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Impressões gerais
 

Estudantes estudam!

         Mentir para os outros é, talvez, um pecado hoje até aceito em certas ocasiões; mentir para si próprio, no entanto, é a ruína da alma, é a débâcle do espírito já empobrecido em vista do convívio social em meio a enganadores de todo o tipo.

Fazer um curso superior não é apenas matricular-se, colocar uns livrões debaixo do braço, fazer umas colinhas em dias de provas, nunca ler verdadeiramente os textos sugeridos pelos professores, dizer que sabe fazer o que nunca conseguirá por absoluta falta de esforço ou coragem, elaborar trabalhos a partir da internet sem sequer dar-se ao trabalho de lê-los, tentar justificar para os pais obtusos o injustificável, dentre outras mil estripulias apontadas pelo Prof. Dr. Edmundo de Campos Coelho, livre pensador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no livro Sinecura acadêmica; aquele segundo o qual brinca-se de estudar, finge-se dar aula e dizem trabalhar arduamente. Ora, senhores! Ser estudante é cumprir o papel maior que é estudar, queimar pestana, ir madrugada adentro elaborando textos de próprio punho, aprendendo realmente o ofício escolhido.

É claro que há uma grande porcentagem de estudantes que assim o fazem. Estes, sim, buscam o sucesso. Todavia, os que subscreveram o manifesto contra a Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Acre, já a partir do próprio texto divulgado pela imprensa, ontem, 18 de abril de 2007, bem poderiam ir reclamar junto ao Bento XVI. Esses “clássicos” desconhecem completamente as regras mais rudimentares das sintaxes de concordância, regência e colocação pronominal, dentre outros pecados terríveis que não poderiam ser cometidos pelo pior dos rábulas. Socorro!

Seria necessária uma volta estratégica ao ensino médio. Porém, seria muito mais necessário ainda que os conselhos regionais de outras profissões  -  médicos, professores, engenheiros...  -  procedessem como a OAB. Aí, sim, teríamos homens de ciência, verdadeiramente, trabalhando pela grandeza deste país de fingidores.

Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h54
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Coisa nossa!

Por que alguns dos nossos forasteiros gostam de falar tão mal da terra que lhes dá acolhida?

Na realidade, quero fazer uso, mais uma vez, do título que me pespegou tão nobre analista de codinome Leopoldo Assumpção. Hoje sou novamente crítico de costumes. Mas não quero falar mal dos rondonienses nem do povo do Amazonas. Nada tenho a ver com eles. Critico, sim, com bastante veemência, o meu povo de cá destes sopés andinos. Repito: se alguém falar mal desta gente ordeira, faço confusão. (É como diz o pai do Mauricinho: meu filho não tem defeito!) Quem deve falar desta - ou sobre esta - terra sou eu porque sou daqui e conheço dos nossos problemas até as soluções.

Senão vejamos, dentre outros fatores característicos do nosso comportamento, um ou dois exemplos crassos...

Qualquer acreano já chegou a um local, em Rio Branco ou Cruzeiro do Sul, onde está uma dúzia de amigos. Lá está, também, um desconhecido, talvez recém-chegado à terra. Digamos que seja num bar da moda. Vá lá que seja na sala dos professores de uma faculdade. Ou no living de uma residência onde se realiza encontro frugal... Dá na mesma.

Da entrada, já fui avistando a rapaziada do chope e algumas matronas aposentadas da Ufac. Era aniversário de um solerte asteróide que pensa brilhar muito nos salões das nossas academias de farra. O som era afro-reggae ou uma coisa balançada qualquer. De longe, vi um arlequim qualquer, de paletó, bêbedo, recostado a uma poltrona no canto da área, onde fazia morada a orgia da hora.

Fiquei então a conversar com dois irmãos mulatos e duas louras e meia, já de olho na morena pedra noventa que dizia ter sido aluna minha. Uma beleza! Meia hora depois, talvez, olhei de novo e o arlequim solitário continuava incólume. Um instante... E a música parou para o meu amigo socyalite fazer uso da palavra já bêbeda. Foi aí que irrompi - já pauladinho - no meio do círculo que se formara. Disse eu que, infelizmente, não é costume acreano apresentar os recém-conhecidos, o como o Walter, o de paletó, que não olhava pra ninguém e ninguém olhava pra ele. Estivera ali de castigo pagando talvez pelo fato de conhecer tão poucos ou alguém por ali. É coisa nossa!

No próprio colégio público onde vendo aulas de um português arcaico, à noite, os novos professores nunca são apresentados aos que estão há mais tempo por ali. E tenho notado que, talvez, os recém-chegados fiquem constrangidos com a frieza tão própria nossa e deles mesmos... Seríamos nós realmente hospitaleiros?

Outra observação...

No Parque da Maternidade, ainda manhãzinha, costumava fazer caminhada de meia hora, antes de ir para os meus (ainda atuais) exercícios diários de musculação. Lá encontrava gente conhecida e os que nunca vi. Então, a uns cem metros antes do encontro, na calçada, o cidadão ou a cidadã me viam, me observavam, mas se aproximavam e baixavam a cabeça... E o bom-dia! Jamais era dito ou sussurrado, com raríssimas exceções. Imagino eu que talvez tenha ficado mais pobre, ou menos belo. Imagino que o meu ex-conhecido talvez tenha ficado rico e metido a besta, ou tornara-se mais pobre do que era e está hoje com vergonha da sua maldição.

Depois de ter passado alguns anos entre o sul de Minas e o norte de São Paulo, fiquei metido a querer falar com todo mundo. Coisa que acreano da gema detesta fazer.

Coisa nossa!



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h53
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O vôo de Ícaro

Para Gilber Félix da Silva

Uma manhã clara, porém sombria.
Uma tarde ventilada, no entanto cinza.
Uma noite escura, escura, feito o breu.
Longe, muito longe, muitíssimo distante,
No tempo e no espaço, na Grécia das lendas,
Um belo moço, na flor da idade, corajoso,
Se põe a cumprir dificílima tarefa.
Iria, com asas que acabara de criar, novinhas,
Até o Sol experimentar-lhe a temperatura...
Faltava-lhe tão somente a permissão do Pai.

O intrépido primeiro internauta nosso,
Cujo pai era Dédalo, tinha por nome Ícaro
E não obteve o consentimento do Pai, mas voou...
De cima viu os cumes dos mais belos montes,
De toda a Grécia viu falcões e a fênix renascida.
Depois, pode admirar a grande Europa
Na plenitude de toda a beleza do mar Egeu
Ao Atlântico, do Mediterrâneo aos Pirineus...
As asas suportavam, havia força e coragem.
Então, pensou o moço: por que não ir ao Sol?

Atraído pelo calor e pela luz do astro-rei,
Ícaro fez do seu sonho realidade.
Ignorando o calor extremo, sufocante,
Foi-se aproximando mais e mais...
Mas veio o momento não previsto nos planos,
Mesmo com tanto cálculo, apesar de tanto cuidado.
Tudo fora deveras muito bem projetado,
Mas as grandes asas, para justificar a tragédia,
Haviam sido coladas com cera...
E Ícaro mergulhou para morte tão prematura.

E o caro irmão Gilber, internauta do agora,
Parceiro bom e amigo, que já viajou tanta poesia comigo,
Agora mesmo se foi sem dizer adeus, adeus, adeus...
Era ele, sim, o herói de si próprio, dele mesmo,
E do filho que ainda não compreende o acontecido,
E da esposa que chora a falta do cavaleiro andante,
Sempre na busca do futuro melhor para os seus.
Voa, Gilber, voa! Vai lá no céu e busca uma estrela
Com a qual tu possas, daí, iluminar tantas vidas,
Como a minha, como a dos irmãos teus de copo e de cruz.

É preciso crer, pois é a mais clara verdade.
O grande salto que tu deste para o infinito
Se fez trágico demais para as mil almas,
Amigas da tua alma, que choraram a tua perda.
No entanto, todos hão de observar, que
O alvo da queda, como por encomenda,
Foi exatamente o colo do Criador,
Onde agora estás sentado, quieto, pensativo...
Segura na mão do Anjo e vai, grande companheiro.
São novos mundos onde cumprirás novas missões...



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h45
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