Já coloquei os pés no chão do Acre e fui logo ouvindo muitas histórias vivas e pulsantes a respeito das vidas de nordestinos sempre sofridos, martirizados, humilhados mesmo. Em meio aos mais humildes, então, ficava difícil falar do meu passado pois, desde a chegada ao Seringal Boca do Lago, usava camisas de punho, de cambraia e, aos domingos, um velho terno branco de linho já quase encardido, uma vez que os novos - quatro - haviam ficado em Belém para outras contingências, diria, sociais. E eu ficava pra lá e pra cá entre seringueiros e comboieiros e só às vezes é que falava do meu tempo de aventuras de moleque, no Baturité.
Certo é que ali por perto de 1922 ou 1925, lá em casa, como em toda a serra, vi a fartura correr solta pelos cafezais e engenhos por aí afora. Nas quartas e nos sábados, a feira da praça da matriz regurgitava. Era gente indo e vindo de todos os lados. Todo mundo nutrido de barriga brilhando.
Primeiro, eu andava sobre um pangaré velho de nome Janjão, também, não precisava de coisa melhor uma vez que, quando menino, não há a necessidade de sermos vistos por quem quer que seja.
Importante, sim, é a paisagem, o povaréu conversando, tomando cachaça, ouvindo repente, dançando as músicas de Januário e a sua sanfona de oito baixos imitada com maestria por dois irmãos muito parecidos, um tal Ogene acompanhado por um tal Ozebre, depois descobertos por mim enquanto Eugênio e Eusébio.
Interessante também era ver as caras de Tia Velha e de Zizi muito felizes com a caixa de sapatos abarrotando de dinheiro nos dois dias da semana. Era mariola, tapioca com coco, filhós, rapadura, mel de engenho, garapa, alfinin, galinha, pato, ganso, carneiro e até fumo de rolo eram vendidos por elas. A véia era um aço na arte dos negócios. Tudo o que tocasse nas mãos dela virava logo dinheiro que se tornava em bens ou era guardado num pote mantido num buraco abaixo de um quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, sempre iluminado por velas bem fininhas que ela mesmo fazia.
Na minha veia, só depois é que consegui observar que o hábito do trabalho modera qualquer excesso, induz à necessidade de organização, ao gosto pela ordem. Daí, da ordem material chega-se à moral. Portanto, o trabalho pode ser considerado um dos melhores auxiliares na educação e na convivência entre as pessoas.
E o tempo se fez meu senhor. Era paparicado feito filho de rapariga em bordel. Luxava, sim. Tinha do bom e do melhor...
Certo é que deixara-me em paz, já, a bondosa Zizi, minha tia doidinha de vidro. Ficava zonza com as minhas piruetas e cangapés. Fechava os olhos para não se extasiar ante os saltos ornamentais mortais na barragem da usina. Enfiava-se no quarto para não me ver sair em cima de Napoleão, o nosso velho cavalo baio, agora companheiro de Janjão, que conseguia até um bom galope através da estradinha que nos ligava à Candéia da Boa Vista, onde fui batizado. Também, pudera! Nem os moleques mais velhos que eu, meninos de até doze anos, conseguiam me pegar na carreira, imagine ela que, acima de tudo, ainda era meio zambeta e, de vez em quando, tinha tontices.
Tia Nair, sempre muito ocupada com os afazeres do sítio, não ligava para os comentários da minha babá doida e dizia sempre incisiva, entre dentes, como se rosnasse:
- Não se pode é criar menino macho dentro de casa, com bilro na mão, fazendo renda em cima de almofada... Ele estuda de manhã, a professora acha que tem muito futuro. Já lê bem, escreve, já soma, diminui, multiplica e divide, isso, aos oito anos... Já tô vendo é quando aparecer por aqui um rabo de saia com interesse na herança dele... Essa é a minha maior preocupação... E mais uma coisa lhe digo e fique muito atenta: adolescência é coisa de fi de rico.
Depois, eu já completei treze anos, na contagem de Zizi, pois Tia Velha não tinha tempo para essas bobagens, e apareceram lá pelas bandas do nosso sítio, agora denominado São Romão, 1854, dois homens e duas mulheres, casados, pareceu-me, para trabalhar no engenho que dava mostras de um fôlego que, logo depois, foi arrefecendo. Eram o Didóla, um negrão forte que nem um boi, e a Lucrécia, uma preta calada e incansável, mas que espalhava um odor lazarento do sovaco; o Inácio, um brancoso com cara de doido, e a Genésia, esta, uma mulher bem baixinha, magra e de olhos aboticados, mas um camelo no serviço, apesar da asma.
A cana para o engenho vinha de um cana-vial de bom tamanho. Depois, passou a ser comprada nas redondezas, a preço de banana, no dizer da nossa empresária. A lida, geralmente, começava lá pelas quatro da manhã, exceto nos dias em que íamos para a feira, onde os empregados não apareciam, e nos domingos.
Aí pelas cindo da tarde do dia anterior, chegava a cana. De madrugada, de posse de três lampiões e dois fachos acesos, começava a ringideira de um pequeno engenho puxado, ora por Janjão, ora por Napoleão, ora por Macaco, o boi gigante. Didóla, também feito de ferro, botava de quatro canas de uma só vez e Inácio aparava o bagaço a ser novamente moído, e mais uma vez. Às seis e meia, mais ou menos, esta primeira fase - a da moagem - estava já concluída. Aí vinham os dois tachos que eram colocados sobre uma fornalha grande, em chamas, cheia de tudo que é de garrancho ajuntado pelos casais no dia anterior. Despejava-se toda a garapa nesses tachos de cobre, e tome fogo, até ferver. Aí o processo era - poderia dizer - para quem tinha talento verdadeiro... Ora quem! Ela, a minha tia agora feita de aço puro, mas que já não era nenhuma jovem... Era, sim, uma velha senhora. Era a única negociante mulher da feira do Peroá, no Baturité.
Ora, eu mesmo já ouvi dizer por aí que, na maioria das vezes, o problema não é o de não se ter talento, mas apenas o de não se saber ter. Porque uma coisa é ter qualidades e outra é ter o instinto na hora da sua exata aplicação. Por que agir atabalhoadamente? É necessário perscrutar a hora exata para se ter o ponto do mel ou de qualquer doce, da batata ao jerimun, da jaca ao caju ou ao taperebá.
Na verdade, é como diziam os sertanejos mais velhos: o talento é mais barato do que sal de mesa. O que separa a pessoa com talento daquela que tem êxito é um monte de trabalho, preferencialmente, de sol a sol, incansável e renitente feito Tia Nair.
Era, então, a vez de dar o ponto no melaço porque as mulheres já tinham tirado a espuma que viera das moendas. A fervura era vagarosa e lenta. A véia não tirava o olho. Nem fino, nem grosso. A hora era chegada.
Pedaços de cana bem raspados eram embebidos no mel, de forma a que ficasse seca somente a parte onde as mãos das mulheres os rodavam no ar, ritmicamente, para não cair uma gota sequer no chão, até que eles esfriassem e tivessem alguma consistência. Era quando Tia Velha vinha e, com as mãos mágicas, jogava uma pitada de cravo misturado à canela e começava a puxar o alfinin já metido no polvilho pra não grudar, no dizer da mestra das artes sertanejas...
E ia o resto do dia sempre ao redor dos tachos cujo mel, meia hora depois, já tinha virado rapadura com coco, ou sem... É, sim, senhor! A veia era forte que nem um mourão e nunca se arreliava com nada. Era calma, mas fazia tudo em ritmo constante. Tinha a felicidade na cara e a virtude de nunca ter tido um macho porque, desde cedo, assumira as responsabilidades por Zizi e, depois, por mim.
Foi por esse tempo que minha tia comprou um poldo - potro - e me deu de presente. Alazão bonito, fogoso, era a primeira coisa realmente minha. Tasquei-lhe o nome de Folgado, este, cuja maior incumbência era substituir os já mais ou menos cansados Janjão e Napoleão nas minhas idas e vidas entre o sítio e a cidade. Tia Velha me deu lá não sei quantos tostões e eu passei a perna no bicho, em pêlo, só com o cabresto, e fui bater na venda de seu Benedito, comerciante de arreios e artigos de couro. Aí, eu voltei com o cavalo completamente arreado, com tudo o que tinha direito, só não laço de fita. Cela, chincha, forro bordado em couro, pinduricalho de prata, mas nunca esporas. Não ia jamais maltratar animal meu. Eles comiam nas minhas mãos e nem chicote eu tinha. Eu os açulava com palmadas nas ancas. Eram, realmente, muito bem tratados. Até um jeito para eles cruzarem a gente dava porque a égua velha, Barbina, já tinha dado o que tinha de dar. Trabalhara muito puxando cana, macaxeira, jerimun, e por aí vai...
Com a finalidade de localizar a nossa morada na região, devo dizer que quem vem do sertão encontra primeiro o povoado, hoje tornado distrito de Candéia da Boa Vista. Na saída no rumo do Baturité é que fica o São Romão, 1854. É justo por isso que eu dificilmente ia na Candéia. Também, pudera! Lá não tinha umazinha sequer que me arregalasse os olhos como no Baturité, onde havia umas moças muito formosas e altas, brancas, olhos azuis e até algumas de cabelos meio amarelos, ditos louros, da raça de uns tais Fidalgos, uma família de uns cabras gazos e de olhos azedos, ciumentos que só eles. Quase doentes de tanta vontade nas três irmãs... Havia quem dissesse que as coisas não se consumavam porque o velho e a velha eram cristãos. Porque eles mesmos, os quatro, eram uns brutos. Isso é o que eles eram, principalmente, depois que uma delas, a Samirâmis, passou a me olhar de soslaio, apesar de eles me rotularem de aquele guenzo. Ora bolas! Eu só possuía aquilo que eles não tinham: a admiração e as graças e sorrisos de uma das irmãs deles. E eles também não tinham cavalo, nem sítio, nem casa, nem roupa, nem sapato que prestasse. Não tinham nem uma tia como a minha que comprava sabonete e extrato para que eu andasse cheiroso e bonito, principalmente aos domingos, em cima do meu alazão cor de canela, amarelo avermelhado.
Estava, sim, impressionado com as moças de cabelos amarelos, principalmente, essa mais bonita de nome Samirâmis, de dezessete, mais velha do que eu quatro anos, mas do meu tamanho. Uma beleza que só ela. Um pitéu.
Daí em diante, passei a ir ao Baturité duas vezes ao dia, num fôrgo só. Também, quem respirava no galope era o Folgado. Haja fôlego. Ia perto das seis da manhã pra escola e voltava às onze e meia. Depois, ia às cinco da tarde e ficava por lá uma meia hora fazendo o quê? Olhando - e só olhando - pras meninas. Era apenas meia légua a distância percorrida. Na volta, parava na beira duma invernada que dava origem ao açude da barragem do seu Gregório, como se dizia por lá.
Um dia, desapiei do cavalo e fiquei debaixo de um pé de pitomba tomando um refresco comprado na venda de seu Chiquinho de Margarida. Não por acaso, de olhos grudados no chão, passou por ali a filha dos Fidalgos, aquela que me deixava zonzo. E foi, e voltou, e foi de novo e retornou mais uma vez até que eu, aos treze anos perguntei:
- Ei bichinha! A cumo é o teu nome?
- Não sou bichinha. Meu nome é Samirâmis. – Disse e se foi depressa como se estivesse vendo animal raro, eu, esse aqui, doidim de vrido por ela, apesar dos irmãos com cara de tatu peba agoniado.
E no outro dia, lá estava eu de novo. E ela foi e voltou. E no outro dia, do mesmo jeito. Até que no terceiro dia ela disse:
- Quero conversar contigo. – E foi-se embora.
No outro dia eu olhei para um lado e olhei para o outro e lhe disse:
- Se tu for corajosa mesmo, vai na barragem de seu Gregório, na parte da beira da estrada, já aqui perto, amanhã a essa hora. Lá tem uns pés de mangaba e, por trás deles, tem uma canoa pintada de encarnado. O meu cavalo estará por perto, mas eu vou ficar na canoa, por detrás das mangabeiras... Tô esperando lá, viu bichinha!
Como eu era afoito... E confiado!
No outro dia, eu já estava lá, antes dela. E no outro dia também. E passamos duas semanas indo da pegada na mão a um cheiro de cangote. Só depois é que a libido ficava aos gritos dentro de nós e ela tomou a iniciativa de me abraçar e depois me beijar. Depois do beijo veio a língua. Depois da língua a pegada no peito e era mão boba baixando pra cá e pra acolá, e ela tirava e em seguida botava. E o sufoco era grande porque eu, aos treze, nem sabia daquelas coisas... Tudo era estranhamente diferente, mas bom demais. Ao fim e ao cabo de uns três meses, fomos as vias de fato, isto, sem a necessidade de os meus fatos virem abaixo - ainda - porque, logo depois, o gazo véio, irmão mais novo dela, ficou de olho e nos viu na metade da festa. Só tive tempo foi de pular sobre o Folgado, com as calças na mão, eu, o guenzo...
E não são as estrepolias desse tipo que fazem a vida ser muito melhor? Ah pois bom! De menino sem vergonha, passei a véi safado. Consumi mais de dois terços do tempo às idas e vindas com medo do açoite ou da bala ou da faca porque, como se diz no sertão, fogo de ladeira acima, água de ladeira abaixo e mulher quando quer dar, não tem jeito que dê jeito.