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Impressões gerais
 

Ardis, truques e patifarias

Não nos é interessante morrer por causa alguma, a não ser pela dos nossos heróicos filhos e filhas. Seria a estupidez a estampar-se nos olhos e fazer-se presente nos atos de um homem que já começa a atravessar a quinta década. Eu. Assim, não vos culpeis pelos dardos infectados que estão a vos atingir as costelas gordas ou magras. E não leveis a mal este cronista estrábico e loquaz que não consegue olhar para o lado onde se oculta ou se expõe a mentira e a enganação, muito pelo contrário. Talvez, para o vosso bem futuro, é preciso salientar que vós não vos preocupais com a verdade. Tendes seguido  -  e eu o observo  -  um adágio mui antigo segundo o qual, por uma boa causa, a hipocrisia sempre se tem transformado em virtude. Triste!

Em certos momentos importantes das vossas vidas, instintivamente, tendes feito tão somente o que é necessário para sobreviver, e bem. Para conseguirdes alcançar objetivos espúrios, não vos têm sido interessantes os meios, mas tão somente os fins. Em dias recentes, vós vendestes a alma ao diabo a trinta dinheiros, com a maior desfaçatez, só para conseguir alguns votinhos de almas que enganastes tão vilmente. Em verdade vos garanto que, em campanhas futuras, nas Gálias ou no Egipto, este libelo contundente estará sob minha proteção e guarda, para o bem dos vossos nomes, a serem ainda zelados, e para a honra do povo deste rincão amazônico a quem envergonhais. Prossigais e vereis o quão sublime é a verdade. Vós não vistes a quantas chegastes por uma maldita ninharia?... Cada frase desta crônica, certamente, parecer-vos-á atirada aos vossos pés como moedas cujo valor se multiplica em conformidade com o tamanho das dívidas que tendes para consigo próprio. Uma lástima!

Temos vivido por todos estes anos a apreciar os níveis de desenvolvimento alcançados por esta terra, pela força e pela fímbria de dirigentes e líderes realmente trabalhadores. Há problemas, sim, porque eles teimam e também sobrexistem, em menor escala, é claro, entre muitos a quem o novo liberalismo denominou membros de um primeiro mundo entregue às drogas e à promiscuidade via internet, dentre outros males. A rica Escandinávia e até os Países Baixos lidam com mazelas sociais deste tipo e têm buscado ajuda, inclusive no Brasil (!), para soluções que nunca chegam ou nunca são plausíveis para uma juventude que pensávamos ter tudo quando lhe falta tanto.

Consertar o Acre, ou até mesmo fazer desta Rio Branco uma cidade admirável, como a que nós temos hoje, é tarefa árdua. Não é um esforço meramente humano. Por isto, todos os deuses, inclusive os pagãos, têm estado ao lado e à mão dos grandes homens deste Estado de graça. É perfeitamente condenável enganar o povo levando-o a crer em ardis que tentam jogar por terra o trabalho bem feito desde tanto tempo.

E o trabalho avança celeremente porque é assim que o povo quer. (As urnas o disseram!) Em mais um mandato de quatro anos, os bairros mais afastados já verão que os homens de bem fazem bem feito porque não enganam, não mentem com tanto descaramento. A cidade de Rio Branco tomou-se de um inchaço enorme que se avoluma, diuturnamente, porque a cada dia chegam-nos novos moradores a quem temos o dever de acolhê-los por força de uma tradição de hospitalidade que sempre nos marcou.

Foi de um gosto desprezível, na campanha passada, ver que os mais pobres tiveram seu estado de miséria aguda exposto para a opinião pública. Os depoimentos e os programas que vós levastes ao ar eram cheios de truques mal interpretados, mas, felizmente, sem o efeito nocivo pretendido, porque não se joga com expedientes tão deploráveis, e até porque políticas sociais não devem ser vistas por este prisma. Tudo é muito mais sério que pensais! Não deveríeis ter atirado na lama dos vossos quintais fedidos a miséria de pessoas por quem nunca vós erguestes uma palavra de conforto sequer.

O inconsciente popular foi levado aos estados mais baixos. Muitos viveram o sonho megalômano das cidades satélites. Há os incautos e iludidos que foram dormir com fome vislumbrando o tempo futuro em que seus filhos freqüentariam as escolas de tempo integral e as faculdades populares. Vós esquecestes os itens dos projetos que dizem respeito ao desembolso financeiro, ao cronograma de execução e à fonte de recursos. Alguns, ainda em sono profundo, acreditaram que, inclusive, as cidades satélites para cinco mil pessoas poderiam ser construídas num piscar de olhos. Estes planos mirabolantes seriam irrealizáveis porque a câmara de vereadores não teria como aprovar tanta sandice em bases tão falseadas.

E vieram mais dois ardis ainda mais baixos levados ao ar, também, com a clara finalidade de enganar os mais pobres. Gente humilde da minha pátria amada, o preço das passagens pode ser congelado, sim, mas não pode ser baixado. Para uma pessoa que mora sozinha, uma feira de sessenta e quatro reais é deveras irrisória. Tripudiaram dos pobres. Riram da cara dos humildes. No primeiro caso, considerando que um prefeito é um síndico, não haveria nenhum meio legal para baixar os preços das tarifas de ônibus, até porque há leis que legitimam os direitos e deveres dos empresários que prestam este tipo de serviço, não obstante a população desaprovar o trabalho dos agentes dos transportes coletivos. E, então, vós criaríeis um novo preceito legal, por conta própria, e seríeis candidatíssimo ao posto de ditador erguido em meio à lama e ao caos da incompetência administrativa. Ora, senhores! Vós não sabeis, mas existe um tal direito administrativo em pleno vigor.

O Senhor Vilseu afirma com todas as forças, e nós o temos visto, que a sua cidade passou de uma currutela, antes, a uma cidade bem melhor depois do seu trabalho. Verdade é que as ruas mais importantes ainda têm um asfalto mínimo, de um ou dois centímetros, e de péssima qualidade. Há atijolamentos esburacados. Há problemas estruturais de todas as espécies, senão, o candidato tucano não teria tido, lá, votação tão pífia. O Vilseu fez muito mais e não se gaba tanto. Hoje, o serviço anterior quase inexiste. Em síntese, como bem apontou o Dr. Mauro Ribeiro, os maiores volumes de recursos gastos por aquela prefeitura vêm do Fundo de Participação dos Municípios, do Fundo de Participação dos Estados e de convênios celebrados com o Governo Federal. Que país é esse? (A Estação Experimental é muito maior!) Vós, apesar das idades, ainda não observastes que a base da sociedade legal é o princípio a partir do qual nenhum homem tem o poder de sujeitar outro cidadão à sua vontade, aos seus ardis, truques e patifarias.

Alguém de vós já cometestes crimes deste naipe?... Talvez. Eu passeei à pé pelo Mocinha Magalhães e/ou Rui Lino. Por lá, muita gente boa e feliz, graças a Deus... Uma beleza o trabalho levado a efeito. Mas há uma rapaziada que quebra as lâmpadas para melhorar concentrar-se no basilar. O pessoal da erva faz barricadas para a polícia não passar até em ruas asfaltadas. Conheço um sem número de residências na frente das quais os moradores furaram a pavimentação para colocar água encanada no outro dia da inauguração da rua novinha em folha. Lá no pedaço onde mora uma velha tia encarquilhada, há um grande mestre, meu amigo, que cria alguns vira-latas que se encarregam de espalhar o lixo (que estão em lixeiras) à primeira hora do dia. Há crianças que defecam no terreiro em frente à residência e, depois, pisam em cima da merda. Há mães que catam piolhos das filhas descalças e descabeladas, principalmente, na varanda frontal. Em uma semana, então, ainda manhãzinha, rumam para o posto de saúde em busca de cura para uma saúde pela qual jamais conseguirão zelar.

Nestes recantos brasileiros, há muitos problemas cujas soluções devem partir de um síndico (prefeito) muito capaz. E vós não enxergastes o produto do trabalho até porque sois cegos sociais e enganadores profissionais.

Vejo e me salta aos olhos, em realidade, a formação inadequada. (Engenheiros do que mesmo?) Teria eu extremo e exacerbado receio de um dia vir a tornar-me vosso professor. Noto perfis grotescos para administradores fora de época... Ensinaram-lhes tudo, mas o aprendizado foi pífio. Pior é que muitos dos nossos eleitores mais humildes houveram por mal acreditar em gente que passa ao longe da ética ou a desconhece completamente porque nunca tomou doses mínimas deste santo remédio contra a cretinice. Em suma, a mentira tornou-se o ácido que corroeu a campanha, desde a introdução até a conclusão, tudo por obra do vosso engenho e arte ludibriantes.

         Não se pode pedir a um lobo que não devore ovelhas desprotegidas. É contra a natureza dele. Muito bem. É da natureza desses políticos tirarem o maior lucro possível em termos de votos e, às vezes, de dinheiro, mesmo valendo-se de tanta iniqüidade. Mas, se a negligência em meio a esses tais fosse uma ofensa capital, não haveria uma cabeça pregada ao corpo em nenhum parlamento do mundo, como deixou escrito César, o imperador romano.

Em verdade vos afirmo que nós devemos nos manter em bons termos com homens que são honestos em sua vida pública, mesmo quando nos tratam mal na vida privada, ao passo que aqueles que são desonestos na vida pública, mesmo que devotados a nós na vida privada, devem ser afastados.

O ano de 2010 já está logo aí. Vós repetireis as mesmas patuscadas, com certeza, uma vez que é o costume do cachimbo que deixa a boca torta.

Que Deus não vos perdoe, mas que o vento vos seja brando e a terra vos seja leve!

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 23h41
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