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Entre filósofos e gigolôs
O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota, e terminar por um conceito tão complicado que ninguém o compreenda. Alguns medalhões - nossos conhecidos desde todos estes meus séculos de existência - têm afirmado que o problema do ser humano, a ser pensado detidamente, diz respeito, por exemplo, à convivência pacífica entre os habitantes do planeta. Somos omissos, certamente, e olhamos de soslaio para a miséria alheia. Somos intolerantes, sim, e em muitos casos não temos buscado meios de refrear os ímpetos armados de unhas e dentes, como nestes confins acadêmicos por onde vou sobrevivendo, é claro, com alguns arranhões, às vezes profundos, e dependendo, como o poeta, da caridade até daqueles que não me detestam.
E não é preciso ir além destes quintais da América do Norte. Os chilenos, os argentinos e os peruanos, dentre outros, a partir de uns primeiros passos dados, ainda na escola fundamental, já encaram sem maiores problemas o questionamento filosófico. E isto ocorre porque, apesar do intrincado das teorias, principalmente dos clássicos gregos e alemães, os seus tradutores para o espanhol o fazem com bastante zelo de modo a torná-las claras, ou claríssimas, para os que bebem nas suas fontes. O que vem de Kant, Nietzsche, Marx, Adorno e Marcuse, dentre tantos, é clareado pela boa intenção de mestres da tradução que querem, realmente, levar as massas menos esclarecidas ao esclarecimento.
E o que estão fazendo os japoneses, agora? O capital, de Karl Marx, e Mein kampf, de Hitler, estão sendo sintetizados e publicados através de mangás (revistas em quadrinhos), para que os conceitos sejam plenamente entendidos, no máximo, em uma hora de leitura. E não é interessante para os editores fazerem o julgamento do pensamento destes personagens, mas a intenção maior é que o mundo tome conhecimento de idéias às vezes não tão geniais, como no caso do nazista. A idéia é oferecer ao leitor a possibilidade de ler um clássico e entender os conceitos em apenas uma hora, explicou o editor-chefe Kosuke Maruo, à BBC Brasil.
No Brasil, ao contrário, quanto mais velho fica o tradutor, quanto mais caduco se torna o teórico dos ambientes acadêmicos, tanto mais tenta escrever de forma mais obscura com a nítida impressão de impressionar os discípulos, também obtusos, e não dar a oportunidade para que os mais jovens entendam seus comentários e piruetas epistemológicas, em vista da densidade incompreensível a partir de onde escrevem. Mesmo considerando algumas exceções, é preciso enfatizar que eles, no mais das vezes, tornam tudo, tudo muito mais difícil tão somente por puro diletantismo e porque não querem dar aos demais a oportunidade do entendimento das teorias aqui tornadas tão obscuras (em língua portuguesa). Os primeiros são os amantes da sabedoria, da filosofia, como na origem, entre os gregos, e a querem disseminada, difundida, massificada, entre todos e para o bem da humanidade. Os demais, inclusive professores que se encarregam de tornar a filosofia antipatizada nas universidades, são meros e desafiadores gigolôs da teoria que, por ciúmes doentios e exacerbados, a desejam só para si, para o seu deleite mórbido - ricos e petulantes assoberbados - e não para o populacho afeito à promiscuidade teórica, como este que vos alinhava estas linhas pretensamente aproveitáveis ou, quem sabe, realmente inúteis.
É por isto que o Fernando Pessoa tornou-se quase um proscrito queimado vivo pelos tribunais da santa inquisição portuguesa, quando bradou, em praça pública, a plenos pulmões, ainda na década de 1920 do século passado, que a razão dos filósofos é muitas vezes tão extravagante como a imaginação dos poetas. Durma-se com uma zoada desses! De filósofos, poetas e loucos todos temos um pouco... Ou muito mais que medidas tão voláteis e extravagantes quanto essas...
E o que dizer das monumentais e caudalosas fontes de onde temos bebido desde há cinco séculos antes de Cristo? Onde enfiaram Sima Qian, Kung Fu-Tzé, ou Confúcio, e Sun Tzu? Onde estão Platão, Commenius e Marx. Qual a prateleira existencialista empoeirada de Schopenhauer, Kauffmann e Sartre?
Em verdade, os grandes pensadores foram por nós trancafiados nas nossas bibliotecas, e de lá nos fitam, furiosos, condenados que foram para sempre ao ridículo, penso cá com os meus botões de osso velho. Mesmo aqui em casa, entre os mais destacados habitantes da minha parca sala de estudos, dia e noite escuto o lamento dos grandes pensadores que encerrei nos meus armários de aço inoxidável, essas ridículas sumidades de espírito, como cabeças mirradas dentro de uma vitrine. Toda essa gente profanou a natureza, cometeu o crime maior contra o espírito e, por isso, são punidos por nós e encarcerados para sempre nas nossas bibliotecas. Ali, no seu dia-a-dia quase eterno, eles morrem sufocados, essa é que é a maior e a mais cruel verdade...
Estes velhos depósitos de documentos apodrecidos, livros nauseabundos e muita poeira, as nossas bibliotecas, são como presídios em que encerramos as nossas sumidades de espírito. O Kant numa cela de isolamento, como é natural, tal como Nietzsche, tal como Schopenhauer, como Pascal, como Voltaire, como Montaigne, as figuras mais insignes em celas isoladas. E todos os outros em celas coletivas, mas todos ali metidos para todo o sempre, meus caros, para toda a eternidade até o infinito dos tempos, eis a grande verdade. E infeliz daquele que, condenado por ter cometido o crime maior, tente a evasão e consiga fugir, porque logo o desgraçam e o lançam no ridículo, essa é que é a verdade. A humanidade sabe proteger-se de todos os chamados grandes de espírito. Em vida, os assassinam. Decapitam-lhes. Ateiam-lhes fogo. Depois, trancafiam a alma nos ermos das velhas bibliotecas ou nos sítios de busca da internet. O espírito, onde quer que surja, é logo dominado e aprisionado, e, como é natural, logo lhe apõem o carimbo de espírito negativo, penso, louco, eu.
Homens que criaram e que marcaram época outrora são, hoje, como os nossos contemporâneos que não conseguem a exata mensuração do que ocorre daqui a um palmo do meu nariz. Por isto, caminhando e cantando e viajando e sempre discordando de algumas ou de muitas ilações dos nossos profetas do absurdo, devo assinalar que os dilemas incomensuráveis da humanidade devem ser revistos em todas suas dimensões. Interessa serem estudados a partir dos meandros do subconsciente aos problemas de relacionamento entre as pessoas ou entre os grupos humanos. Se a nossa vã filosofia deve ser útil aos homens, deve fazer do homem a sua fonte principal de inspiração e de análises. Por que discutir o sexo dos anjos e esquecer a alma nua das mais belas meretrizes?
Resta observar muito mais dentre as nuances próprias do pensamento humano. Senão, vejamos o brilhantismo deste Francis Bacon. Segundo ele, um pouco de filosofia leva a mente humana ao ateísmo, mas a profundidade da filosofia leva-a para a religião. Mesmo este irmão, o Manuel Severo, parceiro de muitas ondas espumantes e altamente festivas, que agora busca um aprofundamento maior neste seu tornar-se ateu cada vez mais empedernido, pelo simples e complexo fato de já adiantar-se no estudo de oito ou dez compêndios acerca do tema, já se está transformando num religioso que busca, a cada hora, embasamento mais consistente para os dogmas ateístas, hoje, até criados por ele. Fantástico!
Qual é a primeira coisa que deve fazer quem começa a filosofar? Rejeitar a presunção de saber. Só sei que nada sei. Incrível, esse Sócrates... De fato, não é possível começar a aprender aquilo que se presume saber. Por isto, as mentes mais preparadas encaram de frente os sistemas filosóficos mais arrazoados ou desarrazoados e empreendem a tarefa maior que é deslindá-los, sempre que possível.
Por isto, Aristóteles, interrogado sobre o que havia aprendido com a filosofia, disse: a fazer, sem ser comandado, aquilo que os outros fazem apenas por medo da lei.
Fica claro então que só é possível tornar-se filósofo, quando não nos sentimos enquanto tal. Assim, a partir do momento em que acreditamos chegar a este estágio altaneiro, cessamos de nos tornar e já não somos ou não viremos a ser filósofos.
Em síntese, para muitas pessoas, os filósofos são notívagos inoportunos que as perturbam durante o sono. Ou, para os mais esclarecidos numa filosofia dita da práxis, é preciso deixar claro que, conforme Mark Twain, os filósofos que acreditam na lógica absoluta da verdade nunca tiveram de travar uma discussão acirrada com uma mulher.
E mais uma vez, então, o Fernando Pessoa, poeta do Modernismo português, aparece , ectoplasmático, para ajudar a por termo a essa tresloucada crônica em diatribe estóica e cínica, embora sem interlocutor determinado. Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, enternecer-se com o homem - esta é a verdadeira filosofia.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 00h09
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