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Impressões gerais
 

E a alma agradecida se enternece...

         Um preceito básico cristão reza que o único e o maior de todos os deveres do ser humano é agradecer sempre a Deus, inclusive, pela força física que nos torna aptos a prover o sustento dos descendentes e, muito mais, pelo ar que respiramos. É São Gregório de Nissa, bispo católico dos primeiros tempos, o autor da assertiva acima. Cumpre agradecer, também, àquele irmão que se nos apresenta nas horas mais difíceis, em socorro da alma atribulada.        

         Desde algum tempo me fascina olhar para o passado, ver as pegadas logo atrás de mim e algumas figuras tão marcantes que houveram por bem observar que este ser humano que vos alinhava estas algaravias ainda pode  -  ou poderia  -  ser muito melhor aproveitado.

         Alguns homens e algumas mulheres foram muito gentis, não apenas para comigo, mas também para com todos aqueles que ainda hoje os cercam, para o bem de toda uma comunidade composta, no mais das vezes, por pessoas com carências físicas e espirituais.

         Já citei por aqui os nomes de algumas professoras e professores que ainda hoje me fazem pensar no quanto foi grandioso e me fez progredir apenas em vista do contato nas salas de aula... Essa Ducélia Mota Lopes ainda hoje me faz sentir um privilegiado em ter sido seu aluno, no Curso de Letras da Universidade Federal do Acre, nos primeiros passos de uma linguagem escrita da qual ainda sou mero aprendiz... E eu lembraria de uma dezena destes que fizeram da transmissão do conhecimento aos mais novos talvez a sua razão única de viver.

         Medito cá com os meus miolos ainda rijos. Mesmo fora dos ambientes escolares ou acadêmicos, algumas almas prestaram-nos a feliz gentileza de passar ou de fazer, de alguma forma, parte das nossas vidas. Por isto, vem-me à memória uma espécie de reconhecimento indireto constante, este, sim, um ingrediente que nunca pode faltar nas relações sociais. A quantas almas eu devo tanto!...

         Um dia, ainda nos anos sessenta, apareceu lá em casa, em visita política, o então Governador José Rui da Silveira Lino. Minha mãe não se fez de rogada e pediu uma bolsa de estudos para os meninos lá de casa no Colégio Divina Providência, particular. O grande cidadão deu as três bolsas, de oito anos cada, e mais um emprego de professora da zona rural para uma irmã mais velha, hoje falecida. À minha mãe, foi oferecido um afazer de merendeira. Ela quis, mas o meu pai não aceitou. Havia muitos filhos para serem criados. Havia a cozinha, o tanque. Não. Mulher de homem como o estivador jamais trabalharia para quem quer que seja. Certo é que, há poucos dias, encontrei a Regina Lino, a filha, e lhe disse o quanto senti a necessidade de agradecer essa gentileza ao próprio ex-Governador, quando ele ainda em vida... Ela se comoveu deveras...

         Em 1974, eu já contabilizava dezesseis invernos drásticos de vida bem vivida, segundo permitia a divina providência que emprestava ao estivador e à lavadeira, lá de casa, força suficiente para a aquisição dos víveres com que nos sustentavam. Já houvera concluído o curso ginasial, de onde me houvera saído muito bem. As notas ficaram lá em cima. Simplesmente, eliminei todas as disciplinas com a média sete e mamãe ficou felicíssima.

         Às vezes, papai gostava de fazer alguns comentários bastante elogiosos relativos a mim, em meio às rodas de amigos, ali pelo porto do Zaire, em Xapuri... Numa dessas ocasiões, a conversa houve por bem chegar aos ouvidos de um dos dignitários da comunidade, comerciante bem posicionado, o Henrique da Costa Galo, irmão de Marinho da Costa Galo, meu aplicado professor de História Geral. Ele se tomou de uma certa compaixão pelo fato de os meus resultados escolares serem tão positivos e as posses dos meus pais não permitirem ir muito adiante nos estudos.

         Era noitinha e o meu pai já entrou em casa preocupado. É que o senhor Henrique Galo, filho de portugueses legítimos  -  Manuel e Alexandrina  -  havia mandado me chamar ao escritório da Casa Galo. Mamãe pensou tratar-se de um emprego que poderia ser arranjado, e isso seria muito bom porque eu, desde os onze anos, já os ajudava nas despesas de casa, engraxando sapatos, vendendo mingau e quibe, trabalhando e colaborando, como fiz até depois do desaparecimento do estivador.

         Da porta do escritório cumprimentei o bom homem. Entrei, sentei e ele, gentilmente, me ofereceu, talvez, um chocolate em barra. Aí pegou, do meio de uma papelada, um folder da Academia Militar das Agulhas Negras, de Guaratinguetá, São Paulo, e me disse que aquela era a minha chance de ser alguém na vida.

         - Eu posso ajudar com as passagens e o enxoval  -  roupa e apetrechos de cama, de banho e algum vestuário... Depois você já será um oficial do exército brasileiro... Em três anos de estudos...

         Findei não aproveitando a oportunidade. O estivador havia contraído o diabetes que o transportaria para o outro mundo em 1996. Eu, muito responsavelmente, resolvi ficar no Acre. Preocupava-me o pai doente e, ademais, lá em casa, ainda haviam três irmãos menores, mais novos, e minha mãe não teria meios de provê-los do sustento caso o estivador, à época, viesse a morrer.

          Hoje eu revivo aqueles bons tempos de gente tão boa. Por isto, a este benfeitor inesquecível, ao Henrique Galo, deixo aqui registrado o meu agradecimento e digo que, aos incapazes da gratidão, nunca faltarão pretextos para não tê-la.

         Uma outra época. Outro ambiente. Cheguei da minha cidade com uns quatrocentos cruzeiros, sobreviventes de um carnaval, para fixar residência definitiva em Rio Branco. (Lá, prestava serviço para o Supletivo.) Era exímio datilógrafo. Por isto, andei por toda Rio Branco à procura de emprego de escritório. Não achei. Talvez pelo fato de as feições não serem assim tão fortes, como hoje. Fui, enfim, ao bairro Bosque e fiz provas de Português e Matemática, junto com a Rute Silva Machado, para empregado da Construtora Arco, do engenheiro Cláudio Gastão Kipper. Fomos aprovados com a mesma nota. Como não podia ser diferente, ela ficou no escritório e eu fui para o trabalho na construção do clube Assincra.          Passaram-se três meses e eu lá, de sol a sol. Era um forte...

         Fui, então, aprovado em concurso público, em primeiro lugar, para o cargo de datilógrafo do Senai, entre uns sessenta concorrentes. No dia da contratação, fui, antes à Construtora para fechar as contas. Coube-me ainda uma indenização de oitocentos mil cruzeiros. Só que, do setor de contabilidade, fui chamado ao escritório do dono da empresa. Esse Cláudio Kipper, um mega cidadão, assinou um cheque de um milhão cruzeiros, passou às minhas mãos e disse:

         - Vá, Cláudio. Lá é melhor pra você. Siga seu futuro. Esse cheque é um presente que lhe dou.

         Ora, senhores! Já houvera registrado o legendário Esopo: a gratidão é a virtude das almas nobres.

         O José Higino de Souza Filho foi diretor do Senai-Acre durante a minha época de datilógrafo, lá. Um dia ele me disse:

         - A vírgula ocorre, basicamente, nos apostos, nas subordinadas adjetivas explicativas e adverbiais, nas seqüências e nos adjuntos. O acento cai nas oxítonas terminadas em aeo; nas paroxítonas terminadas em rinlux e em todas as proparoxítonas...

         - Ah, sim! Guarde todos os meus rascunhos e em dois meses você redigirá os ofícios e memorandos sozinho, sem precisar de mim.

         Fiz assim e hoje dizem de mim um cronista da terra acreana. Por isto, ao Prof. Higino, o meu reconhecimento.

         Na Ufac, encontrei um cabra bom. O Antônio Francisco da Silva que, no dizer do Reitor Áulio Gélio Alves de Souza, era o papa da borracha, pelo fato de haver se encarregado diretamente da criação do curso de Heveicultura, especializado em tecnologia do cultivo da seringueira.

         Natural de Goianinha, Rio Grande do Norte, esse cabra costumava dizer que eu prestasse muita atenção em tudo o que fazia pois, no futuro, todo esse aprendizado me seria de grande utilidade, como realmente o é. Meses depois, ele arranjou uma portaria e eu passei a ganhar uma gratificação de secretário de curso. E, então, veio um outro conselho:

         - Já que você é bom nessa coisa de redação, deveria fazer um vestibular para Letras. Se passar, você trabalhará pela manhã e estudará à tarde...

         Com todo esse estímulo, passei em quinto lugar, concluí o Curso em quatro anos e aprendi muito mais do que aquilo que ele previra. É piegas mais uma vez? É sim! Mas eu jamais poderia ser ingrato para com tantos que houveram por bem me fazer tanta gentileza. Por isto, aqui recordo o pensador Goethe: a ingratidão é sempre uma forma de fraqueza; nunca vi homens hábeis serem ingratos.

         É também por isto que o Virgílio, poeta romano, dizia mais ou menos que enquanto os rios correrem para o mar, enquanto os montes fizerem sombra para os vales e enquanto as estrelas brilharem no firmamento, deve durar a recordação do benefício recebido na mente do homem que sabe reconhecer.

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 18h16
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A miséria de educar

        

O escritor austro-húngaro Franz Kafka deixou registrado algo semelhante à assertiva seguinte. Toda a educação está assentada em dois princípios básicos: primeiro, repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e, depois, iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo. Imponderado, mas brilhante!

Há exageros, certamente. Há doses maciças de inconformação, desencanto e pessimismo. As cores do mundo retratadas e retocadas no quadro acima são berrantes e as tonalidades e matizes em nada as suavizam. No entanto, é preciso considerar, de antemão, que tudo deverá ser revelado, inclusive, algumas ousadias que jamais poderiam ser ditas ou escritas aqui e acolá. Será sempre preciso levar a informação nua e crua, a quem interessar possa, mesmo porque, esse atraso do Brasil ainda terceiromundista é justificado, também, pelo fato de muitos serem os veículos que se encarregam da deturpação total ou parcial dos fatos... E é com esta miséria de educar que enganam a parcela da população que continua sem oportunidade, sem estímulo e eternamente na esperança de um dia ser ressarcida pelos esforços feitos, em vista da promessa de dias melhores que sempre estão por vir e nunca vêm... Eles precisam de emprego, senhores. Eu preciso de utilização! Quem está preocupado, hoje, com o advento das novas tecnologias que poderiam ser transmitidas aos jovens das castas menos favorecidas desta Nação?

Em verdade, há de levar em consideração, mais uma vez, o velho e bom Kafka que, rápida e sorrateiramente, resumiu a pouca esperança ao escrever que para educar crianças é necessário ensiná-las a dizer sempre a verdade dizendo-lhes muitas mentiras. Ora, senhores! Se a enganação está na origem, aos maus profissionais da educação só caberá ensinar aos garotos e garotas da periferia e do centro uma fórmula que lhes oriente sobre as melhores maneiras de embrulhar dúzia e meia de pobres tolerantes e nunca arredios ou rebelados.

 Agora mesmo, a proposta do parlamento brasileiro outorga aos professores com formação superior um piso de 950 dinheiros, com o quais haverão de dar boas aulas dia e noite, no colégio particular e na escola do governo, sem lazer, sem comer direito, sem titubear durante trinta anos de serviço, não adoecer mesmo tendo que morrer de fome, em vista da carestia que não perdoa notadamente os desavisados que não sabem o que é a realidade fora das quatro paredes da escola. Não. O sistema não lhes empresta essa oportunidade porque a intenção maior é tirar do comedor de giz qualquer possibilidade de ascensão econômica, por intermédio de uma outra atividade que não seja a de contraventor penal e fomentador de mesas de carteado... Mas como filtrar qualquer coerência, sensatez ou dignidade de uma superior maioria de deputados e senadores que vendem a mãe ao demônio em troca de um holofote da mídia, feito esse tal Garibaldi Alves que, obtuso e ignorante, não disse a que veio porque ainda não sabe se chegou a lugar algum.

         Mas deixemos o partidarismo doentio e safado para nos atermos às políticas reais, à história daquelas políticas que dizem respeito ao desenvolvimento do ser humano a partir de uma escola de qualidade suspeitosa ou nem sempre avaliável.

         No declínio dos anos sessenta e início da década seguinte, o nosso Ministério da Educação e Cultura aceitou a cooperação técnica do BIRD – Banco Interamericano de Desenvolvimento – com o objetivo de resolver problemas que emperravam o sistema educacional brasileiro. Era meta primordial a obtenção de alguma colaboração em termos técnico-financeiros que pudesse auxiliar na questão da gestão e controle de gastos dos recursos. Havia a expectativa de que, através dos projetos, pudesse ser implementado na administração pública brasileira um modelo de gerenciamento sob técnicas modernas, segundo inspiração do Decreto-Lei 200/7. Era preciso saber gastar dinheiro de forma correta. Fazia-se necessário saber gastar como gastam os americanos, especulando nas bolsas de valores e não investindo corretamente no cidadão... Mas o que se viu?...

         Em verdade, as vantagens oferecidas pelos organismos internacionais de crédito em nada, ou muito pouco, beneficiaram o setor educacional brasileiro. Os recursos oriundos dos projetos para essa finalidade se mostraram muito aquém daquilo de que carecíamos, tendo em vista o tempo necessário para a execução orçamentária e as despesas daí decorrentes, dentre outras tantas exigências dos tecnocratas de Washington e Brasília.

         Numa análise cuidadosa acerca dos objetivos apostos em projeto, pode-se perfeitamente observar que muito pouco ou quase nada foi feito.

         O ensino fundamental foi o mais prejudicado. Em compensação, segundo o Prof. Dr. Bruno Pucci, da Universidade Federal de São Carlos (SP), o ensino técnico de segundo grau recebeu alguns benefícios no início dos anos setenta, os quais foram investidos na estruturação e aparelhamento de escolas industriais e agrotécnicas.

         Todavia, esses projetos-piloto não puderam contar com um indispensável trabalho de avaliação ao longo dos seus vinte anos de experiência, posto que deveriam ter sido acompanhados de perto, buscando-se verificar se os objetivos sociais estavam sendo alcançados. Ademais, por se tratarem de modelos em experimentação, estes deveriam ser estendidos a outros centros fora do Sul-Sudeste, o que jamais foi feito. É exatamente por isto que, quando os recursos foram esgotados, o sistema educacional voltou à sua rotina de carências e pendências.

         Muito pior: o Ministério da Educação não alcançou a grande meta que era o aproveitamento das experiências para a melhoria do seu processo de planejamento e de gestão. Apenas alguns reduzidos segmentos técnicos e do quadro dirigente foram beneficiados.

         É preciso, pois, repensar o sistema educacional brasileiro. É conveniente ir às bases e observar até que ponto fomos prejudicados e em que pontos obtivemos auxílio. O discurso da elite sobre a educação a partir de financiamentos estrangeiros diz que colaborou sobremaneira. Entretanto, nós que falamos da educação – alunos, professores, pais, diretores... – não fomos e não somos ouvidos. É claro que jamais acreditamos tanto na eficácia de tais financiamentos, mesmo porque os juros financeiros cobrados são altíssimos em vista do valor sempre alto da moeda americana.

         Assim, pode-se concluir que, depois de deduzidas as despesas decorrentes de todo o processo, os recursos que restaram e que foram destinados aos investimentos se tornaram inexpressivos. Então, fica patente que as dificuldades financeiras dos projetos educacionais brasileiros que dependem de recursos internacionais podem ser também atribuídas ao próprio modelo de financiamento, que segue as mesmas regras fixadas para os acordos comerciais, as quais incluem a rigidez dos prazos fixados para execução das ações e para prestação de contas, incluem também as exigências das equipes especiais de gerenciamento no âmbito central e estadual, e a obrigatoriedade da elaboração de relatórios técnicos especializados, dentre outros fatores obstaculizantes... Tudo isto porque esta é a era da qualidade total, muito embora a quantidade, em termos de educação, esteja sempre em primeiro plano.

          Durante duas décadas, diversos estudos foram realizados com o objetivo da compreensão acerca das dificuldades para a efetivação dos projetos, assim como as soluções para a superação dos problemas. No entanto, tais análises jamais foram levadas em conta. Nos processos de continuação das mesmas ações repetem-se os mesmos erros e volta-se sempre ao ponto de partida. Os interesses do BIRD e de algumas instâncias locais continuarão a ter a preferência, em detrimento do desenvolvimento social propugnado.

         Ora, se já conhecemos a historia dos nossos erros, por que continuamos a cometê-los? Se sabemos que as unidades gestoras são extintas a cada período de execução de projetos; se sabemos que, por isto, as informações vão sendo paulatinamente fragmentadas; se sabemos que apenas o Banco e alguns técnicos brasileiros têm pleno conhecimento dos processos  que visam apenas lucros financeiros para a instituição bancária; porque ainda confiamos nesses expedientes escusos ditados pelo alto capital internacional? Ou porque propugnamos pelo abrandamento das relações comerciais de bancos eminentemente mercantis?

         Um dia, na juventude, disseram a mim que só estaria realmente educado no dia em que aprendesse a suportar a injustiça e o aborrecimento. Não o consegui. Mas observei desde há muito que é preciso jamais descartar a verdade embora ela seja dolorosa. É preciso dizer que a eficiência não é alcançada e os resultados na maioria das vezes são pífios, mas os projetos continuam a ser financiados na expectativa das vantagens que ficam cada dia mais distantes da nossa realidade periférica.

         Não devemos acreditar na maioria daqueles que dizem que apenas as pessoas livres podem ser educadas, mas, sim, acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres...  E como ser livre da mentira?... E assim caminha a humanidade...          Então, findei por aprender, à duras penas que, segundo o senhor Twain, a boa educação consiste em esconder o bem que pensamos de nós próprios e o pouco bem que pensamos dos outros.

_______________

* Cronista, ensaísta, poeta, escritor, pesquisador, professor, filósofo, fisiculturista e dublê, de Xapuri.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 18h12
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