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Beleza rara
O poeta e diplomata ainda é o tal... Que me desculpem as feias, mas a beleza é fundamental. Genial. Sensacional é esse Vinícius de Moraes, um ás nas artes do amor e da poesia. Nem um pouco sutil, mas um tanto viril, na forma e no conteúdo desse meu mundo de tão belas mulheres, inclusive, estas todas que me fizeram tão boa companhia ao longo dos meus mais ditosos dias que têm sido todos. Sou feliz e por um triz não escapo das mais formosas, como essa bonita e doce e meiga Edinéia, que me lembra Dulcinéia... Del Toboso, a musa do Quixote, de Cervantes, de uma Espanha muito distante e muito antiga.
Eu sei que já escrevi o meu nome nas areias quentes ou frias de corações talvez hoje desérticos, com a sensibilidade já gasta que me é peculiar. E como ainda tenho aprendido com tantas e com todas! Ah, corações tão ternos que me ensinaram, inclusive, as artes do amor, da matemática e do uso deste português nosso de cada dia. Mesmo a adolescência feliz por mim vivida numa Xapuri dos meus mais belos dias me foi deveras generosa. Ali conheci, verdadeiramente, as mulheres mais belas dos meus sonhos juvenis, com todo o respeito que cabe na alma deste poeta insano e cortês. Lá posavam, elegante, comedida e comportadamente, divas em vestidos de seda ou voil, como Nilva Nunes, Maria José Calixto, Fátima Figueiredo, Nabiha Bestene e Enilza Maciel, dentre outras talvez mais belas que o espaço desta página seria infinitamente mínimo para mencioná-las todas. Uma graça de Deus tanta formosura!
Todavia, bom mesmo é poder observar, com extremo cuidado, com a atenção do monge tibetano, através de binóculos ou lupa poderosa, um pontinho muito pequeno, no mapa mundi, ou naquele globo da escola... Uau! É Rio Branco!... Então, a partir daí, não será dado mais a ninguém demorar-se a descobrir um certo multi-colorido fulgurante e resplandecente produzido e irradiado pela beleza rara das mulheres que por aqui habitam. Graças!
Tenho conhecimento de que em outros pontos da Terra tanta beleza feminina é marca registrada. É como se nesses lugares apenas o que houvesse de importante fosse tão somente a aura iluminada de mulheres que parecem alimentar-se de luz. Assim é Roma, Telaviv ou Belo Horizonte... E, agora, para a felicidade geral da nação e de todo o meu planeta, Rio Branco do Acre! Vejam só! Quanta beleza!
E como já viajei e já vi por aí afora. Vivi no interior de São Paulo por seis anos a fio. As moças, em sua maioria, são tão branquinhas que sequer dá gosto. Com relação às viagens por este meu mundão prazeroso, sempre parti de Rio Branco... Sempre... Tomei todos os rumos que poderia me indicar a bússola do Colombo. Fui de avião, muitas vezes. Ainda vou. Fui de carro, também. Fui de ônibus, ainda nos anos oitenta. De Porto Velho a Cuiabá e daí em diante, vê-se tão pouca beleza que até dá vontade de voltar para casa, para o Acre... Rodando nas curvas da estrada, felizmente, chega-se a Campo Grande, a Cidade Morena, depois de dois mil e setecentos quilômetros... Aí, sim, respira a cor-pele-de-jambo talvez mais bela do Brasil, em seus cabelos lisos, compridos e negros como a asa da graúna, numa alusão ao Alencar, o romântico...
Por outra via, no sentido norte, já partindo de Belém para São Luiz, Terezina, Fortaleza, e por aí afora, fica muito mais difícil, em que pese a rara inteligência das cabrochas... É, então, só a partir de Vitória que as minhas vistas começam a ficar limpas... Ah, o Rio de Janeiro, cheio das mais belas mulatas e gaúchas!... Aí dão o ar da graça a formosura de mulheres que só encontro por cá.
A bem da verdade, tem razão o amigo Lépidus. Ele me disse um dia que, originalmente, as acreanas são belas desde sempre. Mas o gentil observador foi adiante e acrescentou que, hoje, a miscigenação e o contato com os que estão vindo do sul e sudeste do Brasil gerará, num futuro bem próximo, segundo ele, talvez em cinco anos, uma das etnias portadoras das feições mais bonitas deste planeta. Sem exageros, é claro, porque asseguro, já, que ele está coberto das mil e uma razões que a própria razão reconhece.
E me enche o coração acreano do mais puro orgulho ver a incandescente Maria Cláudia, a mais augusta entre todas, tez adocicada e jambo como a minha, a moça mais bela da Amazônia, do Brasil e, quiçá, do mundo, pelo menos do ponto de vista deste que vos escreve e de milhões e milhões de brasileiros que a aplaudem de pé, com muito mais amor e muito mais carinho... Beleza rara! Beleza pura!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 13h34
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Tibicuera, um príncipe!
Dize-me com quem andas e direi quem tu és, como se eu tivesse alguma coisa a ver com a tua vida... E esta foi uma das máximas levadas ou trazidas para a prática existencial do nobre Pompeu de Adélia, um filho de cearenses, mestre educador acreano que por aqui tem passado umas chuvas torrenciais destes invernos de meu Deus.
Logo após o trágico desenlace da trama urdida pelo carcereiro contra a professorinha incrivelmente bela, em 1940, em Rio Branco, Pompeu de Adélia andou às voltas com umas sirigaitas de comportamento entre o terno e o duvidoso. Mas tudo não passou do sonho mirabolante de um poeta que não ia para muito além dos segredos das alcovas, ou do indócil gramatiquês. Pouco, muito pouco, conseguia tocar-lhe o coração vagabundo.
Foi por estes tempos drásticos, quando a economia da borracha arrefecera deixando muitos na pindaíba que, para a salvação da lavoura arcaica e do sonho americano, por aqui apareceram os primeiros soldados da borracha vindos,... de onde? Do Ceará.
Mais ou menos num destes sombrios anos quarenta, o grande Pompeu, renomado professor do Território, viveu uma ou duas dúzias de experiências indizíveis, como a que vos narro a seguir.
Tibicuera era um garoto de uns dezesseis anos, talvez um pouco pra mais, talvez um pouco pra menos. De uísque, só gostava se fosse Royal Salut. Índio só na aparência, tinha cabelos lisos, ralos na nuca e bem maiores na frente, de modo a cobrir os olhos pequenos emoldurados por bochechas reluzentes. Era um caboclo atarracado, antes, e roliço depois, em vista das exageradas quantidades de material orgânico que ingeria, quase sem parar, sob a forma de sanduíches caprichosamente feitos por um tal Coelho, que não gosta de cenoura... Vivia muito bem seus venturosos dias, posto que a sorte lhe bafejara as gordas nádegas. O avô postiço, metido a burguês, dava-lhe desde um bom carro importado (apesar dos dezesseis anos), a roupas de grifes como a Triton e a Disritmia¸ dentre outras até mais cotadas. A avó, funcionária pública laureada, dona de não-sei-quantos-diplomas e péssima falante de não-sei-quantas-línguas, arrebitava o nariz como se o mundo todo fedesse a merda. Fora matriculado em colégio de bacana, mas de lá o destituíram por absoluta vagabundagem.
Tibicuera, o bonachão, era um príncipe por falta absoluta de não ter o que fazer... Mas tinha, sim... Aos domingos, ia todo serelepe para as orgias do Sahara, no Calçadão da Gameleira. Na segunda, a ressaca era enorme e não o deixava freqüentar as aulas do colégio público para onde fora jogado para alegria do mandrião. Às quintas, ia para a boate Excalibur, de forma que a sexta ficava reservada para mais uma cura de mais um ou dois porres do dia anterior. E nada de escola também neste último dia útil da semana. Como as aulas de Matemática eram na segunda, na quarta e na sexta, o mancebo só assistia as do meio da semana, quando a rebordosa permitia... E veio a prova pesada, tonitroante, maltratante, de lascar. Eis que o bacana tirou três e meio. Lágrimas, da tradicional família, não dele...
E lá se foi a avó autoridade ao colégio do ímpio. Lá chegando, a véia deitou falação baseada na moderna psicologia da adolescência daqueles idos de mil novecentos e quarenta e poucos. Segundo ela, o netinho gordo e sacana deveria fazer provas de recuperação, tantas quantas fossem necessárias até que a nota fosse recuperada. A defesa foi na base do “sabe com quem tu tá falando ô diretor?” Enfim, foi deliberado que outro exame seria aplicado. E foi. Mas Tibicuera tirou três. E na próxima, tirou dois e meio. E na outra, baixou pra dois... Enfim, todos acordados e felizes, houveram por bem deixar a nota do nosso herói na casa dos cinco, de modo que ele, ao final da temporada de altas sacanagens, foi aprovado e hoje deve ser um doutor-por-aí-qualquer. Que Deus se compadeça dos filhos e das outras vítimas deste gajo imponderável.
E não foi um milagre? Foi, sim. O santo é forte. Tradição é tradição. Burrice é burrice. Naqueles dias tão longínquos, já cabia ao mercado de trabalho julgar pelo mérito e pela competência quem é bom e quem engana. Ao Tibicuera ficou muito difícil porque pertencia a um tempo em que os maus hábitos dos mais velhos eram copiados pelos mais novos. Já que ele nasceu entre enganadores, por que não ser também um deles?
Irmãos da minha aldeia, vigiai e orai porque não sabeis quando será chegado o dia nem a hora. Este crítico contumaz dos costumes desta amada plebe rude já observou, há algum tempo, que não é de hoje que por aqui sobrexiste o hábito provinciano da “carteirada”.
“Você sabe com quem está falando? Eu sou o tal!”
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 07h55
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