A natureza parece ter escondido no fundo do nosso espírito talentos e habilidades de que não temos conhecimento. Só as paixões é que conseguem erguer tudo à superfície e dar-nos, às vezes, idéias mais ou menos acertadas e concretas que a arte não poderia fazer. Quando se está apaixonado, por exemplo, perdem-se a razão e os freios, gasta-se o que não se tem e, o que é pior, a ressaca moral dura enquanto dura o tempo em que as dívidas contraídas começam a ser sanadas, isto, a partir da época em que se inicia a cura da cegueira do amor que enfeitiçou o sujeito. É exatamente a ocasião que faz o cidadão... Ou o menino de catorze anos em fuga com medo de deixar os troços dependurados no alto de qualquer mourão da estrada da vida cheia de percalços e trapalhadas.
Feliz e boa festa faz quem em sua casa fica em paz. É isto o que ainda hoje em dia pregam os avôs portugueses de péssimas lembranças. Não foi nem uma nem duas vezes que ouvi contar fatos idênticos em que a vingança era dolorosa.
Um parente distante de minha tia, José não-sei-das-quantas, lá pras bandas do Juazeiro, arranjou moça fogosa e arteira, filha de um tal Coronel Severino Trapizomba, homem poderoso e valente da região, dono de fazenda de gado, olaria e engenho dos maiores. A moça era do tipo dada demais com todos. Vivia conversando miolo de pote pela vizinhança, de casa em casa, coisa de menina rica que não tem o que fazer e nem tem quem a mande. Um dia, ela findou por arranjar namorico com esse José, trabalhador meieiro de uma roça ali por perto, metido a bonito, passado aos domingos na brilhantina, também um sujeito cheio de permissividade, conversador, gabola e mentiroso feito a peste.
No dizer dos de lá, não era flor que se cheirasse. Como sempre, o pai achava que a filha era uma santa, moça - na testa porque embaixo era salão de festa - e que nenhum homem iria ter a coragem de se achegar dela... E pensou torto porque o cabra não só se aprochegou, como levantou-lhe as saias e fez o que ela queria que fosse feito; pior, no próprio quarto dela, na casa grande, defronte do engenho.
Aí o salafrário, em vez de ficar calado, bateu com a língua nos dentes, como se aquela ação heróica fosse a única deveras importante em toda a sua vida chinfrin. Podia até morrer, ali mesmo, sem ver o mar, porque já se dera por satisfeito na vida. Nem de casar queria saber, até porque Severino Trapizomba não ia ter filha para tirar raça com um ordinário daqueles. E foi aí que ocorreu de o coronel colocar cabroeira atrás desse Zé. Com medo de perder os ovos, o camarada passou a se esconder em cada vila e em cada povoado, e não passava dois dias escondido e já tinha que se ir porque os cabras estavam no encalço. Findaram por apanhar o safardana justamente, e de novo, com a mão na massa, numa pensão na vila do Ourique, no Riacho do Sangue, por riba de uma véia de pouco mais de sessenta... Amarraram-lhe as mãos para trás, colocaram-no em cima de um jegue, de forma a que ele dobrasse o joelho para que os pés descalços não tocassem nas pedras do caminho, e empreenderam uma viagem de volta que não durou menos que três dias, sem comida e sem bebida. Chegaram de madrugadinha e foram acordando o coronel que, de posse de um martelo e de um prego de cinco polegadas, daqueles da cruz de Cristo, foi rumando para a entrada dos fundos da fazenda. Lá chegando ordenou:
- Cabra da peste. Tira a roupa, fica nu e sobe em cima desse mourão. - E o Zé dizia: - Coronel, pêra mor de Deus!
Mas não teve jeito. Honra no sertão é coisa séria. Era preciso reparar o erro com sangue.
Aí, quando o cabra montou lá em cima do mourão, o coronel pegou uma escada e subiu também. Lá chegando, mandou que ele espichasse a pelanca dos ovos na parte superior da madeira e meteu-lhe o prego até que ficasse apenas uma polegada do lado de fora. Zé berrou, depois gemeu, depois escangotou e morreu ao terceiro dia, mas não subiu aos céus... Nem podia. O céu não é lugar pra cabra safado.
Na hora de tirar o sujeito do martírio, Severino Cobra Grande, como era também conhecido, fez um discurso póstumo, em homenagem ao decujo, com as marcantes palavras finais mais ou menos no tom a seguir:
- Um cabra safado! Isso é o que ele era! Lazarento fi duma égua! Ordinaro! Onde é que já se viu comer a fia de um coronel com patente reconhecida pelo exelço brasileiro e depois sair por aí esgravatando os dentes. Morra, fi do cão!
Outro pai zeloso, lá pras bandas do Rio Grande do Norte, rezava todos os dias pra que a filha lhe arranjasse um genro de bom prestígio, no que era acompanhado pela dita cuja. Mas, como quem não tem competência não consegue se estabelecer nunca, ele, já com mais de setenta anos, com uma tosse miserável e sem a força necessária para se garantir enquanto macho, de repente, viu que a mãe da menina zelada estava com o bucho pelo pé da goela, sem nenhum esforço ou tentativa da parte dele, até porque já dera a volta no cabo da boa esperança. Em seguida, sem nenhum esforço pela parte de quem quer que seja, foi a vez da menina ficar cuberta apesar da vigilância ininterrupta, inclusive, à noite, quando se deitava ao seu lado, com um olho dormindo e o outro acordado como bom sertanejo. Prestando atenção à missa, mas vigiando também o padre.
- A cuma pode ter acontecido uma desgraça dessas? – Perguntava o véi para si mesmo. – Pêra amor de Deus, homi, seu minino! O que é que eu vou dizer pros outros e o que é que os outros vão dizer de mim. Quem foi o fi de rapariga que fez uma coisa dessas?
E a boataria correu solta, feito fogo de ladeira acima ou água de ladeira abaixo... Foi quando a mulher, de uns quarenta e poucos anos, depois de ver o véi com um papo-amarelo calibre 44 apontado para a nuca dela foi logo confessando:
- Perdão, meu véi! Perdão! Eu sou é inocente! É que de madrugada vinha uma vaca e me pedia uma lambida por aquela brecha da parede do quarto. Eu achava muito bom e, em seguida, passava a vez para a nossa fia... E deu no que deu!
O véi acreditou na inocência das duas, mas partiu no encalço do pilantra que foi encontrado por um capanga armado até os dentes. Amarrado com muxingas trançadas em pele de bode, o cabra foi estirado no terreiro da pro-priedade. Com um canivete afiado, o revoltoso tirou duas tiras do couro das costas do salafrário, de mais ou menos quinze por quarenta centímetros cada uma, e passou à parte dolorosa da operação: temperou os costados do ímpio com sal e pimenta-do-reino suficientes para um boi inteiro. Aí, como se não bastasse, colocou o cabra sentado em riba de um pilão e pregou-lhe os ovos com dúzia e meia de tachas de sapateiro. O indivíduo urrou, depois grunhiu, depois cacarejou, mas não resistiu nem meio dia, devido a um sol manso de mais ou menos uns quarenta e dois graus. Pense numa morte penosa!
Os dias que se seguiram ao episódio na grama da barragem, entre eu e Samirâmis, sem roupas, foram de intensa agonia. O medo era grande que nem a sombra da fome em casa de pobre. Passei um mês sem ir à escola. Não saía dos limites do sítio e nem chegava perto deles, uma vez que havia o temor de uma tocaia por parte dos Fidalgos ali pelo aceiro do campo. Umas três ou quatro noites cheguei a sonhar com o gazo me enfiando um prego nos pissuídos. Aí eu acordava dando uns gritos aterradores... Imagine, perder a coisa mais valiosa, a macheza, daquela forma. Dói na alma só de pensar.
Desconfiada dos pesadelos, notando que eu não saía mais de casa e sabendo que as aulas não estavam paradas, Tia Véia começou a assuntar lá pela feira. Foi aí que soube que eu tinha feito mal à Samirâmis, a filha mais moça de Mané Fidalgo e Alzira Fidalgo.
Foi à tardinha, então, que nós tivemos uma conversa de-pé-de-orelha. Do mesmo jeito que aos cinqüenta anos ela já se dizia uma velha, aos catorze me tratava como homem feito e responsável por não-sei-lá-quantas atribuições:
- Não se bula, nem faça mungango. Não me venha com rapapé, nem com presepada. Eu sei que aquele traste daquela galega nem moça era mais. Sei também que posso dizer que ela é que lhe iludiu por ter quatro anos a mais que você, apesar de lhe achar enxerido além da conta. Mas agora que você mexeu com a casa de caba vai ter que estourar uma a uma, no dente. Nem que eu tenha que lhe ajudar nessa tarefa. Vou é lá conversar com Mané Fidalgo, amanhã mesmo.
No outro dia, a minha Véia cedo já estava na casa dos Fidalgos. O gazo, irmão mais novo, ficou rodeando de cabeça baixa feito boi que quer chifrar. Mané Fidalgo nem sabia do que se tratava. Só o gazo é que tinha visto a em-buança. E minha Tia não se fez de rogada. Elogiou a beleza das meninas e as banhas de dona Alzira, uma veia baixinha, gorda e peituda. Viu uns porcos num chiqueiro e foi logo falando um casal deles em compra, pois, de agora em diante, iria se dedicar ao negócio com os suínos. Era lucrativo, dizia ela desconfiada querendo justificar a visita. O véi disse que voltasse dali a uns quinze dias, aí, sim, já dava pra negociar. Ela pegou de um saco que levara, colocou dentro umas laranjas oferecidas por dona Alzira, apanhou o terçadinho e o 44 e tomou o caminho de volta. Na porteira do sítio deles estava o gazo que foi logo dizendo a ela:
- Qualquer hora dessas, eu pego aquele cabrinha e arranco os ovos dele com um alicate.
- O risco que corre o pau corre a foice. Mexa com ele e eu prego fogo nesse sítio e levo comigo uns três, à bala, para uma boa conversa com São Pedro.
Na volta, ela se encostou na venda de seu Benedito, o dos arreios, e assuntou que o São Romão 1854 estaria à venda, uma vez que não mais agüentava tanto trabalho devido a idade.
À noite, fui dormir cedo, mas ela ficou acordada até tarde, conforme me disse Zizi depois. Trouxera umas folhas de papel e escrevera uma carta grande para a irmã dela, Tia Chiquita - a de Fortaleza - viúva de um tal Nicanor que, dizem, na mocidade teria feito propostas imorais a Nair, a mais velha e a mais bonita da raça do Baturité. A cantada do abestalhado era fraca. Um português medonho. Aquele só conseguiu enganar uma, a viúva. Sorte é que era virado e, de repente, fez fortuna a partir de uma loja de vender chita e, depois, de uma livraria localizada nas proximidades da Catedral de Nossa Senhora da Assunção, na capitá... Mas Tia Velha era pra lá de inteligente e não ia cair, como não caiu, de jeito nenhum, na esparrela de um conquistador de meia pataca. Certo é que, desde o casamento, foram-se para a capital e deles há doze anos as notícias eram uma aqui, outra acolá e, só agora, com a morte do dito cujo, de doença desconhecida, talvez erisipela nos chifres. Também, a veia precisava de ajuda e só confiava em Nair, no que tinha toda a razão, devido o tino para os negócios e porque os outros iriam roubar-lhe as calçolas e os espartilhos, não sem antes levar-lhe as anáguas de renda finíssima.
Pelo exemplo de Samirâmis, compreende-se facilmente como o amor feminino dura pouco, se não for conservado aceso pelo olhar e pelo trato do homem amado. Em pouco tempo do acontecido, alguém a convenceu de que se tratava apenas de um moleque besta, eu, o guenzo. Em seguida, segundo soube depois, já havia um alisa banco freqüentando a casa dos Fidalgos. Esse moço, inclusive, por ter boas relações no Crato, convenceu toda a família a uma mudança para o pé da serra, onde havia terra farta e boa a preço de banana... Também tinha um fato que depois de escorrido virou tripa: nenhuma das meninas era mais moça e só eu tinha medo de perder os troços. A fonte dessa notícia, depois, foi à capital - pareceu-nos - somente para contar que, passados alguns meses, o novo candidato se casou com Samirâmis, mas, na hora do vamo-ver, notou pelo tato e pelo berro que ela tinha pegado ferro e já não era mais de nada. Na mesma madrugada, depois de uma farra medonha, foi à nova casa dos Fidalgos e a devolveu ao pai com um pedido de indenização por haver sido enganado por tanto tempo por uma rapariga sem nenhum valor, furada, arrombada, no dizer dos antigos. Ora bolas! É como se ele a quisesse apenas para carregar água. Imagine!
Assim como, por costume, olhamos para um relógio parado como se ele ainda estivesse funcionando, assim também olhamos para o rosto de uma bela mulher como se ainda a amássemos. A fotografia daquelas pequenas já não tinha nenhum valor. A poeira do tempo levara consigo nossos sonhos e ilusões juvenis, mas muito sacanas, para além, muito além da Serra do Baturité.
Muito tempo depois, então, num dos períodos de recesso da faculdade, ao ler um conto de Ralph Waldo Emerson, literato americano do século dezenove, grifei um trecho que dizia mais ou menos que nada é tão flexível como a língua de uma mulher, nada é tão pérfido quanto os seus remorsos, nada é mais terrível que a sua maldade, nada é mais sensível que as suas lágrimas. Samirâmis do jeito que havia entrado na minha vida de garoto, da mesma forma se foi, sem avisar ou pedir licença. Os Fidalgos se mudaram de mala e cuia para o Crato e deles nunca mais tive notícias, até porque, depois das rusgas próprias dos que vêem a honra da família para um palmo abaixo do umbigo das meninas, nunca mais voltei ao Baturité.