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Era de perdição
Aquele era o sol da manhã dos nossos verões tão iluminados. Também, pudera! Não havia queimadas... Depois, torrentes caudalosas inundavam os espíritos amazônicos. E haja água. E haja esperança... Sorríamos para o nosso tempo com os pés fincados na terra fértil deste rincão e a cabeça vivendo já um futuro que logo veio. Éramos estudantes, sim, porque estudávamos desde cedo do dia, até a noitinha. Nas férias, líamos romances de aventura ou nos debruçávamos sobre o dicionário sorvendo alguma coisa aqui, outra ali. Buscamos erguer e erguemos, com esforço, muitas felicidades. Enfim, conseguimos brindar com júbilo uma época de muitas conquistas juvenis mesmo nos vestibulares e em outros concursos públicos. Graças a Deus!
Ventos do norte não movem moinhos, no dizer do poeta... E nunca moveram... Mudaram as estações do ano e a verdade das almas, como dizia Porfírio, o filósofo neo-platônico, ainda nos confins da idade média. Arrastamos-nos pelos séculos e séculos da época dos homens comuns como esta crônica. Atravessamos tempos de pragas, maldição e violência. Então, finalmente, muito exaustos, chegamos ao inesperado terceiro milênio. Por aqui, temos esperado do humano uma obra magistral em favor de si próprio, mas a desagregação dos povos e a degeneração da espécie ultrapassam os umbrais da decência e da dignidade. Serviram-nos, antes, o vinho, o pão e a cevada. Agora, fazem-nos sorver o vinagre e deliciar-nos com a rabugem. Esta, sim, é uma época de descaminhos e desilusões.
O mundo não parou. Eu próprio já completei o qüinquagésimo primeiro ciclo ao redor do sol. É verdade. Já atingi a quinta década, mas ainda não sou filósofo, felizmente. É-se, certamente, ao alcançar o oitavo decênio. Por enquanto, me comporto bem, pois dizem de mim apenas um livre pensador e um cronista de meia tigela que observa o tempo vão e não consegue parar para rir, uma vez que tudo perdeu a graça.
Do alpendre ou da janela do meu solar e do meu tempo diviso a juventude classe média perdida em meio ao turbilhão das informações falseadas, dos alucinógenos sintéticos e da imbecilidade do consumismo desenfreado. Montado num carrão japonês prateado, o Mauricinho pode tudo e acha que o tamanho do pênis é proporcional ao tamanho da hilux... Como se tamanho valesse muita coisa... Em verdade, ensinaram-lhe que, para os mais abastados, a competência e o conhecimento não são categorias a serem aprimoradas. É preciso aprimorar, sim, as teorias e práticas relativas à burla, à malversação, à improbidade e à tramóia geral.
- Mamãe, fui ao shopping e comprei um par de esqui para o gelo. Comprei também uma prancha de surf , roupas de escafandro e uma gaiola de chapa retorcida onde devo enfiar a minha alma encharcada de cocaína...
O joão-das-nuvens acima mora nos trópicos esfumaçados do Acre e gasta os créditos do cartão de um pai atolado em dívidas sempre crescentes, que bem justificam o fundamentalismo babaca da nossa era de devaneio e perdição.
Do outro lado do bosque está o bairro da Paz. Qual paz!? Lá há pobreza e a brutalidade humana atira as novas gerações no esgoto da promiscuidade e do escárnio social. Os jovens das classes menos favorecidas estão atordoados em meio ao descaso dos pais que não mais sonham em lhes ver felizes, quem sabe, um dia; e a falta de oportunidades que lhes são negadas por um sistema que privilegia a tão poucos. Aqueles moços e moças não estudarão nas universidades públicas porque não tiveram preparo intelectual suficiente. Não estudarão também nas faculdades particulares, simplesmente, porque não dispõem do dinheiro com o que poderiam ter comprado muitos diplomas e nenhum caráter.
- Moço! Quero emprego. Quero trabalhar na sua cozinha infecta e, mais tarde, quem sabe, se for do seu agrado, preencherei outras lacunas.
A escola não mais sequer ensina a sonhar, uma vez que se perdeu no pântano das teorias inócuas que passam ao largo da nossa realidade social escabrosa. Não valoriza os verdadeiros mestres, transmissores reais de conhecimentos, e toma poucas medidas que possam significar melhoria da qualidade do ensino para o desenvolvimento de que o Brasil precisa.
A família se arrasta no lamaçal da indignidade, com pais tornados fantoches e almas penadas nas mãos de filhos afeitos às drogas e a prostituição.
- Papai, empresta-me o carro que você roubou ontem?
- Aqui estão as chaves! Vê se troca o carango por canabis sativa... Na volta, conforme o teu estado psicótico, vê se não me bate muito... Na verdade, apanhar até já se tornou agradável para a minha alma indolente...
Com um bom pastor, outro dia, fiquei a trocar algumas idéias relativas às religiões e ao trabalho social dos religiosos. A conclusão a que chegamos é que as igrejas e credos tentam e até conseguem fazer alguma coisa, não obstante, hoje, ser necessário observar que a obra de católicos e evangélicos já mostra resultados alvissareiros, mas ainda insatisfatórios.
E aí? Outra vez quem blefou e levou a melhor foi o financista sórdido que cobra juros escorchantes do primeiro zé-ruela que aparece com um projeto através do qual será montado um rentável negócio no mundo dos entorpecentes e/ou da prostituição. Ele não se importa com o fato de o próprio filho ou filha passarem a ser clientes do empreendimento. Todos, juntos, têm adoecido... Então, os cidadãos de bem, assaltados na calada da noite pelas vítimas das drogas, através dos impostos, erguem os hospitais e sustentam o combalido sistema único de saúde encarregado de fazer o tratamento do jovem pústula, para que ele logo volte ao convívio anti-social.
Uma merda! Só quem leva vantagem são os grandes capitalistas que, de uma forma ou de outra, sempre acabam lucrando.
Esta é a minha era... Uma era de perdição.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h21
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