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Vigiai e orai!...
A inveja é uma úlcera aberta. Onde quer que haja um trono, pode-se observar, detalhadamente, toda a loucura e a maldade de que o ser humano é capaz, sob o esmalte das boas maneiras e o dourado da hipocrisia. Matam-se almas e mentalidades inteiras, a sangue frio, pelo simples fato de um qualquer não ir com as fuças de outros.
O império romano foi uma superpotência e viveu seu apogeu por mais ou menos trezentos anos. Foi aí que começaram a aparecer os vizinhos pobres - ditos bárbaros - que passaram a solapar as bases da eterna Roma. A partir de então, o poderio dos latinos foi sendo, paulatinamente, desbaratado, desmembrado, destruído em seu conceito de soberania e grandiosidade.
A Inglaterra foi a senhora dos mares por pouco mais de cem anos, tendo, antes, usurpado tecnologias portuguesas, holandesas, francesas, dentre outras. De repente, deu asas à imaginação de um filho robusto e, hoje, naturalmente, vive sob a sua proteção pela terra, pelo ar e pelo mar. Sim, os Estados Unidos, conforme Geoffrey Blainey - Uma breve história do mundo (São Paulo : Fundamento, 2007) - passaram de uma situação de súditos a uma posição de senhorios. A velha Inglaterra, de tantas colônias, no passado, hoje não passa de um nobre protetorado americano e judeu, com certeza, posto que são estes últimos os grandes financistas do capital internacional e da cobiça das superpotências.
A China dos dias atuais alcançou um patamar de desenvolvimento louvável, embora os seus problemas sociais flutuem pelas águas do Amarelo e remontem à dinastia Ming. A Índia também prospera, mas o atraso das mentalidades hinduístas ainda atira os seus mortos nas águas barrentas dos rios Indo e Ganges. O Brasil, cujo povo é o mais bonito do mundo, hoje uma super-colônia que viceja no quintal dos Estados Unidos, ainda convive com a corrupção, com a produção e o tráfico de drogas, com a violência dos morros insalubres e com um sistema educacional que não forja os talentos de que tanto necessita para alcançar o pleno desenvolvimento. Aqui, certamente, no mais das vezes, a competência técnica é colocada de lado em detrimento do compadrio e da barganha cartorial, como tem ocorrido desde os tempos da Colônia.
Mas é oportuno tentar uma abordagem sobre a questão Brasil no âmbito das relações com o G8, o grupo dos oito países mais espertos do mundo, dentre os quais eu não me incluo, até porque sou um mero caboclo amazônico que é leal porque gosta.
Um dos nossos vizinhos mais próximos, o mais próspero, o mais astuto entre todos, esse, sim, como os outros, deve ser tratado com respeito. Não como o faz esse tonto, o Hugo Chávez, que pensa tripudiar, mas é tripudiado. Sim, é conveniente não dormir porque os americanos podem burlar a vigilância e levar o pouco da dignidade que já conseguimos ter, apesar dos séculos de escravidão sob o couro cru da chibata lusitana. Vigiai e orai, porque não sabeis quando será chegado o dia ou a hora. Assim registrou Mateus, nas Sagradas Escrituras.
Entretanto, depois dos estilhaços, bom é notar que o novo Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, tem razões de sobra para sugerir que o Exército deve vigiar e punir quem atravessar a fronteira. Qualquer estrangeiro, notadamente esses vinculados às Ongs internacionais, deve passar por uma quarentena, a pão e água, sob vigilância atenta, para que, aí, sejam detectados os seus reais propósitos. Eliminem-se da face da Terra esses abjetos traficantes de drogas e feiticeiros do absurdo. Esses piratas da modernidade usam de novas estratégias, mas os fins se assemelham aos dos celerados de outrora.
É claro que esta abordagem é feita, aqui, a grosso modo. Há muito abandonei as fileiras e o gorro. Mas pensemos no fato de que há um punhado de quase caudilhos, oficiais e suboficiais, sargentos e meros praças, refestelados no aconchego dos seus apartamentos, no Rio de Janeiro, em Brasília ou no Manoel Julião. A nova pátria desses medalhões deverá ser os recantos da Amazônia, em Tabatinga, quem sabe, ou mais ao norte, na região da cabeça do cachorro, o rincão mais inóspito deste País. Os salários são bons e o retorno em serviço, um dia, quem sabe, deverá ser melhor ainda. Hoje, em qualquer clareira da mata, pode-se muito bem instalar aparelhos de ar condicionado e ver televisão a cores. Os ashaninkas, por exemplo, estão plugados na internet e poderão ser os nossos soldados camuflados pela rede mundial de computadores.
Há, certamente, algum egoísmo nas minhas palavras. Nós temos onde plantar alimentos em quantidade suficiente para suprir as demandas nacionais e, ainda, oferecer assistência técnica para que a América Central produza (plante) mais e faça menos confusão, em que pese estar entendendo a tempestade moral que se abate há séculos por sobre aqueles povos a partir de líderes corruptos e imbecis.
Os biocombustíveis deverão ter incentivos do Governo Federal, porque há um infinito de áreas degradadas que deverão ser recuperadas para o plantio das espécies que lhes servem de matéria-prima. Basta que os interesses escusos e a ganância doentia sejam fiscalizados com mão de ferro por quem de direito, quiçá, um Ministério da Justiça remodelado em quadros de policiais em números suficientes para uma demanda do tamanho do Brasil.
Hoje já contamos com uma reserva de petróleo que nos tornou uma das nações mais competitivas do mundo; e isto deixa os Estados Unidos pouco à vontade. Já dominamos e somos detentores das tecnologias dos biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar, dentre outros. Tornamos-nos preparados para, em futuro próximo, celebrarmos a nação a que Ariano Suassuna se refere. Estamos a um passo de juntarmos o conceito de justiça à prática da liberdade, e vice-versa.
O vizinho rico tem medo de que o vizinho verde-amarelo progrida. Nas minhas Janelas do tempo está registrado que os grandes mantenedores da instrução das nações periféricas - FMI e Banco Mundial - não querem ver o terceiro mundo competindo com as nações que devoram as demais. Aos pobres restam apenas as migalhas do banquete dos ricos. Se os nossos negros, mulatos e brancos pobres tiverem educação de qualidade, não será difícil, em pouco tempo, sobrepujarmos os tigres asiáticos, os ursos da América do Norte e o preconceito europeu.
Em verdade vos digo. Há que observar um aspecto curioso da sociedade humana: raramente tomamos medidas preventivas para evitar desastres, mesmo quando a exata natureza da calamidade é conhecida por todos.
Tchau, mamãe e filhos homens! Estou feliz e vou para o front!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h29
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Sobre a semestralidade
Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo. O Rubem Alves, educador, não poderia ser mais contundente. Grande!
Eis, então, que me apareceu o moço. Não tinha tatuagem no braço, nem dourado no dente e minha mãe não se entregou a ele perdidamente. Fato é que demonstrou, além de algum conhecimento acerca de umas novas e boas fórmulas concebidas pelos medalhões do Ministério da Educação, um grande amor à causa. Por isto, mais uma vez me empolgo. Melhor é que o jovem professor sugeriu que as minhas sugestões, quaisquer que sejam, devem ser dirigidas à nossa Secretaria.
Disse-lhe que, desde cinco séculos, tornara-me a voz que clama no deserto, mas não ecoa. Tenho opinado, sempre, através de veículos de comunicação, como esta Gazeta, lida em todos os quadrantes deste Estado... Talvez as pessoas não queiram ouvir as minhas ponderações tresloucadas por me terem enquanto um impertinente e um teimoso que quer entrar onde nunca foi chamado... Talvez os cardeais sequer precisem ouvir as preces de um padreco vulgar e inexperiente, apesar dos vinte e cinco anos no Colégio Estadual Barão do Rio Branco e dos trinta de serviço na Universidade Federal do Acre, sem contar a época da caserna e do gorro... É assim a vida. Continuo tendo todas as razões que a própria razão reconhece... E não sou nenhum doido.
Reconheço o trabalho incansável e ditoso da equipe da Secretaria de Estado da Educação. Os patamares alcançados e os índices a que chegamos dizem muito bem a respeito do zelo que aquelas pessoas têm para com a educação das nossas jovens gerações. Todavia, é preciso ir muito mais longe e o meu projeto Salas de leitura será, com certeza, um grande potencializador desta empreitada.
Mas é preciso levar em consideração um aspecto acreaníssimo - por excelência - denominado semestralidade... E o que é isso?
A cada semestre - de quatro meses - o aluno estuda quatro disciplinas, no ensino médio, por exemplo. Ora, meditemos. O Heitor de Maria, meu aluno, estudou Matemática, Física, História e Biologia, de março a junho de 2006, no segundo ano. De agosto a novembro do mesmo ano, estudou Português, Geografia, Química e Inglês, e foi para o terceiro ano, em 2007. Aí, no primeiro semestre ele viu Física, História, Biologia e Português, e foi cursar Matemática já no segundo semestre de 2007; portanto, um ano depois. Decorrido um período tão longo, as ligações mentais que deveriam se estabelecer entre os conteúdos do segundo e do terceiro anos ficaram muito tênues, quase apagadas. E ficariam fraquinhas também se o período fosse de seis meses, uma vez que o vínculo entre um conteúdo e outro é muito forte e os alunos não chegam ao ensino médio com toda essa aptidão intelectual que alguns pensam, muito menos se forem oriundos dos cursos de aceleração da aprendizagem que distribuem fartamente diplomas de ensino fundamental a muitos que sequer aprendem a ler de carreirinha.
É real. Este expediente chamado semestralidade só existe no Acre. E nunca um mestre-escola acreano - desses que conhecem a realidade das salas de aula, porque de lá não arredam o pé - disse a ninguém que se trata de algo positivo, realmente benéfico ao aluno... Ao aluno, sim, porque a triplicação da carga de trabalho sobre os ombros do comedor de giz não quer dizer muita coisa, posto que professor sempre viveu debaixo de porrada, mesmo levando em conta o nível salarial dos do Acre, que não ganham mal, mas deveriam ganhar bem mais; e deveriam ser incentivados a buscar melhorias na qualidade da sua ação educativa, se bônus financeiros fossem acrescentados aos salários dos que fizessem cursos de especialização, mestrado ou doutorado.
Os alunos acreanos não decepcionaram no Enem – Exame Nacional do Ensino Médio. Foram até bem, mas os resultados poderiam ser muito melhores a partir de alguns adendos que devem ser considerados, como é o caso da eliminação do fator semestralidade. É preciso registrar ainda que frutos muito mais doces virão, posto que as competências (junção de conhecimento e sabedoria) devem ser treinadas com bastante paciência, através de um infinidade de exercícios, em sala de aula, que não caberão nos limites de semestres que contam com apenas quatro meses, tendo em vista as quatro provas e quatro recuperações, dentre outros quatro ou mais dias em que as aulas não são levadas a efeito por motivos variados.
É oportuno considerar que os colégios particulares já obtêm resultados a partir do uso da metodologia do Enem, durante todo o período letivo, aqui compreendido enquanto uma seqüência ininterrupta de dez meses ou mais.
Já há muitas empresas brasileiras que buscam os seus estagiários - futuros profissionais - nas escolas a partir dos resultados obtidos pelos alunos nos exames do Enem. Há vestibulares, notadamente de faculdades privadas, que têm enquanto parâmetro classificatório aos seus cursos as provas do exame acima citado.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h21
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