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Impressões gerais
 

A amante de Descartes

Tem dias em que começo a fundir o pensamento de alguns malucos espetaculares, de antigamente, à realidade do meu mundinho estreito, do meu tempo obtuso, caótico, tosco, soturno, pleno de hipocrisia. É aí que, mais uma vez, me descubro enquanto um crítico de costumes habituado à contumácia... E lá vai divagação... E tome-lhe poesia...

Que Descartes era um filósofo francês, todo mundo sabe. Que era um sujeito muito brilhante, idem. O que muitos não sabem é que o gajo imponderável tinha – e ainda tem – uma amante fantasma fumante lasciva flutuante que espia para as curvas do Rio Acre, tal Iracema à espera de Martim, do José de Alencar, como se dali um dia pudesse vir o amado.

Analiso-a enquanto namorada ranzinza, quenga, que tudo faz para contrariar o que pregou o filósofo francês. Rútila, como chamo a encantadora matrona, é a exata negação dos pontos básicos da filosofia do grande Descartes.

Rútila é a encarnação da patifaria nacional. Tem espírito safado e arrogante feito aqueles boys que dirigem toyota hilux, ou L200, pelas ruas estreitas da nossa hoje encantadora Rio Branco. Alma vulgar e destemperada. Visagem opaca. É mulher de conceitos direitistas arraigados. Jamais votaria em Lula ou Chico Mendes ou Pedro Vicente. Comunistas nojentos! Ela é a alma cinzenta do velho e cansado PMDB de guerras perdidas, de derrotas tão sofridas e tão doídas, em vista da distância que agora já não mais aumenta em relação ao dinheiro público. Forçaram a barra, estúpida e bisonhamente, e mandaram para o Planalto umas excrescências sociais hoje tornadas ministros pela mão e pela paciência de Lula, o laico.

A justa e disfarçada manceba parece um tanto com a Arena, do Paulo Maluf e do Ibrahim Abi Akel, o ministro da justiça que contrabandeava tesouros em jóias. Preciso dizer, sim, que ela tem um pouco de cada político safado que pisou o solo verdejante desta Pátria amada, idolatrada, salve, salve... Parece-se com todos e com cada um.

Por algumas vezes, Rútila se hospedou no terceiro piso do Hotel Chuí, à meia-noite. De lá, o fantasma em névoa, posto ser da época do amante enganado, deixava completamente zonzo, atordoado, aquele senil alcaide residente e domiciliado nas vilas elegantes das proximidades da orla da bucólica Quinari.

Pobre Descartes! Ele um dia afirmou que para dizer que alguma coisa é verdadeira é preciso a prova exata da sua verdade. Rútila, o fantasma tupiniquim, vai exatamente de encontro a este conceito. Nestas terras acreanas, antes tão deterioradas e hoje tão belas, tudo era dito e tudo era anotado em cartórios servis, sem a necessidade sequer de uma testemunha comprada por parcos reais ou até mesmo por pesos bolivianos, segundo a cartilha sangrenta da gangue que se reuniu em Brasiléia para tramar a morte do bom Chico. Nada era preciso provar contra ninguém. Importante era que um ricaço emérito qualquer não gostasse das fussas do desafeto que escrevia verdades como estas. E o escriba ou repórter já daria com os costados em cadeia oficial, vigiado por ex-alunos meus já fantasiados de seguranças públicas. Aquele era um tempo horrível. Um cidadão foi esquartejado, tal qual Tiradentes, não porque falou, mas porque ficou calado.

Pobre Descartes! Ele uma vez afirmou que, para chegar à verdade, é preciso dividir e analisar uma a uma as dificuldades do caminho. Isto, por aqui, alguns muitos até já fazem, mas há ainda uma horda que se especializou em meter os pés pelas mãos, e dá com os burros n’água, quando roubam acintosamente as melancias da minha praia. Pulhas!

Pobre Descartes! Noutra ocasião ele disse que, para buscar a verdade, é preciso pôr em ordem os pensamentos, do mais simples para o mais difícil. E boa parte da canalha nacional não o segue, mesmo porque ninguém pensa, mesmo porque ninguém lê, ninguém ouve, ninguém fala, ninguém vê. Silêncio! A polícia é virtual.

Pobre o francês! De certa feita ele escreveu que é preciso enumerar tudo e revisar, para que nada possa fugir à análise. Então, veio o Mauri Sérgio, aquele alcaide pescador dorminhoco, e tirou a minha cara placa de alumínio, colocou um outro número à minha porta e sequer hoje o carteiro me acha. Uma tristeza!

Rememorando o legendário escrivão Isaías Caminha, criação literária de Lima Barreto, “da puta, do bêbado e do intelectual, as razões vão para os três, posto que nesta terra de meu Deus tudo é feito à tripa forra e nada é feito como manda ou pede o figurino”.

“E ainda há tanta coisa a fazer pelo Acre!”



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 01h56
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