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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE (Capítulo VIII) Pará Belém José Cláudio Mota Porfiro* Alma que parte é coração que fica, ou voa nas asas do destino incerto e através do tempo, esse tempo por nós inventado, humana e marcadamente inexorável. Se sorrimos na partida, teriam dito os deuses que jamais nos poderemos perder nos desvãos do caminho pedregoso e nas incertezas. Se choramos, os anjos do sol poente, por certo, de nós terão piedade e nos ajudarão na busca da bem aventurança. Se corre vento brando, o coração e o peito se calam e rejeitam as lembranças dos infortúnios. Se é tempestade no deserto ou no Oceano, acautelar-nos-emos, uma vez que, depois dos tempos difíceis, é que vem a bonança. Na verdade, o homem, ainda que reconheça a onipotência, não desiste da aventura, da novidade... Assim sou eu também. Belizário, o gerente da livraria, partiu à procura de um tal Viriato Nepomuceno, nas docas do porto. Havia muita pressa e medo o suficiente, do lado de cá, ou de minha parte. Como a partida rumo a Belém seria aí por volta das oito da noite do mesmo dia, um sábado, dificilmente haveria uma vagazinha que fosse até no porão do vapor Marcílio Dias. Mais uma vez, então, jogou ao meu favor o prestígio de tia Chiquita que era contra a minha ida, mas a favor da minha vida que estava talvez por um fio.
(Nunca é bom duvidar. Mais vale um covarde vivo que um herói morto). Segundo ela, em Fortaleza havia dois bons cursos de advocacia, certamente muito melhores que os de Belém e, inclusive, os cabras que estavam no meu encalço bem poderiam ser levados a mudar as opiniões com relação a mim por meio de umas ameaças básicas, como uma surra de umbigo de boi em cada um dos quatro, a bom dinheiro, é claro! Mas já não era exatamente o que esta alma atribulada e abespinhada queria. O gosto pelo desconhecido falava mais alto. Gritava. Urrava. Do Baturité a Fortaleza havia sido uma aventura sem tamanho. Imagine, agora, de Fortaleza a Belém, cinco dias de viagem, alcançando o alto mar, muito depois da barra, com direito a enjôo e tudo. Sentia que havia dado uma boiada para não entrar na confusão e agora daria duas para não sair dela. Precisava entrar na floresta amazônica, ir mata adentro, sem medo, como os ancestrais cearenses que começaram a chegar por ali ainda a partir da metade do século passado para a extração do látex da seringueira. O espírito sertanejo, calejado das peripécias e diabruras juvenis, enfrentaria esse e muitos outros desafios que tivessem por vir, do jeito que fossem ou na medida em que viessem, como vieram depois. Imagine só! Foi muita ousadia minha embarcar numa viagem para o estrangeiro, pras Oropa, já na década de 1960. Quem diria?!
O velho cais entre a Ponte Metálica e a Ponte dos Ingleses está tristemente emoldurado por trapiches toscos que quase se entortam à passagem dos transeuntes que vão ou vêm das embarcações. Há longos corrimãos borrados por dejetos de pássaros marinhos, principalmente pela manhã. As tábuas ainda rangem aos meus ouvidos. Todavia, carregadores e marinheiros sonham com o dia em que, finalmente, poderão atracar e trabalhar no novo Porto do Mucuripe, ainda um delírio em concreto armado. (Convém deixar claro que o citado Porto só há pouco foi inaugurado, depois de vinte e tantos anos de peleja de todos aqueles entes que regurgitavam entre a rua e a velha praça sem jardins, mas apinhada de biroscas e meretrizes, a praia dos banhistas saudáveis e o cais dos estivadores desvalidos).
Naquele momento último no Ceará, assim sou eu também, entregue à aventura, triste, preocupado, por enquanto, porém, sobretudo, nutrido de muita vontade pelo desconhecido.
Ao longe, vislumbro a Volta da Jurema e o porto das barcaças do Meireles. Lá mais adiante, quase envolto pela bruma, o Mucuripe. Por ali vivi parte dos meus dias de folguedo em companhia, dentre outras, da moça da Rua dos Trilhos. Arranjei amigos que se acostavam a mim em vista da possibilidade de sorverem um copo a mais de uma cerveja gelada que, apesar da idade, me vendiam os bodegueiros justificados pelo tamanho físico sem a exata mensuração do volume de aleivosias que a cabeçorra portava...
Ah, sim! Olhando do navio, lá embaixo está um dos indivíduos que juraram dar cabo de mim assim que me colocassem as mãos sujas, isto, só por causa de uma vadia que resolveu me atrapalhar a vida... São cinco e vinte da tarde, mas só às oito da noite haveremos de zarpar.
Minhas tias vieram ao convés e por ali ficaram até depois das badaladas do sino da Matriz de São José, ali perto, a terceira e última chamada para a missa das sete. Zizi, todos os dias depois das cinco já estava com um véu branco sobre a cabeça e vestida a caráter. Mas neste dia ficara em casa uma vez que não gostava de chorar em despedidas. O grande objetivo dela era ir para o céu depressa demais, com toda pompa e galhardia, e virgem.
Conversamos sobre os negócios que ficavam sob a batuta geral de um guarda-livros de grande experiência, notário antigo no ramo e, agora, exclusivamente cuidando de tudo o que era da única viúva do grupo. Fizeram recomendações sobre os meus arroubos na direção do belo sexo. Disseram que para onde eu ia estava infestado de tudo o que era de nordestino brabo, ignorante, sem sensibilidade, e com a tal da honra pendurada no pé-da-goela, ou no cordão do saco, ou a um palmo abaixo do umbigo das moças. Pediram que não deixasse de escrever, a cada quinze dias, contando as novidades, como se o Correio existisse lá pelos cafundós do Judas ou onde o cão perdeu as botas. Enfim, disseram que tinha direito a cinqüenta mil réis mensais até o fim dos meus dias pelos serviços prestados à família. Era uma fortuna para um sujeito solteiro como eu.
Certo é que na hora das despedidas ninguém chorou. Nem podia. Não nos era dado o direito, de forma alguma. As véias porque eram do tipo que tinham sangue no olho, ou areia. Eu, porque era macho e meio e não derramaria uma lágrima sequer, logo ali, naquela hora, na frente dos outros... Só depois, é claro!
De cócoras no convés, estão uns garotos atarracados, baixos mesmo, de catorze e até quinze anos que vão para as aventuras da Amazônia sem nenhum sobroço. Por que eu choraria? Logo eu! Imagine! Um cabra passado na casca do alho! Zêro e vezêro. Acostumado já com as vicissitudes da vida, tinha cabelo nas ventas para o que desse e viesse.
Penso, então, com o meu terno de gabardine bege e os botões prateados, que a perseverança não é uma corrida longa, mas são muitas corridas curtas, uma após a outra... Talvez um dia alcançasse o outro lado do mar, quem sabe? Na época, segundo o meu ponto de vista prático, independente dos conhecimentos adquiridos no liceu, logo depois de Belém ficava o estrangeiro, isto, sem olhar para o lado oeste do mapa, onde eu jamais pensei um dia poder e querer me enfiar.
Como é bonito o reflexo das luzes na água para quem está nas embarcações que se afastam. A noite está intensamente iluminada por uma lua cheia que começa aos poucos a subir a abóbada celeste. A impressão que tenho é a de que a natureza está feliz porque, finalmente, jogo-me na aventura amazônica.
Um raio de luz comprido lança-se ao mar calmo e vem no rumo de quem está em terra. É como se uma imensa estrada feita de brilhantes incrivelmente fosforescentes, por cima da água, me ligasse ao satélite. E eu viajo naquela ilusão do caminho luminoso que, um dia, quem sabe, poderá me levar para um planeta bem distante, como Marte, por exemplo.
Com o vapor parado, o cais parece estar imensamente feliz talvez seja por estar se livrando de mais um traste. Talvez não. De repente, três apitos. Em cinco minutos, mais dois. Em mais cinco minutos, apenas um. Ouço o ronco que vem da casa de máquinas onde os motores já estão definitivamente em funcionamento. Saio do convés. Acosto-me a um banco próximo onde estão outras pessoas que não querem saber de despedidas. Observo, ao meu lado, um rapazinho franzino com o rosto entre as mãos. Ouço um murmúrio. Talvez seja soluço.
- Meu companheiro, queira me desculpar, mas você é de onde? - De Maranguape. - Desculpe a intromissão: vai para onde?
- Estou indo para o Acre cortar seringa. Deixo aqui no Ceará oito irmãos menores, uma mãe viúva e uns poucos teréns... Mas eu volto, com a graça de Deus. Trabalharei, ganharei dinheiro, ficarei bem de vida e venho para ficar por aqui mesmo, montar um negócio, ou levar minha raça lá para o Rio Xapuri, Seringal Triunfo, onde devo ficar por alguns anos.
- Ah, sim. Meu nome é Melchíades, mas pode me chamar de Melqui. Estou indo para Belém continuar meus estudos e, talvez, um dia, nós nos encontraremos no Acre.
- Meu nome é Raimundo Nonato de Souza e não tenho estudo nenhum, não senhor.
Ele tem apenas quinze anos. Tantos objetivos. Quantos sonhos. Infelizmente, a grande maioria dos que adentram a floresta amazônica morre de cesão ou impaludismo ou outras doenças desconhecidas, muitas vezes, por pura falta de informação ou, noutros casos, enquanto vítimas da insensibilidade de patrões, donos de seringais, que só pensam em tirar lucros em cima da miséria destas levas de sertanejos que saem, principalmente do Ceará, em busca de um dia ser rico, como se fosse possível para todos.
São oito da noite. Primeiro, a popa do vapor começa a se mover até que as amarras sejam desatracadas. Depois, a proa é que se move. Um sujeito magro e só de calção dá um salto para o mar e começa a nadar em direção à arrebentação guiando o comandante rumo ao canal que sai do porto. Agora ele vai até o quebra-mar e de lá voltará, à nado, assim que a embarcação não mais estiver sujeita a ficar encalhada, o que seria o caos, não fosse a habilidade e a coragem desse tal Pergentino. O Marcílio Dias já está a cinco nós. Parece-me uma velocidade razoável. As ondas batem vagarosamente no caso do navio que avança cortando as águas do Atlântico. Dói na alma ver as luzes que vão ficando cada vez menores, depois pequeninas, em seguida mínimas, apenas pontinhos na escuridão e, enfim, somem para sempre.
Melancolia Oh doce luz! oh lua! Que luz suave a tua, E como se insinua Em alma que flutua De engano em desengano! Oh criação sublime! A tua luz reprime As tentações do crime, E à dor que nos oprime Abres-lhe um oceano! É esse céu um lago, E tu, reflexo vago D’um sol, como o que eu trago No seio, onde o afago, No seio, onde o aperto? Oh luz órfã do dia! Que mística harmonia Há n’essa luz tão fria, É a sombra que me guia N’este areal deserto! (João de Deus, in ‘Ramo de Flores’)
Nunca tinha visto a pobreza tão de perto. É tudo muito triste ao meu redor. Um dia por certo também haverei de voltar, quem sabe de vez. Quem sabe a passeio para rever as minhas tias.
O rapazola já não soluça. Parece dormir. Uma família ao lado acomoda-se nas redes. A mãe reclama. A filhinha de uns dois anos de idade está com febre altíssima. Há gente solidária entre os tantos retirantes. Dão-lhe quinino. Só pela manhã é que tomo conhecimento de que a garotinha dormiu para nunca mais acordar. A mãe se desfaz em lágrimas. O pai clama por Deus. As demais crianças, quatro, ficam encolhidas, talvez, com medo de morrerem também. Todo aquele inóspito navio negreiro é tomado pela comoção.
Vêm-me lágrimas aos olhos que eu pensava ressequidos. Choro copiosamente encostado à amurada do navio. Não mais existe o machão que até há pouco pensava ser. Só agora começo a pensar seriamente nos desvãos da sina dessa gente que, como tantos, como todos, vai em busca apenas de viver, mas morre no meio do caminho da aventura... O que poderá acontecer com um aventureiro que se lança ao desconhecido apenas pela sede de aventurar-se?
Às nove da manhã, as velas trazidas pelo moço de convés para iluminar o anjinho morto são apagadas. Embrulham-na em panos como um pacote. Amarram uns cordões para que os peixes demorem a devorar-lhe o corpo esquálido. O funeral é rápido demais para um ser humano.
Ainda não se completaram sequer doze horas do início da viagem e a realidade se faz tão nua quanto crua... A tarefa de lançar Maria Balbina ao mar, agorinha mesmo, coube ao pai... Meu Deus!
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 15h16
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