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Comportamental
Historicamente, o crítico de costumes vai colecionando desafetos pela vida afora. Não quero comparar-me a Machado de Assis, mas foi exatamente o que ocorreu ao nosso escriba maior. A elite do Rio de Janeiro dos fins do século XIX detestava as crônicas publicadas no jornal Aurora Fluminense. Lima Barreto, um negro que muito bem satirizava a sociedade carioca da época, era também considerado um pulha por falar não mais que a verdade, principalmente, através do seu célebre escrivão Isaías Caminha.
Machado previu, num lance de aguçada visão de futuro, que a sociedade brasileira ainda pagaria caro pelo fato de ter deixado os antigos escravos atirados à própria sorte, vivendo e morrendo nos morros insalubres, vítimas do caos social e de doenças tropicais, como a febre amarela que ceifou tantas vidas, até que Osvaldo Cruz tivesse coragem de ir às favelas e mocambos pobres em busca das causas do mal.
Há algum tempo, muitos me têm olhado de soslaio, notadamente depois que produzi uma série de crônicas intitulada Coisa nossa! Talvez eu realmente não tenha nada a ver com a vida de quem quer que seja. No entanto, venho recebendo colaborações de pessoas que, como eu, pensam formas de melhor educar o povo para um convívio mais saudável. Só agora é que percebo. Arranjei pelo menos dois leitores que acharam por bem argumentar que eu não podia falar mal do Acre. Ora, senhores, sou professor e o meu desiderato é preparar as novas gerações para um futuro mais pacífico e menos caótico. Ademais, quem deve falar mal desta terra sou eu e somos nós, que aqui nascemos e, se criticamos, é porque temos já as soluções para os nossos problemas.
O que não pode ficar em branco são fatos como os que descrevo abaixo. São coisas muito nossas!
Conheço uma senhora que trabalha numa panificadora nas imediações do Julião. O marido, ali próximo, corta carne num açougue de terceira categoria. Têm um filho e moram no Esperança, onde adquiriram casa bem modesta. Depois de anos de trabalho, resolveram, então, fazer uma cozinha e uma pequena área de serviço em alvenaria. Em duas semanas a obra estava concluída. Em compensação, apareceu-lhes um fiscal do Crea e os ameaçou com uma multa do tamanho dos seus sonhos. Preocupados, recorreram a mim, como se eu pudesse resolver alguma coisa. E até que pude. Conversei com um moço que trabalha no órgão e ele me disse que já estava acostumado àquele tipo de situação. Contou-me que os vizinhos do casal moram em casinhas muito humildes e, por inveja, telefonaram para o Crea na certeza de que, no mínimo, viria força policial para derrubar o que já havia sido feito. Atrás do pobre andam dois bichos: um é a fome e o outro, a inveja.
Lembro-me, então, de episódios semelhantes ao primeiro.
Ainda bem moço, morava no bairro Cadeia Velha, de onde até sinto alguma saudade. Tempos bons. Todos eram mais ou menos do mesmo nível, embora nem sempre comessem do bom e do melhor, como diziam os de lá. Como a minha, as casas eram de madeira e zinco, com raríssimas exceções. Só que havia um detalhe significativo: parte das pessoas que morava em casas de alvenaria se sentia como se tivesse o sangue azul. Considere-se ainda que uma parte dos demais via os abastados como se realmente fossem superiores.
Na Cadeia Velha, o pessoal de cima (da Rua Santa Catarina rumando para o Primeiro DP) não se misturava com a raia miúda que morava em baixo (da Rua Santa Catarina sentido Senai). Era mais que preconceito.
Exceto o pessoal do dominó - fidalgos que bebiam cachaça misturados à plebe ignara - a fina flor da Habitasa jamais colocava os pés bem torneados naquelas ruas onde morava gente tão pobre. Eu, então, namorar aquelas beldades quase suecas... Nem em sonho! Era proibido sonhar!
Amanhã, alguns lembrarão de outros fatos. Outros dirão que estou denegrindo imagens. É assim mesmo... Este é o ofício do crítico de costumes. Uns se agradam. Outros se desencantam com a sua própria realidade.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h25
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