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Impressões gerais
 

Democracia de vintém

Cedo ele tentou se perder, mas se encontrou de vez... E foi andando por aí, meio a esmo, meio ao léu, em busca da realização de sonhos e sutilezas dos velhos libertários e anarquistas estudados na Academia... Viu um Brasil meridional vivendo à moda européia, em outubro, de caneca de chope na mão. Entre seringueiras e minérios de cassiterita, em meio às vicinais mais enlameadas, viveu a solidão e o abandono da parte setentrional. Aprendeu que a sua Pátria é o chão da história dos deserdados.

 

Observou desigualdades e submissões. O ar era pesado e cheirava mal. Não apreciou tanta beleza porque o belo sumia por entre as gretas e grotas da caatinga. Mesmo assim, ele seguiu respirando a parca democracia nos confins dos sertões brasileiros.


Em devaneio rubro, ele perambulava e dizia para consigo próprio: Vai, Andrei! Vai que este é o chão amado em que nasceste, na graça de Deus. Ensina a quantos puderes que a história dos esquecidos deve ser escrita a sangue e a fogo, se necessário.


De longe, já teria visto os coronéis da pós-modernidade e a democracia de vintém. E se aproximou mais. E foi andando por aí, respirando a parca liberdade nossa de todos os dias...


Disse e cumpriu que o presente libelo seria transformado em correspondência eletrônica a ser enviada para o crivo dos grandes jornais do Nordeste do Brasil, alguns, é claro, com grande credibilidade junto aos justos a quem faltam as oportunidades vitais.


Depois de aqui chegado, elogiou as nossas tentativas democráticas já tão razoavelmente bem sucedidas. E foi mais longe ao dizer que não gostaria de se afirmar enquanto político de nenhum dos estados nordestinos, de forma alguma... Segundo ele, seria uma vergonha dizê-lo. A seca é a mesma. A saúde é formada em filas de indigentes na Praça de Nossa Senhora das Graças, no bairro da Levada, em Maceió, ou em outros hospitais de São Luís a Salvador, sem contar com a parte sertaneja, onde a miséria regurgita em lombos de jegues e os líderes enchem as burras com o dinheiro que poderia aplacar a fome de quem de direito numa terra onde poucos têm algum direito.


Agora está chovendo e molhando as praias dos bem nascidos, mas, no início de janeiro, não havia água sequer para beber. No sertão, as cacimbas estavam rachadas, havia ossadas do gado, a vegetação morta e uma dúzia se locupletando das benesses de quem mora à beira mar e sempre tem mil dólares a mais... Tudo, tudo igual... Tudo do mesmo jeito que há quase dois séculos.


Há explicações para o abandono, sim. As lideranças de hoje são filhos ou alunos mal aplicados dos líderes de ontem. Fazem muito mal para o populacho porque assim aprenderam com os velhos coronéis e senhores de engenho. Um horror!


E disseram por aí que Recife estava feia e suja. É comentário muito relativo, posto que não é somente lá que o lixo se amontoa. Em Maceió, no mar da Praia de Pajuçara, ele encontrou, em dias alternados, ou em quase todos os dias, uma lanterna de fusca, uma cabeça de galinha, roupas, preservativos de ambos os sexos, sacolas e copos descartáveis aos milhares. Culparam os turistas, mas ele não perdoou ao assegurar que aquele imenso córrego podre virado esgoto, do bairro do Jaraguá, joga sujeira e água preta por mais de trinta anos na praia mais bonita da cidade. Uma grande lástima aquilo lá.


Deitado à rede do apartamento da Ponta Verde, o bairro, numa análise despudorada, o turista buscador da boa prática democrática, lembrou ainda:


Para que não esqueçamos nunca, é praxe no Nordeste um  fator que ilustra muito bem a realidade de ricos e pobres num mundo de desigualdades tão cruéis. Ali, em todas as cidades, há sempre uma orla habitada por grã finos e, atrás de edifícios de doze e treze andares, há um sem número de bairros onde pulula a plebe sem berço e sem futuro.


E o que há de belo por ali? Há uma orla bacana onde sempre existem jardins bem cuidados e aguados diariamente, apesar de água ser produto de luxo para os mal nascidos. Há lixo e monumentos, sim, onde os turistas não vão, mas passam ao largo porque os guias são instruídos a não mostrar a ninguém a cara feia das cidades, com alguma exceção concedida a João Pessoa e Natal, razoavelmente bem cuidadas.


Uma pequena vertigem. Era fome. Foi o Andrei em busca de bebida e comida, em Maceió. Na hora de pagar a conta, então, no bar ou no restaurante, observou que os dez por cento dos garçons são opcionais, conforme os cardápios, mas os donos dos estabelecimentos obrigam-lhes a passar-lhes a metade desta porcentagem porque não existe carteira assinada nem salário fixo entre aqueles serviçais que, no mais das vezes, são obrigados a um ir e vir diários, subindo e descendo escadas de seis ou sete degraus, de cinqüenta centímetros de altura cada, em defesa de apenas uma gorjeta irrisória. Isto é escravização.


A uma senhora, responsável pelo Bar do Jonas, na Praia de Barra de São Miguel, ele disse:
- Não pagarei os dez por cento porque no cardápio está escrito que são opcionais. Ao que ela chamou: - Zezinho, esse moço disse que não vai lhe pagar a gorjeta.


Apesar de o Zezinho ser um desses homúnculos nordestinos do Brasil, de um pouco mais de metro e quarenta, com pernas finas e magreza doentia, o turista teve medo da faca do coitado e lhe disse:

- Venha cá. Não lhe pago os oito. Tome vinte reais de gorjeta porque você aqui sequer tem direito à comida e é tratado como escravo.


De volta, contou tudo ao taxista Adilson de Tal, que o transportou, pra lá e pra cá, junto com toda a sua raça -  prole  -  formada por uma mãe e três crianças, durante os vinte e dois dias de férias, em Maceió. Dele ouviu muitas histórias dignas da preocupação de todos quantos buscam uma democracia real, isto, porque, no Nordeste do Brasil, pratica-se apenas um arremedo de liberdade. Eis um dos muitos comentários:


- Ah, meu amigo! Eu tenho que pagar oitenta reais diários ao dono da frota de táxi... Se quiser, porque, do contrário, aparece quem queira pagar cem reais e eu perco o emprego, enquanto o novato vai viver com uma diária de cinqüenta reais e, o que é pior, com a gasolina dele mesmo. Por isto, alguns vêem um turista com cara de abestado e metem a faca. Enganam mesmo. Roubam, na realidade.

Naquelas paragens nordestinas, pensadores como Karl Marx e os seus marxistas são tão engavetados e estigmatizados quanto atuais. O exército especial de reserva de que eles tratam na sua teoria está perfeitamente exemplificado na situação relatada pelo taxista acima. Se um empregado de cinco anos de serviço está ganhando dois mil reais, há outros tantos e muitos que não estão ganhando nada, em vista do desemprego, e são contratados para a vaga do antigo ganhando trezentos ou quatrocentos reais, com diploma de nível superior no bolso, para não morrer de fome. O patrão, um usurário a mais, pratica a injustiça sorrindo como o lagarto tão conhecido.


Segundo conversas com habitués de boteco  -  coisa de quem não tem o que fazer, como ele  -  o Ministério Público sofre de inanição pela inépcia, a Delegacia do Ministério do Trabalho moureja em meio ao descrédito da população, e as centrais sindicais ficam entre as desculpas esfarrapadas dadas aos poucos trabalhadores de carteira assinada e o suborno dos patrões aqui denominados coronéis da pós-modernidade.


E vai o Renan Calheiros para a sua propaganda particular, na televisão. A grande finalidade do senador sacana é passar a mensagem para a periferia faminta, e para a esposa traída, segundo a qual ele não tem mais amantes, nem filhinhas caríssimas, nem bezerros de ouro. O pulador de cercas, em nenhum momento, cita o dinheiro do PAC que financia a duplicação de uma estradinha de vinte e cinco quilômetros, isto, depois de trinta anos de espera por parte dos contribuintes do cada vez mais empobrecido Estado (gente) de Alagoas.


Uma propaganda do Governo de Alagoas está há três meses na televisão. Lá se vê a legenda “Honestamente, nunca se fez tanto”. É como se honestidade fosse exceção e não regra. Por isto, é preciso lembrar que numa família de oito membros, por exemplo, só há uma ovelha negra; esta, uma exceção à regra da gente pobre nordestina que cria filhos para a dignidade, mesmo numa terra onde as oportunidades são cada vez mais restritas a um grupelho de ricos e apaniguados do poder.


Pior de tudo é que a Assembléia Legislativa daquele Estado, depois de haver votado a expulsão de uns deputados espertalhões, em quatro meses de muita grana por debaixo do pano, voltou atrás ao contrariar o Ministério Público Estadual que aceitou a medida. A conclusão foi o descrédito geral dos políticos deles, inclusive daqueles que fixam residência em Brasília, desde há trinta ou quarenta anos, por não terem uma profissão que possibilite fazer algo mais que roubar a confiança de sertanejos esfaimados e mortos de vergonha.


E o povo é muito simpático em suas casinhas alagoanas que não medem mais que quatro metros de largura. Em realidade, eles têm sido enterrados, a cada dia, junto com a história dos marechais que pouco ou nada fizeram porque nada sabiam fazer além de perseguirem os que pregavam a igualdade entre todos. Há velhos líderes septuagenários prontinhos para uma mumificação solene em praça pública. Há, sim, uma gente nordestina tão boazinha que se deixa levar pelas ratazanas que mourejam em meio à politicanalhice onde, depois de Teotônio Vilela, o pai, pouco ou nada se pode aproveitar por aqueles rincões.


Lá, é assim... Ou rico, dono do engenho, ou pobre, puxando o bagaço da cana. Por isto eu vou ficando por aqui, que Deus do céu me ajude, numa alusão pobre à memória de Luiz Gonzaga.
Segundo o turista libertário, cá entre nós tupiniquins, felizmente, temos remado pra diante. Cá no Acre, os democratas estão implantando um reinozinho de realidade, onde as reivindicações vão sendo paulatinamente atendidas, as carteiras assinadas e a qualidade de vida em alta porque os salários são muito mais dignos, notadamente, no que se refere ao funcionalismo público.

 



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 20h39
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