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Memorial da Terra
O homem é a sua própria personalidade no sentido mais amplo, o que inclui força, temperamento, caráter moral, inteligência e educação. O que um homem tem são propriedades e posses em todos os sentidos, física e espiritualmente. O que um homem representa aos olhos dos demais é a opinião desses ao seu respeito, e isto pode ser dividido em honra, posição e glória. É o que escreve Aristóteles em um livro chamado Ética a Nicômaco.
Alguns teóricos do nosso tempo inscreveriam estas pretensões - a que eu chamo projeto - enquanto pertencente ao campo de domínio da história das mentalidades, este viés que trata da dimensão da vida social, do universo mental, dos modos de sentir, do âmbito mais espontâneo das representações coletivas, dentre outros fatores.
Na verdade, não nos interessam os heróis erguidos para simbolizar uma nação ou um povo. Teses sobre as novas formas de fazer a história abordam a necessidade do tratamento focado em novos sujeitos, novos objetos e novas abordagens. São exatamente as bases teóricas acima que dão fundamento ao trabalho aqui denominado Memorial da Terra.
Teorias à parte, é preciso deixar muito claro, a quantos interessar possa, que a nossa história é construída, esforçadamente, pelos homens e mulheres mais humildes deste rincão. Estes são os novos sujeitos da saga de velhos caudilhos que adotaram esta terra como sua, tendo vindo do nordeste do Brasil, de Portugal ou dos longínquos Líbano e Síria, na remota Ásia. Ah! Como sofreram esses homens e mulheres em meio ao inóspito e ao desconhecido amazônico!
Então, é oportuno enfatizar que, em casa, todos têm um herói e/ou uma heroína particulares, para consumo próprio. Foram estes que derramaram suor e sangue para que, um dia, pudéssemos dizer algo de realmente muito positivo e enaltecedor ao seu respeito. Quão duras foram as suas tarefas e as suas vidas. Naqueles idos, sustentar uma prole de seis bocas famintas, a exemplo lá de casa, ia para muito além de receber no banco o salário no fim do mês. O estivador lá de casa carregava a nossa vidinha pacata de filhos de pobre, mas carregava, também, junto com alguns companheiros diletos e fortes, toda a mercadoria que chegava e que saía de Xapuri, em cangalhas atadas às costas, barranco acima, barranco abaixo, feito camelos.
Homens e mulheres como o meu pai e a minha mãe, apesar dos ingentes esforços, ficaram longe das páginas da história dos governantes e mandatários, dos donos do poder e dos seus asseclas, e têm levado consigo os relatos de vida para o túmulo. Quantas histórias se perdem porque os filhos não mais lembram os exemplos deixados pelos pais. Ademais, há uma grande maioria de filhos que sequer falam aos seus filhos a respeito da participação do velho patriarca na construção deste pedaço de chão. Os nossos heróis são enterrados junto com o seu heroísmo.
Por isto, faz-se oportuno resgatar, agora, enquanto o chão resiste sobre si o nosso peso, pelo menos parte desse legado, a partir de fatos e ocorrências que ainda estão na lembrança dos descendentes. Certamente, cabem aqui os relatos de filhos que tenham coisas boas a falar dos pais. Não são oportunas críticas revanchistas ou que tenham qualquer outro sentido negativo.
Serão enviados roteiros - não questionários - a serem seguidos por quantos se interessar possam. Não haverá pergunta fechada. Todos os itens serão abertos e abrangerão todo o tamanho do coração dos filhos saudosos. Em resumo, serão válidos tantos depoimentos quantos a família achar necessários.
Se optarem por seguir o roteiro e escrever as lembranças de próprio punho, não será necessária nenhuma preocupação com a correção gramatical ou o bom uso do português; este é o papel do autor deste projeto. Aos que preferirem entrevistas gravadas, há a possibilidade da gravação em hora e local previamente combinados. É claro que o roteiro será utilizado num e noutro casos e a assinatura do(s) depoente(s) será imprescindível. No entanto, caberá aos depoentes abordar ou não esse ou aquele item do roteiro.
Não há uma pretensão de alijar esse ou aquele cidadão do processo. Aqui não cabe nenhuma discriminação. Todavia, a prioridade é para os deserdados da história. Há pessoas que têm o nome gravado, já, nos anais por terem exercido funções de destaque na sociedade acreana, notadamente, os políticos e os grandes comerciantes. Esses já têm a sua história escrita, ou os filhos já encomendaram a sua elaboração, ou já tiveram o reconhecimento dos poderes constituídos e estarão, possivelmente, em relatos deste tipo, em momento mais oportuno.
Em termos mais práticos, registre-se, aqui, a responsabilidade do autor deste projeto por seguir, rigidamente e ao pé da letra, sem desvios de percurso, os depoimentos prestados pelos familiares. Por outro lado, é preciso deixar claro que os roteiros que forem chegando primeiro, já respondidos e assinados, terão prioridade sobre os outros. Ademais, convém enfatizar que a publicação das crônicas ocorrerá, no máximo, a cada três semanas, no jornal A Gazeta e, no fim de uma série considerável - talvez cinqüenta relatos de vida - serão acondicionadas em um livro a ser comercializado pelo autor. Cada depoente terá direito a três exemplares da obra.
A intenção não é propriamente comercializar a obra. Os dividendos financeiros oriundos do futuro livro simbolizarão uma espécie de pagamento feito em contrapartida à inclusão de um grande nome entre os grandes nomes que fizeram deste um grande Estado e que comporão o nosso Memorial da Terra.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h16
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