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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE Capítulo XI Risos e lágrimas Todos nós temos talentos diferentes, mas todos nós gostaríamos de ter iguais oportunidades para desenvolver os nossos talentos. Tantos gênios ficaram no ostracismo e se perderam porque ninguém os descobriu ou porque não foram espertos o suficiente para auscultar as possibilidades de revelar os dotes escondidos no mais recôndito da alma. É a ocasião que faz o cidadão. Em síntese, é oportuno asseverar que as chances não costumam abundar e raramente as encontramos uma segunda vez. Todavia, convém pontuar que, nos assuntos de grande importância, devemos ocupar-nos menos em criar oportunidades que em aproveitar as que se apresentam. Uma oportunidade bem aproveitada vale por outras tantas que teríamos tentado ao mesmo tempo na ânsia de que apenas uma viesse a dar certo. Por isto, é conveniente ficar à espreita e, a qualquer hora, a vez será chegada. Na manhã do desembarque em Belém, Zé do Aprígio já se fizera lambaio do Comandante Homero Melo. Na noite anterior, já havia engraxado e deixado reluzentes as botinas pretas e bem acabadas. Passou ferro e engomou as calças e camisas brancas com aqueles bordados típicos da marinha mercante. Agora mesmo, o velho homem do mar, antes tão sisudo, já ri das glosas do sacana. Eu fui esquecido pelo talentoso. Mas fiquei de ouvidos espichados prestando atenção nas histórias e gracejos do cabra. Num relato picaresco e um tanto surrealista, Vicente Tributino, tio paterno do Zé, chegara à região de Xapuri do Acre nos idos de 1921, isto, numa viagem marítima de cem dias. (Imagine só! Mar por ali... Só na mente sacana do sertanejo fantasioso!) O detalhe da viagem é que, duas horas depois de ter saído de Fortaleza do Ceará, o navio foi a pique e apenas Tributino se salvou, mas não desistiu de prosseguir, agora, a nado... E o cabra até chegou antes do previsto porque, no quinto dia de nado, deu de cara com um tubarão de uns vinte metros... A bocarra tinha uns dentes que mais pareciam adagas... E o bicho botou pra cima do herói e este teve que acelerar o ritmo da natação até que, no décimo dia, avistou o canal do Marajó. Foi aí que o herói virou mito. Já sem roupa, para poder nadar melhor, virou-se para o tubarão e disse: pode vim! E o animal veio. Tributino volteou sobre o próprio corpo e enganou o peixe ao mesmo tempo em que tirava da cintura um punhal com que cravou a jugular do bicho... O animal pode não ter morrido, mas se cansou e desistiu da perseguição. Ora bolas! Vá abocanhar o demõin! Anos depois, já vivendo de sapateiro em Xapuri, alguém perguntou sobre como é que ele havia tirado da cintura o punhal se estava nu, ao que o herói nem piscou e simplesmente pediu ao interlocutor chato que lhe poupasse de detalhes tão insignificantes e irrisórios. Depois de passados alguns dias lavando louça numa pensão em Belém, Tributino entrou em outra miséria parecida com a primeira. Inscreveu-se enquanto marinheiro mercante e rumou para o Acre. (O cabra era teimoso!) Só que, em frente à cidade de Óbidos, ainda na província do Pará, numa parte do Amazonas onde não se avista sequer a mata de um lado ou de outro, devido a largura do grande rio, o navio afundou devido a carga que era demais. O herói estava no porão, que se encheu logo de água, e a saída única ao seu alcance se dava apenas por uma brecha muito apertada, ao que a solução logo surgiu na mente fantástica do sertanejo. Ele mais uma vez tirou a roupa, besuntou o corpo com mais ou menos meio quilo de brilhantina Glostora e se espremeu até sair na flor d’água, onde já lhe esperava um fogão de ferro boiando, com uma galinha assada e farofa no forno ainda quente. Ele, que não tinha nada de besta, comeu o quitute e nadou até a Volta da Empreza, hoje Rio Branco do Acre. Contada essa doidice em Xapuri, Tributino passou a atender aos íntimos pela singela alcunha de Fogão de Ferro. Nem podia ser melhor! Mas o destino é assim mesmo. De repente, era chegada a hora e a vez do nosso herói zombeteiro, misto de bufão e cavaleiro medieval. Antes, engraçado até demais. Agora, já quase um funcionário que caíra nas graças do patrão. Louvado seja Deus! Zé do Aprígio soubera que o ajudante de ordem do Comandante iria ser promovido para o trabalho em terra, no escritório de Belém e, agora, já falava sério, pigarreava com certo ar de responsabilidade e austeridade, encomendaria dentadura novinha em folha, uma vez que, entre o meu povo, ainda é comum usar esse apetrecho antes pertencente a alguém já falecido; colocara uma roupa melhor e estava a postos, perfilado, uma vez que aquela passou a ser a grande chance que a vida agora lhe punha no caminho tortuoso e cheio de obstáculos. Entrego-me a alguns minutos de melancolia. É que estive até há pouco a conversar com o velho homem do mar. Ao lado deste estava Petrônio Rodrigues, uma espécie de sub-comandante. A tristeza se abateu sobre os dois. O primeiro tinha quatro filhas em Belém aos cuidados de uma senhora de nome Alice que tomara conta das meninas, uma vez que a mãe destas morrera. As moças o viam por, no máximo, quinze dias a cada dois meses. A mais velha, de dezesseis anos, era estudante adiantada do Colégio de Nazareth. Outras duas também estudavam, mas a mais novinha, de sete anos apenas, sofrera por dois anos de uma febre que dá nas crianças que são afastadas dos entes queridos, principalmente, por motivo de morte da mãe numa idade (cinco anos) em que sequer o pai pode arranjar outra esposa porque seria pior para todos. Por isto, o Comandante não mais se casou e agora, segundo ele próprio, desistiu de vez porque as meninas não merecem golpe tão duro. Petrônio passa por drama parecido, mas a esposa sobrevive a uma doença e agora vegeta numa cama de hospital aos cuidados de duas filhas e dois filhos que se revezam na cabaceira da moribunda já há mais de um ano. São problemas do coração aliados a uma espécie de epilepsia crônica que lhe deixou meio doida sem saber ou querer sequer levantar-se. Pior de todas, entretanto, é a tragédia do seringueiro Zé Raimundo e sua esposa Isabel que, depois de dez anos no Acre, onde já possuem alguns bens, voltaram ao Ceará à procura de um filho, Raimundo Nonato, de vinte e cinco anos, lá pras bandas de Russas. Dá pena o estado dos dois que souberam ter o filho morrido de inanição e maus tratos no campo de concentração de Senador Pompeu. Segundo Zé Raimundo, um homem razoavelmente esclarecido, os currais do governo - como os confinamentos são chamados pelos retirantes - surgiram em 1915, instalados no bairro do Alagadiço, em Senador Pompeu. Mais tarde, na seca de 1925, os campos foram ressuscitados como política do governo da República. Do ponto de vista oficial, esses campos de miséria aparecem como medida de assistência aos flagelados que não têm trabalho nas frentes de serviço. Mas a realidade é outra. Os famintos são atraídos com a promessa de comida, assistência médica e segurança. Lá não encontram a estrutura prometida e não podem sair, sendo mantidos presos. Tudo para evitar que Fortaleza seja invadida por essa gente maltrapilha e fedorenta.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h54
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Alguns campos, projetados para receber duas mil pessoas, chegam a manter até dezoito mil flagelados de uma só vez. A fome e a insalubridade dos confinamentos levam, inevitavelmente, a milhares de mortes. Os livros de óbitos das igrejas mostram que noventa por cento dos óbitos registrados acontecem nos campos de concentração. No curral de Ipu, a média é de sete a oito mortes por dia. O Comandante Homero Melo é desses cearenses que têm conhecimento da dimensão da tragédia e passa a me contar detalhes, como se estivesse à frente de um jornalista. Segundo ele, do alto de uma colina esturricada pela seca, no município de Senador Pompeu, sertão do Ceará, está escondido um pedaço da história do Brasil que poucos cearenses gostam de contar. Sentem vergonha. Erguidos para abrigar operários e engenheiros ingleses que construiriam ali um açude de grande porte, os casarões tornaram-se palco de doença e morte. Durante a impiedosa seca que mais tarde assolou a região, a Vila dos Ingleses sediou um campo de concentração para confinamento de flagelados. O gueto era vigiado por soldados, como em uma guerra. O objetivo era isolar os retirantes e evitar a invasão das grandes cidades pela miséria e por epidemias. Moradores de Senador Pompeu resolveram ajudar a desenterrar o episódio na tentativa de atrair a atenção e verbas do governo da República para a região, hoje outra vez castigada pela seca. Estamos em 1934. A estiagem já dura dois anos. Há algumas semanas, visitou o local um enviado do Presidente do Brasil encarregado de recolher provas e testemunhos a respeito do miserê. Missão relativamente simples: a lembrança do cárcere permanece viva na memória dos muitos sobreviventes que lá ainda residem. Segundo eles, a comida era a cera que escorria das velas na esperança de não morrer de fome, pois a maior parte dos víveres doados pelo governo estava estragada e o pouco que chegava em condições de consumo era roubado pelos guardas. Ainda segundo o velho homem do mar, a morte era rotina nos chamados currais da fome, criados pelo governo da República sob o disfarce de obra social para distribuir alimento. Ao todo, em 1921, construíram-se sete quartéis no Ceará e no Piauí, para onde foram levados setenta mil flagelados. A Vila dos Ingleses, em Senador Pompeu, era o maior deles. Das dezessete mil pessoas que passaram por lá, pelo menos mil morreram de fome e doenças. Sob o sol escaldante e sem nenhuma água, milhares de famintos com cabeça raspada, para evitar piolhos, eram obrigados a descarregar o alimento enviado de trem pelo governo. A maior parte chegava estragada e os melhores cortes de carne iam para a cozinha dos militares. Para os retirantes, sobravam somente o sangue, o coração e os bofes dos bois. A sopa era preparada com mato e goma (amido de mandioca). As crianças comiam rapadura e morriam de diarréia. O feijão era tão duro e ruim que ganhou o apelido de Zé Félix, nome do mais truculento guarda do campo de concentração, comenta o Comandante. À noite, luzes de holofotes vigiavam as vias de acesso e o comportamento dos prisioneiros, amontoados em barracos feitos com gravetos secos e estopas cortadas dos sacos de comida. Alguns guardas deixavam namorar num quartinho escuro, o mesmo usado para açoitar os desobedientes. - Meu avô era coveiro e guarda do cemitério – comenta o Comandante. - Os doentes não podiam sair do gueto. Rezas, choros e lamúrias cortavam a madrugada, denunciando o desespero dos famintos. Muitos morriam - cerca de 20 por dia - e os cadáveres eram enterrados às pressas em valas para evitar o ataque de cachorros e urubus. O horror desses dias talvez se perca na História devido a vergonha que tem o povo do Ceará por ter sido coadjuvante de fatos tão repugnantes. Para se ter uma idéia do abominável, a antiga casa de pólvora onde os ingleses guardavam os explosivos usados na construção da Barragem do Patu tornou-se uma espécie de antecâmara da morte para onde iam os internos em estado de saúde precário. Segundo pessoas da cidade, não se sabe da notícia de alguém que tenha saído dali com vida. De acordo com as anotações depois tomadas do seringueiro Zé Raimundo, a barragem com a qual seria criado o grande açude para a distribuição de água teve as obras interrompidas por falta de dinheiro. Hoje, as pragas e as secas estão destruindo tudo em Senador Pompeu, grande produtor de algodão de tempos anteriores. No ano passado, a questão tornou-se crítica para todos os habitantes porque choveu menos da metade do normal. - Mas a seca atual é pior que a dos primeiros tempos do campo de concentração porque os castigos do céu jogam fora todos os sonhos de um Ceará abundante que nós dificilmente veremos. Por isso, volto pro Acre onde já tenho uma padaria e um pequeno sítio com plantação e algum criame, graças a Deus! – Diz o seringueiro em lágrimas. A tristeza é um livro sábio que se tem no coração e que nos diz centenas de coisas. Impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore. Pouco a pouco vai fabricando uma provisão de ensinamentos para a vida. Todavia, segundo observo pelo exemplo de Senador Pompeu, a humanidade segue se arrastando como a serpente apocalíptica pelos caminhos tortuosos da caatinga, instilando muito veneno aqui e nenhum mel acolá...
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 09h53
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