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Impressões gerais
 

A maldição do ofício

Escrever é ofício inglório. Na verdade, vai-se bem devagar, quase parando, apesar de uma certa crítica proclamar por aí afora que, nos escritos daquele triste e vão poeta, há muito de aproveitável. Ele, sim, foi devorado já pelas janelas de um tempo seu, nebuloso e hostil.

Assim como são conhecidos por estes dias de meu Deus aqueles que se arvoram a debulhar seis ou oito mil reais para a publicação de um livro, às vezes com muita qualidade, outros tantos assim não têm condições de levar a cabo a maldição do ofício. Se o escritor é pobre, os editores somem, até porque ninguém pode obrigar-se a cortesias quando o assunto deve traduzir-se em valores monetários. O parco escriba que vos alinhava linhas tão prosaicas, por exemplo, não pode trilhar os caminhos do diletantismo, uma vez que não tem dinheiro para dar-se a luxo tão dignificante. Tem, sim, quatro filhos saudáveis, muitos amigos escorregadios e alguns inimigos velados, por detrás da bananeira, sempre prontos a atirar-lhe, pelas costas, dardos infectados pela maledicência que teima em conviver consigo numa época em que o ser humano já se está humanizando de uma vez por todas. Vejam só!

Escriba marginal! Poeta vagabundo que não consegue mais que ir aos fedorentos liames da verdade! Apóstata incurável! Haverás, certamente, de escrever de modo a agradar a gregos e troianos, a mineiros e cuiabanos, da esquerda ou da direita, volver! E, assim, quando mais tarde, quem sabe, te procure a morte, angústia de quem vive, ou , quem sabe, quando tiveres a coragem de levar os teus filhos e alfarrábios a algum editor metido a Midas, poderás, talvez, ouvir dez nãos muito mais que apenas um sim... E por aí caminha o aprendiz de beletrista, entre os empurrões de alguns que dizem poucas e boas da sua obra, outros que o aplaudem fugazmente, e uns raros mas felizes que vêem em tudo uma grande bizarrice, inclusive, na produção de João Ubaldo ou Pena Branca... Durma-se com uma zoada dessas! Vá entender esses tais críticos que nunca tiveram coragem sequer de escrever crônica tão ensimesmada quanto esta.

E lá se foi o corajoso bardo, de mala e cuia, espada, arco e flecha, paramentado, a enfrentar os esquemas das instituições que dizem apoiar o ofício das artes. Quase um literato! Se não fosse o quase. Maravilhado, desde todo o sempre e até depois do amanhã que não virá, os esquemas foram sendo detectados pelo infeliz.

Dia desses, então, os moinhos de vento do Quixote de Cervantes deixaram-no abobalhado olhando para Juvenal Antunes, como se ali estivesse Gregório Filho, plantado e encasacado em bronze de alta qualidade. Bestificado, notara haver sido engolido pelo dragão e pelas mumunhas reinantes na casa das artes do Calçadão. Atropelaram o projeto do pouco arrojado escriba e sequer disseram os porquês de reprovação tão contundente. E ele perguntava a si próprio e por ele mesmo: cadê ele ou onde estou eu?... Ora, eu já morri. Agora reino no inferno das publicações não publicadas exatamente por carência de afetos e oportunidades.

Nesta casa de sabedoria onde o trovador habita há trinta anos, aqui próximo aos jardins do Tucumã, o provocativo escriba foi aconselhado a melhorar. E foi assim que, de Mestre, houve por bem tornar-se Doutor em filosofia e história da educação, através de estudos mui aprofundados em uma instituição pouco conhecida de nome Unicamp. A dissertação foi concluída ainda nos ermos idos de 1994. O professor do cachimbo que cheirava a almíscar, então, disse a todos que o livro sairia. E haja espera... O homem findou morrendo, e nada, até os dias que correm. Em 1998, defendeu tese de doutorado. Em chegando a esta terra boa, uma autoridade acadêmica de belo porte disse a ele que deixasse o CD da obra e, em pouco tempo, o “novo” livro sairia... Hoje, quase dez anos passados, nada! O poeta está bêbado! Os moinhos de vento são menores que a beleza estonteante de Dulcinéia Del Toboso, a musa do abestalhado D. Quixote de La Mancha.

Em verdade, há trabalhos prontos e não publicados há catorze anos, talvez por serem tão desinteressantes e virem da verve de um escritor sem arrimo e sem berço.

Eis, então, que enfim o maltrapilho bardo se embrenha nos meandros da informática e passa a produzir uns textos toscos que jorram aos borbotões. Passo seguinte: criou um tal blog visitado por não-sei-quantas celebridades de não-sei-quantos lugares, e começou a ler elogios e até cantadas de muito bom gosto, recitadas por-não-sei-quais das mais excitadas musas deste tempo velho de guerra... Oh, Deus! Aí apareceu uma fada madrinha que, finalmente, vai fazer acontecer o primeiro parto em parturiente com idade para ser avô. Onde está o bisturi? E os ungüentos? E as sanguessugas?...

Mesmo assim, há uma observação que causa enfado, como diria Bigode, um livre pensador de nome Francisco Carlos, dono de boteco. Tão poucos são os súditos de um rei pobre! Quão poucas são as santas almas que lêem um romance de sessenta páginas durante toda uma vida de sessenta anos!

É cristalina a verdade que leva a crê que alguns formadores de opinião e contadores de histórias estão morrendo de inanição editorial antes do tempo. Com as prostitutas está acontecendo o mesmo, infelizmente, no caso delas. Entretanto, é preciso considerar que, como diz Ariano Suassuna, o livro não deixará de existir jamais, mesmo porque ficará muito difícil pegar uma sesta com um computador nos peitos, como se faz tão costumeiramente com um livro.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h47
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