| |
Alô, polícia!
Segunda, seis de novembro, dezoito e quinze. Rudney Cato, médico, é chegado ao consultório da clínica de cardiologia, aqui. Dá um sorriso tímido e cumprimenta a todos, para o meu espanto. Bacana! Nunca vejo pessoa dessa eminência descer ao rés do chão da humanidade perdida e dizer palavra alguma. Parecem deuses vestidos de branco, acima do bem e do mal, a não ser pela meiguice de Dilza Ambros, que beija os filhos meus, apesar de não ser comadre minha. Fecha o pano!
Um certo discípulo de Hipócrates, antipaticíssimo, disse que sou contra os médicos. Um procurador federal desdentado tem certeza de que este cronista é inimigo dos advogados. Um tenente medroso afirmou que não gosto da polícia... Estão todos irrefutavelmente enganados. Eu não aceito é que a grande maioria dos agentes da medicina se desumanizem. Assim como não tolero rábulas de porta de cadeia que sequer aprenderam a procurar palavras no dicionário. Na polícia, é claro, há, sim, uma minoria de humanóides que só pisa no chão porque a lei da gravidade não permite o contrário.
Todavia, é preciso dizer que, aqui, a minha intenção maior é levar uma mensagem de amor ao próximo que precisa, no mais das vezes, de apenas um bom dia, ou de um sorriso, ou da mão amiga que afaga o peito às vezes tão condoído. Em verdade, vejo com muita nitidez a necessidade inadiável de melhorias nas nossas relações humanas tão deterioradas.
Dia desses, então, com um grupo de amigos idealistas de esquerda, fui a uma reunião para tratar sobre políticas de desenvolvimento na zona rural e outras questões do gênero. Lá, crianças e adolescentes tomaram conta de todos os bancos. Depois, vi reportagem televisiva segundo a qual, nos ônibus urbanos de Rio Branco, apesar de alguns assentos serem reservados exclusivamente aos idosos e/ou portadores de deficiência, rapazolas meio imbecilizados pela formação familiar aleijada sentam e de lá não saem nem com os apelos dos motoristas e cobradores; só se alguém se dispuser a distribuir alguns sopapos entre os micro meliantes.
Pois bem... Dia de Finados, às oito, fui assistir à Santa Missa no cemitério São João Batista. É claro que, lá, a grande maioria dos presentes era composta por idosos que ali estavam para rememorar tempos em que os seus entes queridos perambulavam por este vale de lágrimas. Fiquei sentado sobre um jazigo, posto que, numa pelada do dia anterior, houvera recebido pancada na perna. E, mais uma vez, bem próximo de mim, nas cadeiras colocadas pela Prefeitura, à sombra das mangueiras e debaixo de uma grande tenda branca, estava mais ou menos uma meia dúzia de jovens, dentre os quais uma moça, ocupando lugares indevidamemte, uma vez que os mais velhos sofriam sob sol forte, em pé ou ajoelhados, atentos à palavra de Deus.
Não sou ranzinza nem conservador. Até sou um tanto moderno, a não ser por algumas poucas manias sertanejas mais radicais que rótulo de maizena. Certo é que, há algumas décadas, os mais argutos têm notado que a instituição casamento está em plena decadência. (Igual a submarino, nasceu pra afundar, no dizer de alguns.) A modernidade do divórcio findou por afrouxar os nós que atavam os casais que, hoje, na hora das partilhas, quase findam por dividir os filhos ao meio. Do mesmo modo, fica também muito claro que a célula familiar, na sociedade moderna, perdeu muito dos seus melhores valores, como o respeito aos mais velhos, o cumprimento na hora devida, a bênção aos pais, a compreensão e a urbanidade, dentre outros. São filhos que se evadem de casa em busca de horizontes perdidos porque os pais também partiram em debandada. Um não respeita o outro e o outro tem medo do um.
Restam, sim, algumas organizações humanas que podem fazer muito mais em meio ao caos que da modernidade. A escola pouco ensina para a vida real de possíveis cidadãos ou possíveis crápulas do futuro. A justiça está assoberbada de processos que julgariam o resultado da tormenta social dos nossos dias.
Mas tem a polícia! E viva a polícia! Em um século inteiro, no Brasil, ninguém teve idéia melhor, em termos de segurança pública, que a criação dessa tal polícia comunitária, aqui inteligentemente denominada Polícia da Família. Seria apenas uma incumbência a mais que ficaria sob a responsabilidade, também, dos policiais, fardados ou não. Em qualquer situação que seja, inclusive o fato de o mais moço desrespeitar ao mais velho ao não lhe ceder o lugar, qualquer agente de polícia poderia aplicar-lhe reprimenda inesquecível, uma vez que, em casa, o pai, na maioria dos casos, não passa de mais um crápula solícito e amofinado diante dos maus comportamentos dos filhos imbecis.
Polícia neles!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h17
[]
[envie esta mensagem]
Meu caro amigo
Nasci e fui criado lá onde a mata não me mata, mas me faz cada vez mais viver feliz, e seguir trilha afora embalando sonhos de um mundo pleno da colaboração de todos para com a Humanidade total. Lá vi e convivi com gente da mais alta estima, como Chico, o ecologista morto. Lá, na minha simplicidade seringueira, aprendi que de uma boa amizade se tira e se coloca o que há de melhor na minha alma e na alma do irmão. Meu pai a mim ensinou que é muito bom ter bons amigos, e muitos amigos, como ele, como tantos e tantos, na graça de Deus.
Ouvi depois um sábio do meu tempo e da minha cidade citar um bispo católico das primeiras eras do Cristianismo, Santo Ambrósio de Milão, segundo o qual o único e maior dever do homem é agradecer, e agradecer sempre, a Deus, que nos privilegia com tantos bens espirituais e materiais, e ao irmão que caminha ao lado, que se faz benevolente nos momentos difíceis e compartilha as horas em que a fortuna bate à porta.
Encontrei, pois, um certo amigo, assim que houvera terminado a procissão do Círio de Nazaré, em Rio Branco, mas precisamente na Avenida Brasil, aí pelas oito da manhã. De longe, ele já foi proclamando em alto e bom som: “ô, meu irmãozinho, muito obrigado por tudo! Nós todos ficamos muito gratos a você pela colaboração que nunca falha nas horas mais necessárias.”
Ato contínuo, deu-me um abraço apertado e longo. Foi aí que observei a que tamanho pode e deve chegar a sensibilidade do ser humano. Do alto do prestígio nacional, Jorge Viana não lembrou de outra coisa que não fosse agradecer. De minha parte, nada melhor poderia fazer, em meu nome e no nome de muitos e tantos milhares de acreanos e acreanas que respiram o amor maior por esta terra hoje radiante que nos viu nascer e crescer, inclusive em nível espiritual. Agradeci!
É claro que alguns desses poucos vermes da política regional hão de considerar-me talvez um oportunista. Não viria ao caso, posto que não dependo de expedientes mirabolantes para provar nada a ninguém. Sou o que sou por méritos próprios e isto até os meus inimigos o reconhecem.
Então... Uma liderança acalentada no seio da massa de populares (para os adolescentes, quase um pop star) ao tomar tal atitude, não estará abraçando apenas um único indivíduo dentre um universo imenso de cidadãos, mas a todos quantos dignificam e sentem orgulho do líder e da obra que ele empreende, como no nosso caso, em favor desta terra antes tão esquecida e hoje tão conhecida, inclusive, por esse mundão afora, graças às vinhetas do Jô Soares divulgadas pela Globo Internacional.
Outra vez ouso afirmar que as grandes obras que se operaram neste Estado não foram apenas as de ordem física, os prédios, as escolas, as estradas, as avenidas, as pontes. Ao lado da grandiosidade de tudo isto, o grande empreendimento aconteceu ao nível do psicológico. É simbólico, sim, o pavilhão hasteado na Praça da Gameleira e em outros logradouros públicos. Mas é exatamente este símbolo maior da epopéia acreana que faz florescer em nossos corações esse imenso orgulho de ser acreano, despertado (ou acordado) há pouco mais de cinco ou seis anos.
Agora mesmo, no dia em que inauguramos da Praça do Mercado Velho, lá estava uma amiga que daqui se foi, desesperançosa, há uns vinte anos. Viera em visita à irmã acreana, mas não se continha e fazia os melhores comentários possíveis com relação ao nível a que o Acre chegou depois de tão pouco tempo de trabalho tenaz. Ela, segundo observei, também estava orgulhosa, inclusive, da apresentação artística que encerrou o evento.
E o conjunto da obra erguida no Acre dos últimos tempos, sob este céu de caudilhos, em cada peça, em cada projeto executado, tem a cara e a alma desse irmãozinho que fez da acreanidade a sua meta principal e o seu sonho maior.
Milton Nascimento, o poeta, diria: “O que importa é ouvir a voz que vem do coração. Seja o que vier, venha o que vier. Qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar.”
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h56
[]
[envie esta mensagem]
Servas de Maria educadoras
A educação enquanto prática humana e social é construção contínua que nunca se esgota em vista do progresso da ciência. O processo de construção de novos conhecimentos deve levar o indivíduo a pensar sobre o seu papel na transformação social com competência e responsabilidade. Esta é uma das bases da ação educativa das Irmãs da Ordem das Servas de Maria Reparadoras chegadas ao Acre há oitenta e cinco anos.
A velocidade com a qual as transformações se processam, nos dias de hoje, nos colocam neste novo século com uma outra necessidade, qual seja, a de atentar para as diferenças entre o que o passado ofereceu como garantia ou tradição em termos de valores e heranças culturais, e o que o avanço da ciência nos coloca ao dispor quase que diariamente.
Desde o tempo das pioneiras, as atividades escolares sempre tiveram seus conteúdos e práticas, basicamente, voltados para o aspecto civismo, com saberes associados à noção de progresso, para que os alunos cultivem o respeito e o amor pela Pátria, o que tem servido para forjar uma nova consciência cívica permeada pela cultura nacional.
A escola não é somente um lugar de aprendizagem de saberes, mas tem sido, ao mesmo tempo, um lugar de exercício de comportamentos e hábitos, principalmente religiosos. Esta ênfase na formação cristã tem como base o ensino do Catecismo e outras atividades ligadas ao fator religião.
Segundo a Irmã Maria Cláudia Barbosa, pedagoga, um dos princípios que norteiam a escola é a valorização da pessoa na busca por contribuir para a construção de uma sociedade mais justa. Para a educadora, “é preciso auxiliar o educando a tornar-se consciente, a fim de que seja capaz de exercer seus direitos e deveres de cidadão”.
Há que dar ênfase ao fato de que a História, hoje, opera com novos sujeitos, novos objetos e novas abordagens. Quem faz as revoluções são as pessoas comuns rebeladas contra fatores que lhes prejudicam. Mesmo assim, é necessário salientar que, desde os tempos iniciais, tem-se primado, com rigor, pelo aprendizado, principalmente, das quatro operações matemáticas, dos tempos dos verbos, das informações sobre geografia e história, e assim por diante. E tudo ainda leva à valorização das noções de moral e civismo, além de demonstrar grande preocupação com a identidade nacional.
O currículo, enquanto instrumento da cidadania democrática, contempla conteúdos e estratégias de aprendizagem que capacitam o ser humano para a realização de atividades nos três domínios da ação humana: a vida em sociedade, a atividade produtiva e a experiência subjetiva, visando a integração de homens e mulheres no tríplice universo das relações políticas do trabalho e da simbolização subjetiva.
Nessa perspectiva, incorporam-se como diretrizes gerais da proposta das Servas de Maria, hoje, os seguintes eixos estruturais da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver e aprender a ser.
Para a construção de competências e aprimoramento da cidadania, é necessário o conhecimento e a compreensão da realidade social de forma global e contextualizada, e o desenvolvimento de uma prática educacional que esteja voltada para a conscientização dos direitos e responsabilidades em relação à vida pessoal, coletiva e ambiental.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h53
[]
[envie esta mensagem]
Mas é preciso buscar na História algumas das razões primeiras. É oportuno reafirmar que a educação se tornou importante instrumento para a divulgação da Reforma Protestante, por dar iguais condições à interpretação da Bíblia. Nos séculos XV e XVI, ao contrário da tendência predominante, Lutero (1483-1546) e Melanchthon (1497-1560) trabalham para a implantação da escola primária para todos. È bem verdade que nessa proposta há uma nítida distinção: para as camadas trabalhadoras, uma educação primária elementar; enquanto para as privilegiadas é reservado o ensino médio e superior. Apesar disso, Lutero defende a educação universal e pública e solicita às autoridades oficiais que assumam essa tarefa, por considerá-la competência do Estado.
De acordo com as concepções humanistas, Lutero repudia os castigos e critica o verbalismo da Escolástica (tendência filosófico-teológica básica do Catolicismo). Propõe jogos, exercícios físicos, música, seus corais se tornam famosos, valoriza os conteúdos literários e recomenda o estudo da história e da matemática.
Assim, para combater a expansão do protestantismo, a Igreja Católica passou a incentivar a criação das ordens religiosas. Aqui, os colégios jesuítas começam a ser fundados sob a influência da concepção da escola tradicional européia, e exerceram influência altamente significativa na formação do homem brasileiro.
A obra da Igreja Católica em termos educacionais adentrou o Brasil até chegar, com as Servas de Maria, aos rincões mais distantes da Amazônia onde, no Acre do início do Século XX, foram criados colégios como o Imaculada Conceição e o São José, de Rio Branco, o Divina Providência, de Xapuri, e o Santa Juliana, de Sena Madureira.
A trajetória das freiras da Ordem, no decorrer dos últimos oitenta e cinco anos, tem tudo a ver com a travessia de um campo de batalha ao fim do qual se chega ileso e com vontade de muito mais luta, principalmente, quando a guerra é contra a escuridão da caverna e a favor da busca das luzes do conhecimento que existem para apontar rumos que levam aos melhores dias tão almejados por todos, numa alusão ao Livro VII, de Platão.
Como as grandes conquistas estão sempre amparados em esforços árduos, em força de vontade, em pertinácia, em lágrimas, assim chega glorioso e triunfante o grande projeto de Madre Eliza Andreolli ao terceiro milênio, agora, já pronto para enfrentar uma era de boas novas ditadas pela modernidade de um mundo globalizado cujo movimento de translação, hoje, parece ter-se acelerado, e muito, em vista dos processos de transmissão de informação que nos levam a tantos lugares, em tão pouco tempo.
Por tudo isto, fica atestada, para a contemporaneidade e para as futuras gerações, a importância de uma Organização que, desde seus inícios, aqui foi implantada com o objetivo maior de tornar esta uma terra digna do orgulho dos seus.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h52
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|