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Chico Mendes e a reconstrução do mito

        Não é bom chorar uma vez mais. Fica a alma ressentida e a pele ressequida e os lábios murchos e as vistas embotadas. Convém tomarmo-nos de júbilo em face da obra humana que vai sendo construída ao sabor do tempo, pela vida afora. Por Deus!

         Se nos tomamos em lágrimas, compungidos ficam o nosso espírito e o do visionário morto que deixou uma gota de sangue em cada gesto, em cada palavra que disse ou escreveu.

         Do lado de lá, mesmo que ninguém o tenha dito ou visto, a escuridão nada revela porque é a luminosidade que torna mais iluminados os espíritos de luz que daqui se foram justamente na hora em que davam o melhor de si em benefício dos demais. Mas a floresta, antes encantada, agora mostra todo o seu desencanto por a terem desamparado e devastado tão sacrilegamente. De dar dó!

         Uma árvore chorou, apenas, e ainda chora, como escreveu o poeta. Outras foram abatidas não mais a golpes de machado. O humano entristeceu. Mas, a seguir, deu por si e observou que o trabalho tinha apenas sido iniciado e que conviria completá-lo ou tocar pra frente o bonde da ecologia. Chico Mendes, um homem em quem a minha geração se espelhou, pelos exemplos tão dignificantes, pelo trabalho em defesa dos bens naturais que nos deixou Deus e por uma trajetória sempre em busca das melhorias de vida para todos os irmãos da floresta, segundo avalio, tornou-se legendário e real, futurista e pragmático, homem e mito... Esse meu amigo morto toma-se de uma determinada carga simbólica para uma dada cultura, a cultura da florestania. Trata-se de um misto de ser humano entre a ascese e a realidade que traduz o nosso mito do homem acreano desarmado de espírito e de bom coração.

         Sim, o Chico é o meu mito particular. Se me espelho no significado real do termo, me refiro à vida do seringueiro e ecologista enquanto um acontecimento histórico que se pôde transformar em mito porque adquiriu uma determinada carga simbólica para uma dada cultura, a cultura do seringal.

         É do poeta Fernando Pessoa uma frase que diz: desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.  

         Então, a partir de uns doze ou mais anos da minha idade, passei a acompanhar o meu pai em algumas das muitas caçadas e pescarias em que éramos obrigados a ir e vir pelas águas do Igarapé Ina, do Seringal Cachoeira em diante, acompanhados do meu velho patrão, o Padre José, também Juiz de Paz da Comarca de Xapuri, de quem fui datilógrafo de registros civis de nascimentos e casamentos ocorridos nos seringais do Vale do Acre e adjacências. Além de caçar, o homem fazia umas tais desobrigas (atividade própria dos religiosos católicos que cumprem o seu dever a grandes distâncias da sua igreja matriz) em que rezava missa, casava, batizava e excomungava qualquer afoito que se metesse a desaforado com o frade cearense que estava sempre armado, mesmo na Igreja, e nunca trazia ou levava desaforo para casa... Mas era um verdadeiro cavalheiro, diria, um tanto brincalhão e um tanto aborrecido...   

         Foi por estas andanças que conheci Chico Mendes, no Seringal Porvir, em casa da Araci Paes e do Mauro Alves Brilhante. Foi por essa época que passei a ter um contato maior com ele e com o seu primo, Raimundo Barros, tal qual o ecologista, um sujeito bonachão, com a cara de Xapuri e o jeitão de caminhar próprio dos acreanos tecidos da mais fina teia.

         Uns dois ou três anos mais tarde, passei a tomar contato maior, lá, com o ecologista Chico e o primo Raimundão. Antes, mal os via, uma vez ou outra nos festejos católicos da cidade. Depois, nos anos oitenta, andei bastante em Xapuri, em companhia de Paulo Schimitz, Frederico Pontes e Manoel Severo, professores da Ufac. Lá, uma das visitas que não podiam ser dispensadas era ao líder dos seringueiros, naquele tempo, com escritório simples instalado na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, ao lado da Matriz de São Sebastião.

         Outro tempo. Outro espaço. A mesma história. Agora, sobe novamente à ribalta dos marginais esse fantoche tão mal lembrado, o Darli Alves, para dizer que quem mata não é quem puxa o gatilho mas, pelo que se entende nas entrelinhas, quem fala demais, os assassinos de si próprio, como o Chico. Na realidade, tanto o sindicalista quanto os demais companheiros, alguns tocaiados também a mando do paranaense, deveriam ver a barbárie e os assassinatos acontecendo e não teriam o direito sequer de reagir, de forma alguma, ou de se levantar contra as agressões, porque quem deveria falar, quem deveria mandar, ou quem decidiria sobre a vida ou a morte seriam os sulistas, donos da razão e do poder, mancomunados com o Estado de Direito apinhado de asseclas todos nossos conhecidos. Em verdade, esses seringueiros mais informados sempre incomodaram, desde Edgar Moreira da Silva, o verdadeiro fundador do Partido dos Trabalhadores em Xapuri.

         Ao contrário do que prega o discurso da desvalorização dos que defenderam e defendem a vida e a dignidade dos povos da floresta, Chico Mendes foi um seringueiro, sim, por mais de vinte anos, e eu o conheci enquanto tal. Mas houve o momento da necessidade de alguém mais esclarecido cuja incumbência maior seria liderar os demais... Também, é claro que se deve levar em conta que, depois de uma idade a mais, um cidadão portador de uma certa deficiência física progressiva, na perna esquerda, não teria nenhuma condição de andar arriba e abaixo, nas estradas, cortando e colhendo seringa, de madrugada até a noitinha.

         Aqueles que detratam a imagem do homem exemplar que foi Chico Mendes é porque não o conheceram e, agora, feito papagaios pornográficos, dizem dele aquilo que ele não foi porque a sua índole era do bem, ao contrário dos que tramaram a sua marte e dos que agora vilipendiam a sua memória. Quem dentre os detratores de paletó e gravata alguma vez prestou um dia de serviço numa roça, numa apanha de arroz, numa batida de feijão, ou numa moagem? Quem já sobreviveu à custa do trabalho nas estradas de seringa? Nenhum desses falastrões e pregadores da falsa moral.

         É por isto que a carta enviada por Chico Mendes a Mauro Spósito,    o então superintendente da Polícia Federal, não surtiu nenhum efeito. Nenhuma providência que garantisse a vida do ecologista foi tomada pelos órgãos oficiais como se, para o Governo, mais interessantes seriam a sua morte e a dos seus incômodos companheiros sujos e fedendo a látex.

         Ora, senhores. Chico foi aclamado enquanto liderança porque tinha uma visão de mundo ampla e sabia o que, com quem e do que estava tratando. O medo não era álibi para fazê-lo calar-se.     

           Segundo a jornalista Silvânia Pinheiro, uma visão ampla a respeito da vida dos desassistidos da floresta o fazia ir além do seu círculo de fogo. Projetos apresentados por Chico Mendes junto ao BNDES propunham meios, inclusive, para o desenvolvimento econômico da região do Juruá.

            Por isto, é necessário reafirmar que esses sub-cidadãos  -  que falam o que não sabem sobre o Chico  -  é porque a eles não foi dada a oportunidade de, um dia, após um empate ou uma reunião, trocarem um dedo de prosa com o seringueiro sabido. Era o que bastaria, e qualquer um, nem mais nem menos sensível, já sairia rejubilado com as suas idéias e ideais. É claro que os defensores da devastação dos ecossistemas não lhe dariam razão alguma. É claro que os ceifadores da vida dos homens e do planeta o teriam odiado (como odeiam!) só de ouvirem falar dos seus propósitos.

         Que as mais novas gerações ouçam as pessoas de grande credibilidade. Luís Ceppi, Clodomir Monteiro, Moacir Grechi, José Fernandes do Rego, Arquilau de Castro Melo, Marina Silva, Binho Marques, Raimundo Angelim, Sílvio Martinello, Abrahim Farhat, Nilson Mourão, Júlia Feitosa, Pedro Vicente da Costa Sobrinho, João Maia, Mario José de Lima (in memorian), dentre tantos expoentes da nossa vida pública, têm todo o crédito para falar ou escrever sobre o Chico porque, como eu, realmente o conheceram, lá, na sua colocação, na sua casa ou no Sindicato.

         Jorge Viana -  para a Amazônia, o engenheiro florestal por excelência  -  é contundente quando afirma que o grande legado (do Chico) é dividido em três vertentes: a defesa do meio ambiente, a viabilidade econômica da floresta amazônica e a luta por justiça na defesa dos trabalhadores extrativistas. Em uma síntese rápida, eis a maior promessa de vida que pudemos ter enquanto herança do ecologista assassinado. Ao se cumprirem os prognósticos da defesa do meio ambiente, a vida estará garantida. Parafraseando Hermann Hesse, diz-se que um ser humano só cumpre o seu dever quando tenta aperfeiçoar os dotes que a natureza lhe deu.

          Ainda conforme o ex-Governador, o que fortaleceu a trajetória de Chico Mendes foi a luta pelas boas causas, pelas causas corretas que não estavam na agenda de governos e nem da sociedade. Isso deu vida longa aos seus ideais e à sua memória.

         E hoje, vinte verões passados da morte do líder, impregna-se, entre os seringueiros, a desconstrução de uma história plena de bons propósitos. A partir de comícios em praça pública, escudados na promiscuidade das considerações de um facínora que atende por Darly Alves, pessoas de má fé passaram a dizer e a divulgar as mais estúpidas mentiras e desinformações contra o seringueiro morto. Denegriram a imagem de um bom homem. Pior, depois, foi a confirmação. Numa viagem entre Xapuri e Rio Branco, vieram dois seringueiros comigo até o Quinari, de carona. Perguntados sobre o papel de Chico Mendes, eles repetiram a mesma cantilena do assassino. Não notam eles que toda esta propaganda mentirosa começou  -  e se repetiu no Fantástico  do último dia 14  a partir das palavras dos maiores inimigos dos povos dos seringais, entre eles o próprio assassino do ecologista que por último, vinte anos depois, reafirmou a sua participação.

          O poeta angolano, Ary dos Santos, é quem empresta cores mais fortes à figura do ecologista morto, quando escreve que Herói é quem morrendo perfilado / Não é santo, nem mártir, nem soldado / Mas apenas por último indefeso. / Homem é quem tombando apavorado / Dá o sangue ao futuro e fica ileso / Pois lutando apagado morre aceso.    

         Por isto, é necessário evidenciar que os grandes homens são maiores na recordação do que ao natural. Aquilo que vimos neles é, ao mesmo tempo, o seu melhor e o melhor de nós próprios. Aqueles que não têm olhos e inteligência para enxergar a grandeza da obra do seringueiro morto é porque são muito piores do que aquilo que o seu próprio ego medíocre desejaria ter sido. Em verdade vos digo que Einstein tem razão ao afirmar que o mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas, sim, por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.

__________

•·         Cronista, ensaísta, poeta, escritor, pesquisador, professor, filósofo, fisiculturista e dublê, de Xapuri.

 

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h46
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