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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo VII
Aprendiz de tudo
Desde algum tempo, venho prestando atenção em tudo ao meu redor de modo muito mais cuidadoso e prazeroso. Como é bom ter cautela!... Ingeri, enfim, doses exageradas desta... Tornei-me já e celeremente um quase filósofo, principalmente, pela contemplação das esquisitices humanas a que se entregam uns tantos que os afirmam estarem na idade da razão, ou quase senis. Observei que aqueles que têm um grande auto controle, ou que estão totalmente absortos no trabalho ou em qualquer tarefa, falam pouco, ou quase nada, ou não dizem coisa alguma. Conclui que palavra e ação juntas não andam bem. Está lá um falastrão a arrotar bravatas e valentias e eu lhe digo, em cima da bucha que, na hora em que o pau quebrar, ele será o primeiro a borrar as cuecas de renda. Ora, pois! Reparemos na natureza. Ela trabalha continuamente, mas em silêncio. Na semana posterior à nossa chegada à Fortaleza, falamos já com um velho amigo de tia Chiquita, o professor Damasceno de Freitas, oficial encarregado do ensino público no Ceará. Tudo certo, como não poderia ser diferente, nunca, em vista dos jogos de interesses entre os que têm poder, ou algum dinheiro, ou os dois. Fiz um exame em que a base eram os rudimentos da matemática, expressões numéricas e mais álgebra linear, juros simples e compostos, regra de três simples e composta e equação do primeiro e do segundo grau. Elaborei também uma composição, ou redação crítica, sobre a realidade das cidades litorâneas e o sertão nordestino. Da ante-sala do diretor, um ambiente de muito luxo, onde fiquei esperando o resultado do teste de aptidão num cara a cara indigesto com um velhote en-joado, baixinho e de óculos muito pequenos e redondos, já fui direto para uma sala de aula onde estavam, muito bem alinhados, em terno e gravata, uns trinta rapazes da minha idade. Fui estudar um tal segundo ciclo, depois denominado cien-tífico. Havia um velho padre, Frei Antônio de Pádua, que dava aulas de matemática tão boas que um dia eu o chamei de Arquimedes, ou Eu-clides... Um dos matemáticos dos primeiros tempos... (Não lembro direito!) Ele ministrava também aulas de ciências da natureza, uma matriz teórica que incluía a Física, a Química e a Biologia. Dona Inglesinha se responsabilizava pelos estudos sociais, ou seja, História e Geografia. Enfim, vinha o maior osso duro de roer: era o velho Raimundo Góis e Castro - apelidado quandú pirento - que se encarregava do Português, do Latim, e da Filosofia, daí a minha aversão pelas duas primeiras e a obsessão pela última, até hoje.
- Você é grego, rapaz? – Rosnou um dia o professor Góis.
- Sou não, senhor! Sou daqui do Ceará mesmo. – Respondi mais desconfiado que gato de açougue. - É porque esse seu nome Melchíades tem origem na velha Grécia dos grandes sábios, entretanto parece mais pornografia e eu sempre gostei muito mais dos latinos, especialmente de Cícero. – Disse o mestre me fazendo lembrar o poeta João Omena que também gostava do grande orador da Roma antiga.
Vim a descobrir posteriormente que se tratava de birra, de marcação, e ele estava querendo apenas me deixar constrangido, uma vez que, depois, em todas as aulas, o velho quandú reconhecia a superioridade dos helenos em relação aos romanos, enquanto aqueles os grandes ba-luartes da civilização ocidental.
- Depois de Platão, houve um hiato de mais de vinte séculos, meus caros estudantes! Até que um outro filósofo se fez brilhante, Karl Marx. Os dois são pensadores de fato e de direito; os demais fizeram apenas comentários relativos aos grandes, meras notas de pé de página. – Era o que bradava a plenos pulmões o enjoado Góis até que, um dia, foi chamado a atenção, posto que o Liceu Cearense era dirigido por um teólogo italiano, católico apostólico, Dom Tomaso Casavechia. É que os marxistas ainda hoje afirmam com todas as letras que a religião é o ópio do povo.
Foram três anos de estudos. Ali aprendi de tudo um pouco. Estudava das seis e meia às dez e meia da manhã, no liceu da Rua Monsenhor Tabosa, e vinha para casa, a dois quarteirões dali. Não havia moças por lá, o que me deixava inquieto. Aquelas pertencentes às famílias mais abastadas estudavam no Colégio Nossa Senhora de Fátima, um pouco distante, na Rua Senador Pompeu. Algumas outras estudavam, de favor, em qualquer saleta que a diziam escola, de qualidade duvidosa ou ruim mesmo.
Certo é que mais da metade das mulheres da época não ia à escola, posto que as famílias lhes reservavam a profissão de serviçais de maridos broncos feito portas de presídio, envenenados pelo ciúme e violentos como a cobra do ôco do pau. No máximo, o que elas podiam fazer era aprenderem a cozinhar - nem sempre comida boa, exatamente porque a maioria das cearenses nunca cozinhou nada que prestasse - e podiam bordar e fazer renda, e muito bem, visto que sempre foram as melhores bordadeiras e rendeiras do Brasil. As outras tarefas eram tão somente criar filhos truculentos e obtusos enredados nos exemplos dos pais, e tolerar os abusos que minha Tia Nair jamais tolerou porque, segundo ela, derramar água em fervura nos ovos do cabra dormindo era o melhor remédio pro sujeito que gostasse de bater em mulher. No primeiro ano de estudos deste tal segundo ciclo, pelo fato de ser novato, fiquei com a nota geral em torno de setenta. No segundo ano, tive seis das oito provas finais expostas no mural da diretoria do liceu, uma vez que a média global subira para noventa e oito. Aí, então, foi no terceiro ano que tudo desandou, apesar de haver concluído o curso com algum parco brilhantismo... Não havia dois anos e eu acabara de desvanecer de Dalva por completo, e conheci uma tal Maria da Guia que findou me guiando - ao meu gosto - por caminhos um tanto íngremes e tortuosos.
Tinha de dezessete para dezoito anos, metro e setenta e cinco. Era, certamente, alto para os nossos padrões do povo da cabeça grande e chata. Meio magro, meio gordo, diria, forte, mas sem bochecha. Crescera uma barba bem aparada, talvez herança de Honorato Polidoro, meu pai. Cabelos claros e penteados para o lado e para trás à custa de óleo de mutamba. Bem vestido, bom emprego, cheiroso e bonito, residindo num casarão muito do seu alinhado, com duas tias endinheiradas fazendo uma bruta propaganda da minha pessoa; faltava apenas um carro que só vim a comprar muitos anos depois.
Era ingrediente demais para uma alma pouco pura como a minha... E veio a parte doida da receita. Eu, o macho, virei estopa; ela, a fêmea, virou pólvora. Apareceu, então, o capiroto e acendeu o isqueiro... Acabou-se! A explosão abalou toda a redondeza quadrada num raio de cinco ou seis léguas.
Entre outubro e dezembro daquele ano, viramos a cidade de pernas pro ar. Foi um Deus nos acuda. Eu até tenho anotadas, numa espécie de diário, uma parte das doidices. Passeávamos por praias distantes levados por automóveis de aluguel. Ela não tinha pai e nós saíamos sexta à tarde e chegávamos domingo à noite. Íamos para festas e até para um cassino. Às vezes, voltávamos de madrugadinha, pulávamos o muro, a janela e não dormíamos, mas ficávamos acordados, e muito acordados. Só um pouco antes das cinco é que eu a levava para a casa dela, na Rua dos Trilhos, à beira mar. Era muito bom. Tínhamos a mesma idade mas, gostar por gostar, acabei caindo em mim. Da Guia e a véia mãe dela tinham um plano: amarrar o bode pelos chifres e pelas ventas.
Aquilo não era hora para acontecer o que aconteceu. Ela, por último, tinha os peitos inchados e a pele macilenta. E eu aprendera nos romances de Pedro Navarro, literato mexicano, que na vida o que vale são as amantes e as aventuras intercaladas e a prazos curtos. Poderia eu até sumir no eito e ir-me embora deixando tudo para trás.
– Por que não experimentar outras sensações, quem sabe, longe das saias das tias? – Ponderava. Mas essa talvez não fosse a hora de tomar atitude tão drástica. Os negócios iam tão bem! Eu teria que aprender ainda muito. Seria talvez mais coerente um rompimento com aquele embuste que era o coração volátil e volúvel da moça dos trilhos sem trilhos... Foi então que o meu espírito arredio e indócil de repente ficou triste, por alguns minutos, é claro, e buscou apoio nas Ruínas, de Florbela Espanca, a genial poetisa portuguesa:
Se é sempre Outono o rir das Primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair... Que a vida é um constante derruir De palácios do Reino das Quimeras! E deixa sobre as ruínas crescer heras, Deixa-as beijar as pedras e florir! Que a vida é um contínuo destruir De palácios do Reino das Quimeras! Deixa tombar meus rútilos castelos! Tenho ainda mais sonhos para erguê-los Mais alto do que as águias pelo ar! Sonhos que tombam! Derrocada louca! São como os beijos duma linda boca! Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar. Por aquela época, uns disseram estar a parecer o Nicanor. Com os olhos da águia e a agilidade do lince, ative-me, sim, ao aprendizado daquilo que era, na época, a menina dos meus olhos, os negócios. A livraria O Nicanor necessitava de mudanças. Convenci minha tia Chiquita e o espaço foi aumentado, com a construção de paredes novas e novos ambientes, dentre os quais uma sala de leituras e um recanto onde era servido um cafezinho. Foi contratada uma funcionária, Eulina Pacheco, para a minha surpresa, extremamente competente enquanto vendedora. Aumentara a clientela em mais ou menos trinta por cento no último ano, com a chegada, inclusive, de alguns moradores oriundos de outros países - a maioria engenheiros, em busca de informações sobre a terra - que trabalhariam nas novas casas e pré-dios da cidade que crescia, também para o alto, vertiginosamente. O gerente da loja de ferragens, Manoel Brito, enveredara pelos caminhos tortuosos do alcoolismo. Como tinha os bofes fracos, pegou uma tiriça preta e morreu em dois meses. O filho, Manezim, foi declarado seu substituto e, por muitos anos, cumpriu a contento o seu papel, em casa, enquanto responsável pela mãe e pelas irmãs, e na loja, fazendo-a crescer muito, em tamanho e em volume de vendas. As três casas de moradia da Rua Dr. João Moreira e o palacete da Rua José Avelino passaram a ter os aluguéis administrados por Belizário, o manda chuva da livraria.
Jean Cocteau, um príncipe nas artes da filosofia, deixou grafado em bom pergaminho que quando uma obra parece avançada para a sua época, é simplesmente porque a sua época está atrasada em relação a ela.
Foram quatro meses de intenso trabalho principalmente de minha parte que não poupei fôlego atrás de mestres de obra a preços melhores, pedreiros, carpinteiros e outros profissionais. Era papel que não acabava mais, tudo no contrato, conforme queria a dona dos porcos, tia Chiquita, enquanto a Tia Véia ficava apenas no aplauso:
- Êita menino zeloso! – Era só o que ela dizia.
Mas não havia cansaço que me fizesse parar. Segundo alguns, teriam se reunido em mim a sofreguidão dos mais jovens, o ímpeto dos corajosos e a calma dos que têm talentos natos.
Por isto, à noite, passei a freqüentar ambientes um tanto perniciosos, ou periculosos - di-ziam - para um rapaz da minha idade. Não perdi as estribeiras nem o dinheiro da minha tia em mesas de carteado. Como já disse, também não afoguei as saudades de Dalva nem o mel de Da Guia em mesas de bar. Fiz pior. A libido aparvalhada falou mais alto e eu passei a freqüentar bordéis a respeito dos quais ouvira falar através de João Omena. Daí, veio o envolvimento com prostitutas baratas e diversificadas, seis noites por semana sem deixar cair o ritmo.
Numa dessas noites, na famosíssima Taverna de Dona Rute, depois de muito apreciar e aprender os passos, chamei uma devassa de nome Zuleide para dançar o miudinho, ao que ela assentiu. Todavia, lá pelo meio da dança, ela mesma se encarregou de passar para o tal maxixe, e eu fui só acompanhando, e ela foi só gostando. E deu-lhe uma, e deu-lhe duas e deu-lhe três... Aí ela pediu que nós parássemos de dançar. Só que, na saída do salão, ela encontrou um tal de Nenem França, e disse a este, no ouvido, que eu havia passado a mão na perseguida dela. Ora, ele era um abestalhado! Ela ia para a cama com todos os fregueses, ele vivia da renda que ela fazia com o negócio do sexo e o cabra achou de ficar com ciúme, logo de mim.
- Frangote fi-duma-égua. Tu respeita a minha mulher. – Foi só o que ele disse. Eu fui saindo no rumo da rua e já ouvi os pipocos, logo ali, um cabaré tão arrumado.
Não fui alvejado, graças a Deus!
No outro dia, soube por Manezim dos Arreios, nosso gerente, que o cabra se ajuntara a uns comparsas, inclusive um primo de Da Guia, um tal de Jóca, e estaria planejando fazer um serviço-muito-do-seu-bem-feito, logo comigo. Vixe Maria!
A ação não surge do pensamento, mas de uma disposição para assumir responsabilidades. A moça dos trilhos não estava buchuda. Teria sido arrebate falso. (Teria!) Eu me responsabilizara para comigo mesmo e chegara a hora de uma atitude. Era já maior de idade e poderia seguir os conselhos do velho Góis e Castro que me informara haver, em Belém do Pará, um certo Curso de Ciências Jurídicas e Econômicas, de qualidade ímpar, dirigido por um professor cearense seu conhecido, Dr. José Militão. De um jeito ou do outro, eu estaria jogando tudo fora... Se corresse o bicho me alcançaria, se ficasse, teria os troços abocanhados pelo Nenem França e sua cabroeira. Ou pau, ou pedra e nunca os dois de uma só vez.
Era chegado o momento de conhecer Belém do Pará. Desenharam e me deram de presente o meu futuro, este sempre belo futuro de quem viaja nas barquinhas do Cais do Ver-O-Peso da esperança, cujas velas dilatam aquela brisa inebriante, as velas que são as asas das nossas fantasias. Fui!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 10h16
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