Da cor do pórfiro
RENÃ LEITE PONTES*
Há tempos, não o encontrava. Estava bem mais delgado que de costume. Trazia a face rija dos homens sérios. Destacava-se ainda no seu esqueleto, os platôs, ombros desempenados, mais por força da genética, do que de exercícios físicos pontuais. Nos olhos lívidos, por trás dos óculos, li a seguinte inscrição: Aqui brilham os olhos de um homem digno de confiança. A expressão suave denunciava a segurança própria daqueles que foram capazes de, com as mãos, moldar o próprio destino, aliada a uma reconhecível serenidade, própria da maturidade... Sua expressão corporal denotava inteligência, forjada na frágua de muita luta e estudos qualitativos constantes. Divisei o vulto do homem empurrando o carrinho de supermercado, dentro do Araújo da Isaura Parente.
Por pouco não lhe deixei incomodado... Devido a certa coisa que quase falei, depois de uma leitura que fiz de sua fisionomia:
- É! O senhor tem passado alguns sofrimentos!
Mas, preferi poupar-lhe do comentário...
Vai ver ele sequer recorda-se de mim - pensei de mim para mim.
Não é para menos. Há tempo não converso com meu antigo mestre. Desde a época em que foi meu professor num curso de Pós-Graduação na UFAC, em 2003.
Então, achei mais apropriado dizer-lhe:
- O senhor, quem é?
- José Cláudio Mota Porfiro - respondeu.
Como se eu não o conhecesse... De priscas e longínquas datas. Como se eu não lesse, amiúde, suas crônicas, no jornal.
- Certo! Certo! Meu antigo professor – exclamei.
E o livro que o senhor acabou de publicar? – acrescentei.
Ele parou um pouco e se lembrou:
- Tenho um exemplar lá no carro.
- Vamos buscá-lo? – sugeri.
Deixamos os carrinhos de supermercado próximos um do outro e sob a guarda da esposa dele, e fomos buscar o livro. Quando me entregou a coletânea de crônicas acreanas, um livro de capa verde claro, bem produzido, tomei-o nas mãos, olhei o dorso, o anverso. Afastei-o um pouco para ver a perspectiva. Abri a contra-capa. Observei, então, a capa e, de pronto, exclamei, enquanto divisava a arte produzida por Danilo de S'Acre:
- O Homem Áureo, de Leonardo da Vinci, que morreu de favores no Castelo de Coux, na França, na corte do Rei Francisco I. Tal qual Maquiavel, que, também, morreu na miséria, depois de ser escada para oportunistas e fazer todo o tipo de teses para guerras de conquista...
O velho mestre guardou um profundo silêncio cinzento acastanhado, da cor do pórfiro, a rocha. Ah! Aquele silêncio de pórfiro... Vos direi: não é um silêncio facilmente compreensível! É um silêncio, irmão do escuro guiomarense da minha infância que não volta mais. Um escuro que me causou terríveis medos. Escuro existencial e de temor do futuro, incognoscível... Escuro profundo, enigmático, como um silêncio profundo de pórfiro.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h45
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Um pórfiro rijo por natureza, deveras semelhante ao Porfiro que autografou-me o livro JANELAS DO TEMPO. Bem na primeira página escreveu a dedicatória:
Ao companheiro Renã, poeta e professor, como eu.
No vai-e-vem dos transeuntes do supermercado, sustentando o livro na mão, perguntei:
- Quem lhe ajudou a publicar seu livro, Mestre?
- Publiquei-o através de favores de bons amigos - falou o homem em tom de deixa.
- Quanto é o livro?
- São trinta reais! – respondeu.
Puxei a carteira e paguei com uma nota de vinte e outra de dez reais; não sem antes agradecer a dedicatória e lhe parabenizar pela arte de fazer arte - a Arte das crônicas.
Nesta noite, o livro do Doutor Cláudio Porfiro foi dormir sobre a obra 200 crônicas escolhidas de Rubem Braga, que estava em cima da imperdível obra acreana, Motivos de mulher na Amazônia, da Doutora Margarete Edul Prado, e ladeado pelos livros Contos da floresta, do poeta Francisco Aquino (Tico), e De seringueiro a sindicalista, de Francisco Figueiredo.
Ainda entabulamos algumas conversações sobre democracia e política. Logo após, despedimos-nos.
Recordo que por estes dias eu estava conversando com um professor da Escola José Rodrigues Leite, onde trabalho, sobre o preconceito que gira em torno do nome de Bocage; pelo que fiz o seguinte comentário:
- Veja! Professor. Eu também conhecia o poeta como pornográfico, através de comentários de leigos; porém, depois de conhecer a obra dele, vos direi: em matéria de sonetos, Camões foi suplantado por seu discípulo, embora considerando que, em se tratando de oitavas heróicas decassilábicas, não há em língua portuguesa quem tenha suplantado Camões.
Voltando para o que estávamos falando... Pois é! Tudo é uma questão de gosto e opinião. No meu modesto juízo pessoal acreano, as crônicas do José Cláudio Mota Porfiro têm mais sentido prático-social e são mais deliciosas de ler que as de Rubem Braga...
O curioso da questão é que o meu interlocutor concordou comigo em gênero, número e grau.
A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi ler o prefácio do livro, por Márcio Chocorosqui, e a crônica Beleza rara, onde o consagrado cronista acreano descreve a beleza incandescente de Maria Cláudia Barreto.
Lá, no livro, o autor diz que a nossa Miss Beleza Pura é a mulher mais linda do mundo, em sua opinião.
Eu, bairrista que sou, ainda acrescento mais tinta ao assunto em pauta:
- Além de mais bonita, ela é a mulher mais cheirosa do mundo!
Vamos! Vamos! Eu estou esperando alguém perguntar:
- Você já cheirou a Cláudia?
E eu responderei:
-Não! Mas, pela televisão, eu coligi que ela é a mais cheirosa das mulheres.
E, se alguém perguntar:
- Como é que você diz que uma mulher é cheirosa, se você nunca a cheirou?
Eu responderei:
- Nunca cheirei, não! Mas, se você a trouxer aqui, eu hei de cheirá-la...
* Escritor.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h43
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