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Melchíades Ferreira de Lajes José Cláudio Mota Porfiro* Hoje, mais de quarenta anos passados, parece até brincadeira ou sonho de cinema ver um automóvel se deslocar com uma rapidez que consegue ultrapassar os cinqüenta quilômetros horários. Olhando bem, assemelha-se a um vento de verão destes que varrem o pó do terreiro, dada a rapidez que me deixa tonto só de ver. É só botar gasolina, um pouco de água, rodar a manivela e se aboletar nas cadeiras de lona que, em poucos minutos, você já estará em lugares que, antes, não conseguiria chegar em duas ou três horas de viagem a pé pelo sertão afora... Estamos em 1959... Melhor é que, além da velocidade, o indivíduo ainda viaja na sombra e não tem animal que lhe coloque poeira nas ventas porque ninguém é tão veloz, pelo menos aqui nesta terra abençoada, o Acre, onde tudo segue e prossegue tão lentamente.
Então, meu pai e minha mãe, recém-casados, abandonaram a região da Meruóca, aí pelos anos de 1914 ou 1915, em viagem a pé, devagarzinho para não desmaiar por inanição, no auge da grande seca que assolou a terra, os animais e as almas. Ele tinha mais ou menos dezoito anos e ela, dezesseis, parece-me. Não portavam documento algum. Andaram dez dias em busca da realidade de algumas notícias vagas e muito antigas segundo as quais, na serra do Baturité, região rica um pouco acima do centro do Ceará, havia alguma gente sua, talvez primos segundos, filhos de uns tios velhos ali chegados não se sabe quando. A viagem se fez extenuante porque, além das poucas roupas, uma ou duas mudas, levavam uma repetição calibre 44, alguma carne de bode seca, uma lata de banha cheia de farofa para os primeiros dias, farinha de macaxeira, oito rapaduras e uma vasilha com tampa que lhes servia de cantil e onde levavam água de boa qualidade, tudo, é claro, dentro de tipóias atadas aos ombros, principalmente, de Polidoro, meu pai, um homem, dizem, de mais de metro e setenta, um gigante se comparado aos demais do seu lugar e do seu tempo de comida e bebida ralas. Só no oitavo dia é que o rancho se acabou e, de tardezinha, viram algumas avoantes num pé de muçambê seco. Bastou um tiro e três delas vieram ao chão. Comeram-nas em pequenas porções distribuídas ao longo dos dois dias que faltavam, só que, agora, tendo como acompanhamento um pequeno cacho de banana que conseguiram de uma bananeira que se mantinha produtiva graças a sombra de um grande marmeleiro. Por isto, não me escapa à memória o poeta português Antero de Quental que também compôs a sua Divina Comédia:
Erguendo os braços para o céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: - Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Por que é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextingüíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis Num turbilhão cruel e delirante (...)
Assim, numa fazendinha, de longe divisaram a figura de um homem sentado a um banco à sombra de uma casa muito velha. Pediram água a esse senhor desdentado que lhes negou o favor apesar de, no canto da parede de taipa, terem visto um pote úmido, este, logicamente, um indício forte da existência do tal líquido precioso. Não muito distante dali, aí, sim, viram alguma água suja no fundo de uma grota.
Abanaram com as mãos e conseguiram beber em vista do volume da sede. Depois, colocaram-na no cantil improvisado e, no anoitecer do nono dia, avistaram a grande serra verde para onde seguiram. Era alta madrugada quando sentiram orvalho sobre o capim agora pisado por pés sertanejos calejados, mas esperançosos. De manhãzinha, passaram por um grande plantio de mamão e, em seguida, cana, alguns tomates, umas vacas e uma casa de madeira e telha vizinha de um cajueiro carregado... Como disse o poeta João Omena: é porque se espalha o grão que a semente acaba por encontrar um terreno fértil. Então, de dentro da casa, saiu para a varanda um pirralho de uns oito anos que esfregava os olhos ofuscados pelo sol nascente. Mas voltou correndo, como se estivesse vendo um bicho raro. Em seguida, uma senhora de muita idade, pequenina, com um bacamarte de um tempo muito anterior apontado pra nós foi logo dizendo:
- Arreia as tralhas senão eu meto chumbo. Vão dizendo o que querem, logo, porque pa-ciência é coisa que dói e que nunca eu tive.
- Bom dia - disse Polidoro, com cara de quem já estava apanhando antes do chicote baixar - nós somos retirantes da Meruóca e só queremos saber se a senhora tem conhecimento de um homem chamado Olinto Bezerra, pai de uns dois ou três filhos já com mais ou menos trinta ou trinta e dois anos cada um... Nós somos de paz e eles são nossos parentes.
- Ah, bom! Esse seu Olinto já morreu, sim senhor. Mas tem uma filha dele, a Nair, que mora num sítio depois do Riacho do Jitó, por trás da serra, a umas duas léguas daqui... Mas tome um pouco de leite que acabei de tirar agorinha mesmo. Peguem farinha naquele saco e açúcar na gamela e façam uma jacuba, pois, pelo jeito, devem estar precisando de sustança devido a viagem.
- Fico muito agradecido e vou aceitar, com a sua licença.
Na casa de dona Dosinha, a velha do bacamarte, tomaram um banho, sem sabão, dormiram um pouco numas redes coloridas e almoçaram uns pedaços de toucinho fresco com bastante feijão e arroz. Em seguida, já perto da porteira, ela disse:
- Seu moço! Noto que a sua mulher tá é cuberta... O bucho já é de mês e a encomenda é um menino... Vão com Deus!
Há os que afirmam que o sonho se inicia talvez no berço ou, ainda, na mais tenra infância... Certo é que a surpresa foi menor que a preocupação com o futuro. Minha mãe, chamada Olinda, saíra dos confins do Assaré para se casar com meu pai, Polidoro, na Meruóca. Não tinham nem eira nem beira nem a rama da figueira, no dizer do sertanejo. Se os dois juntos já sentiram tantas dificuldades em caminhar pela vida afora até aquele momento, imagine com uma criança a tiracolo.
Ao meio-dia, em cima da Serra do Baturité, a temperatura anda em torno dos vinte e cinco graus, e só. À meia-noite, bate um frio que, às vezes, chega aos quinze graus, isso, numa cidade cearense. Às quatro da tarde, então, chegaram enfim ao sítio de Tia Nair que ficava num lugarejo, hoje distrito, de nome Candéia da Boa Vista, lá onde eu nasci. A velha tinha ido pescar num açude próximo e eles a esperaram sentados debaixo de um pé de araçá-boi.
- Meu nome é Polidoro, filho do véi Jucá, lá da Meruóca.
- Ah!... Já ouvi falar, sim. Meu pai era primo, parece. Ele ainda existe. E como vai ele?
- Meu pai morreu em 1911, de tifo. Nós vendemos tudo e viemos tentar a sorte do lado de cá. Meus outros dois irmãos foram para Senador Pompeu e Fortaleza... Ah! Essa é Olinda, minha mulher... Tia Nair morava sozinha e logo acomodou os dois retirantes num quarto bem zelado, sem buraco na parede e sem goteira. Jantaram em seguida uns peixes tão graúdos que os retirantes nunca tinham visto. Ela, de posse de uma colher, e papai e mamãe comeram com as mãos mesmo devido a falta de habilidade para com certos apetrechos ditos mais civilizados. Passaram então a conversar naquela língua de caboclo que não tem muito o que dizer por não saber falar direito.
- Barriga cheia, pé dormente, rede armada, nêgo dentro. - A pois bom! - Barnoite. - Até amenhã ...
Passaram-se os meses e, num abril de 1916, eu nasci já pronto, ou quase... Mais bonito do que isso, é impossível, apesar da cabeça grande. Deram-me leite de mãe, de cabra e de vaca, com farinha de araruta tornada mingau ou papa que, depois, passou a ser colocada na minha boca com os nós dos dedos, inclusive, da Tia Nair. Um dia, quando eu tinha três meses de nascido, depois de haver apanhado uma chuva intensa numa caçada ao tatu, durante toda a madrugada, meu pai amanheceu com febre. Tinha contraído uma pneumonia por causa da fraqueza que se abatera sobre ele desde a viagem e devido à temperatura do meio do ano ser um tanto fria, principalmente, para um sertanejo acostumado com o calor sufocado da caatinga. Pior foi que, dias depois foi a vez de mamãe.
Os dois morreram com a diferença de uma semana. Uns vizinhos cavaram duas covas, uma ao lado da outra, enterraram-lhes debaixo do araçá-boi, colocaram uma cruz carpida sobre as sepulturas e, em seguida, sem padrinho, Tia Velha se fez minha madrinha de batismo com todos os direitos sobre o bruguelo, eu.
Claro que toda essa história foi a mim contada pela Tia Velha e por Marta, a Zizi, num dos agora cada vez mais freqüentes lampejos de lucidez.
E a vida começou a correr leve feito canoa no alagado. Eu, a única criança em mais de uma légua. E mais uma babá meio léza e minha madrinha-tia-mãe que não se descuidava no nosso sustento e bem-estar. Muitas galinhas, patos, porcos, gansos, carneiros e um cachorro, o Elefante. E mais o cavalo Napoleão, a égua Barbina, um potro arroxeado, umas quarenta vacas leiteiras e um touro, o Macaco.
Ali mesmo, perto do araçá-boi onde esconderam meu pai e minha mãe, no dizer de minha tia Zizi, armaram um balanço, um galamacho e uma piorra, onde eu passava as tardes brincando sozinho, cavucando a areia, trepando na pitangueira, aprumando-me sobre porcos e carneiros, sob as vistas da doida que sempre me trazia uma fruta - na maioria das vezes, pequi - ou um refresco de mangaba no meio da tarde para não contrair gripe.
Depois de uns cinco anos, então, como Tia Nair era muito prendada e sabia até ler, pela manhã, ia aprendendo o alfabeto na base do fê, guê, lê, mê, nê, rê, e assim por diante. Depois, emendei as letras, as sílabas e, logo aprendi a ler em uns quatro meses porque, segundo ela, eu tomava banho três vezes ao dia e comia bastante farinha de mandioca e polvilho. Depois, muito depois, com a maturidade é que pude observar nela a personificação de um provérbio antigo que assevera: os grandes feitos são conseguidos não pela força, mas pela perseverança.
Arranjaram, então, uns livrinhos e eu já comecei a ler de carreirinha. Era a sensação. Gente ia de todo canto para me ver ler versos dos poetas populares do Nordeste. Os contos da Carochinha foi o meu primeiro livro. Depois vieram O Gato de Botas, A Bela Adormecida, O Soldadinho de Chumbo, Alice no País das Maravilhas, Marquês de Calabar, As Reinações de Narizinho, O Sítio do Picapau Amarelo, e um montão de folhetos de cordel.
Pelas sete da manhã, no lombo do Napoleão, antes dos seis anos, comecei a freqüentar uma escolinha de uma professora só, a Dona Maria das Dores ou Mariquinha. Nós éramos umas treze crianças, mais ou menos. Uns que nunca aprenderam a ler, apesar de os pais terem posses. Alguns mais adiantados como eu que, inclusive, por conhecer as letras e ser já alfabetizado pela Tia Velha, ajudava a professora a tomar a lição dos outros enquanto ela escrevia o exercício nos cadernos feitos em papel almaço, agulha e linha de costurar saco, e encapados em papel jornal. Um luxo aquilo lá.
Eu já com sete anos estava no segundo ano do primário das escolas engraçadas. O estabelecimento escolar tinha crescido e agora já ficava na Rua Teodósio de Sampaio, no Baturité mesmo. Eram quatro professoras; uma para cada turma de uns quinze ou vinte alunos. Muito metido a sabido e mais do que enxerido, um dia, no meio da aula eu sapequei:
- Professora Enedina, pois não é que a Gracinha veio pra escola com o sapato branco novinho com que estava fazendo a primeira comunhão ontem, visse.
A professora que tinha um tanto de competência e dois tantos de energia acumulada numa cara de poucos amigos me fez ficar amarelo de avexado:
- E você tem nada a ver com isso, seu cabra. Vai pro teu livro. Toma conta da tua vida e deixa a da outra em paz. Ora tá!
Tomei vergonha na cara de uma vez por todas e nunca mais passei vexame desse tamanho.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 21h05
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