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Se essa rua fosse minha... É realmente instigante respirar este Acre nosso de todos os dias. Vive-se por aqui sempre com a sensação de estar participando de um tempo em que todas as coisas se iniciam e vicejam por obra de Deus e pelas mãos de gente acostumada a vir, ver e ser feliz. E o que fazemos nós, pessoas de bem que acreditam no futuro desta terra tantas de almas boas? Preferimos não ir embora e ficar por aqui até que as coisas tomem pé, de uma vez por todas, não obstante a prática desse compadrio atrasado dos que estão constantemente olhando para trás, e do uso ininterrupto desse cartorialismo obsoleto que sobre existe teimoso em detrimento da competência técnica comprovada e do trabalho frutífero dos que não se cansam, produzem e resistem bravamente. Talvez eu até ainda possa ajudar, de alguma forma, apesar de já estar caminhando, célere, rumo ao périplo de número cinqüenta e dois ao redor do sol. Mas é preciso esticar bastante o olho e observar que, cá por estes recantos acreanos, ermos rincões de Deus meu, cometem-se pecados tão esdrúxulos que até o mais maldoso dos pecadores, de Caim a Hitler, duvidaria. E quantas pontes podres tivemos que atravessar, sem o uso de corrimão ou vara de arrimo?... Foi dureza suportar o estilhaçamento do aparelho estatal tão débil já no nascedouro... Em meados do século passado, os acreanos viveram sob as asas e a competência de algumas águias da política. Eram muito bons e buscaram fazer as bases do desenvolvimento que hoje alcançamos. De Oscar Passos, Guiomard dos Santos e Adalberto Sena herdamos obras de algum quilate, certamente. Todavia, as habilidades pedagógicas deles eram mínimas, seus discípulos políticos aprenderam muito pouco ou quase nada e, de repente, começaram a olhar o futuro do Acre pelo buraco de uma fechadura enferrujada. Muito grave! Estes mais novos, lideres dos anos sessenta e setenta, passaram a habitar ao redor dos seus próprios umbigos porque a eles nada de muito bom foi transmitido, principalmente, no que diz respeito ao tino administrativo que conseguiu falir casas de comércio e vastos seringais, além do Território logo feito Estado. Por isto, boa parte dos acreanos pegou as tralhas e foi tentar a sorte por aí afora, inclusive no exterior. Acabaram-se as esperanças. O otimismo de gente como eu foi impiedosamente massacrado. O futuro se anunciava sombrio, como se todo este rincão fosse derreter ao sabor das fortes chuvas e dos arroubos do bravo Rio Acre hoje, enfim, definhando a olhos vistos e ninguém planta uma mangueira nas suas margens. João Gojóba, um amigo hoje radicado no Rio de Janeiro, a mim escreveu certa vez em uma carta dilacerante: “Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei”. Um dia, ainda antes do advento da florestania, insatisfeito e desesperançado, também quis arrumar os panos e cacarecos, mas não o fiz... Talvez algo mais prazeroso tivesse por vir... Hoje, felizmente, já não mais concordo com os versos e rimas, logo aí no início do parágrafo, do poeta Manuel Bandeira. Ele assim o disse, realmente. E talvez, nos dias que correm, não mais que aqui e agora, eu tenha razão ao me referir a estas plagas de Galvez, como a parte do mundo onde o cão quiçá tenha achado as botas elegantes e reluzentes em ouro puro... E por aí segue a nossa procissão diária cuja grande oferenda é matar e esfolar, vivo, um leão a cada dia que Deus nos dá, enquanto não morremos e nem temos a intenção de morrer de fome. Dentre outros tantos sacrilégios cometidos, vejamos, então, os nomes das nossas ruas, dos nossos bairros e das nossas cidades, de ontem e de hoje. É lastimável! Obra dos nossos antepassados nada – ou muito pouco – gloriosos, talvez sem inteligência, que foram pespegando denominações estapafúrdias em tudo o que é local. De início, coerentemente, é preciso considerar que, antes de mais nada, o homenageado – com cujo nome batizam-se os logradouros e cidades – deve, no mínimo, ser um cidadão já falecido. Deve ser um morto que foi brilhante em vida. Cito, entretanto, como exceção honrosíssima, tentando iluminar esta escuridão com alguma parca luz da minha justiça, a viva figura do Professor Omar Sabino de Paula, cujo nome tenta ornamentar aquela rua feiosa que sai da Floresta e finda em frente ao Detran. Ex-Reitor da Ufac, este, sim, é um sujeito e tanto... Camarada lento, devagarinho, mas boa praça, lindo caráter, sujeito legal, bão mermo... Mas deveria ser nome de batalhão de polícia, de auditório do tribunal de justiça, ou coisa que o pareça... O mesmo ocorre com o bairro D. Moacir. O cidadão catarinense, meu pastor predileto, mereceria, ainda em vida, um grande busto erguido em frente à Catedral de Rio Branco... Deveria ser nome de escola, nome de creche, de hospital, de santuário, de asilo de velinhos... Achei particularmente interessante quando a família do Taumaturgo Neto preferiu que não colocassem o seu nome em uma favela atopetada de barrac os de lona, onde o pincel milagreiro do bom Taumá (artista plástico por excelência) jamais poderia operar o milagre da beleza estética que o homenageado em vida deixou nas telas. No entanto, eu e toda a minha gangue de neo-intelectuais de carreirinha gostaríamos de saber porque e quem colocou o nome de uma rua, no bairro da Cadeia Velha, de Alércio Dias... É espantosamente ridículo... Pior é que à época eu me escondia por trás daquelas brenhas, trezentos metros antes do SENAI, e não pude fazer nada... Quem foi o energúmeno que fez isso? Eu não fui. Com todo o respeito, por que bairro Mocinha Magalhães? Se bem que a valente matrona já está no andar de cima... Mas o que fez ela além de ter participado da fabricação de Romildo Magalhães, o Puro? A velha matriarca deve ter sido uma santa, mais daí a tornar-se nome de bairro. Por que não nome de creche ou asilo? Por que bairro Geraldo Fleming?... Fabricam-se uísques por lá? Por que Rui Lino? Por que Manoel Julião? Ah, sim... Deus meu, onde estás que não respondes? Por que colocaram o nome daquela invasão – pedacinho de chão violento – de Mauri Sérgio? Quem é esse cidadão? Tem residência fixa? Que fez ele de útil a esta comunidade constituída pelos descendentes de Neutel Maia? Eu nunca ouvi falar deste arremedo de líder, pelo menos aqui em Rio Branco. Todavia, é preciso ponderar: aprecio muito denominações como Morada do Sol, Jardim Tropical, Invernada, Baixa da Colina (?!), Bosque, São Francisco, Quinze, Floresta, Bela Vista, Palheiral, Sobral, Bahia, Base, Conjunto Universitário, Papoco, Jardim Ipê, Portal da Amazônia, Nova Esperança, Estação Experimental, Tangará, Tucumã, Santa Inês, Chico Mendes, e assim por diante... São nomes apropriados para logradouros principalmente de cidades amazônicas. Mas, convenhamos, Cadeia Velha parece palavrão. Placas é um nome completamente fora de propósito e Bostal, então, nem merece comentários. E é preciso falar sobre os nomes das cidades. De início, a denominação Mâncio Lima nada tem a ver com o nome do atual titular da Fazenda Estadual. O antiqüíssimo coronel de barranco, ex-dono de boa parte do vale do Juruá, não merece ser nome de cidade... Sabe-se que o velho ranzinza, falecido há muitos anos (que Deus não o tenha!), não era exatamente o bom moço, não era nenhum anjo do bem. Era bem pior do que se imagina, haja visto o que a ciência provou... Por que aquele vilarejo não ficou com o antigo nome de Japiim? Era bem mais bonito. Não concordo com a homenagem a Gregório Taumaturgo de Azevedo. O nome da vila poderia ser Vertente do Moa, por exemplo. Cruzeiro do Sul, que é do norte, poderia ser Campos dos Nauas, tal qual Xapuri que não se envergonha de homenagear seus índios. Tarauacá é um nome aceitável, mas o original é Seabra, e com essa denominação a cidade deveria ter permanecido. O Padre Feijó nada fez sequer pela Amazônia. Aliás, ele é do tempo do Brasil Colônia e do primeiro reinado... Aquela cidade deveria chamar-se Belo Envira... O Sena Madureira era um militar brasileiro que lutou muito longe do Acre, na guerra do Paraguai. Foi um herói, sim, mas nós nada temos a ver com a sua bravura. Aquela cidade deveria chamar-se Foz do Caeté, ou Verde Iaco... Rio Branco poderia permanecer Empreza, o original, mas seria melhor ter ficado como Paraíso dos Aruaques, por exemplo. Brasiléia é um nome bonito... Proibiram-na de ser Brasília... Por eles gostarem tanto de carnaval, poderia ter ficado como São Belizário das Artes, ou alguma outra denominação que o valha. Porto Acre permaneceria como Puerto Alonso. Plácido de Castro seria Florestas do Abunã. Senador Guiomard permaneceria Quinari. Eu gosto de Santa Rosa do Iaco, mas não gosto de Manoel Urbano, que poderia ser Alto Purus. Nada tem a ver colocar o nome de um rio de Jordão, posto que todos sabem que o asiático foi descoberto muito primeiro. Assim como Rio Chandless... Horrível! O nome da vila Jordão, hoje cidade, até parece cópia grosseira de uma história que todo o mundo conhece. Não! Mesmo assim, não seria melhor ir embora do Acre pra Pasárgada, apesar de lá eu ter por amigo El-rei. Afinal, com todas as nossas acreanas mazelas humanas, continuo amando cada palmo deste chão. __________ *Cronista, ensaísta, poeta, escritor, pesquisador, professor, filósofo, fisiculturista e dublê, de Xapuri.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 17h17
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