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Impressões gerais
 

Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me  para  uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo. Até chegar aos píncaros da glória.  Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa...

 

Mas eu não bebo o suficiente para tocar-me o estado da embriaguez. Não sou um

ébrio, não. A letra e a música é que derramam sobre mim eflúvios que deixam a alma em devaneio, e me colocam como se os pés estivessem pairando acima do chão da minha tenra história de homem, que se faz solteiro pela simples vontade de se ter tornado um dia, quando a esposa morreu e, após dois anos, o filho e a filha, ainda com dezesseis e dezessete anos, houveram por bem partir para os estudos no Rio de Janeiro.

 

Há cadeiras de vime, além do relógio de coluna. Há uma estante onde se destacam obras de Hermes Lima, Clóvis Beviláqua, Capistrano de Abreu, Machado de Assis, Lima Barreto, dentre outras, inclusive, o Almanaque Capivarol. No centro da sala, também em estilo colonial, sobre um tapete com alguns fios talvez de Teerã, uma mesinha com tampo de vidro, cuja grande utilidade é servir para pés mal cheirosos que ali repousam. Um lustre austero, dito clássico por alguns, composto de bolinhas de vidro em pingos, enfeita o ambiente um tanto sombrio. Através do comprido corredor cujo assoalho lustroso é forrado por mais um tapete, agora meio plastificado, vêem-se retratos dos tempos de Belém do Pará. Praças e jardins, um ancoradouro, um mirante, navios, um casal à sombra de uma amendoeira. À parede, também estão dependurados altajeres com bibelôs em velha porcelana, de tempo remoto, mas limpos todos os dias pelas mãos laboriosas de Merandolina, também encarregada dos caprichos do café da manhã. Há um fogão de ferro na cozinha sempre com água morna. Há cristaleiras envidraçadas e baixelas. No quarto imenso, há uma cama de casal de espelho enorme e colchão magro e, no canto, repousa uma velha poltrona cuja serventia é ter sempre sobre si roupas sujas ou limpas, como é praxe entre a maioria dos solteirões. Uma pequena e comportada escrivaninha se posta à direita como na esperança de um dia ser útil. E há ainda um outro aposento, com duas camas menores. Aí fica também um guarda-roupa orgulhoso em seu mogno escurecido, onde estão guardados paletós e calças em casimira, camisas em gabardine, gravatas butterfly e sapatos em cromo alemão novinhos em folha. Reina ali, elegante e comedido, um dólmã de mescla encomendado a Filomeno de Carvalho, tintureiro e alfaiate estabelecido à Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de Janeiro.   


Lá estão os retratos dos três, afixados à parede verde logo acima do velho relógio de coluna em cujo interior trabalha um cuco contando, em ritmo constante, as horas que vão tomando conta, paulatinamente, do corpo de um homem de quarenta e oito anos, ainda forte e espadaúdo, mas já preocupado com algumas noitadas, em fins de semana, nos quais as divas que pululam sobre o meu leito me permitem pegar no sono não antes que depois das cinco da manhã. Como no dizer dos chineses antigos, a sabedoria maior é termos sonhos bastante grandes para que não os percamos de vista enquanto os perseguimos.


Sou um forte, sim. Venho do longínquo Ceará... Tornei-me suficientemente precavido em doses maciças de biotônico Fontoura misturado com a emulsão de Scott, além do chá de casca de laranja, do alimento com verduras de boa qualidade e de uma garrafada potente preparada pelo compadre Eustáquio, morador da colônia do Camburé.



Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h28
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