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Impressões gerais
 

Essa coisa de emoção...

De repente, vimos-nos envoltos por um turbilhão humano que se acotovelava a partir da esquina que estávamos a dobrar. A avalanche que nos inundava a alma era desproporcional ao tamanho das nossas esperanças de antanho. Jamais houvéramos esperado tanto de um tempo antes tão caótico e agora tão feliz, prenhe do júbilo que nos tem tomado conta nestes últimos dias, nestes confins de meu Deus. Ah! O calor que emanava da humanidade dos nativos podia ser sentido já nos primeiros passos da rua seguinte.

Tanta felicidade, quanto contentamento. “Triunfantes da luta estamos voltando”. Já não são mais tempos de guerra, a não ser pelas mãos do estrangeiro que teima em ser derrotado a cada manhã, de cada um dos seus dias tortuosos e eternamente envoltos no sonambulismo que o enlouquece e o leva, em prantos roucos, em pesadelo, a proferir impropérios contra os mais justos, dentre todos os justos, trabalhadores reais deste mundo amazônico que me viu em cueiros e, depois, em poeta ou em filósofo. E o que é a vida senão a vã tentativa de compreender e tentar explicar as virtudes dos que fazem o bem e as insanidades dos que vivem na prática do mal?

Observamos, de pronto, tratar-se de uma reunião de acreanos ou, mais precisamente, dessa nossa gente humilde, daqui ou não sei de onde, que ama o Acre e se rejubila ante tudo o que nos é dado e assinado em baixo pelo Deus da vida e desta nossa tribo hoje tão emocionada. Esse é, sim, o nosso povo. Ali estavam reunidos os nossos irmãos, as nossas tias, as nossas velhas parteiras, que ainda nos mostram a luz incandescente a partir da saída da caverna aconchegante que nos fez homens e mulheres depois de um curto período de espera...

E depois, parado no meio do povo, divaguei muito e muito mais, de braços dados com a minha doce Simone, aquela que cuida bem de mim e dos nossos...

Então nos lembramos. Era verdade. Estávamos ali porque houvéramos sido convidados a participar da glória daquele momento. Ficamos deveras felizes com a lembrança e a verve apaixonada me fez colocar em papel estas mal traçadas linhas, como no tempo em que, em Xapuri, escrevia cartas para seringueiros saudosos dos entes queridos que houveram ficado, talvez vivos, nos confins da Meruóca, no Ceará.

Há um tempo, vimos atracarem navios dos dois lados do rio da vida nossa. Traziam novidades e levavam borracha, castanha, madeira. Há um tempo, do lado de cá, da Grã-Fina, chegávamos à Casa Araripe. Depois de atravessar a rua, passávamos pela Casa Batista, de passagem. Comprávamos roupas da moda na boutique Dona Flor e doces maravilhosos na Casa do Pão. Depois, no mercado velho, passamos a comprar verduras fresquinhas em mesas toscas sobre um chão de uma lama preta e fina que nos borrava os sapatos esporte. Estava anunciado um tempo de políticos espalhafatosos que prometiam mundos e fundos e nada cumpriam em prol de um povo ciente de que “um dia cumpriria o seu ideal”, como no fado português.

E essa coisa de emoção nos invadiu o ser a partir das palavras de um garoto que, como eu, criou asas na Universidade Federal do Acre. As lágrimas do Angelim significaram, antes de tudo, muito mais esperança no futuro dos nossos acreanos de cá e de lá, dos altos rios, do fundo dos seringais.

Então, veio a vez do outro rapaz, três ou quatro anos mais moço que este escriba. Citou nomes dentre os quais o do seu Esmerindo, marido da dona Fina... Digo-te, ó irmão ilustre, que a mim e a todos os justos apetece muito homenagear aos homens e mulheres que houveram por bem fazer tanto por esta terra, antes da minha e da tua chegada... Jorge, voa! Voa, Jorge! Vai naquela estrela e busca de lá muito mais fé e muito mais orgulho de ser acreano, na graça de Deus, como diria D. Moacir a Chico Mendes.

Ao nosso lado, então, um cidadão humilde dizia que “esse homem fala porque sabe”. E me vi obrigado, pela circunstância e pelo papel de professor que não me foge, a dizer:

- Meu caro Horácio! Fala bem aquele que fala com as palavras do coração e este, sim, é um homem apaixonado pela Humanidade.

Ouvi o Hino Acreano e lembrei dos meus antepassados que deram todo o sangue em honra desta terra e deixaram a mim a simples tarefa de dar palavras, não mais que palavras... E alguns parcos ensinamentos aos que deles sentem a necessidade.

Depois, passeei. Veio-me à lembrança as pesadas refeições do Barriga Cheia e as tapiocas da Dona Biluca. Observei, então, que aquele conjunto, no todo, lembra muito o centro histórico da bela ilha de Florianópolis... A paisagem é deveras parecida, mas salta aos olhos um detalhe invulgar, uma diferença extrema: aqui, tudo é muito mais bonito porque a homenagem maior é ao meu rio que carregou consigo as felizes almas dos nossos ancestrais.

Em verdade, é preciso admitir que, no Acre, o espetáculo do desenvolvimento é uma sinfonia doce que embala a alma acreana feliz.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h47
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Um lance genial

Estes escritos são dirigidos tão exclusivamente àqueles que sentem pulsar no peito amor verdadeiro por esta terra de caudilhos. Sejam acreanos de sangue puro ou de coração terno, todos, especialmente os mais sensíveis, fazem coro com o clamor público que repudia veementemente os ataques insanos contra aqueles que erguem as obras reais em benefício do meu povo.

Até o eleitor mais desavisado já cansou do nível rasteiro utilizado em campanha por alguns dos mágicos mais insuperáveis em termos de estripulias com o dinheiro público. Os métodos são sempre os mesmos e sempre e cada vez mais vulgares.

Está muito claro no Salmo 4 das Sagradas Escrituras: “Filhos dos homens! Até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscais a mentira?”

As injúrias lançadas contra aqueles que fazem o bem para o povo são sempre dirigidas pelos mesmos “estrangeiros” contra o mesmo grupo de justos que, hoje, feito discípulos, colocam em prática o que dizia Chico Mendes, a alma da florestania. Ora, se esses fazendeiros, amigos de Cassol e Blairo, gostam da fumaça densa e dos rios secos, como poderiam concordar com aqueles que propuseram a minissérie global “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes?

Em verdade, orgulha concluir que, Jorge Viana, num lance genial, antes houvera homenageado Glória Perez, a novelista acreana, dando o seu nome a uma belíssima escola de ensino médio, que não é obra de fachada. É essa mesma cidadã que, por último, foi alvo dos melhores elogios por parte do New York Times, em vista da gravação da minissérie acima aludida.

Na mesma ocasião, outra homenagem foi feita a Armando Nogueira, mais um acreano ilustre, cronista em quem me espelho e que, no momento da inauguração de uma outra escola, que também não é obra de fachada, mas leva o seu nome, disse em auto e bom som que aquele seria, sim, um bom dia para morrer, em vista do tamanho da felicidade que lhe alegrava a alma cabocla.

E mais. Depois, o Governador homenageou outro acreano, o João Donato, dando-lhe o nome a uma Usina de Arte, num lance de rara felicidade, tendo em vista tratar-se de um expoente das artes brasileiras reconhecido no mundo inteiro.

Homens de bom coração! Observai! Como no adágio popular, uma mão lava a outra. E essas pessoas, apesar de não terem residência fixa por aqui, não aparecem a cada quatro anos dizendo amar esta terra; elas sempre amaram o Acre, de longe, até que lhes fosse chegada a hora de colaborar em atendimento a um convite tão bem feito. Tratamos aqui de gente suficientemente digna e honrada para, a qualquer momento, fazer o que quer que seja pelo Acre e pelos acreanos de bom coração.

Em se tratando da minissérie da Rede Globo, aqui, o ciúme bate forte e corrói as almas invejosas feito doença incurável. Até quando os suportaremos? Ora, senhores, em todos os níveis os beneficiados serão muitos, desde os agentes do turismo, até o mais simples cidadão que, agora, passará a ter muito mais orgulho da sua história de teimoso e valente.

E as palavras levianas foram veiculadas por um órgão de imprensa outrora respeitado por todos... A mensagem correu solta, mas ninguém deu crédito porque a mentira lhe tinge o âmago e não há um sequer, dentre todos os “estrangeiros”, que consiga provar que os custos da minissérie serão por conta do Governo do Acre. Por que enganar aos mais humildes?

Ninguém viu ainda que o Governo do Estado poderia muito bem dispor de um ou dois milhões de reais para divulgar o Acre através de uma escola de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, porém fez mais fácil e conseguiu que fôssemos vistos através da Globo, no mundo inteiro, de graça.

O que dirão eles agora ao verem que o sacrifício de Chico Mendes não foi em vão? O ecologista de Xapuri será mais uma vez reverenciado pelos homens de bem deste planeta. Que Deus o tenha!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h42
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Verões cinzentos

Era outubro no equador, época em que
aqui se vai o verão e surge o inverno.
E a estiagem havia sido ocre, quase sem graça:
verão de velhas flores que espiam, furtivas,
pelas gretas e portas e paredes nuas, cruas,
invisíveis... Nada tinha sido especial.

E fluiu densa a minha poesia por ela.
E veio o inverno e gotas pesadas
de uma torrencial chuva se chocaram
contra o meu peito e o meu rosto.
E as ruas se encheram das águas pluviais
que mais pareciam lágrimas de mil pecadores imperdoáveis.

E por ela entoei minha canção triste.
E o meu mundo pareceu um espectro.
Cabelos que caíam sobre a testa de anjo puro,
olhos úmidos de emoção, ah, a separação!
A praça, o hiato de uma vida mínima.
E tudo ruiu, as árvores caíram, os bancos desmoronaram,
e a luz das estrelas se apagou...

E o inverno se fez pesado, contínuo, castigador.
As águas se avolumaram e tudo ficou acinzentado.
Era a enchente que molestou a todos os seres que,
de tão malditos, não conseguem o amor na essência.

E hoje é verão, ontem foi verão,
mas o céu não está e não esteve azul.
Ontem e hoje o sol brilhou para alguns ditosos,
para os desditosos, não.

São os verões cinzentos que povoaram todas as vidas
marcadas pela incerteza e pelo medo de serem felizes,
pura e simplesmente...


Rio Branco - Acre, junho de 1988



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h39
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