| |
Sob as asas nuas e cruas da Andorinha
E é mais ou menos por esta curva do destino que me vem à memória frase rocambolesca falada por alguns do meu mundo: todo homem tem o seu preço, mas os canalhas são comprados por um tostão a mais.
Meditemos, pois... No céu e sob sol forte, uma nave de pau-a-pique balança e balança, mas não cai. A bordo, desde vinte séculos, tripulantes e passageiros não encontram pouso porque já não há terra. São criaturas em frangalhos saídas das profundezas de uma ficção de Júlio Verne. Trapos rotos servem de vela. As hélices que fazem a geringonça voar são feitas de paxiubinha, ou intaubinha. Dá na mesma. O motor é de um velho relógio de uma igreja qualquer. Tudo, no mínimo, uma grande porcaria.
E a realidade existe, sim, também tosca, medíocre, chinfrin... Oh!...
Então. As notícias relativas aos desastres aéreos ocorridos nos últimos tempos deixaram o meu guri mais velho bastante temeroso. Morreu muita gente. O caos aéreo balançou as estruturas quase sólidas desta nação de deserdados.
Na verdade, os meus amigos de copo e de cruz estavam cobertos de razão. Já viajei bastante de carro através das belas paisagens deste Brasil varonil. Fui de ônibus uma vez e, por acaso, gostei. (Por acaso, sim!) De avião, viajei bem mais. E agora quero ser enfático: andar de ônibus, neste país, é sentir de perto o flagrante desrespeito com que são tratados os mais humildes que precisam deste tipo de transporte. É um horror! Pior é notar que político importante só conhece aeroportos, e nunca rodoviárias. Os miseráveis que ocupam os coletivos interestaduais dificilmente têm contato com tais autoridades porque não as conhecem e as distâncias sociais são imensas... (E a Marina Silva, só agora, sabe que o desmatamento no Mato Grosso é preocupante. Ora, eu conheço aquela terra de ninguém e sei, desde vinte anos, que aquilo tem cheiro de pólvora e as derrubadas nunca deixaram de aumentar ano a ano...)
Fui à Rodoviária com um mês de antecedência. Comprei três passagens de ida e volta ao Rio de Janeiro através das asas da Andorinha, uma companhia de ônibus que discrimina os que sobem acima de Campo Grande. O Ismael e o Marcos, agentes em Rio Branco, foram muito solícitos e me atenderam com exageradas gentilezas. Deram descontos prontamente aceitos, mas findaram por largar uma mentira que me custou a bagatela de cinqüenta reais. Como eu não houvera marcado a data da volta, asseguraram os rapazes bem intencionados que, na gare de Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro, havia um guichê da empresa. Ah, sacanas! Certo é que fui logrado pelos ladinos e tive que fazer uma viagem de duzentos quilômetros (ida e volta, toda uma manhã) ao Rio só para marcar as passagens. Fazer o quê? Ou me devolvem a grana (3901.2529, pela manhã), ou dirigir-me-ei ao grande Procon, o senhor das querelas que envolvem os enganadores da brasilândia.
A partida. Manhãzinha. Uma terça. Nenhuma lágrima de nenhum parente, posto que alguns ficaram até felizes com a nossa angustiante ausência... E seguiu pela Via a nau estúpida dirigida por um homem que comeu vinte quibes de macaxeira durante o trajeto até a capital de Rondônia. Simpático, o Cobrador Pinto fazia piadinhas esdrúxulas, mas tentava contornar a situação. Chovia na bela Amazônia nossa de cada dia. Chovia também dentro do pardieiro. Chovia na cabeça do Márcio Chocorosqui, um aventureiro amigo meu que ainda haverá de fazer muitas outras canções comigo. E aí, depois da localidade Novo Acordo, começaram a ser acolhidos ou apanhados, na marra, passageiros enlameados que viajaram em pé, como de costume, segundo eles próprios, num flagrante descaso aos preceitos legais da bestial ANTT - Agência Nacional dos Transportes Terrestres.
De Rio Branco a Porto Velho, o ônibus parou sessenta e três vezes numa viagem de quinhentos quilômetros que durou doze horas. É desrespeito demais, meus caros! Também, pudera! Pobres aos montes, encolhidos numa jabiraca que chamam de ônibus, com medo não sei do quê, não podia dar noutra...
Ensopadinhas, entraram na geringonça duas moças. Uma magra, simplória e falante na sua voz compassada demais. Outra, com as axilas insuportáveis. As duas disseram ao cobrador que desceriam em uma certa localidade, mas a baderna era tamanha que o Pinto esqueceu e a jabiraca rodou para muito além do ponto e, só então, alguém disse que as damas voltariam a pé. Mas não foi o que aconteceu. O gordo motorista comedor de quibe voltou cinco quilômetros em marcha ré, até largar as duas na boca do ramal da Mococa. É cômico e trágico ao mesmo tempo.
Lá pelas tantas, adentrou a nave um sujeito em mangas de camisa. Este não economizou críticas, inclusive, uma segundo a qual não há concorrência e uma tal Real Norte, conveniada com a Andorinha, faz e acontece com acreanos e rondonienses. Maltrata-os.
Um adesivo colado no vidro interno do ônibus dá um número de telefone segundo o qual alguém ouvirá as reclamações dos miseráveis. Tentei, mas não funciona. O e-mail ouvidoria@antt.gov.br também não tem utilidade, assim como a Anac, a Anatel e todas as agências criadas pelo Governo para organizar a avacalhação. Em síntese, o serviço é ruim porque não há concorrência.
De volta. Na Rodoviária Novo Rio, os passageiros da Andorinha foram brindados com um kit contendo um travesseiro e uma manta. Havia água mineral para todos. O motorista foi de uma simpatia incomum entre os da sua categoria. Uma beleza. Só que anoiteceu e chegamos a Sampa. Tomamos um outro ônibus que já se atrasara seis horas e os travesseiros e as mantas foram recolhidos. A partir daí, os viajantes já não eram cariocas ou paulistas, merecedores de conforto e aconchego. Já eram uns quaisquer que passaram a beber, inclusive, uma água torneiral duvidosa.
Sim, meu irmão Fernando Melo! Vê se Vossa Excelência - só essa vez - consegue fazer alguma coisa pela causa dos desafortunados, a partir de uma tribuna qualquer desta república capenga.
__________
* claudioxapuri.blog.uol.com.br
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h54
[]
[envie esta mensagem]
|
O papel inglório do professor
Depois do advento da greve dos professores das universidades federais, em 2006, comecei a pensar sobre a vida deste ser humano que, dentre outras, tem a grave incumbência de levar os mais jovens a viver, o mais coerentemente possível, o mundo dos mais experientes, colaborando na melhoria do bem-estar da sociedade em geral. É realmente muito pesado o papel desse comedor de giz.
Há algum tempo, passei as vistas por uma obra de Theodor W. Adorno, da Escola de Frankfurt, Alemanha, intitulada “Crítica cultural e sociedade” (Barcelona: Ediciones Ariel, 1969). Consigo lembrar de algumas considerações do autor. Todas ainda hoje estão eivadas de realidade e contemporaneidade. Por isto é preciso fazer um tratamento mais minucioso sobre algumas ponderações que não me fugiram à memória.
Pensemos, de início, naquele moço ou naquela moça que se arvora a fazer um curso pedagógico, de nível médio. Trata-se, é claro, de um ser humano prenhe de sonhos e, no mais das vezes, imbuído dos melhores propósitos, enquanto cidadão que pensa poder colaborar para o futuro das gerações que se vão sucedendo. Eis o idealista útil a um sistema que o quer voluntarioso, “sem dinheiro no banco”, trabalhador incansável, mas destituído de realidade.
Desde as primeiras aulas nos cursos de formação de professores, o professorando (aluno) já se defronta com mensagens irrealistas do tipo o sacerdócio do educador exige-lhe a vida em nome do futuro da humanidade. (Esta eu vi uma vez em Brasiléia). E tudo vai exigir do futuro professor, desde já, muitos ainda na adolescência, um desprendimento total, uma dedicação incomum, um amor-à-camisa que poderá vestir-lhe apenas e tão somente de glória efêmera, e nada mais...
Então, o caro mestre já se sente responsabilizado pelo há de vir da pátria amada. Em nome do futuro do país ele dará a vida, ganhará salários miseráveis, viverá uma existência de privações mil e morrerá tão pobre quanto seus pobres sonhos de professor pobre.
Aí, aqueles que projetaram este nobre ser, que trabalhará diuturnamente por salários que mal lhe garantem a sobrevivência, introjetam nele ainda muitas outras sandices que o tornam presa de um mundo obscuro, irreal, confuso. Assim, o professor se torna um alienado da realidade, daí a dificuldade que vai encontrar para entrar no mundo dos negócios, dos lucros, da exploração.
Segundo Adorno, é preciso estabelecer comparações. Daí poderemos claramente observar que um comerciante, por exemplo, sabe como extrair lucros entre suas compras e suas vendas. Um industrial vê a mais-valia ser fabricada e seus operários sentem esse mesmo processo por dentro. Um agricultor sabe cultivar o sobrevalor das suas colheitas. O profissional liberal estabelece e defende seus honorários e taxas por categoria. Apenas o professor julga que a vida econômica se desenvolve num reino de diálogo e de igualdade. Daí o seu fracasso quando se aventura em um empreendimento noutro campo: uma pequena loja, uma pequena chácara, um pequeno artesanato... Eu, então, não consegui sucesso num ateliê de costuras, nem na venda de roupas compradas em São Paulo. Um desastre foi a minha aventura empresarial. Que pena!
(Num desses dias, então, alguém, de uma faculdade particular, disse que pagaria a mim por um trabalho acadêmico - de doze ou treze laudas - cinco caixinhas de cerveja skol, ao que prontamente rechacei, uma vez que corria o risco de estabelecer um novo câmbio para as transações financeiras entre professores e alunos.)
É que no capitalismo vive-se a mecânica da extração dos lucros. Para ingressar nesta engrenagem e nela movimentar-se, o professor jamais terá queda, jamais terá jeito, uma vez que tem sua alma presa às quatro paredes de uma sala de aula etérea e sem muito significado real, tal qual ele próprio que, se mostra um exemplo sobre o caos das nossas universidades, a título de ilustração, encontra o sujeito, o verbo e os complementos, mas não mergulha no problema em si, que hoje atinge uma parcela considerável de brasileiros tão ludibriados quanto ele.
Mas há um algo mais. Há o fator mais preocupante que engana o cidadão em sua alma de bem intencionado. É a pior de todas a desditas, a maior de todas as alienações. Aqueles que estão encastelados nos ministérios fazem dos educadores heróis (ou anti-heróis) modernos responsáveis pelo que de bom ou de ruim poderá ocorrer ao futuro das gerações. Há, no entanto, todas as possibilidades de um vir-a-ser não tão auspicioso, uma vez que temos caminhado em direções opostas à justiça social e à igualdade de oportunidades e condições... E por todas as mazelas futuras haverá de ser o professor responsabilizado, apesar das condições educacionais deste País de inválidos espirituais. Os poderosos fazem muito pouco pela educação, e a culpa pela derrocada cabe ao infeliz professor.
Assim, cobrir o professor de glória é um jogo ardiloso que os donos do poder fazem para depois atirar-lhe todas as culpas pelas novas gerações que se sucedem e não apontam saídas para a dilemática do mundo moderno.
Estas são apenas algumas facetas que dão um retoque não tão colorido ao papel inglório do professor que não se tem habilitado convenientemente para a formação dos gestores do Brasil do futuro
_______________
* www.claudioxapuri.blog.uol.com.br
|
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h51
[]
[envie esta mensagem]
Sacrilégios
Gente do meu naipe prefere não amar aos outros por si mesmos, mas só por aquilo que conseguem lhes ensinar. Ademais, uma vez que nada é de graça, a cada um o seu preço. Tudo isto sem deixar de levar em conta, inclusive, aqueles que têm por princípio que a conspiração é atividade natural da raça humana.
Observemos que enganar aos outros é pecado imperdoável. Eu até já o tinha escrito. A vítima se sente traída no mais recôndito da alma. Às vezes quer vingar-se de forma brutal. Outras vezes se retrai e, por um período, vê-se triste e decepcionada com o algoz que até bem poderia ser amante, amado, cruel e vil.
Olhando para o outro lado da moeda podre das nossas relações, é preciso observar que muito pior é enganar a si mesmo. Aquele que mente desta maneira está perdido irremediavelmente e de uma vez por todas. A alma penada se faz vítima de si própria e, depois, sequer conseguirá perdoar-se. Seguirá, então, para uma espécie de inferno dantesco de onde jamais conseguirá fugir, nem que tenha condições de pagar indulgências plenárias, aquela fiança antiga que o céu concede aos pecadores que têm mais dinheiro.
Ora, depois de todas estas divagações de um tal espírito filosófico que resolveu encostar em mim hoje, posso afirmar que o professor Doca Palharé é bom, de verdade, porque sabe se expressar, oralmente, em bom português, e tem um texto límpido, correto e coerente. Escreve como muito bem escreve a maioria dentre os tantos pares do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
As afirmativas acima, no entanto, não podem ser dirigidas ou relacionadas ao pobre Simão Cirineu, da Faculdade de Passa Sete, no interior do Maranhão, que titubeia e gagueja e quase desmaia ao abordar itens mínimos da acentuação tônica ou da análise sintática que nunca soube; ou patina, desliza e quase vai ao chão ao cometer verdadeiros sacrilégios contra preceitos miúdos da concordância e da regência verbal ou nominal.
É claro que todas as proporções devem ser devidamente guardadas. Todavia, é preciso ir aos chavões popularescos e afirmar que aqueles que não têm competência não se estabelecem. Ou, quem não pode com o pote não pega na rodilha. Por que o Astolfo Serrado anda por aí dizendo que sabe fazer aquilo que jamais aprenderá por absoluto despreparo ou por pura preguiça? Se você tem algum conhecimento sobre alguma coisa - e todos o têm - demonstre-o irrefutavelmente. A modernidade assim exige. Se você não tem o real conhecimento sobre um tema, estude-o detalhadamente, domine-o e não tente adivinhar o exato número das estrelas do céu ou o sexo do anjo beltrano. Basta um pouquinho de coragem e vergonha na cara e você já estará, em pouco tempo, deixando de ser mais um abjeto mentiroso que, além de enganar a humanidade, engana a si próprio e peca imbecilmente.
Se me repito, perdoem-me e atribuam isso à minha idade e à têmpera corrosiva. Na Ufac, por exemplo, trinta anos depois, ainda não aprendi a conviver com espíritos presos que dizem ser autores de trabalhos de cunho científico que jamais conseguiriam fazer, mesmo porque sequer uma mera monografia o pequeno asteróide faz e, por aí, alardeia ser doutor não-sei-de-quantas ciências inexatas e mal acabadas. Um mentiroso e tanto! Vai bater no inferno das letras em labaredas...
E o que vem a ser a emulação? É uma espécie de estímulo à competitividade combatido por alguns porque a dizem gerar inimigos. Hoje, entretanto, no meio da selva densa onde pululam enganadores e enganados, ela se faz necessária para que possamos, assim, salvar os segundos dos primeiros. Quantos eu já não ouvi dizer que são concursados? E são. Os demais, os janeleiros da ocasião, metem a calda entre as pernas e saem de fininho, muitos deles com medo de uma disputa que o mercado hoje até exige, e com razão. Ora, pois! Se a minha empresa contratar um imbecil atrás do outro, não demorará muito a hora da decretação da falência por inanição... Eu quererei sempre os melhores entre os melhores, é claro.
No serviço público, notadamente nas salas de aula do Brasil, mourejam funcionários cuja missão não vai além de desinformar aos que precisam informar-se.
Mas é claro que há os bons. Há, por exemplo, os cobradores do fisco, aqui denominados auditores fiscais da fazenda pública, e os que prendem os velhacos e sonegadores, aqui denominados juízes federais. Esses são excelentes servidores e ganham muito bem para exercer o seu “desideratum”. Senão os nossos índices de crescimento da economia, hoje, não bateriam recordes históricos. Aplausos!
E o Ministério da Educação tem promovido concursos nacionais onde os melhores alunos demonstram que as suas escolas e/ou faculdades são boas e os preparam bem. Com todo o respeito que tenho pelo Dóca e pelo Simão, seria esta a hora da criação de um “ranking” nacional - através de um provão específico para professores - cuja finalidade seria premiar os realmente bons com salários compatíveis ao seu desempenho.
Um provão nacional para professores de todos os níveis apontaria os que enganam esta Nação de enganados. É simplismo agora virem dizer que os cursos de licenciatura formam maus professores e, por isto, estamos decrescendo. Seria este um dos fatores? Se assim persistirmos, sempre jogando a culpa no outro, a educação brasileira continuará amargando os péssimos resultados que todos conhecemos.
_______________
* Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Pesquisador do Centro de Filosofia e Ciência Humanas/Ufac. Autor do livro “Janelas do tempo”.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h40
[]
[envie esta mensagem]
Camelô das artes
Meu bom pai, que daí do céu me espia, um grande abraço nesta tua alma hoje tão irrepreensível... Já se vão doze outonos crassos desde a tua partida, dita gloriosa, por nós irmãos, teus filhos, e ainda não tinha te escrito sequer uma mal traçada linha. Resolvi mandar-te notícias do lado de cá porque por aqui tudo continua no mesmo perrengue eterno nosso de cada dia. Desde que o mundo é mundo, desde que tu te chamaste Raimundo, para aqueles do berço dourado, as oportunidades sorriem, mas, para a “currióla” da cama de pau, tem que ser, obrigatoriamente, um leão morto a cada dia, à unha, para que as tripas sejam o alimento que nos tira a barriga do caos.
Sim, é verdade! Arranjei uns amigos muito supimpas que me fizeram a maior cortesia de que tenho notícia desde os meus mais tenros dias. É por isto que estou quase a publicar um livro que será lançado, oficialmente, no dia 28 de março e cujo título é “Janelas do tempo”. Uns outros compatriotas têm escrito sobre qualidades positivas minhas que nem sei se ainda tenho. Esse Pitter Lucena, por último, fez-me viajar pelas asas da emoção e me comparou a Zola, Balzac, Rubem Braga e Joel Silveira. Trata-se de um bom amigo. Grande parceiro. Talvez eu nem mereça tanto.
Na verdade, sempre acreditei, mas preciso fazer com que alguns creiam também que os livros são maravilhosos porque cruzam mundos e séculos derrotando a ignorância e, finalmente, o próprio tempo cruel. Quem sabe este “xapurizinho” que tu bem conheces um dia chegará à posteridade... Agora eu paro!... Já é obra do vinho...
Ah, sim! A Doutora Eva Evangelista, minha madrinha epistemológica, inquieta-se porque, segundo ela, são grandes as possibilidades de os livros um dia virem a desaparecer. Por isto, quis tranqüilizar-lhe a alma talentosa. Segundo Ariano Suassuna, os livros não haverão de desaparecer porque o ser humano sente uma imensa dificuldade em dormir com um computador nos peitos. É por aí...
E me vem à memória o Amos Oz, escritor israelense da época do holocausto: “Quando eu era criança queria ser um livro, e não um homem, quando crescesse. Assim, pelo menos uma cópia de mim sobreviveria em alguma biblioteca distante, num país distante”.
Na segunda-feira última, então, fui ter com um outro amigo, o Márcio Batista, vereador. Lá estava ele, então, na Toca do Lobo, um bar da moda, tomando uma cervejinha e coordenando um evento. Numa mesa previamente reservada, a um canto, ajeitei alguns livros meio empilhados, como se estivessem numa prateleira... Ali eu estava camelô. Venderia a minha arte à minha mãe que lá não estava... E o “rock’n roll” fez subir a temperatura do ambiente onde eu já me sentia muito à vontade. Fizeram uma pausa e, surpreendentemente, deixaram-me falar e eu consegui vender meia dúzia de exemplares do querido e mimado “Janelas do tempo”. Vender um livro desses num show de rock! ... Legal, né?!
Sentado eu estava e sentado fiquei... Agora já ingerindo uma bebida gelada... De repente, de supetão, veio a mim a idéia segundo a qual todo camelô que se preza já levou uma carreira do “rapa”, pelo menos uma vez na vida. Pior é que o microempresário da informalidade sai com uma puta trouxa nas costas, correndo feito um condenado, como se tivesse assaltado uma velhinha. Dá até polícia e, às vezes, toda a mercadoria vai para as mãos não-sei-de-quem. E lá da porta da loja o bacana que sonega tantos impostos fica só olhando a turba correr com medo dos fiscais.
E como agiria o professor que quer ser escritor se tivesse que correr com medo do “rapa”? Livro é coisa bastante pesada... Pior é que, se a mercadoria lhe for tomada, ninguém a quererá porque brasileiro não é dado a leitura, a não ser das bundas que passeiam pela feira. As minhas “Janelas”, então, iriam para o lixo ou seriam incineradas... Tremi só de pensar!
Foi por aí que apareceu o meu “rapa”, de saias. Uma meia dúzia de ex-alunas - e um rapaz alegre enfeitando a comandita - foram taxativos ao exigir que lhes fossem doados livros em nome de amizade muito antiga... Neguei de pronto alegando que o fato de estar camelô das artes é o ofício que quero para o meu futuro pra lá de promissor... Foram-se, graças a Deus!
Amanhã, então, será um outro dia, como não poderia deixar de ser. Acordarei cedo, irei aos exercícios de musculação, correrei para a Universidade, à noite venderei aulas de Português e, enfim, farei nova estréia, como camelô das artes, agora com uma nova roupagem, uma nova formatação e um novo velho método. De mesa em mesa, no Água na Boca e, depois, no Maria Farinha, defenderei as razões das minhas janelas e do meu tempo. Direi tratar-se de uma coletânea de crônicas marcada e apaixonadamente acreanas que o Marcos Afonso acha o máximo. Numa outra hora, visitarei outros pontos onde os bacanas flertam com a felicidade que é poder nunca se dar por vencido. Graças a Deus!
Parafraseando o livre pensador Tim Maia, não pode dar certo um país em que prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme e traficante se vicia... Da mesma forma, sem desmerecer a atividade destes mascates da informalidade, numa nação onde escritores se tornam camelôs, as crianças de hoje não mais sabem quem teriam sido o Gato de Botas ou a Gata Borralheira, mas sabem quem foi o último ladrão oficial que afanou os cofres públicos, ontem, já às onze da noite...
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h38
[]
[envie esta mensagem]
De jornalistas, filósofos e cronistas
PITTER LUCENA
A crônica fez a fama de muitos escritores. Invadiu a imprensa e se transformou em objeto do desejo de muitos jornalistas. Houve momentos em que se tornou impossível distinguir o cronista do jornal ou da revista ou com os quais colaborava, da mesma forma como era impraticável pensar em revista ou jornal sem os cronistas preferidos dos leitores. No fim de algum tempo, essa simbiose se tornou obrigatória em todo o mundo.
No Brasil, é claro, não poderia ter sido diferente. Com o passar dos tempos, os cronistas se transformaram em colunistas. E ter coluna cativa equivalia e a ter prestígio, fama e poder. Cronistas ou colunistas imperavam na imprensa que se prezava. Hoje, já não sabemos distinguir uns dos outros. A maioria dos leitores já não sabe se o cronista de hoje é o colunista de ontem ou se o colunista de ontem é o cronista de hoje.
Ao que parece, cronistas e colunistas são os jornalistas de hoje que ainda mantêm viva, a despeito da informática e da Internet, a antiga tradição da Imprensa que sobrevive desde que Gutemberg a inventou e a liberdade de consciência se tornou um dos apanágios da Democracia contemporânea.
É longa, nobre e cheia de boas lembranças a lista dos cronistas. E como hoje é variada, embora às vezes insossa, a relação dos colunistas! Balzac foi cronista, como Émile Zola, que fez do J’Acuse! a mais famosa das crônicas de sua época. Esse, aliás, foi o caminho que deu fama à crônica e aos cronistas. Célebres como escritores, famosos como cronistas que, mais do que jornalistas, foram poetas, pensadores, autores, polígrafos. Terá havido reportagens mais insinuantes que as crônicas de Hemingway? O que foi em suma o nosso velho e venerado Machado de Assis, senão o mais fino dos cronistas de sua época, como jornalista e repórter, a ironizar a vida que imitava os personagens de seus imperecíveis romances e de seus contos inesquecíveis?
Hoje já não sabemos se as crônicas de Rubem Braga emularam as reportagens em que Joel Silveira foi mestre, ou se as reportagens de mestre Joel inspiraram as crônicas do famoso cronista que foi mestre Braga. As aventuras e desventuras de um e de outro podem ser medidas pelos altos e baixos de uma época trepidante em que crônicas e reportagens disputavam espaço nos jornais e revistas em que imperavam pensadores, literatos e repórteres e escritores de todo calibre. Afinal, qual foi o escritor, dos mais nobres e refinados, aos menos reconhecidos e proclamados que não se fez repórter e quantos dos mais famosos cronistas, de que Castelinho foi um exemplo, não se fizeram como ele escritores de vasto e variado público?
Por trás de cada cronista seguramente há um jornalista, da mesma forma que sob a personalidade de cada jornalista se esconde um cronista.
O que não é comum nem usual, é que cada cronista e cada jornalista abrigue dentro de si um filósofo, um pensador e um ensaísta. Pois este é, justamente, o caso de José Cláudio Mota Porfiro, Doutor em Filosofia e História da Educação, ensaísta, poeta e jornalista. Alguém com tantos e tão variados interesses intelectuais, que seria impossível tentar classificá-lo. Creio que a tanto não ousaria nenhum dos seus amigos e nenhum dos seus leitores, para não falar dos que, a essas condições, juntam-se aos seus admiradores. Pois este é o inusitado de um intelectual e um pensador que não cabe na estreiteza dos rótulos e no convencional das classificações.
Melhor do que afirmá-lo, e mais apropriado ainda do que dizê-lo, é deixar os rótulos e classificações de lado e constatar, cada um dos que terão a ventura de ler seus livros, o quanto de verdade há na afirmação de que, rompendo os limites estreitos de nossos conceitos, Cláudio Porfiro é por suas qualidades, por sua prosa e por sua poesia, o mais qualificado dos cronistas que conhecemos, o mais clarividente dos ensaístas que já lemos e o mais didático dos filósofos de todos com os quais convivemos.
Cláudio Porfiro é muito mais do que isso. No fundo da alma, Porfiro não passa de um garoto que nunca esqueceu a vida de infância em Xapuri, mesmo depois de ter ganhado o mundo em busca do conhecimento e da felicidade. Felicidade essa que sempre esteve à sua espera nas ruas, nos amigos e na gente de Xapuri.
Ao abrir as páginas de sua cria Janelas do Tempo, Cláudio Porfiro escancara os sentimentos da vida de meio século de existência. Passeia leve e livremente pelo caminho das lembranças. Em uma de suas crônicas, ele afirma que não está ainda para escrever reminiscências. “Sou apenas um moço que já houve por bem atravessar meio século de vida bem vivida. Todavia, há dias em que umas lembranças muito ternas me vêm à memória. Às vezes me emociono. Às vezes divago um tanto... Mas findo por retratá-las em papel, em meu nome e em homenagem a tantos quantos povoaram e tornaram realidade os meus sonhos juvenis”.
Janelas do Tempo retrata os sentimentos de um jovem malandro, batizado Cláudio Porfiro, um eterno apaixonado pela vida e pelas belezas do mundo. “E foi em Xapuri que conheceu, verdadeiramente, as mulheres mais belas dos seus sonhos, com todo o respeito que cabe na alma deste poeta insano e cortês.”
Para Porfiro, pelo menos uma dentre tantas verdades não dói. Por isto, afirma que tem quatro pilares básicos que sustentam as suas rasantes sazonais. “Primeiro, a família que lhe deu origem, depois, o doce lar e a mulher amada, depois, as escolas gratuitas que freqüentou ao longo dos anos e, enfim, o boteco, de onde jorram em borbotões frases de efeito e comentários que partem de espíritos altamente inteligentes e ligeiramente etilizados... E tudo isso é a minha cara, realmente. Feito por encomenda, lá em Xapuri, papai houve por bem caprichar no produto made in seringal. Ora pois!...”
Janelas do Tempo não é apenas uma obra de crônicas. É um apanhado de histórias, nossas histórias, resgatadas pela memória sensível de Porfiro. É claro que os amigos deverão degustar sua leitura em qualquer boteco.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h29
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|