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Impressões gerais
 

O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE
Vidas, idas e vindas

Capítulo X


Dizem alguns, desde meses, que estou a atravessar o verão dos meus tempos, o que não é verdadeiro, nem tem nenhum atestado de validade. Sou bastante jovem e as minhas angústias e arroubos são os mesmos de um moço da minha pouca idade. Esta, sim, uma análise feita por um ente de pouca ou nenhuma envergadura no que tange à modernosa ciência filosófica denominada psicologia. Tenho sonhos juvenis e ainda mal chego à idade adulta primeira. Talvez por usar uma barba ruiva bem aparada, ou pelo tamanho incomum entre nós cearenses, ou em vista do chapéu e do terno de linho impecáveis, teimam em achar que sou um jovem senhor de tamanha importância e digno de tanto respeito. Fazem-me reverências e eu as devolvo, com bastante gentileza, em meneios de cabeça.
 
Cumprimento a todos, indistintamente, mas não sou um político, segundo comentam. Nunca fui dado a vulgaridades. Sou gente, sou gentil e ternamente cavalheiro, como me ensinaram as tias velhas deixadas tão saudosas no Ceará.

A mais passada das moças espanholas, Concepción de Avelar, de uns trinta e cinco anos, acha-me um tanto antiquado, cheio de salamaleques e mesuras exageradas, com gestos sempre muito estudados ou planejados e fora de moda num tempo em que os moços são sempre muito doidivanas e pessimamente educados. Segundo ela, faço o tipo gigolô que quer ganhar um quinhão agradando a uns e a outros, aqui e ali.

Angelita Alfonsín, a mais nova, pelo contrário, diz que eu vivo à mercê de um tipo ou de uma característica romântica que herdei da austeridade do ambiente em que vivi, em Fortaleza, por três longos anos. (Esta alma cabotina já houve por bem contar-lhe particularidades da minha vida com o intuito infantil de iludir uma prostituta clássica já passada na casca do alho.)

- Es un hombre que guarda en su hermoso semblante marcas de un romantismo a la Miguel de Cervantes y de um surrealismo a la Pablo Picasso. Hay pocos en nuestros dias. Pero mientras sobrevivam los romanticos, el amor sobrevivirá.

Esta frase dita no calor da idade fugaz, por Angelita Alfonsín, a fêmea pálida, de cabelos pretos e bela em letras garrafais, por quem minha poesia já flui, há de acompanhar-me pelo resto dos dias com que serei presenteado por Deus, até porque terei como lema uma legenda, também espanhola, segundo a qual é sempre muito feliz o homem que se faz agradável ao belo sexo, e as recompensas são fantásticas, imensuráveis.

Tiro da algibeira o relógio Ômega, herança valiosa de minha tia Chiquita. Já são quatro e quarenta da tarde. Recolho-me mais uma vez ao divã de vime branco. Uma revoada de algumas poucas gaivotas me faz lembrar que a costa brasileira está daqui a umas quarenta léguas submarinas, no máximo. O mar continua sereno. Não há nuvem alguma, mas o sol é ameno, certamente, devido ao vento que é multiplicado pela velocidade da embarcação.

- O que será de mim vivendo numa cidade completamente estranha, como esta Belém do Pará, cujos conhecidos praticamente não passam de dois rapazes um tanto broncos (segundo penso!), uma família arredia e uma matrona descompensada com cara de Madalena Arrependida? 

É preciso, agora mesmo, ponderar os detalhes do meu futuro que já se avizinha, uma vez que não falta mais tanto para chegarmos ao destino amazônico. A novidade da viagem, o am-biente invulgar e as pessoas tão diferentes são fatores que me extasiaram, deixaram-me perplexo. Só agora caio em mim e me dou conta de que, na nova vivenda, devo comer, beber, morar, vestir-me condignamente, ter diversão, estudar, e assim por diante.

Vasculho os bolsos e reencontro, já amassada, uma carta de recomendação, lacrada, dirigida ao Dr. José Militão, escrita por Góis e Castro, o professor do Liceu Cearense.

Penso com os meus botões reluzentes:

- Viajo nas asas do meu tempo, um tempo de juventude e aventuras... Vivi desde sempre amea-çando o meu futuro. Não dei trégua desde a infância quando sonhava montado no lombo do meu admirável e fogoso Rocinante. Não apenas estou vindo para ver, mas para vencer. Retroceder, jamais!

Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados, é o que dizia Cervantes  -  o real criador de Dom Quixote de La Mancha, Dulcinea Del Toboso, Sancho Pança e o cavalo Rocinante  -  acima citado por este poeta destemperado e vulgar.

Lembro-me, então, o dia em que uma professora de Artes do Liceu, Dona Inglesinha, me fez decorar um poema  -  Juventude  -  de Eugênio Andrade, poeta português deste breve século XX:

Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.

Olho para mim e para todos, enxergo-os, mas não vejo ninguém. São apenas miragens, posto que ainda estou de olhos fechados. Lembro os devaneios dos tempos do Baturité, sem roupas, ao lado ou por cima de Samirâmis, a filha mais nova de Mané Fidalgo e, depois, de Fortaleza, nas aventuras despudoradas com Maria da Guia, a moça dos trilhos.

Senti essa sensação estranha nas primeiras semanas em que comecei a residir na capital do Ceará, uma cidade bem grande. Agora, entregue aos pensamentos e às preocupações, sinto-o mais uma vez... É como estar só dentre tantos. Estranho. Diferente. 

Abro enfim os olhos. Acordo daquele torpor. Agora, sim, vejo-os todos, até mesmo os irmãos da maldita terceira classe, que comem farinha, carne seca do tipo jabá e jerimun, mas quase não os enxergo devido ao anonimato das suas almas encapuzadas numas tristezas opacas que já me tingem o pensamento e os sentimentos.

Os de cá, estes, não. São bem diferentes, peitos de pombo, narizes empinados, pretensiosos feito velas de jangada enfunadas, embora em quantidade bem menor. Mas são pueris, na sua maioria, um tanto bestas, meio medíocres, meio chinfrins que se vangloriam por glórias que jamais alcançarão; apenas desfaçam demais e mentem um bocado. Querem ser classudos, mas algo me diz que não o são. Nego-me a crer na sua pompa e circunstância tão alardeada. Não são lá essas coisas todas. Dá para sentir o fedor da enganação por baixo ou por trás de roupas baratas e perfumes vagabundos.

Mas é preciso não se deixar abater ou dominar pela tristeza e nem se afligir com os maus pensamentos. Convém iludir as inquietações, driblá-las, mesmo trapacear com elas. Urge consolar o coração, afastar para longe a melancolia. Esses pensamentos e devaneios tristes têm matado a muitos e neles não há utilidade nenhuma.

Ontem, ao término da janta, desci um pouco para escutar as tiradas de um cabra de nome Zé do Aprígio. É meio gazo, baixote, tem só um dente na frente, uma cicatriz abaixo do olho direito, cabeça grande (!), pescoço fino, usa umas calçolas que só chegam até as canelas, de uns trinta e cinco anos, acham-no velho para o trabalho do corte da seringa a que se destina, no Território do Guaporé. No dizer nosso, é o cão chupando manga. É do tipo do sertanejo que não dorme e, à noite, fica engendrando história besta, conversa fiada para contar, com a finalidade de provocar algum riso nos desterrados na própria pátria amada Brasil.

Ainda cedo da manhã, fui ter com o Comandante Homero Melo:

- Mestre, eu vim lhe pedir permissão para que aquele gazo, o Zé do Aprígio, suba e nos conte alguns causos aqui no convés superior.

- Olhe, meu rapaz! Você está arranjando sarna pra se coçar. Esse camarada é metido a engraçado demais, mente que só a mãe do padre e ainda tem piolho.
- Tem problema não, seu Homero... Deixe comigo!

As palavras do Comandante se fizeram cheias de eco aos meus ouvidos ressequidos pelo pó da roupa e pelos depoimentos secos do meu povo que se atira, sem eira, nem beira, nem a rama da figueira na aventura amazônica. A minha pouca idade permite ver apenas um certo preconceito na atitude um tanto despótica e no semblante do velho homem do mar. Tal situação me leva a acreditar que, realmente, há uma coisa muito escassa, muito mais distante, muito mais rara que o talento. É o talento para reconhecer o talento. O sol deixara meio ranzinza o velho mestre. Também, pudera! Afinal de contas o homem não é um qualquer. É o que diz o que deve ou não deve ser feito.

E o cabra subiu todo ancho, cheio de pilhérias. Cumprimentei-o com um aperto de mão, para surpresa dos metidos a besta e dos engalanados, e pedi que nos contasse uns causos para espantar a pasmaceira. Ele assumiu um certo ar teatral. Tomou-se de uma pose como se estivesse em palco. E passou a tagarelar coisas indizíveis e até sacanas, mas um tanto engraçadas, à moda do grande número de homens espirituosos do sertão. (Quase todos riem de tudo ou fazem rir por pouca coisa.) Na verdade, o autêntico, o verdadeiro grande talento descobre as suas maiores alegrias na realização. Deixemo-lo agir.

- Oli, homi, seu minino, eu já vi de tudo nessa vida e, num dia desses, até já domei a besta fera, o cão coxo. Eu enfrentei o secretário do inferno de passeio pela terra e por isso lhe digo não ter medo dos índios do Amazona. Vou narrar pro sinhô num martelo agalopado. Eu sou o maior poeta da região da serra do Cafundó... Foi assim...

Havia festança boa
Na casa de seu Mané,
A cachaça era de graça
E vinha carne em coité.
Lá pela madrugada
A zoada foi medonha
Parecia um pé de peia
Ou Zé açoitando Tonha.
Todo mundo foi correndo,
Calcanhar batia na bunda,
Fui pra perto só pra ver
Se a coragem era profunda.
Cheguei e vi a besta fera
Com dois chifres e pé pra trás.
Bati nele com um rosário
Vá de reto satanás!
O chifrudo virou mula,
Deu um rugido infernal,
Fez fumaça, foi correndo,
E sumiu num capinzal...

Havia uma riqueza de detalhes que eu não consegui tomar nota. Ele deu um cangapé e passou três vezes por cima do capirôto, enquanto fazia o sinal da cruz. Tirou uma água benta não se sabe de onde e se amarrou com o cordão de São Francisco, como se o sujeito fosse pra uma fuzaca já pronto pra brigar, logo com quem... com o cão! Vixe Maria! Certo é que o cabra ficou até muito mais do que eu houvera previsto, mentindo feito a peste e eu feito besta rindo do monte de doidice.

Já era noite e o tal Zé do Aprígio se tornava repetitivo, embora certamente ainda tivesse um baú, um pote e um paiol cheios de anedotas das brabas. Era preciso fazê-lo descer para a janta parca. Quando, neste mundo, um homem tem qualquer coisa para dizer, o mais difícil não é fazê-lo dizer, mas impedi-lo de o dizer vezes demais.


Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 12h21
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