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Estilo Gari
Desde cedo se acostumara a viver muito bem, obrigado. Percorreu a linha tênue da juventude do jeito que a época e a cidade de Belém permitiam. Numa boa!... Depois, foi depois... Logo seria um grande advogado. E o foi, com todas as letras. Para o Acre, veio, viu e venceu, como um César. Partiu para a grande viagem quase na oitava década, pleno de amores e odores bem experimentados, a cada gota, a cada naco, de bem consigo próprio, de bem com a vida e ainda morrendo de apaixonado por Rio Branco, esta feliz cidade.
É por isto que passei dias a meditar. Talvez fosse um tanto complicado fazer abordagens relativas ao estilo de ser e escrever e conviver de Garibaldi Brasil, jornalista, poeta, pintor, escultor, caricaturista, orador, advogado, promotor público, boêmio e faz tudo, segundo definição de José Chalub Leite, no seu Tão Acre, de 1993.
Não. Não seria tão complicado. Principalmente, levando-se em consideração tratar-se de um homem que viveu, intensamente, mais de meio século à frente do seu tempo. Depois, há de levar em conta, ainda, o fato de também ser (eu) um notívago inveterado e, acima de tudo, o meu gratificante trabalho de cronista desta aldeia espetacular, hoje, ter influências tão marcantes do Gari, aqui muito mais definido enquanto o escritor, o literato, e um pouco menos enquanto o artista plástico, o pintor ou o escultor, até porque esta não é exatamente a minha seara.
Antes, eu o diria um intelectual eclético e versado numa gama de expressões artísticas. Nos anos noventa, eu o denominei multicultural, ou multifacetado, em vista da mundivisão de um artista tão múltiplo e tão peculiar. Nele, não há ou nunca houve linearidade alguma, exceto no modo de ser do grande amante da boemia da belle epoque acreana. Exceto no adocicado das palavras usadas em abordagens sutis ou pecaminosas dirigidas ao gênero mais suave, de cujo gosto ninguém jamais ousaria duvidar. Nunca!
Vi aflorar da pena do Gari um estilo bem irreverente, como no exemplo:
- Gari, você entende mesmo de mulher?
- Mulher, meu amigo... Mulher é coisa séria. A respeito delas continuo analfabeto como nasci.
- Gari, quando você morrer, quer ir para o céu ou para o inferno?
- Pô... Para o céu, bicho! Não é lá que existem onze mil virgens?
Hoje, reconhece-se o artista, já, segundo uma denominação ultra moderna... Gari é um multimídia do terceiro milênio, numa rápida definição do historiador Marcos Vinícius Neves... Gari é multi cultural.
Então, eu vim de Xapuri... Lá, já ouvira falar muito do nosso herói, principalmente, levando-se em consideração os discursos, feitos sob encomenda e sempre muito ornados de metáforas, prosopopéias, metonímias e outros salamaleques próprios dos grandes oradores.
Eu próprio conheci o Gari, de vista, em 1976, assim que cheguei a esta cidade. O gorro, a bengala, a roupa branca e os olhos claros o faziam inconfundível. Um dia, então, já em 1978, depois de um contato bem maior através dos escritos e pinturas, fui levado a conhecê-lo pessoalmente quando me meti a visitar a redação do jornal O Rio Branco, na Rua Coronel João Donato, em companhia de um amigo, o Correinha, que, apesar de ainda um garoto, já era fã incondicional do velho mestre. Lá, ele estava recostado numa poltrona, acompanhado de José Chalub Leite, Lucy Bete, Chico Pop, dentre outros, discutindo uma pauta qualquer. Apertei-lhe a mesma mão que, há pouco tempo, houvera criado, com tanta inspiração, a grande tela do hall de entrada do Palácio da Cultura, a Panacéia, onde um expressionismo arraigado expressa o mundo numérico e cristalino do artista maior.
A partir daí, vez por outra, nós escrevíamos textos acerca da importância da Filatelia, uma mania salutar que tinha o Correinha de colecionar selos e dar-lhes a importância máxima que realmente têm.
Uma análise literária é algo bem mais aprofundado. Todavia, em vista de alguns fatores que dizem respeito a este momento, tratarei apenas o básico, como sejam o tempo, o espaço, a linguagem e o estilo.
De posse dos seus Mosaicos da cidade nascente, obra re-publicada em 1992, viajei horas a fio para perceber que o tempo na obra do Mestre Gari é, de uma só vez, psicológico e cronológico. Numa crônica ele está divagativo e atemporal:
Tenho para com as professoras - sobretudo para com as professoras públicas - uma eterna dívida. Remói a minha consciência um profundo remorso de tê-las feito sofrer tanto e estou sempre desejando saldar essa velha dívida, sem podê-lo.
Noutra crônica o escritor faz questão de demonstrar, cronologicamente, que viveu um dado fato numa época precisa:
Vivemos dias tranqüilos de construção e progresso. A cidade ordeira e pacata assiste, há quatro anos, a sua melhor fase de todos os tempos. Urbaniza-se, torna-se limpa e moderna vestindo-se da roupa nova dos novos edifícios. (...) Estamos nos preparativos para o embate das urnas, a 3 de outubro...
O espaço, notadamente nos Mosaicos, é sempre a terna e bela Rio Branco de tantos amores e de tantas proezas:
Cidade amiga, no longo espaço de tempo que medeiou entre aquela noite escura em que te deixei e a manhã ensolarada em que te revi, minha cidadezinha carinhosa, tanta cousa aconteceu... Comigo e contigo. E com todo o mundo. Houve até uma guerra...
A linguagem da irreverência é avessa aos padrões mais estilizados e não se prende a exigências gramaticais mais profundas - como os modernistas de 1930 - marca ímpar no estilo Gari de ver a vida e viver o mundo:
Se a Rússia tem a sua famosa ‘cortina de fero’, nós possuímos
a nossa ‘cortina de poeira’ envolvendo a cidade toda, sujando tudo, cobrindo árvores e casas... A gente respira poeira, come poeira, pisa poeira. Tudo vive empoeirado. São necessários vários banhos por dia para que um cristão possa manter-se limpo... Isto é, limpo por fora porque, lá dentro, devem estar armazenados, nos pulmões, nas traquéias, no estômago, até na alma, algumas gramas de pó...
Não poderíamos, jamais, enquadrá-lo num estilo de época, uma vez que, como já foi observado, o cronista vivia para um tempo muito além do seu tempo. Talvez pudéssemos afirmar que se trata de um realista pela descrição e expressa minúcia dos fatos e comentários. Talvez também pudéssemos dizê-lo um novo romântico em tempos de Modernismo, como Vinícius de Moraes, quando eleva a alma aos patamares das vazões sentimentais, do enlevo amoroso e sutil com que brinda boa parte das suas crônicas. O estilo de época é romântico e realista, em conformidade com os humores que subiam e desciam de tom, em vista de certos estágios que iam e vinham segundo o teor alcoólico dos melhores uísques. Em suma, é um romântico pela pura busca da comoção da alma.
E se falássemos de flores? Desses presentes coloridos da natureza que têm, como no poema de Campoamor, uma diferente sorte: ‘umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte.
Em se tratando de estilo individual, poderíamos afirmá-lo enquanto um autodidata - crítico sarcástico e contumaz - que foge aos padrões estabelecidos pela teoria da literatura. Daí a obrigação de reafirmar-lhe enquanto o multimídia do terceiro milênio.
Na minha longa carreira de advogado, defendi malandro, bandido, puta, político, assassino; nunca, porém, defendi ladrão do dinheiro público.
Asseguro tratar-se da expressão da arte nas mais variadas formas. Artista completo. Sarcástico e pitoresco. Sutil e magnânimo. Apaixonado e mordaz. Ácido e virulento. Implacável e sensual. Sensível e sedutor, com o pincel, com a pena ou com o cinzel.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h54
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