José Cláudio Mota Porfiro*
Capítulo IX
Em mar aberto
A tristeza do dia anterior já quase se dissipa, como a névoa que vejo à frente, como se o meu destino fosse tão incerto e, como se o vapor não dispusesse de uma bússola, dentre outros instrumentos próprios para a ultrapassagem ou travessia daqueles obstáculos imensos formados pelos vagalhões da noite anterior. Encrespara-se o mar. Sonhei com o anjinho morto. Estava vestida de branco e rosa e vinha ao meu encontro, sorridente, em meio a uma chuva grossa, com uma flor e uma vela nas mãos.
Eu a abraçava e a beijava. Acordei calmo e de bem comigo mesmo. Agora podia ir em frente, sem pestanejar. O sonho, à moda dos romanos antigos, era um bom presságio. A flor simboliza o futuro em bons frutos. A vela significa que os caminhos estão iluminados. À mercê e sob a proteção do meu anjo da guarda remoçado, nada nesse mundo me incomodaria, nem bala, nem faca, nem maledicência ou tramóia...
A vida é mesmo assim, feita de sol e chuva, de dias alegres e dias tristes, de sucessos e fracassos, para alguns, ou para muitos, dependendo da fórmula usada na perseguição dos objetivos de cada um. São oito da manhã. Choveu durante toda a noite e só agora é que volta a calmaria... E, assim, vamos em frente... Em verdade, é oportuno lembrar que é só fechando as portas atrás de nós que se abrem janelas para o porvir.
É pesado e denso o ronco dos motores. As pessoas ainda fazem pouco barulho ou quase nenhum. A brisa é rejuvenescedora e nos faz prever um belo dia de domingo, parece-me. Estou no convés, logo atrás do bico da popa do vapor, este, um barco imenso, de cinqüenta e cinco metros, pintado de branco e frisos em vermelho e verde, avarandado e bonito até certo ponto, não fosse a concretude dos seres espectrais que nele navegam para destino talvez incerto. O barulho ininterrupto e a brisa oferecem-nos, vez em quando, a oportunidade de um sono curto, mas prazeroso. Fecho os olhos, coloco o chapéu panamá sobre o rosto e penso numa gravura ou num retrato vistos há muito tempo, em que pessoas de fino trato se divertem e fazem recreio à bordo de um barco de luxo em alto mar. Tudo é como se eu estivesse também em folguedo, em férias. Sinto que um sorriso tênue me sai dos cantos dos lábios, anjo torto, ente pecaminoso, como se estivesse em gozo celestial.
Ao meu lado, estão um rapazola paraense, até certo ponto forte de feições, a mãe deste e o pai. É gente bem apanhada, talvez com algum estudo em vista dos modos refinados e comedidos. Disseram ser da capital do Ceará, onde estão deixando parentes próximos, pais, mães, avós. Falam muito pouco ou quase nada dizem, decerto por estarem deveras chocados com o que vêem, ou devido a melancolia que nos assalta quando saímos da terra natal em busca de outros ares e recursos materiais. Observo de longe esse tipo de cidadãos pertencentes ao grande grupo dos que mal desconfiam, ou fazem questão de não tomar conhecimento, da realidade pobre gritante dos sertões do Brasil. Das poucas palavras arrancadas deles, anotei que a família é constituída por Risoleta, a mãe, Francisco, o pai, e Ramiro, o garoto. Estão de mudança para Belém onde instalarão um comércio de perfumes e cosméticos, talvez.
Há quatro freiras da Ordem das Carmelitas Descalças que seguram imensos rosários como se através destes se agarrassem à vida. Não os largam nem na hora das refeições. São esbranquiçadas e pálidas, gestos muito comedidos, quase não-humanos, caladas, circunspectas, olhos sempre baixos, bonitas até onde me deixam vê-las amortalhadas em espécies de lenços sobre a cabeça e umas túnicas brancas de um modelo ultrapassado, segundo imagino. São talvez italianas, em vista da beleza própria dos originários das adjacências do Adriático. Sobre elas obtive informações pouco precisas com uma mocinha que as acompanhava e não quis dizer sequer o nome dela ou das religiosas.
Troco uns dedos de prosa com um casal que passou a lua de mel em Fortaleza. São Argemiro Soares e Otília Gama. Têm parentes bem situados em Belém. São criadores de búfalos em Marajó. (Nunca vi um búfalo!) Casaram-se há um mês, mas irão residir em Breves, uma cidadezinha da Ilha, onde tocarão os negócios do pai, dele, já velho para a lida com as reses nos alagados. Falam da beleza do verão por aqueles ermos amazônicos. Muita fartura e pouca gente. Depois reclamam da inclemência do inverno durante seis meses do ano. Segundo eles, chove tão grosso que os nordestinos recém-chegados para o trabalho de vaquejar se encolhem pensando no dilúvio, no anti-Cristo, nos cavaleiros do Apocalipse e no juízo final. É comum ouvir deles:
- Arre égua! Arrelei com tanta chuva. Ô xente, não disse que o mundo agora ia se acabar em fogo! As Escrituras não estariam enganadas? É muito água!
Uma dondoca com cara de quenga e que se diz modista viaja com três baús de papelão e é do tipo expansiva além da conta. Enxerida por demais. Baixa e com os cabelos tingidos, não se importa em empurrar com a bunda enorme e mal fabricada quem quer que se coloque no seu caminho. Pelo bafo de bode, às nove da manhã, parece-me já ter tomado um engasga-gato qualquer. Tagarela mesmo, fala com todos e a respeito de qualquer assunto. É daquele tipo de gente que já vai me entupindo os canais da paciência antes mesmo de lançar-me um olhar. Mas ela não tem nenhum pejo e passa a fazer comentários tolos a respeito de uns folhetins que só ela mesma conhece - A Gata Borralheira, O Crime do Padre Amaro, Vicente e Rosinha, dentre outros. Parece até que ninguém nunca ouviu falar dessa papagaiada toda... Comenta sobre a última moda em Belém do Pará, as novelas do rádio, as festas profanas e religiosas e a procissão - ou Sírio - de Nossa Senhora de Nazaré. Segundo ela, aventurara-se no mundo da alta costura em Fortaleza, mas o mercado estava saturado e, por isto, depois de dois anos e meio, empreendia a volta ao torrão natal e aos parentes de alta linhagem, assim considerados por ela, com quem mantinha correspondência regular, quinzenal, como se naqueles confins amazônicos os serviços de correio fossem assim tão pontuais. Está parecendo que ela me tem alguma admiração do tipo secreta, mas a idade, quarentona, não me convém, de forma alguma. Vá pro raio que a parta! Dona Maria Anunciada faz jus ao nome e se dá ao luxo de dizer para uma outra viajante que um vizinho seu, em Fortaleza, doente, não tinha ereção quando a via despida. Imagine! Ora, é como se os homens fossem obrigados por alguma lei a levantarem o instrumento diante de tanta gordura, ou de sovacos que peidam, ou de bocas e virilhas que fedem mais que latrinas... Não! Ser homem é outra coisa. É apreciar o belo sexo de forma cautelosa e educada, sem a necessidade de fazer-se vítima de mulheres que fedem a partir da alma e falam mais que papagaio de prostíbulo.
E me vem à memória comentários libidinosos de João Omena que envolvem o sexo tântrico e essas damas despudoradas. Segundo ele, na posição da flor do mandacaru (milk and water embrace), quando o homem fica sentado por trás da moça também sentada, sem roupas, é claro, é hora de uma massagem que vai das costelas magras até a ponta dos dedos das mãos espalmadas, passando pelos mamilos e pelas axilas que não podem feder, nunca. E depois, na hora da pose do marreco (widely opened), quando o hálito doce almiscarado dela é sorvido pelo sujeito, não pode haver bafo de onça, de forma alguma, nem dente podre. Ora tá! Mulher deve ser sinônimo de higiene e o homem não pode se valer do contrário, inclusive nas partes mais baixas, senão desequilibra a severgonhice.
Escorrego na cadeira de vime e fecho os olhos. Ela para de chilrear e sinto que se vai rebolando os traseiros e espalhando a mediocridade da sua alma e da conversa mole pelo ar puro que se suja com o bafo daquela matrona descompensada.
- Que não volte nunca mais, pirua doida! - Disse eu.
Duas outras criaturas falam pouco, não dizem ter profissão alguma mas, pelo ruge carmin e pela cor do baton e dos cabelos avermelhados, diria serem mulheres de vida fácil, ou nada fácil, mesmo porque eu não quero nem de presente enfrentar o que elas enfrentam para ganhar o pão ou as libras esterlinas de cada dia. Comportadas, ali. Até um tanto sisudas ou circunspectas. Apenas na ocasião anterior, uma delas tão somente ouviu o que a tal Anunciada comentou a respeito da ereção daquele fulano de tal acima citado.
Na janta do segundo dia fiquei muito próximo delas, de frente, posto que as mesas são compridas e estreitas. Como ninguém é de ferro, nem eu, fui logo chicoteando no estilo cearense de dar cantada:
- As donzelas estão muito tristes e, na verdade, eu não tenho nada a ver com isso, mas bem que poderíamos trocar dois dedos de prosa logo depois da refeição. O que acham?
Para o meu espanto, não se tratava exatamente do tipo de dama que eu estava pensando:
- Sobre quais temas poderíamos discorrer? Asseguro-lhe que nós lhe entediaríamos com o que por ventura teríamos a tratar com o senhor! Passe muito bem!
Mais ou menos uns vinte minutos depois, eu as encontrei encostadas à amurada do convés:
- Talvez eu tenha sido um tanto intempestivo na minha abordagem e, por isto, estou a lhes pedir desculpas.
- Não tem problema se tomarmos um Chateau Duvalier juntos. É uma idéia pelo menos avaliável?
As duas agora estão desarmadas e eu curioso. Concepción e Angel são os belíssimos nomes talvez de aluguel. São naturais da Espanha, de Pamplona e Barcelona, respectivamente, embora não tenham sotaque algum, e agora estão de volta a Manaus onde são sócias de uma casa de permissividade, La Távola Redonda.
Vagamos em conversas bestas até altas horas e findamos por ficar amigos. Eu não vencera o choque inicial e não conseguira passar os pés adiante das mãos, como era já costume... O outro dia seria mais proveitoso, com certeza, uma vez que uma delas vira umas notas de mil réis que apareciam pelo bolso do paletó.
Pela manhã, dou de cara com os dois baixotes de cabelos lisos. Cumprimento-os tirando o chapéu mas, parece-me, eles me acharam um tanto pedante. Mais tarde, disse-lhes que me fixaria em Belém, ao que os dois soltaram sorrisos breves. Falaram muito sobre as mulheres pa-raenses e o seu apetite sexual. Contaram sobre as maravilhas de um tal açaí e de um tal tacacá, ambos, com grandes poderes extremamente afrodisíacos. Mesmo desacreditando-os, fiquei bastante curioso e com vontade de provar, não pelo gosto das iguarias, mas pelo fato de ativarem a libido de homens e mulheres de qualquer idade, sexo, raça ou religião.
Os passageiros acima citados, com quem tive algum contato, pagaram a passagem antecipadamente e a preços altos, por isto merecem tratamento estilo primeira classe. Acomodam-se em camarotes no terceiro convés, lá em cima, como se para não serem misturados à gentalha que se amontoa lá embaixo...
Os demais, retirantes, desvalorizados pelo próprio destino, terão as passagens pagas por agentes dos seringalistas em Belém, por isto o tratamento indigno, como nos navios negreiros.
A tripulação é numerosa em vista do tamanho da embarcação. Talvez umas dez ou onze pes-soas. Estão lá o comandante e seu ajudante de ordem, o moço de convés, o taifeiro, o cozinheiro e um auxiliar de cozinha, o operador da casa de máquinas e seu ajudante, e mais uns dois que fazem os serviços gerais, principalmente de limpeza, só nos locais por onde passam os privile-giados e sua majestade incólume, como se também não enjoassem ou cagassem como qualquer ente respirante sobre a Terra.
Contorço-me sobre o divã de vime pintado de branco e bordado de marrom. Removo o chapéu de sobre os olhos. Vislumbro, lá embaixo, quase no rés da água, a dura realidade do meu navio negreiro cheio de redes atadas em busca de melhores ares a serem respirados na longínqua Amazônia. É cruel demais o quadro.
* N. do A. Este é o capítulo IX do folhetim O inverno dos anjos do sol poente. Os anteriores poderão ser encontrados no www. claudioxapuri.blog.uol.com.br.