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Impressões gerais
 

Nós, mulatos!

Vai mais ou menos por aí a letra de um samba mais ou menos antigo. Nós somos um País mulato e cheio de preconceitos, sim. É comum exercermos certos tipos de discriminação para com a nossa própria gente...

E bastou o Paulinho da Mocidade colocar uma nota de cinqüenta reais no bolso e já se sentiu o preto mais branco do universo... Pelé ou Martinho da Vila não são exatamente negros porque levam a vantagem de ter dólares em conta bancária. Ademais, no Acre, conheço casos vários das negras mais loiras do Brasil...

O Sr. Erwin Potschmann tem uma filha de treze anos, loura e linda nos seus olhos azuis de seda. Andrei, meu filho, um mulato de feições privilegiadas, é seu colega de turma no St. Etiènne College. Num desses dias, meu garoto foi à residência dos Potschmann, em companhia de Maureen, a garota. Andrei foi muito bem recebido pela família de ascendência eslava, afinal eles se auto proclamam anti-racistas. Todavia, as idas e vindas se fizeram constantes, Maureen provou e adorou o nosso charque, e o Sr. Potschmann, enfim, mergulhou na sua realidade branca e viu, assustado, a possibilidade de um namoro entre o meu mulato e a loura dele. É mole!?

O parágrafo acima, estilo Seleções do Reader’s Digest, é pura obra da minha ficção, embora o Andrei seja real. Mas, imaginemos um mulato de cor carregada - como no nosso caso - de namoro com uma loura, sua filha, com sobrenome inglês... Seriam necessários muitos dólares ou euros para comprar a loura talvez burra ou vagamente inteligente. E então?... Há aí já toneladas de preconceito para comigo próprio e contra as louras, adoráveis oxigenadas, que muito bem podem nem ser tão inteligentes quanto as morenas... Será?...

Observemos, assim, que, em linhas poucas e subtis, está esboçado o retrato contorcido do racismo velado existente entre os brasileiros.

E convém ilustrar com uma cena carioca interessantíssima. Estava eu de férias ao pé da televisão, genuflexo, humilhado perante a Vênus Platinada e, no Rio de Janeiro, casava-se pela segunda vez Romário, o jogador de futebol. De repente, aquela movimentação que logo se fez amena, próximo à capela onde se realizaria o casamento. Eis que aparece, então, em BMW lustroso, um ex-quase-novo-rico, convidado especialíssimo, o Nélio, que à época jogava no Flamengo. O cinegrafista, numa sacada magistral, filma no interior do veículo, dois roliços pares de coxas brancas, loirinhas, pelinhos em blondô, em contraste com duas mãos escurinhas ao volante do bólido alemão. E eu, pensativo, ensimesmado, sozinho na sala, apelei: Oh Zeus!... Ele merece!

Mas não me processem! Eu sou negro e feminista (Não efeminado!).

Seria então coerente tratar de Steve Biko, líder negro sul-africano assassinado pela polícia política do apartheid, em 1977, que foi a vários julgamentos por crimes que não cometeu. Tais julgamentos eram comumente transformados em defesas de lúcidas teses anti-racistas, por parte de Biko, diante de extasiada platéia branca. Numa dessas ocasiões, Biko afirmou que a base do vandalismo, assassinato, estupro e saque está na sociedade branca, a real fonte do mal, que está se bronzeando em praias exclusivas ou relaxando em seus lares burgueses. (Woods, Donald. Biko. Nova Cultural : São Paulo, 1987, p. 159). É preciso dizer que os juízes até entendiam as reivindicações do líder negro, mas a polícia política o odiava pelas demonstrações de rara inteligência e por isso o assassinou.

Pergunte-se: o que tem uma coisa a ver com a outra? Responda-se: somos essencialmente negros e irremediavelmente pobres, em termos materiais.

O Brasil é também um país de negros e mulatos maltratados, humilhados ou assassinados por um sistema que os exclui de toda e qualquer oportunidade de ascensão social, uma vez que tais oportunidades ainda ficam restritas às castas mais ricas da sociedade. Como seus pais e avós, os garotos riquinhos devem aprender, nas grandes universidades (públicas), como exercer rígido e inteligente controle contra a massa de espoliados que ganha R$ 380. Mínimo, múltiplo, incomum!

Os nossos guetos negros - aqui apelidados favelas - são antros onde a droga, o roubo e a prostituição são moedas com que se compra a indignidade de uma raça forte, que não vai à escola (ou vai à escola de péssima qualidade) porque aos poderosos não interessa uma negritude crítica e pensante. Felizmente ou infelizmente, ainda do morro dá pra ver tão legal o que acontece aí no seu litoral.

O Estado dito de direito não se faz presente e os burgueses se trancam por trás de mil esquemas de segurança, com medo da miserável horda que lhes assalta e lhes mata. E eles se perguntam sobre os motivos de tanta violência... Ora, a burguesia já não é tão inteligente e não vê que, desde a Lei Áurea, se as oportunidades tivessem sido dadas, os negros estariam dividindo o poder com eles, sim, mas não os assassinariam em busca de um naco de pão com que alimentem mais Fernandinhos Beira-Mar, Elias Malucos, Marquinhos do Boréu...

Por isto é que os meus irmãos negros, endinheirados, fogem da cor ao miscigenar-se com loiras oxigenadas que lhes preferiram em vista do regime de comunhão de bens que as fará tão ricas quanto eles. É por isto que as nossas negras se fazem loiras, fugindo da cor que não lhes empresta o ar burguês que gostariam de ter desde o berço.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h03
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Reanimando Lênin

Anima, do latim, é alma. Reanimar, então, é dar nova alma.

Este é um ensaio que tem por finalidade uma análise, em sala-de-aula. Por isto, é preciso ser didático. A clientela o exige. São rapazes e moças na faixa dos dezoito ou vinte anos. Convém escrever de forma clara, principalmente, porque as novas gerações não permitem o contrário. Esta é a era da automação, inclusive, dos processos informativos.

É interessante rever alguns autores clássicos que, desde algum tempo, embalam-me o sonho científico. Escrever sobre Lênin, então, é prazeroso, é fazer justiça a um intelectual injustiçado pelas duras regras do poder dos financistas internacionais.

Em realidade, Vladimir Ilich Lenin, a exemplo de Karl Marx, escreveu sobre muitas verdades que abalaram seriamente as velhas ricas estruturas erguidas à custa do suor e do sangue dos mais pobres, escravizados pelo jogo do poder dos endinheirados, donos da propriedade industrial. Infelizmente, as épocas eram outras e as lideranças comunistas que houveram por bem gerir os destinos de alguns países optantes pelo modelo socialista não eram estudiosas o suficiente para entender a mensagem de igualdade social deixada pelos próceres da causa socialista. Stalin, Trotsky, Mao, Fidel ou Abimael Guzmán, apesar das diferenças individuais e de época, leram muito, mas pouco entenderam... E deu no que deu...

Então, o que é realmente capitalismo? Em rápidas palavras, é exatamente esse sistema político-econômico em que pouquíssimos ganham muito dinheiro, e muitíssimos ganham muito pouco, quase nada ou nada ganham. É esse um sistema político-social em que as oportunidades são dadas a uma parcela mínima da sociedade; como no Brasil, onde uma imensa maioria não consegue suprir necessidades básicas como bem comer, beber, vestir-se ou ter moradias dignas. Enquanto uma parcela mínima usufrui de uma gama de privilégios que só o poder do dinheiro pode dar. Seriam uns melhores que os outros? Por que uns poucos têm tanto e a maioria nada tem? Por que freqüentamos escolas sem as devidas condições, enquanto uma minoria rica estuda em escolas onde todas as exigências são plenamente atendidas? Por que, inclusive, há algum tempo, era crime hediondo textos reais como este?

Lênin em Imperialismo, obra de 1916, numa análise deveras lúcida, prega que, enquanto o capitalismo continuar capitalismo, o capital excedente não será usado com o objetivo de elevar o padrão de vida das massas, uma vez que isso significa uma queda dos lucros dos capitalistas. Ao invés disso, será usado para aumentar os lucros pela exportação do capital para o exterior, para os países atrasados. Nesses, os lucros são habitualmente altos, pois o capital é escasso, o preço da terra é relativamente baixo, os salários são irrisórios e a matéria-prima é barata.

Noutras palavras, para um melhor entendimento, convém deixar claro que o dinheiro que sobra dos mais ricos, depois de todas as necessidades e futilidades atendidas, não é repassado para as empresas com o objetivo de melhorar as condições de vida dos empregados; estes deverão levar uma vida de sacrifícios, enquanto os patrões vivem felizes e rodeados de todas as benesses que o poder do dinheiro lhes permite usufruir. Jamais nenhuma medida será tomada em favor do trabalhador; isso significaria prejuízo para o empresário, e prejuízo é palavra que jamais deverá fazer parte do dicionário de quem deseja ter sucesso nos empreendimentos. Assim, o padrão de vida das massas deverá ser sempre o mesmo, quando a tendência não seja piorar.

O dinheiro que sobra, então, passa a ser exportado para países mais pobres, onde possam ser gerados lucros cada vez mais significativos. O alto empresariado americano, por exemplo, exporta seus dólares para países como o Brasil. Aqui podem ser montadas fábricas de diferentes tipos. Aqui o salário mínimo é uma mixórdia, a terra é barata para quem tem dinheiro, sempre há um ou outro incentivo, inclusive o fiscal, e as matérias primas têm preço ínfimo. Os dólares aqui aplicados, em vista dos preços anteriormente levados em consideração, quintuplicam-se gerando uma fortuna amealhada à custa de pessoas sofridas que nada mais sabem fazer que alguma atividade que lhes renda o suficiente para não morrer de fome, ou passar sessenta e cinco anos trabalhando para um patrão - o capital - que jamais lhe renderá homenagem alguma.

Por que então um americano rico iria preocupar-se com o padrão de vida de um assalariado brasileiro?

Este, sim, é apenas um pequeníssimo capítulo da nossa história de escravos dos capitalistas internacionais. E nós, professores e estudantes das classes menos favorecidas do Brasil - e especialmente do Acre - havemos de ter consciência do fato de que só um trabalho muito eficiente, a partir da escola, pode dar novos rumos ao desenvolvimento de um povo que se esforça muito, todavia é penalizado por falsos líderes que lhes ditam regras em parlamento, cujo objetivo único é aumentar a riqueza de patrões que jamais hão de preocupar-se por estarmos vivendo ou morrendo em nome da multiplicação dos seus dividendos financeiros.

Mas há muitas outras historietas comunistas a serem contadas...



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h01
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Cantiga de viver

Bebam vinhos chilenos, ou de Xapuri, se houver.
Mas nunca casem de madrugada...
Melhor seria, em hora nenhuma e sem fé.
Engordem, se for o caso, e se sintam bem.
Emagreçam alguns quilos e sejam felizes também.
Tomem banho de chuveiro, de cachoeira ou na lagoa.
No final, do mesmo jeito, estar mais leve é uma boa.
Preservem a natureza dos outros que é a sua própria
E não busquem tirar a cópia sem o original na mão.
Vistam tergal, ou voil, ou seda javanesa... Dá na mesma.
Vivam o hoje porque o ontem já se foi, e como foi...
E o amanhã é o hoje do futuro, sem nenhum furo.
Preocupem-se seriamente com o vir a ser,
Pois já dá pra ver que
Os amores da juventude devem ser vividos plenamente.
Mas não esqueçam de que amar,
Em qualquer tempo da vida, nos faz sorver novo ar,
Rejuvenesce a pele, os ossos, a alma,
Mesmo sem perder a calma
Na busca desenfreada pelo amor.
Andem de bicicleta ou a pé, é saudável.
Corram no parque e respirem a manhã, é aprazível.
Tomem muita ou pouca coca-cola, lambam o lábios,
Mas não cheirem nem a coca e nem a cola...
É tolice pura! Loucura! Caráter mínimo!
Cometam deslizes, escorreguem e caiam,
Mas lembrem da volta por cima que
É levantar-se com orgulho e ir adiante, sempre e sempre.
Navegar é preciso, viver é urgentemente necessário...
Sejamos felizes, enfim!

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 22 de julho de 2007
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Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h59
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