| |
Silenciados
Ao Prof. Dr. Augusto João Crema Novaski, in memorian.
Desde miúdo, atrevi-me sempre a opinar sem ter sido convidado ou intimado a tal. Minha velha madrinha e minha antiga professora, já em idades crepusculares, têm dito por aí que sei entrar e sei sair em qualquer ambiente desta minha república de saltimbancos, sempre altivo e desembaraçado. Ademais, tenho andado morrendo de apaixonado por estas musas todas que são as letras. O martelo a galopado segue batendo firme. Os dardos infectados atingem as costelas dos charlatães da escrita. Um dos meninos mais velhos lá de casa acha que sou dublê de profissão, porque sei fazer algumas coisas com algum zelo.
Por isto, naquele momento, sentara-me, em debate acalorado, à mesa redonda de um estabelecimento do ramo dos alcoólicos. Música boa e em volume tolerável. Ferve a inteligência, sim, àquela hora, principalmente, por parte de uns amigos que falam pouco e dizem muito. Gente jovem reunida. Outros nem tanto, como eu, que já vou sobrevivendo pela quinta década... É pura efervescência e as idéias regurgitam em meio à fumaça de cigarro e as goladas generosas deste manar dos deuses obtido a partir de elaborações divinas que resultam no malte da cevada.
Discutem-se a poética de Camões, uma receita de camarão, as ancas de uma transeunte, os tiros do Capitão Virgulino, as eleições municipais, a filosofia de Kant e a prosa de Hemingway, tudo ao mesmo tempo. Em meio ao pandemônio das discussões acaloradas, observo, cá comigo, um quadro brasileiro interessantíssimo. Repito. Há por estes ermos rincões acreanos inteligências mui soberbas. Todavia, em boa parte dos casos, estes filhos do Brasil, que dizem saber de tudo um pouco, mesmo sem de nada saber, assim o fazem porque, na realidade, detestam as teorias, ou não as conhecem. Não são verdadeiros estudiosos. Vivem às voltas e aos trambolhões com respostas simplistas para perguntas existenciais muito intrincadas como a própria sobrevivência do planeta. Habitam a vala do senso comum fazendo uso de argumentos sem possibilidades de comprovação quanto à veracidade. Optam pelo talento, em detrimento da inteligência. Ficam à mercê do diletantismo amadorista que não medita ou pensa e, por isto, não planeja ações optando pelo aqui e agora, que ainda vai ser pensado e feito, não se sabe quando.
Prestando muito mais atenção, especificamente para a última assertiva acima mencionada, convém observar que o aparelho ideológico (mentiroso) das elites tupiniquins, aqui representado pelos burocratas do Planalto Central, não nos permite o pensamento mais elaborado, consistente, criterioso. E como temos nos dedicado à transmissão do conhecimento para as nossas novas gerações? Os magos do plano piloto têm calado o discurso dos brasileiros sobre a educação, passando a fazer um discurso da educação. Eles ditam as normas e os métodos de avaliação, por exemplo, a partir dos seus gabinetes refrigerados. Alunos, pais e professores - ou seja, os que vivem a realidade tumultuada das escolas nacionais - são impedidos de falar sobre a sua vivência em meio ao caos generalizado de um sistema que não busca a qualidade, mas tão somente a quantidade. Os projetos político-pedagógicos ainda são mera falácia porque os banheiros exalam odores insuportáveis. Não sei se cheiram, não sei se comem ou se fumam aquelas cigarrilhas do demônio que alteram os raros estágios de consciência e concentração de uma juventude que jamais saberá de onde veio e muito menos para onde vai. E isto é muito trágico.
Então, quem silencia o discurso sobre a escola é uma tal regra de competência que decide quem pode falar e quem deve ouvir. O que pode ser dito e o que deve ser ouvido. Onde e quando isso pode acontecer. Quais são os excluídos da comunicação-informação... E assim por diante...
Vindo diretamente de Brasília, aparece, de súbito, um dirigente educacional todo poderoso que foi apontado sabiamente por um executivo desinteressado qualquer. Passa ele então a dizer quem tem ou não tem competência para assimilar a mediocridade de quem não sabe porque nunca viu o que vem a ser aquilo a que chamo educação real, de pés no chão. Embora sequer disso saibam, tais dirigentes têm contribuído para afirmar a divisão social do trabalho: quem é bom já nasce feito e sabe fazer, na hora. Ora, se alguém sabe alguma coisa sobre educação, esse alguém é aquele que vive feito fantasma vivo, nas salas de aula, a tirar leite de pedra e a comer giz, diuturnamente, lá onde verdadeiramente se aprende porque se vê e se sente o que é a realidade de uma escola. Esse é o sujeito da minha análise, aquele que ainda vai ganhar oitocentos e cinqüenta reais, não se sabe quando, ao passo que, no pobre Acre, o piso já chega a mil e quinhentos. O sujeito-objeto desta minha análise sintática despudorada sabe fazer educação porque tem exercido tal desiderato por anos a fio, diferentemente dos burocratas engravatados que nunca suaram a camisa, mas dizem, de lá de cima da pirâmide, como devemos nos pautar enquanto educadores. Este aspecto reafirma a separação entre os que sabem e os que não sabem. Assim, quem tem se julgado competente para falar sobre o sistema educacional é o Ministério da Educação e a maior parte das secretarias estaduais. É esse o discurso DO poder SOBRE a educação.
Mas, por que é impossível o discurso sobre a educação?
A ideologia burocrata é que afirma a idéia de que tudo deve ser rigidamente organizado e planejado unicamente por profissionais especializados para tal, em grandes centros de graduação e pós-graduação, e não por meros professores de escolinhas suburbanas. Observa-se, novamente, a separação radical entre dirigentes e dirigidos, onde dos dirigidos é retirado qualquer poder sobre a sua própria atividade. É daí que surgem os burocratas que têm certeza de que estar à frente de uma escola ou dirigir uma oficina são a mesma coisa.
Deste modo, a regra de competência e o incapacitado burocratismo silenciam o discurso dos educadores para que o poder fale SOBRE ela e não DELA. Se a educação em si falar, chegaremos à conclusão segundo a qual as diferenças sociais (entre os que sabem e os que não sabem) nela têm origem, o que já ficou patente. Se alunos e professores forem ouvidos, certamente, dirão que é a própria educação que finda ajudando no processo da divisão social entre quem tem e quem não tem.
Então, uma idéia atirada na minha cabeça pelo professor João Bosco, de Língua Portuguesa, de cuja pontaria ninguém ousa duvidar, está brandindo até agora. Poderíamos experimentá-la em um projeto piloto que, certamente, viria a ser o difusor e propagador da mesma.
Segundo pensamos, o sistema educacional tem buscado a excelência através de expedientes que zelam muito mais pela quantidade, em detrimento da queda dos níveis de qualidade. Tem-se tornado imprescindível que a totalidade dos alunos sejam aprovados da oitava fundamental para o primeiro médio, mesmo sendo considerados analfabetos úteis, uma vez que não sabem ler e interpretar sequer os contos da Carochinha.
Não é mirabolante. De forma alguma. O plano é colocar as escolas públicas para que estas sejam administradas e geridas pela iniciativa privada, com a contratação de professores particulares, com a fiscalização de um órgão oficial não caduco - como o nosso Conselho Estadual de Educação, como todo o respeito que aqui não cabe - mas formado por mestres e doutores aprovados em concursos públicos. Seria estabelecido um teto anual, em termos de orçamento, que fosse suficiente para cobrir todas as despesas, e mais dez por cento de bônus para o desenvolvimento da empresa licitada e contratada para a prestação do serviço naquele ano. No ano seguinte, então, uma meta deveria ser cumprida por um grupo empresarial pronto para desafios. A média do Enem, exame nacional do ensino médio, por exemplo, deveria chegar a sete e a escola teria vinte por cento de bônus. No outro ano, o desafio a ser alcançado chegaria à média oito, e assim por diante... Tudo, porém, sem deixar de considerar o aparato obrigatoriamente humanístico dos currículos e conteúdos.
Com a palavra os burocratas do Ministério da Educação. Que fiquem calados, principalmente, os nossos apóstatas excomungados que labutam nas escolas da zona rural.
E, finalmente, à Marilena Chauí, a beleza da filosofia, serão dadas todas as razões que a própria razão reconhece: está comprovado que as elites têm silenciado o discurso sobre educação, pois não lhes será mais interessante fazer justiça ao ouvir as justíssimas reivindicações de quem de direito. Que as minorias permaneçam castradas e as fortunas acumular-se-ão sempre e cada vez mais nas contas bancárias das nossas elites obtusas.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 16h37
[]
[envie esta mensagem]
O império em ruínas
O IMPÉRIO EM RUÍNAS
Desde as primeiras épocas da civilização, sempre fomos sofregamente ambiciosos. Deleitamo-nos ao experimentar fórmulas e ardis que signifiquem levar vantagem a qualquer preço. A partir do momento em que os vetustos chineses começaram a dar à galáxia as primeiras notícias nossas, pouca ou nenhuma vez o ser humano conseguiu realizar com a ambição coisa que não prejudicasse a terceiros.
No cinema, o episódio 5 da saga Guerra nas estrelas, de 1980, dirigido por Irvin Kershner, é chamado O império contra ataca. Hoje, todavia, o grande império de Uncle Sam está ruindo, a nave de pau a pique está avariada e Mestre Yoda já não consegue ensinar nenhum americano a dominar a força para tornar-se cavaleiro jedi.
Por isto, de antemão, é preciso considerar quando Niccolò Machia-velli escreve que a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela. Deduz-se, assim, que, para o ambicioso, o bom êxito desculpa a ilegitimidade dos meios.
Os mega especuladores das bolsas de valores, por exemplo, a grande maioria formada por arquimilionários do primeiro mundo, jamais há de se importar com quem morrerá de fome ou de sede, ou viverá com medo ou em pranto, depois da quebradeira internacional que se anuncia. Não é dada importância alguma à vida, ao suor e ao sangue de quem os investiu em nome do pão de cada dia que não pode faltar em suas pacatas mesas.
Lula disse que o novo liberalismo falha demasiadamente porque os seus agentes se preocupam em fazer a economia crescer por intermédio da especulação no mercado, o que é um erro crasso. Uma economia cresce, segundo Lula, quando os investimentos levam em consideração, não o acúmulo de capital, mas a construção de meios que facultem o aumento dos postos de trabalho, o que culmina na melhoria do nível de renda das pessoas. Os benefícios, desta forma, se estendem a um número bastante significativo de pessoas que deles sentem a necessidade.
Nenhum economista se arvorou a contrariá-lo. Nem Allan Greenspan, o ex-todo-poderoso do Fed, o banco central americano. Nem Miriam Leitão, a velha musa de saias justas que não topou o desafio de Luiz Inácio que a queria discutindo Economia, com ele, ao vivo, na Rede Globo.
Ora bolas! O bom cidadão é um simples metalúrgico que fala sobre Economia com o objetivo simples de fazer-se realmente ouvir, e com a intenção metodológica deliberada de levar todos a entenderem a sua mensagem. Melhor é observar que, hoje, a maior parte da população compreende a linguagem presidencial porque o presidente é um homem do povo. O que ele transmite, na maioria dos casos, interessa tão somente às pessoas mais humildes que vêem nele um agente eficaz para a solução de problemas do cotidiano através de programas sociais colocados em prática em hora tão oportuna. É! A pobreza diminuiu, sim.
Mas o que Lula disse na reunião das Nações Unidas foi simplesmente a mais pura verdade em letras garrafais. Quem envergonha e humilha os Estados Unidos da América é George W. Bush, o anunciador e operador do apocalipse financeiro globalizado. E isto nos leva a refletir sobre a magnitude que iluminaria certos homens, se estes não fossem tão arrogantes. E, mais uma vez, o caos financeiro nos leva a repetir um adágio antigo segundo o qual a soberba nunca desce de onde sobe, mas cai sempre de onde subiu.
Foi Henry Paulson, o então executivo maior da Goldman Sachs - a casa bancária que ele chefiava em Wall Street - que, em 2002, criou um índice econômico-financeiro denominado lulômetro. Quanto maiores as chances de Lula nas eleições presidenciais daquele ano, maiores seriam a cotação do dólar e o risco Brasil. E deu no que deu. Os números estão aí para comprovar. Não obstante a torcida contrária formada pela elite e pela alta classe média, os índices brasileiros de desenvolvimento social, se comparados aos de há oito anos, demonstram com grande contundência que nós temos, sim, alcançado patamares de desenvolvimento invejáveis para uma currióla de banqueiros americanos que se atrapalham quando as marés não lhes são plenamente favoráveis. É como aquela história do raio que brilha nas trevas e, depois, o brilho volta a ser treva novamente. Na face do arrogante, o brilho da superioridade desaparece com extrema rapidez.
Há pouquíssimos dias, o agora secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, de pires na mão, choramingava na mídia implorando o apoio do Congresso para que fosse aprovado, dentro da maior urgência possível, um vergonhoso pacote de US$ 700 bilhões. (É a malfadada reinvenção de Fernando Henrique Cardoso quando, no Brasil, criou o maldito Proer, um programa de soerguimento de alguns bancos brasileiros.) Com o dinheiro dos contribuintes, seriam salvos da bancarrota os tubarões do mercado financeiro.
Enquanto isso, na assembléia geral das Nações Unidas, com setenta e sete por cento de aprovação popular, Luiz Inácio condenava a socialização de prejuízos comandada pela Casa Branca.
Segundo a revista IstoÉ, eles não poderiam ter confiado nas premissas de que o dólar continuaria sendo a única reserva de valor global e de que o resto do mundo sempre os financiaria. Países emergentes, como o Brasil, a Rússia e os tigres asiáticos, ainda sentiam os efeitos de suas crises no balanço de pagamentos. E a América mantinha a pose imperial. Por isto, é preciso revisitar o postulado cristão segundo o qual, se nos purificarmos dos nossos preconceitos e nos desembaraçarmos da mentalidade que nos engana, tornar-nos-emos homens e mulheres radicalmente novos.
Paul O’Neill, o antecessor de Paulson, chegou a condenar veementemente qualquer tipo de ajuda aos governos em crise. Esses países precisam adotar políticas que assegurem que o dinheiro que recebem seja bem aproveitado, e não saia direto para uma conta na Suíça.
E o que dizem as Fábulas de Fedro? Pego a primeira parte para mim porque me chamo leão, / a segunda, sois vós a dar-me porque sou robusto, / a terceira cabe a mim porque valho mais. / A quarta, pobre daquele que ousar tocá-la.
Hoje, esse discurso cairia como uma luva para os Estados Unidos, onde os banqueiros endinheirados, até agora, estão saindo ilesos. Uma situação que o próprio Henry Paulson chamou de vergonhosa no Congresso americano, mas que seria, segundo ele, a única alternativa para evitar uma quebradeira em série, em efeito dominó. O fato incontestável é que, na era Bush, a América faliu, o que não significa que o mesmo destino tenha ocorrido ao capitalismo. Ele apenas mudou de endereço. A beleza do sistema é que ele pune os arrogantes e premia o trabalho. Por isto, este cronista se sente, agora, novamente proverbial e afirma que, se um homem quer provar a sua competência em agricultura, que não o prove semeando urtigas.
... Mas conviria uma nota mais plausível... Em verdade, não estou querendo me fazer passar por economista. Eu não tenho a elevada honra de ser um deles. Estes são apenas rasgos filosóficos de um poeta menor. É que já há algum tempo nenhuma nota sobre Economia é publicada neste espaço. Faz muita falta o bom companheiro Mário Lima, desaparecido no fulgor destas batalhas horrendas... Daí, eu pensei que talvez esse bom xapu-riense - o Carlos Estevão Ferreira Castelo, economista graduado e Mestre em Engenharia de Produção - pudesse fazer alguns adendos aos bordões tão mal alinhavados neste pretenso artigo.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h34
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|