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Impressões gerais
 

Gente acreana

CID MAURO ARAÚJO DE OLIVEIRA*

Eventual.  Não é lá uma palavra segura.  Eventualidade, talvez, seja mais fiel.  Para falar de amizade, é melhor eventualidade ou eventual?  Talvez, nenhuma das duas.  Mas vale arriscar. 

       Porfiro, a quem me refiro, sem trocadilhos, é amigo eventual ou amigo para qualquer, para todas as eventualidades?  As duas coisas.

       Fomos lá nos encontrar, eventualmente, em encontros de professores do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, para os menos íntimos, Barão, para os demais.  Até que eu ingressei no seleto grupo da noite.  Turno da noite, bem entendido, do Barão.

       Aí cruzar com Porfiro foi mais freqüente.  E deleitante também.  Aí ocorreram as eventuais conversas.  E aí fomos aprendendo que Porfiro é amigo para qualquer eventualidade. 

       Fica, então, explicada a diferença entre eventual e eventualidade.  Veio então o livro.  Veio, então, Janelas do Tempo.  Ou teria eu de dizer vieram as Janelas do Tempo? Vieram, depois, as Perguntas esparsas, notas dispersas...

       Deixa estar porque, de qualquer jeito, elas vêm mesmo.  E aí veio, com elas, o risco.  Sim, porque não sei como, não sei das quantas, surgiu a idéia de eu fazer uma resenha sobre Perguntas esparsas, notas dispersas...

       Livro é qual filho.  A gente gesta, acalenta, dá à luz, acompanha a trajetória, tudo isso em muita angústia.  A gente sonda todos os seus sucessos.  Perscruta tudo.  Fuça mesmo, para saber.

       E aí surgiu, sabe lá como, a idéia de eu resenhar.  Tarefa árdua.  Resenhar livro de crônicas.  Eu?  Pobre de mim.  Mas aí, sucedeu a leitura.  Crônicas são como setas, para usar a figura bíblica: bem polidas, seletas, bem cuidadas, vão longe.  Atingem seu alvo escolhido, seleto.

       Assim são as crônicas do Porfiro.  José Cláudio Mota Porfiro.  Pelo menos três sensações brotaram, em mim, lendo seu texto.  A primeira delas, que invejo em todos os acreanos, miro de longe e privo de seus efeitos, é o que o autor chama de acreanidade.

        Também, como carioca, acho que entendo um pouquinho do que seja.  Nem vou tentar explicar.  Mas fui acolhido aqui, já se vão treze anos.  E há um orgulho em ser acreano para todos eles.  Há um conjunto de características bem específicas, bem demarcadas em todos eles.

        E isso tem a ver com a história, com o rio, com a mata.  Quem vem de fora, vê, sente, reconhece e inveja. Acreanidade. Conjunto de um complexo simples de características que tornam acreano só o acreano. Deu pra entender?  Invejo.

        Depois, saltam das páginas memórias.  Ah, memórias!  Ninguém vive sem elas.  Traços de pessoas.  Aliás, há alguma coisa mais importante do que pessoas?  Não, não há.  Marcas do tempo. Perguntas esparsas, notas dispersas. Para pessoas. Sobre o tempo. Saltam dessas páginas recordações, situações, convivências, vivências, reminiscências, coisas que fazem a vida.

        Nada mais importante do que pessoas.  Nada mais importante do que a vida.  Perguntas esparsas, notas dispersas...  Há uma característica muito intensa no modo acreano de ser.  Talvez a gente não sinta em nenhum outro canto do Brasil.  Este pedaço de chão, aqui, é o Brasil por último.  Marrraio!

        No jogo de bola de gude  -  aqui chamada peteca  -  lá em minha terra carioca, quando a gente quer tirar a vez, por último, para ver quem vai começar a jogar, diz marraio!.  O Acre é Brasil por marraio.  Ficou Brasil por último.  Quis assim.  Que bom pra todos!

         Já pensou um Brasil sem Acre?  É aqui que acontece a importância das pessoas.  Representadas, todas, pela gente da terra natal do Porfiro, a Xapuri.  Vamos falar “a Xapuri”, para ficar mais íntimo. A gente que convive com gente de todos os cantos desta terra percebe o orgulho de ser acreano.

         Acho que tão orgulhoso em ser xapuriense, talvez só quem seja tarauacaense.  Eu já me considero acreano.  Um pouquinho, pelo menos.  E aí acontece o terceiro dos fatores, os três muito relacionados entre si: a história.

         Por ter se tornado Brasil por último, a sensação que a gente tem aqui no Acre é que a história está bem aí, ó, ao alcance da mão.  Tudo muito recente.  Estamos com ela bem ao lado, íntima nossa, e isso tem relação viva com as pessoas, com a memória.

          A vida que vale a pena pulsa, constante, nesses recantos.  O casario, as ruas, as árvores nos quintais, os rios, os fatos, alegres ou tristes, a luta política.  Pulsa. A vida está aí, ó, bem pertinho.  A história está aí, ó, sendo feita por nós.  Ao nosso alcance.

          Pessoas.  Em poucos lugares, ainda, a gente se sente pessoa.  A gente conserva viva e vertente a memória.  A gente sente que faz história.  A gente deixa de ser anônimo.  O livro do meu amigo Porfiro apanha a gente nesse rio de vida.  Pulsa.

          Perguntas esparsas, notas dispersas... tem vida, tem gente, tem memória, tem história.  E tem momentos de luta e de raiva também, de indignação, porque sem luta é que este torrão aqui não foi conquistado, não. 

           Para toda e qualquer eventualidade, o fio condutor das crônicas de Porfiro é um caminho de viagem.  Desculpem esse termo “fio condutor”. Parece meio técnico, pedante ou até mesmo desgastado.

            Mas me refiro ao fato da gente tecer, pelo trajeto percorrido de crônica a crônica, uma outra história.  Escolhendo o modo de compor um todo bem ordenado.  Escolhendo o encadeamento.  Por isso mencionei que parece o curso sinuoso de um rio.

            O curso sinuoso da própria vida.  Gente daqui, suas memórias e a sua história.  Por isso Perguntas esparsas, notas dispersas... representa um jeito de ler e entender esta mesma terra.  Um jeito de entender a história.  Um jeito de entender a vida.  Tal qual o curso sinuoso de um rio. 

Ao peregrino José Cláudio Mota Porfiro, meus parabéns.

_______________

* Licenciado em Letras/Português/Hebraico pela UERJ. Mestre em Teologia pela PUC-Rio. Pastor da Igreja Evangélica Congregacional de Rio Branco.

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h37
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