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A moléstia

A moléstia

Um dia, um certo padre passou em procissão na frente de um clube cujo gerente sequer se dignou, ao menos, encostar as portas do estabelecimento à passagem do Santo. Era sexta-feira da Paixão e o mártir homenageado viria a ser nada mais nada menos que o maior dentre todos, o Cristo, que seguia morto numa padiola envidraçada ainda hoje intacta na Matriz de São Sebastião de Xapuri. Nunca mais a casa de diversão foi a mesma. Segundo dizem, o religioso rogou praga inexorável. Era um Bispo dos anos 1950. Talvez o Papa, um dia, quando vier ao Acre, consiga exorcizar os maus fluídos ali ainda reinantes, segundo muitos dos meus contemporâneos.

         Em conversa com um amigo, então, tratamos sobre as possibilidades de levar o bom Leôncio Asfury, pároco da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, com aquele instrumento que asperge água benta, para uma visita profissional às dependências do Campus da Universidade Federal do Acre. Aqui, em conjunto com um pastor evangélico decente, formado, diplomado, tipo o bom Rogério Mendonça, e mais um ou dois destes bem próximos de Deus, do mesmo naipe (e que não fale besteira) para, em ritual ecumênico, tentarem exorcizar alguns demônios que têm feito festa por estas bandas, abusando da inveja doentia, da crítica corrosiva, da intriga gratuita, do falso testemunho, da mentira com o fito único de prejudicar e prejudicar muito, dentre outras mazelas humanas nem mais nem menos graves.

         De alguns dias para cá, então, tenho notado uma ocorrência digna de registro. É que ainda permaneço incólume e atento, com os olhos espichados,  cá do meu posto de observação.

         A ciência médica tem levado ao conhecimento do grande público os sintomas e as seqüelas de uma doença moderna a que têm dado o nome de Síndrome de Burnot. Em linhas gerais, trata-se de uma moléstia do nosso tempo que perturba executivos e funcionários de pequenas e grandes empresas e organizações de todos os tipos. Problemas e entraves do tipo inadaptabilidade às regras, convivência problemática com os demais empregados e afins, salários baixos, inexistência de promoções ou aumentos salariais que acompanhariam as altas do custo de vida, concorrência desleal, chefes e líderes sem as reais condições humanas para servir às relações entre todos, incompetência predominante sobre as visões de um futuro melhor, falta de perspectiva na e da empresa, deixam o paciente entediado e este tédio tem como conseqüência estados depressivos que podem, inclusive, levar à morte.

         É o que ocorre hoje com muitos, na Ufac. O grande irmão que divide espaço comigo no Departamento de Filosofia, Comunicação e Ciência Sociais, por exemplo, é vítima de tal moléstia. E há outros mais, dentre funcionários e professores. As causas vão para muito além das mencionadas anteriormente, contando, inclusive, com as dívidas sempre crescentes  -  verdadeiras bolas de neve  -  criadas junto a este acintoso estabelecimento denominado Banco do Brasil.

         Realmente, não é fácil a situação dos nossos irmãos de infortúnio que, há pouco tempo, tinham crédito na praça e viajavam para o exterior. E toda a sacanagem partiu de um professor universitário que, estando senador da república, ganhava muito bem, mas os demais deveriam ganhar muito mal. E foi o que aconteceu. Hoje, passados os dois anos de Fernando Henrique Cardoso enquanto ministro do Itamar Franco e mais oito enquanto presidente desta república de desvalidos, os salários foram à lona. Um professor-doutor com dissertação, tese e trabalhos científicos publicados em revistas de órgãos internacionais de pesquisa recebe líquidos R$ 2.900,00, uma vez que a Unimed come o coitado pelo pé, o imposto de renda rouba-lhe até a dignidade, a previdência engana porque os benefícios sociais inexistem (pagamos a escola particular, o atendimento médico, a segurança...) e a aposentadoria só será realidade quando o simplório morrer, e assim por diante.

         Onde estão os verdadeiros líderes e representantes do povo que fazem vistas grossas e torcem os narizes diante de problemas que, infelizmente, findarão por aniquilar de vez com as pretensões do nosso ensino superior público que um dia teve já muita qualidade?



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h28
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