar-me o papel de conselheiro, fazer uma pequena sugestão; quase uma advertência. É que os tenho notado talvez imaturos e contemplativos olhando e cuidando do gigante que eles ergueram com os próprios punhos. E a atenção é tanta que lhes tem ficado no esquecimento um detalhe subtil que requer atenção maior.

Já ouviram falar em cartel? Trata-se, ao pé da letra, segundo a norma jurídica, de um acordo comercial entre empresas que distribuem entre si cotas de produção e mercados, determinando os preços e suprimindo a livre concorrência.

Ora, não há exatamente um acordo entre empresas, posto que os Supermercados Araújo são um só. E mais: eles agora são donos dos antigos Supermercados Dayane. Colocaram-lhes um nome fantasia - Avenida - mas toda a comunidade sabe quem são os verdadeiros proprietários.

Ontem, sexta, à tarde, pude perceber que os preços da carne, por exemplo, sofreram uma elevação considerável de mais ou menos vinte por cento. O Dayane atendia uma faixa da população mais pobre - Estação, Julião, Esperança, Tangará, Tucumã, Rui Lino... - e vendia um quilo de alcatra a R$ 5,25. Hoje, o Avenida cobra R$ 7,55 – o mesmo preço praticado no Araújo do Aviário, vizinho de um dos metros quadrados mais valorizados do Brasil (os edifícios construídos pelo João Albuquerque). Sem dar maiores detalhes da minha compra, foram pagos R$ 33,96 por 4,499 kg da carne a que acima me referi.

Ora, senhores! Eu estou no Acre, contribuo minimamente com a nossa história de bravos e também me orgulho disso porque nasci ali em Xapuri, o meu berço carregado de glórias.

Não critico aleatoriamente. Advirto tratar-se de crime contra a economia popular. Está previsto em lei. Em pouco tempo, os preços serão ditados tão somente pelos Supermercados Araújo que podem, inclusive, apropriar-se, legitimamente, de frigoríficos e fazendas. E o nosso boi verde, a melhor carne do Brasil, será vendido a preços tão exorbitantes como os praticados em Brasília, onde quem dá as cartas é um cartel dominado, hoje, pelo francês Carrefour. Há até a possibilidade de o Supermercado Gonçalves, que vende a carne a preços melhores, ser sufocado pelo concorrente poderosíssimo.

E afianço-vos que estes escritos não têm o conteúdo de uma denúncia. Faço aqui apenas de uma advertência cabal feita a pessoas por quem nutro grande admiração.

* Proletário

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h56
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O complô

Falam tão bem e falam tão mal uns dos outros... Aquele comentário enaltecedor, dignificante, é facilmente levado pelo vento. Até o alvo dos elogios muitas vezes dele se esquece. Entretanto, se as palavras ditas sobre outrem são injuriosas, a poeira do tempo não tão facilmente as carrega e a vítima da maledicência pode sofrer com o peso da infâmia até o túmulo.

Historicamente, é mais ou menos o que tem ocorrido aos grandes pensadores que se ergueram contra o fausto dos impérios capitalistas erguidos à sombra do ódio, da intriga e enlameados pela fome, pela miséria e pelas lágrimas de quem foram usurpadas a dignidade e a esperança por tempos mais prósperos. Muitos foram os sonhadores que imaginaram um dia poder levar as castas mais humildes ao usufruto dos bens que a natureza não lhes nega. Negam-lhes, sim, os donos do poder. Aos mais pobres não é dado sequer ser feliz e suprir necessidades básicas como beber, comer, vestir e melhor habitar.

Sócrates, Jesus Cristo, Gian Domenico Campanella, Philippe Buonarroti, Giordano Bruno, Henry de Saint-Simon, Robert Owen, Karl Marx, Vladimir Illitch Lênin, Antônio Gramsci e tantos outros mártires do poder tiveram má sorte, pereceram na forca, na fogueira ou no calabouço, mas a obra destes homens é que serviu de alicerce para que, hoje, estejamos começando a erguer as bases da pouca democracia que ainda se consegue respirar, aqui e ali, por estas neocolônias dos Estados Unidos e da Europa.

Sócrates foi vítima de um complô de mentirosos que o levou a julgamento torpe onde foi condenado a ingerir cicuta. Com Cristo aconteceu quase o mesmo: uma meia dúzia de fariseus conduziu o povo a sentenciá-lo à crucificação. Campanella, italiano, passou trinta anos preso em Paris e foi torturado dez vezes, não tendo suportado a última. Buonarroti foi parar na fogueira. Saint-Simon, um aristocrata francês apaixonado pelas causas socialistas, morreu louco, esquecido e na miséria. Com Owen ocorreu o mesmo. Marx morreu de inanição depois de toda uma vida de privações e depois de ter visto falecerem todos os sete filhos e a esposa. (Friedrich Engels, um inglês rico, conseguiu prolongar os dias de vida de Marx, para que este escrevesse um pouco mais da sua magnífica obra, dando-lhe dinheiro e o ombro amigo.) Lênin, acima de tudo um grande educador, morreu doente e desassistido. Gramsci, um expoente da filosofia do século XX, morreu na prisão, onde compôs parte da sua obra.

Fazendo um vínculo talvez absurdo entre o Cristo e os socialistas, convém traçar um paralelo entre as causas das condenações: foram, todos, sem exceção, vítimas do poder. Em vista da defesa exacerbada e corajosa das causas justas em nome dos mais humildes, foram imolados, violentados, pela covardia dos poderosos que têm (hoje) medo da influência e da liderança que os justos podem exercer em nome da igualdade entre os homens. Indo bem longe (e ficando próximo demais), afianço-vos que Chico Mendes e tantas outras vítimas do capitalismo internacional que dita as regras entre os brasileiros, sem guardar nenhuma proporção, inscrevem-se entre os mártires que pereceram por acreditar nos direitos de todos perante as leis que acreditavam ser dos mais justos.

Quem os matou? Quais foram os assassinos? Onde estão os responsáveis pela chacina histórica de tantos justos e probos? É fácil a resposta. Foi a sanha do poder, a ganância irracional e, por fim, nos dois últimos séculos, foi, mais especificamente, a febre do capital. Foi a peçonha e o veneno burgueses que não hesitam em destruir a tudo e a todos em nome do acúmulo de bens e dólares... E muitos euros.

Bem pior, no entanto, é o fato de que, à exceção de Cristo, cujo perfil traçado pelos burgueses é diferente do perfil admitido pelos proletários (há a igreja dos ricos e a igreja dos pobres), os demais, todos, têm histórias quase que completamente desconhecidas, principalmente, por aqueles a quem defenderam. Os poderosos - fariseus, aristocratas, burgueses - além de destruírem vidas tão preciosas, destroem as histórias dessas vidas, cassam-lhes as obras, mentem a respeito de tão célebres inteligências alardeando não terem sido o que diziam, que eram falsos profetas.

Por que dizer que um governante probo rouba o erário sem nenhuma prova que sustente a acusação leviana? Um copo de cicuta seria a solução, se fosse possível. O objetivo dos detratores é confundir aos menos esclarecidos na busca dos votos que os levariam outra vez ao poder, hoje, no Acre e no Brasil. É como se as obras sociais não fossem concretas e não enchessem de orgulho o meu povo.

Em verdade, o capital destrói o humano, assassina-o a partir do espírito. E quer muito mais. Tenta esconder as verdades ditas e escritas que se coadunam aos anseios dos oprimidos. Ide e conhecei Marx! Conhecei Lênin! Eram todos dignos e justos de coração, mas a canalha não o admitia. Eram, acima de tudo, humanos.

Enfim, as arapucas são armadas por complôs cujo objetivo maior é atrair para a solução final os que se arvoram a defender os mais humildes, como fez Chico Mendes, um profeta moderno e um mártir às antigas.

* Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais/Ufac.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h54
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