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É preciso aplaudir
Muitas vezes o novo não é tão consistente. Por isto, as práticas antigas devem ser consideradas, é claro, tendo-nos livrado de alguns vícios anteriores. É como se dá o desenvolvimento das instituições humanas. Sempre levando em conta os princípios de um artefato filosófico chamado dialética, onde existem uma tese, uma antítese que têm como conseqüência uma síntese.
Em outras palavras, é conveniente aproveitar o que há de bom no primeiro argumento apresentado, a tese. Em seguida, considerar-se-á o que há de positivo na segunda argumentação. Então, depois de as idéias terem passado por este filtro, todas elas serão reunidas para um resultado consistente, objetivo e primoroso, a síntese, onde estão juntos todos os aspectos positivos da tese e da antítese... Assim escreveu Karl Marx, o maior dentre todos os teóricos do socialismo-comunismo.
Os mestres das escolas antigas usavam de certas estratégias que findavam por dar certo e os seus objetivos eram plenamente alcançados. O conhecimento era transmitido de forma clara e precisa porque os alunos eram levados a um estado tal de concentração que não havia como não aprender, principalmente, levando-se em consideração o fato de que os velhos professores haviam sido formados em faculdades que, realmente, lhes deixavam aptos ao desenvolvimento da sua atividade; o que hoje não ocorre tão freqüentemente. Por outro lado, os rapazes e moças vinham de famílias onde a ordem e a disciplina eram o ponto fundamental das suas vidas; o que dificilmente ocorre hoje.
Por isto, é preciso aplaudir profissionais como a professora Fátima Belo, coordenadora pedagógica do Colégio Estadual Barão do Rio Branco. Essa moça, simplesmente, consegue aliar o que há de bom nos antigos métodos ao que há de melhor nos métodos modernos baseados no uso da parafernália eletrônica tão útil que permeia as nossas práticas em sala de aula.
Pois bem. A professora Fátima Belo tomou uma atitude digna de louvor quando um certo adolescente, mimado e pessimamente educado por pais sem educação alguma, proferiu um palavrão indizível contra quem quer que seja, ou deu um assobio daqueles de ensurdecer metade da sala ou a sala inteira. A primeira reação de um dos mestres-escola foi perguntar quem teria sido o autor de façanha tão obtusa. Não houve resposta. Então, com muita sabedoria, metade da turma foi levada a falar com a Coordenadora em apreço. Lá, também, o nome do assobiador não veio à baila. Então, esta metade foi suspensa por três dias. Ao término de tal período, na coordenação, foi perguntado à outra metade da turma sobre o nome do tal curió. Sem obter êxito, também estes foram suspensos enquanto os demais estavam de volta. Um dia depois, foi revelado o nome do aprendiz de pilantra, mas a suspensão não foi interrompida. Enfim, quase ilesos, foram fazer a prova da disciplina em pauta... E ninguém se deu muito bem pelas razões mais óbvias. Do canto de lá da sala, como uma forma de chantagem bem comum, uma aluna disse que iria à Secretaria de Educação para denunciar os opressores, ao que foi aconselhada a ir tantas quantas fossem a vezes que achasse necessárias... Certo é que os alunos fizeram uso dos mesmos artifícios colocados em prática, em casa, contra pais sempre omissos e costumeiramente covardes.
Mais uma moção de aplauso vai para um outro amigo meu, o professor de Matemática Laurindo Lopes, que usou de um outro estratagema, agora, de foro constitucional. Já no início deste ano, num colégio da periferia, um mocinho metido a bonito o mandou ir tomar não-sei-o-quê-não-sei-onde. Depois, uma moça usou de outra agressão ainda mais grave. Mês passado, mais um rapaz o atingiu verbalmente com um palavreado impublicável. Nos três casos, o grande mestre foi à secretaria da escola, pediu o nome e o endereço completos dos pais dos alunos e foi para a delegacia de polícia do bairro, onde registrou queixa por estar sendo vilipendiado e tripudiado em pleno exercício de cargo público, num completo desrespeito ao preceito legal em vigência. Sabiamente, o delegado chamou os pais dos camaradas e os fez responsáveis pelos erros dos seus aprendizes de marginais. É claro que a pena é mínima, mas uma cesta básica tem o seu valor em dinheiro vivo, e dinheiro é um bicho que faz qualquer pai de família imbecil urrar de dor.
Ora, se a Diretoria da escola não toma atitude mais enérgica, o delegado de polícia resolve facilmente, uma vez que é um artigo do Código Civil Brasileiro que está sendo desrespeitado. É uma lei que está sendo desconsiderada ou infringida. De agora em diante, muitos pais serão levados às delegacias porque não conseguem, em casa, colocar em prática uma educação doméstica que não conheceram.
É como está escrito no meu livro Janelas do Tempo. Se os pais não têm energia suficiente para tomar certas atitudes que fortaleçam a moral e o futuro dos filhos, a mão pesada da polícia e da justiça há de levar a efeito aquilo que está faltando em casa. Quem não apanha de papai e mamãe é porque está treinando para apanhar na rua...
É, sim, senhores, na escola também se criam casos de polícia. Por estas e por outras, aqui vão os meus aplausos para os professores Fátima Belo e Laurindo Lopes.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h03
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QUEBRARAM O PAU O pau comeu ontem à tarde na Firb/Faao. Foi um show de ignorância por parte de duas moças do Curso de Direito (Ah!) que se desentenderam por causa de um garanhão bonitão e muito boa praça. As ex-amigas saíram no cacete violentamente. Cabelos foram arrancados pela raiz. Orelhas foram partidas ao meio. Brincos de puro ouro voaram pelo céu. Por serem maiores em estatura que a grande maioria das nossas moças bem educadas, sobrou até para os seguranças que também tomaram porrada.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h31
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A fábula do gato e da onça
JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO*
As fábulas são relatos fantasiosos do mundo animal. Umas são lendas puras e têm pouco a ver com a realidade. Outras têm por objetivo dar exemplos sobre como os humanos devem conviver a partir das atitudes de alguns animais. Veja como são as coisas, hoje, na política do Acre.
Então, ia o gato caminhando pela floresta, saltando sempre para trás das árvores, precavido, mas tranqüilo, olhando de soslaio, com os cantos dos olhos, para aqui e para acolá, uma vez que tinha observado alguns rastros grandes que traziam marcas de unhas enormes. Era uma onça do tipo maçaroca de uns trezentos quilos que rondava ao redor.
Eis então que, numa esquina da mata, sem que o gato se assustasse, a bichana pulou bem na frente dele que prontamente a cumprimentou com muita educação:
- Olá! Como vai a senhora? Pelo seu jeitão, parece que vai muito bem, obrigado.
- Ora, senhor felino, eu vou indo como Deus permite. Meu nome é Onça Peteca sobrenome Maçaroca e minha vida corre normalmente. Um dia com fome, outro com vontade de comer mais... Mas estava procurando vosmecê, para lhe pedir um favor que não é lá grande coisa, principalmente para quem é mestre nas artes dos saltos e pulos. O mundo todo sabe, por exemplo, que nunca um gato cai com as costas pro chão... Cai sempre em pé. Como é isso?
- Dona Maçaroca, a gente faz o que pode pelos amigos.
- Então vê se o senhor me ensina uns bons pulos, ou todos os pulos que os gatos sabem dar.
- Pois não!
Dito isto, Gato Jorge, muito cuidadosamente, passou a fazer alguns exercícios de alongamento dos músculos dorminhocos. Depois, fez algumas flexões de joelhos, braços e tronco. Por fim, sempre de olho na bichana, concluiu a fase de aquecimento para a grande aula espetáculo, estilo Ariano Suassuna.
- Olhe, a senhora coloca as quatro patas juntinhas e força as traseiras como se fosse voar, forte. As dianteiras já vão para a frente com as unhas prontas para enfiar nas costas de qualquer veado mais corredor... E pronto. Com a sua inteligência, já está meio caminho andado... Depois, tem o pulo do Martim pescador... Agora vem o pulo saci-pererê... E tem aquele que nós chamamos da cutiara... E patati, patatá, patati, patacolá... E assim por diante...
E a aula correu pela tarde toda. O gato pulava e a onça repetia e aprendia o pulo rapidamente, uma vez que também é uma felina. Já tardinha, o gato Jorge deu por encerrado o show.
Então, passou a toalha pelo pescoço suado, respirou ofegante e, em seguida, foi passando a toalha pelo rosto e, de repente, zás, zás, zás... Deu três pinotes pra trás e viu a onça Peteca com o pescoço enfiado num toco de jitó.
- Pô, gato Jorge! Cacetes! Você me disse que tinha ensinado todos os saltos e pulos, mas mentiu porque não me ensinou esse salto de costas... Caramba!
- Senhora dona onça Peteca. Veja como são as coisas. Se eu tivesse lhe ensinado o pulo de costas, a essa hora a senhora já estaria roendo os fiapos de carne das minhas costelas... Ora, moça, dá um tempo!
E a onça ficou lá estrepada no toco de jitó dando miaus tão feios que toda a floresta tremia. Dois anos depois, ela não deu as caras. Quatro anos depois, também não. Em Brasília, não apareceu... Pronto! Os urubus a haviam devorado e, com o belíssimo couro, brincavam de voar de tapete persa. Uma jóia!
E o que é a nossa realidade pacata acreana, senão uma grande fábula?
Alguém montou uma destas, muito parecida em que o Gato Jorge é Jorge Viana. (Não que ele seja um gato; eu sou espada.) A Onça Peteca é Serginho Petecão. (Não que eu goste de bolas de gude; eu gosto de cerveja.)
Ao Sérgio Petecão, Jorge Viana ensinou tudo. Botou-lhe a mão no ombro e lhe disse como fazer para aprender a falar. Depois o ensinou a falar em público, sem mentir. Depois o ensinou a ser deputado estadual. Depois disse como fazer para ser deputado estadual por vários mandatos. Depois, a aula foi sobre como tornar-se presidente da união nacional dos legislativos estaduais. Enfim, ensinou como ser um deputado federal do baixo clero. E, de repente, zás, zás, zás... O ex-governador teve que dar três pulos de costas... E Petecão se estabacou e deu com a cabeçorra no meio do asfalto da Rua Seis de Agosto, que deve ser recuperada, urgentemente, pelo prefeito Raimundo Gergelim, o melhor da história de Rio Branco.
É assim mesmo. Tudo aqui é cem por cento popular... Gente em primeiro lugar... Jorge Viana ensinou tudo a Petecão, mas não ensinou como ganhar uma eleição sem a sua ajuda e sem a sensatez dos homens e mulheres fortes do Partido dos Trabalhadores.
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* Fabulista fabuloso.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 22h03
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Sempre tão sério!...
LUCÍLIA MARIA PARRA MAGALHÃES*
Prezado José Cláudio Mota Porfiro... Às vezes, pode-lhe parecer que o seu exercício nas páginas dos nossos jornais é um monólogo: não consigo mensurar com qual freqüência você recebe respostas aos seus textos. É aquele revolver de idéias, sensações e sentimentos que todo escritor pretende provocar nos seus mais anônimos e distantes leitores.
A sensibilidade que brota das suas crônicas contrasta diametralmente com o seu semblante, sempre tão sério, sempre tão rígido. É como se vestes gélidas, na verdade, escondessem um homem sensível ao extremo, a ponto de valorizar acontecimentos, à primeira vista, tão comuns, mas que, no fundo, podem ser traduzidos com a emoção peculiar às almas mais privilegiadas.
É bom ler textos que trazem à memória um Acre que, lamentavelmente, não existe mais. Aquele Acre inocente, aparentemente imune aos acontecimentos trazidos pela malandragem dos letrados. Aquele Acre das ruas singelas, apinhadas de gente simples, sem a maldade dos tempos modernos. Vidas tão pacatas, vidas tão felizes...
Tempos de homens cuja honra poder-se-ia medir pelo valor da palavra empenhada, da promessa feita, do dever cumprido.
Seu texto do último domingo permitiu-me viajar no tempo e reviver aqueles bons ares de um Acre que não reconheço mais e que, infelizmente, os acreanos das novas gerações não poderão mais experimentar. A menos que, tendo nascido pessoa especial, consiga vislumbrar como eram felizes os que podiam se sentir reis participando das festas de homens e mulheres bem vestidos, das festas com mesas em toalhas brancas, fartos pratos e o bom e velho guaraná Vigor. Ainda penso sentir o sabor...
Ah! As festas começavam cedo porque, a certa altura, a luz sempre faltava. Nada que tirasse o encantamento e o calor humano, àquela hora amparados pelas luzes das velas.
Como foi bom relembrar gente como Gregório Calixto, Adalcides Gallo, Efrain Mmendivil e tantos outros.
Como foi bom relembrar as lojas CASA FARIZAIRE, CASA KALUME, A LIMITADA.
Como foi bom relembrar histórias de vidas retratadas pela do senhor Gibiri que sintetizou tão bem a de tantos outros pais de família, gente de estirpe, que criou os seus com sacrifício, mas altivez, e deixou marcada a história do Acre.
Sabe, Cláudio. Seu texto foi-me uma grata viagem a um passado não tão distante, se considerarmos o fator tempo, mas inatingível quando imaginamos que essas novas gerações de acreanos, as do computador, internet, pen-drivers e tantos outros recursos, não terão o prazer de viver, experimentar, aprender e... sonhar aquele Acre, aquele Acre de outrora!
É como você bem diz no seu texto. Aqueles que presenciaram a firmeza de homens como o seu pai e de um Acre tão trazido à vida pela força de suas palavras precisam buscar na memória a resistência em não deixar falecer a honra dos seus verdadeiros heróis, entendendo-os como almas que conseguiram compreender a importância das pequenas sutilezas de vidas que construíram a história deste Estado e a totalidade da resistência dos seus.
Parabéns e um forte abraço!
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· Professora aposentada do Curso de Letras da Ufac.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h50
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Em honra dos resistentes
Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte. O homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez... Com o Gibiri foi justamente desse jeito. Conversou um pouco, sorriu como sempre dos gracejos do filho do meio, pendeu a cabeça para o lado, e pronto... Tinha já atravessado para o lado de lá...
Era janeiro. Por aqui, inverno. Soprava um vento ameno, como se estivéssemos no verão amazônico. O quintal parecia um tapete rosáceo porque, de tristeza, os pés de jambo deixaram cair todas as flores daquela florada. Estava eu em férias, em Rio Branco. Fui logo avisado. Tomei um baita susto, chorei, fiz algumas orações ao bom católico e, a partir daí, por talvez dez anos a fio, passei a lembrar de certos detalhes das nossas vidas tão pacatas e tão bem sucedidas.
Quando o estivador morreu, em 1996, os filhos, por conta própria, já o haviam aposentado há uns vinte anos. Em 1993, houvera falecido o mais novo, o Jorgenei Mota Porfiro. Num passeio de fim de semana, quando comemorariam o nascimento do meu sobrinho recém-nascido, lá pras bandas da Fortaleza do Abunã, o caminhão-gaiola em que iam adernou numa ribanceira mínima, de pouco mais de um metro, e, como ele e mais quatro compadres viajavam na parte de cima, enganchados nas grades superiores, tiveram morte instantânea com os cinco pescoços quebrados. Triste demais. Terrível.
Por isto, há três anos, o velho trazia um certo ar de tristeza nos olhos. Os fartos bigodes, ditos de arame, ficaram brancos de um dia para o outro. Antes, já havia contraído diabetes e, agora, já não deixava de degustar uma boa goiabada ou um bom guaraná. Não se preocupava com a doença, nem tinha medo de morrer. Certo é que, de tantas idas e vindas, o super homem do meu mundinho infantil, em vista da idade avançada, foi perdendo as forças, paulatinamente. Fazer o quê? Foi inscrito enquanto soldado da borracha, não porque houvera cortado seringa, mas porque passou quase quarenta anos carregando nas costas, barranco acima, barranco abaixo, a história dos filhos do Acre lá de casa, em forma de pélas de borracha que, no mais das vezes, pesavam sessenta ou oitenta quilos... (E ele carregava de duas.) Isso sem falar, é claro, na castanha, na madeira, no cernambi, nos combustíveis, nos gêneros alimentícios vindos de Manaus e Belém, dentre outras praças e logradouros. Lembro-me agora dos casamentos das filhas do amigo Gregório Calixto. Em eventos como estes - pelo fato de ser um cidadão bastante gentil e até certo ponto elegante - papai passava a ser o garçom sorridente das festas dos ricos, círculo onde mantinha grandes amizades, apesar de pobre. A culinária era fina, em vista da mistura entre os sabores portugueses, árabes e amazônicos. A cerveja era Antarctica e vinha em caixas de madeira, pesadíssimas, carregadas pelo meu estivador. O uísque escocês, White Horse, vinha engarrafado numa pequena bilha marron e branco e era sorvido com grande gosto por granfinos de boa índole, como Adalcides Gallo e Efrain Mendivil, médicos; Paulo Cunha, do Basa; Enéias, da Receita Federal; Clóvis Melo, da A Limitada; Raimundo Figueiredo, do Fórum, dentre outros bacanas. O traje era um lá que diziam a rigor... E o quintal ficava cheinho de mesas em toalhas brancas e gente muito bem vestida.
E vinha o dia seguinte. Os moleques lá de casa e os meninos do Gregório - Gregoriano e Mimi, mais especificamente - nos empanturrávamos de pato-ao-tucupi... E tinha mais. De sobra, vinha o melhor. Vinha o manjar dos deuses... Era o guaraná Vigor, servido em grande quantidade para a rapaziada. Uma beleza!
Entretanto, o estivador não era dado a farras. Detestava cachaça porque um irmão, de nome Argemiro, tomava umas e outras e brigava até com o delegado. Sóbrio, era um cavalheiro. Ao meu pai cabia, então, a incumbência de domar, no diálogo e no afeto, um dos homens mais valentes que eu já conheci. Não bebia por medo de ficar tão bravo quanto o meu tio. Não podia tomar cerveja, em vista dos preços altíssimos do produto. Por isto, no último dia do ano, havia um encontro entre os estivadores cujo objetivo maior era levar a efeito uma baldeação nas lojas e armazéns de A Limitada, Casa Farizaire e Casa Kalume. Essa empreitada era posta em execução debaixo de muito vinho frisante, o preferido do Gibiri, até porque o preço era bastante razoável... De graça!
Todo o trabalho do estivador era feito com muito amor. Como no adágio polonês, para onde quer que o homem contribua com o seu trabalho, deixa também algo do seu coração. Ele esperava muito dos seus, assim como mamãe... Por isto somos felizes! Como escreveu Voltaire, convém ter maior con-fiança no desempenho de um homem que espera ter uma grande recompensa, do que no daquele que já a recebeu.
Às cinco da manhã, abria a panificadora do senhor Jorge Farofa Eluan, onde vendia pão até as sete. Não sabia ler, mas passava troco sem cometer um erro sequer. Às sete e pouco, já estava no armazém do Zaire, onde comandava ou fechava acordos financeiros para uma equipe de uns dezesseis estivadores. Cheirando a borracha, almoçava às doze, dormia a sesta numa velha rede e, à uma e trinta, já estava novamente no porto. Às seis da tarde, tomava um banho, jantava vorazmente, colocava um perfume qualquer e metia-se numas roupas simples, mas de qualidade. As calças eram de casimira e as camisas de tergal. Os tecidos eram adquiridos na Casa Farizaire e a costureira era D. Nenen, minha mãe. À noite, batia uma sinuca bem jogada no estabelecimento do senhor Tuffic Salim, ou dava umas esticadas em companhia de moças de conduta duvidosa... Ele também, como eu, como muitos, teve, à noite, sonhos reais povoados de divas audazes e incontáveis pecados da carne.
Normalmente, chegava em casa sempre bastante sério. Eram muitas as preocupações para com os filhos (cinco homens e uma moça, além de uns agregados considerados filhos) que deveriam ser muito bem alimentados, posto que bem fortes e saudáveis. Em alguns dos dias da farra anual, eu o vi cantarolar bem baixinho. O estivador estava feliz e amanheceria o primeiro dia do ano seguinte pronto para mais um período de sol a sol, a fazer a história dos rios e varadouros do Acre.
Uma herança, todavia, o estivador não me deixou. Ele sabia mexer com dinheiro como poucos, como o meu dileto irmão Marcos, e eu nunca aprendi. Nunca foi rico, mas sempre se virou muito bem. Primava pela organização das finanças, de forma a que sempre tinha um bom dinheiro debaixo do colchão. Tais economias eram frutos da precaução. Tinha medo do futuro. Ficava inquieto com a possibilidade real de um dia virem a faltar em casa o feijão, o arroz e a carne. Como Deus foi generoso!...
Num dos anos do início da década de sessenta, um certo dono de loja e seringalista famoso beirou a falência que não tardaria a vir. O cidadão, de origem libanesa, foi lá em casa e pediu quatrocentos mil réis emprestado. O precavido estivador tinha o dinheiro e o emprestou sob a garantia de uma nota promissória ainda hoje não paga, mas guardada por nós. O imenso seringal - pessimamente administrado - faliu, o antigo ricaço morreu e a grana nunca mais ninguém viu. Essa, sim, mais uma história daquelas de velhos acreanos que foram muito trabalhadores, mas não souberam ensinar aos filhos a arte de prosperar sem ter que roubar o suor ou o sangue de quem quer que seja.
As provisões de casa eram todas adquiridas de amigos colonos que as vendiam a preços módicos. A qualidade da alimentação da minha galera vinha do fundo do quintal, onde tínhamos sempre uma horta que contava com cebolinha de palha, tomate, couve e alface, principalmente. Não havia água encanada. O líquido precioso era carregado (num cambão, com duas latas de dezoito litros) de um poço que ficava a uns cem metros de casa e a uns cinqüenta metros das verduras. O arroz ficava mais barato em vista das boas amizades de papai e mamãe. Em junho ou julho, na época da safra, comprávamos o gurgutuba. Enchíamos doze ou quinze latas de feijão borrifado com um veneno que o protegia do gorgulho, pelo menos em tese, posto que, lá pra março do ano vindouro, o caldo já vinha com alguns pontinhos pretos que eram os bichinhos teimosos, cheios de ferro, avidamente devorados pelas crianças saudáveis lá de casa... É verdade! Para os mais pobres, também a vida sorria...
Havia muito ferro e cálcio nos gorgulhos. No inverno, comíamos bifes de boi caríssimos para a nossa realidade. Mas no verão, quando o movimento no porto era mínimo, o dinheiro encurtava e faltavam as proteínas da carne. O estivador, então, de posse de uma espingarda dezesseis e muita munição, partia, a pé, para o Seringal Albrácia, a oito horas de distância, onde, na Colocação Zé Júlio, morava uma comadre nossa, a dona Maria Mendes. Em quatro ou cinco dias, o herói lá de casa voltava com um saco encauchado, de uns quarenta quilos, cheio de carne salgada de caitutu, veado e quexada.
Uma outra opção protéica eram as caçadas com o Padre José, no Seringal Aquidaban. O velho frade amava tais empreitadas. Depois havia as freiras do Divina Providência e as internas, carentes como nós. Os dois destemidos iam, ainda manhãzinha, de jeep. Distribuíam pães e bênçãos entre os seringueiros, armavam as esperas e só voltavam na madrugada do outro dia, sempre carregados de carne e de outros gêneros alimentícios.
Não se escrevem memórias familiares sem lágrimas. Também não as lemos sem uma aguda nostalgia. Embora pareça piegas, devo observar que este é o meu único campeão a quem me cumpre o dever de festejar. Certo é que, como na poesia, não há heróis da ação. Só há heróis da renúncia e do sofrimento. Não teríamos sido tão felizes, não fosse a força descomunal daquele estivador de pedra que carregou nas costas, em formas de pélas de borracha, parte da história do Acre e a totalidade da resistência dos seus.
Hoje o estivador ainda existe. O estivador está vivo, sim, e bem vivo, na minha memória e na memória dos seus e de tantos quantos tiveram o prazer da convivência cordial e ordeira... Na graça de Deus!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h19
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