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Impressões gerais
 

João Omena
Talvez por ser uma espécie de filho único numa terra em que todas as famílias tinham de seis a dez crias, ou doze, um dia fiquei espiando o jeito de um moço se dirigir aos demais freqüentadores da bodega de seu Arcelino. Nem falava alto, nem baixo. Só no tom. Enquanto os demais explodiam em gargalhadas estupendas, cuspiam no chão, davam nos outros baforadas de um fumo de péssima qualidade, diziam palavrões em alto e bom som, apesar das recomendações do Dr. Ursulino Gama, o Juiz de Direito da Comarca do Baturité. Usava terno branco de linho um pouco amassado. Um chapéu bege claro de massa vivia entre as mãos e a cabeça. Era de fino trato. Portava sempre uma espécie de rebengue. Acostava-se ao balcão de pedra, cruzava as pernas, em pé, metia as mãos num ou no outro bolso, afrouxava ou apertava a gravata, gesticulava, pigarreava mesmo sem fumar... Era João Omena, um lord, no dizer da grande maioria.

Só agora, relembrando as tiradas de um humor fino e sardônico muito próprio do nosso poeta, avalio que a vida espiritual dos homens, os seus impulsos profundos, o seu estímulo à ação são as coisas mais difíceis de prever, mas é delas que depende a morte ou a salvação da humanidade. Talvez esse pormenor me levou a ver João Omena enquanto um irmão mais velho que não tive. (Hoje, sim, tenho um comparsa genial que se enquadra perfeitamente nessa espécie rara de parente que não é: um certo Garibaldi Carneiro Brasil, de cujas peripécias e proezas ainda trataremos, em minúcias, no avançar deste empreendimento literário tão incentivado por ele).

Era costume por lá dizerem que o fulano era cria da casa dos Benevides, o sicrano era da casa dos Barrosos, o outro  -  pobre  -  era da  ra-ça dos Cavalcantes... João Omena, cria de luxo da casa dos Motas, era primo da matriarca, Dona Pergentina. Sujeito bonachão, sem afazer exatamente definido, vestia bem e se dizia parente de Mena Barreto, um certo oficial do exército que por ali estivera ninguém sabe quando. Tinha uns quarenta anos, solteirão e, ao menos para um moleque como eu, nada revelaria sobre a sua vida pregressa. Caçoava muito da minha experiência na grama da barragem, como se tivesse algum significado além de ter sido a primeira vez de um broxote que nada sabia das artes do viver e do amar ... Dizia de mim coisas escabrosas porque, segundo ele, eu ainda teria muito a viajar, a correr mundo e a mijar fora do caco.

O homem era um gigante nas artes da filosofia e da poesia. Falava num tal Gregório de Matos, para ele o Boca do Inferno, um poeta áspero que ia da literatura cristã à sensual e erótica e à crítica ácida contra as ações dos portugueses do período colonial, num piscar de olhos. Dizia que Cícero, o romano, foi o homem que falou com mais eloqüência em todos os tempos. Pregava que o mundo só começou a ser mundo depois que os gregos - ricos - tiveram tempo de pensar, principalmente, um tal de Platão.

Com ele aprendi um pouco de quase nada, até por que a idade não permitia tanto, mas muito mais por ser intrometido, o que não era do agrado de todos, exceto dele, um amigo de grande estima. Para a minha Tia, menino enxerido e véi pra frente são as coisas mais antipáticas do mundo. É preciso colocar juízo num e meter a peia no outro, ou vice-versa. Eu, depois de ter amadurecido feito jaca na roça, pela demora, findei chegando a uma conclusão um pouco mais acurada segundo a qual, assim como se deve gostar do mais jovem que tem dentro de si algo do velho, deve-se também ter estima pelo velho que tem dentro de si algo do jovem, mas sem exageros e sempre com muito comedimento. Quem segue essa norma poderá ser velho no corpo, mas na alma não o será jamais.

O poeta estava sempre ao inteiro dispor dos amigos e todos gostavam muito dele. Era um sujeito e tanto. Caso dissesse que ia, já estava lá ele, de prontidão, para o que desse e viesse. Caso prometesse ajuda a alguém, antes da pessoa chegar em casa, lá já estava uma cesta de rancho. Até pedir moça em casamento  -  para os outros  -  era compromisso dele, desde muito tempo... Talvez por isso fosse um solteirão.

Tinha recursos, sim  -  e muitos  -  parece-me que de uma herança muito gorda de um avô que fora herói da Guerra do Paraguai vencida, no final, quase que exclusivamente por cearenses que matariam as mães se estas fossem paraguaias, com todo o respeito aos demais, uns poucos. Gostava de recitar versos de Coelho Neto, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e Alphonsus Guimarães, deste último, notadamente, A catedral. Era amigo pessoal de Filomeno Borborema, poeta de cordel que nunca aprendeu a ler. Dele as pessoas pediam e Omena sempre repetia, dentre muitas outras, duas glosas musicadas no compasso do repente mais ou menos assim: São quatro coisas no mundo / Que me causa espantação/ É uma mulher arenguenta / E um menino chorão / Uma casa gotegenta / E um cavalo chotão./ Pra tudo Deus dá um jeito: / A casa se arreteia, / O cavalo se abotroca, / O menino se acalenta / E a mulher se mete a peia. / Mais quatro coisas do mundo / Que são mesmo de enjoar / É o trem correr na linha / O fio elétrico falar / A galinha comer milho / Beber água e não mijar. 

Jamais eu diria de Omena ser um libertino. Tinha uma ou duas amantes, sim. Numa cidade com mais de novecentos habitantes já significava uma boa média. Aos domingos, pelo menos uma ou duas vezes, à tardinha, eu o vi tomar chegada de uma velha casa de alpendre em cima da ladeira do Potó. Depois, mais tarde, curiosamente, passei a cavalo no local e ele me acenou de uma rede com um cálice talvez de licor. Do seu lado pendia uma cabeleira negra que ia quase ao chão e que depois vim a descobrir ser de Risoleta, a filha mais velha do velho Juca Rouxinol, desaparecido na barragem há algum tempo.

Mas se tratava de uma moça recatada que vivia a tomar de conta da velha mãe cega de guia, ao contrário da outra namorada, Marcolina, de cabelos claros e encarapinhados, dançarina de primeira mão, notívaga que ia até o sol raiar no forró de seu Hermogi ou, conforme descobri mais tarde, Hermógenes. Era moça alta, branca e vestia vestidos compridos e bem talhados por Dona Merandolina, a costureira dos mais endinheirados, como ela, como boa parte do povo do Baturité que tirava muito dinheiro dos cafezais, dos engenhos, da renda e das redes bordadas e vendidas no Mercado Central da capitá por obra e graça de um negociante do Baturité que tinha influência entre os comerciantes de Fortaleza.

Gostava, sim, de uns tais engasgas-gato, uma mistura de cachaça de engenho com mel de abelha e gengibre. Aí, então, é que ele falava um pouco mais alto e ficava a contar as aventuras quando dos passeios à capital do Ceará, feitos de mês em mês, parece-me, para apanhar o dinheiro que lhe era depositado no Banco do Brasil. Aí, sim, o gajo imponderável visitava casas de permissividade de um nível digno de receber até o presidente da província, no dizer dele mesmo. Nessas ocasiões, a bebida era farta, a especialidade era Champagne e a comilança era à base de frutos do mar, na companhia de damas de reputação inabalável e amigos dados à vida noturna e a farras memoráveis que iam até os primeiros raios do sol.

Apregoava pelos quatro cantos ser um cristão devoto ao extremo embora dado a certas liberdades comportamentais. Tratava-se, na realidade, de um católico atrapalhado, numa definição de Tia Nair. Ia todas as manhãs à Igreja de Santa Luzia, nas proximidades do Colégio dos Jesuítas. Lá ficava sentado durante um tempão, talvez até sem rezar coisa nenhuma. Aos domingos, estava na missa das sete da noite, mas mantinha hábitos um tanto pecaminosos como o de freqüentar a casa de uma certa viúva, à noite, que lhe guardava algumas delícias em corpos quentes que o levavam ao êxtase e ao pecado da carne em rasantes noturnas e sazonais na companhia do belo sexo.

Para deixar registro mais preciso da devoção nada ortodoxa do nosso católico apostólico meio sacana, numa noite de sábado, no baile da saudade da pensão e casa de festa de dona Carlota de seu Agostinho, já um tanto tarde da noite, Omena achegou-se para entrar na pagodeira agilizada a uma sanfona, uns instrumentos de sofro, pífanos, e zabumba. Da porta, viu que o número de mulheres presentes se fazia bastante considerável, o que era um excelente motivo para júbilo tão teatral. Bateu duas vezes com uma palma da mão na outra, esfregou-as sofregamente e disse em alto e bom som, o que não era do seu feitio:

- Porra! Tá é bom demais. Puta que o pariu! Eu não quero nem que Deus me ajude; só quero que não me atrapalhe!...

Lascou-se de vez. Blasfemou. Apesar de umas duas dúzias de moças solteiras e bem apanhadas no baile, ele não conseguiu dançar com nenhuma. Desse dia em diante, passou a tomar mais cuidado com as palavras porque, segundo ele e conforme tantos, o mal é o que sai da boca do homem; e não o que entra.   

João, assim chamado por mim depois de alguns poucos anos de convivência, foi uma espécie de pajem que nos acompanhou até a capital num percurso através da via férrea, de mais de catorze léguas, ou quatro horas de viagem. Foi ele quem apalavrou com seu Gregório uma espécie de caminhãozinho Ford novinho que nos levou até a estação do trem um tanto afastada da cidade. A bagagem não era lá muita e cabia na pequena carroceria. Duas malotas grandes de couro cru, um baú onde ia o dinheiro, uma trouxa de roupas e redes, um saco de farinha, duas caixas de rapadura e alfinim, e só. O resto tinha entrado no negócio de porteira fechada que Tia Nair tinha feito e lhe colocava sempre no canto da boca quase sem dentes um meio sorriso de satisfação. (Era muito difícil mesmo um sorriso amarelo da véia em vista da sisudez que lhe tomava conta do semblante desde os tempos de menina, nos finais do mil e oitocentos.) Como sempre, ela houvera se saído muito bem na transação que lhe rendera em torno de uns oitocentos contos de réis, um dinheiro que, para ela, significava não ter mais a necessidade de tanto trabalho. Só tomaria conta das irmãs.

O futuro é construído pelas nossas decisões diárias, inconstantes e mutáveis, e cada evento influencia todos os outros. Minha tia decidiu por me criar e criar bem criado. Daí por diante as nossas vidas foram tomando rumos nunca antes imaginados por quem quer que seja, muito menos por nós. Não fosse essa atitude, segundo ela própria, a vida logo teria perdido o sentido para uma moça velha que não tinha mais nenhuma esperança de ser útil a alguém. Nem à Zizi, ao que me parecia. Eu fui o acontecimento que mudou toda aquela história de vida, principalmente, depois que se foram os meus pais.

Conforme ponderou João Omena, nosso pajem, a melhor maneira de nos prepararmos para o futuro é concentrar toda a imaginação e entusiasmo na execução perfeita do trabalho de hoje. Por isto mesmo, estávamos de partida para o desconhecido, em busca de aventuras, muito mais no meu caso. Todos os conselhos me diziam que deveria trabalhar na livraria O Nicanor, na Praça Pedro II, onde teria à minha disposição sempre bons livros e clientes ilustres, como o senhor Clóvis Bevilácqua. Deveria estudar no Liceu Salesiano do Ceará, às expensas de minha Tia, que tinha dinheiro suficiente para fomentar os meus estudos, e muito mais, sem a necessidade de pedir um favor desses à tia Chiquita, esta, sim, uma veia cheia de posses e rendas.

E o carro foi fazendo a curva ao redor de uma grande pedra da beira da estrada. Depois, subiu a ladeira do Potó, desceu rente a um cafezal, andou um estirão comprido e, ao longe, eu vi o meu Baturité pela última vez.

Em meia hora, já estávamos rumando para a capitá. O trem deu um apito comprido e nós choramos como todo aquele ente que deixa para trás o chão querido que o viu nascer.
A paisagem foi modificando bem devagar. Dos cafezais, bananais, pastos e canav
iais já não se via mais nada. Mesmo o capim gordura deixou de existir, ao que minha Tia comentou:
- É! Parece que estamos agora no Ceará verdadeiro, onde não chove, a lama vira pedra e o mandacaru fulora. Há de ser o que Deus quiser, seu minino. - Disse olhando para Omena, como se estivesse a fazê-lo ver o tamanho do empreendimento em que agora estava metida.

- Eu acho muito importante e tem bastante significado saber e poder criar o Melqui para a dignidade, para a honestidade, para prosperar sem ser preciso subtrair o alheio. - Continuou sabiamente.
E a viagem prosseguiu sem maiores problemas, a não ser pelo ronco demorado de Zizi que dormia feito a porca da mão branca. Pudera! Preocupação alguma jamais lhe passou pela cabeça destemperada, abilolada, a não ser o medo de que eu levasse uma queda de cavalo ou um tiro do gazo, o mais novo dos Fidalgos.

Certamente, eis uma proeza do tamanho da coragem de Tia Nair. Aquilo era fímbria pura encarnada na pele e nos ossos de uma mulher que, feito um césar romano, veio, viu e venceu todas as situações, mesmo as mais adversas, que lhe foram colocadas enquanto desafio. Na verdade, é oportuno deixar claro que o futuro pertence aos enérgicos que esperam e agem com firmeza, mas não aos tímidos, aos indecisos, aos irresolutos... Graças a Deus!


Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 11h42
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