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O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE        

CAPÍTULO XV

VESTÍGIOS DA CONSCIÊNCIA

Pensei durante um bom tempo em ir ter com os retirantes, lá nas casas de paredes e telhados de zinco avermelhado. Tiraria uns dedos de prosa com um e com outro, não riria da miséria de ninguém posto que ainda estava condoído, ouviria um monte de lamúrias, ficaria mais uma vez engasgado de revolta, deveras chocado, talvez chorasse e, enfim, chegaria à triste conclusão segundo a qual nada poderia ser feito por mim, pelo menos agora. Lá não fui. Talvez outro dia fosse. Hoje, ainda agora, estou um tanto acovardado porque o deslumbramento próprio dos ricos é assim mesmo, deixa-os desapiedado, embora eu não seja um deles. Se não posso remediar o que não tem remédio, deixo que o tempo se encarregue das soluções. Lá não tenho o que fazer. Resta-me, pois, ser sincero comigo mesmo, visto que, segundo consta do meu caderno de anotações, a sinceridade e a generosidade, se não forem temperadas com moderação, conduzem infalivelmente à ruína. Agora, talvez não fosse a hora de sofrer. Pelos estudos, hei de tornar-me um homem das leis e, mais tarde, quem sabe, poderei fazer com muito mais razoabilidade alguma coisa por estes desditosos sertanejos. Amanheci um tanto introspectivo. Tomam-me minutos, talvez horas, de reflexão, este um exercício apreendido nas muitas interlocuções com alguns professores, inclusive um de Filosofia, de nome Feliciano Bezerra, do Liceu Cearense. Eu não quero deixar que as outras pessoas vejam ou notem ou sintam em mim um delirante bazofeiro.
 
Cumpre conter os excessos que me empurram para o rumo da esbórnia, da bebedeira, da safadeza, por exemplo. Aquele que sabe quando tem bastante, não cairá no ridículo. E aquele que sabe quando deve parar, não correrá perigos. Tenho de tudo um pouco e penso ir mais longe, não com a intenção de tornar-me um rico empedernido. Pararei, é certo, quando perceber que as medidas do muito já não me arregalam o peito, mas provocam inveja nos demais. Li uma vez no Almanaque Capivarol que é próprio das grandes almas desprezar grandezas e almejar mais o médio do que o muito... Assim será!
É preciso que tomem conta de mim certos níveis de comedimento, uma vez que, apesar de sentir-me em casa, esta não é a minha terra natal, o meu berço de origem. Sou um forasteiro a mais.

Cofio as barbas marrons da cor do pelo do cavalo baio. Observo, na prática, que a prudência não passa do medo de provocar a inveja e o desprezo que merecem os que se vangloriam da sua boa sorte. Não é prudente de minha parte ir ter com os irmãos retirantes para dizer-lhes que a minha estrela brilha mais que a deles. Lá, eles haveriam de me desprezar. Trata-se, isto sim, de uma vã ostentação do espírito humano metido a besta. A moderação dos homens no seu ponto mais elevado é apenas o desejo de parecerem mais generosos do que a sua própria boa sina. Leva-me à generosidade o fato de ser um afortunado, na graça de Deus!

Todos os dias, a partir de então, tenho observado que das dúvidas é que surgem as certezas mais graves, mais agudas, dependendo das circunstâncias, uma vez que a ocasião é que pinta o cidadão. Há dias em que o meu mundo gira em torno das indagações desta alma profana. Até porque as respostas logo passam a fazer parte de um passado às vezes recente, às vezes remoto...

Cogito, ergo sun. Penso, logo existo. Esta é do Descartes...

No ramo gramatical dos períodos compostos por coordenação, este comporta uma oração coordenada conclusiva. A conseqüência do existir é o pensamento. O resultado dos bons propósitos é, certamente, a felicidade absoluta ou relativa. E onde estão as duas? Alguém as crer? Temos sido levados a ponderar o imponderável, mesmo porque, dizem, a felicidade sequer existe; o que existem, certamente, são raros momentos felizes. Tenho certeza, sim, da luta generosa pelo bem comum e pelo bem próprio, o meu também...

*    *     *
Tarde de domingo. Almocei, à tripa forra, novamente, o bacalhau do Galego. Mais uma vez, uma jóia do reino, como o disse ele mesmo. Bebi mais vinho. Subo sonolento e ainda introspectivo as escadas íngremes de corrimãos trabalhados por marceneiro de primeira linha. Ato a tipóia, deito o corpo e a mente voa.

Passo os olhos por um jornal comprado agora mesmo. Leio um pequeno comentário sobre as virtudes capitais. Tenho andado deveras cauteloso comigo mesmo. Desde alguns dias, noto uma propensão ao açodamento de certos vícios e manias. Desde algum tempo, ainda no Ceará, mantenho gastos com o supérfluo, inclusive em orgias indizíveis com o belo sexo. Iniciei-me na execrável arte do jogo de carteado, sempre com uma moçoila que se senta ao meu colo, beija-me as bochechas, lambe-me os ouvidos e me morde levemente o pescoço sem rugas. Bebo cerveja e vinho em demasia e freqüento prostíbulos e lupanares depois da meia-noite. É preciso dar um jeito nessa situação, diria, altamente pecaminosa, apesar de sempre estar aos domingos aos pés do Senhor rogando-lhe todos os perdões do mundo. É claro que tal procedimento se deve ao fato, exatamente, deste sub mundano ser um católico praticamente, dos tais que comete todos os deslizes, dizíveis e indizíveis, confiando na bondade de Deus que lá de cima não quer outra coisa senão perdoar almas incautas de mentes e corações travessos.

Depois das quatro da tarde, acordo das minhas lucubrações guiado por um cheiro diferente, mas agradável. É o tal tacacá que ainda não sinto ser a hora de ceder a esta água que se faz na boca.
– Deve ser bom, mas ainda não é hoje!

Desço vagarosamente. Lá no salão há um grupo de homens de língua enrolada que jogam o gamão, um jogo no qual balançam dois dados num caneco de couro e os atiram sobre um tabuleiro onde umas casas arredondadas em meia lua recebem pequenas rodelas de madeira que são os pontos em disputa.
- Aqui os chamam turcos. – Diz-me o amigo Galego. – Eles não gostam dessa denominação, dessa nacionalidade. Auto se denominam libaneses, sírios, judeus, todos, enfim, como nós portugueses, com faro canino quando a história tem a ver com dinheiro. Aquele é Touffic Salim. Aquele outro é Jorge Eluan. O do lado de lá é Mustafah Zacour e o do lado de cá é Farizaire. O que está a piruar o jogo é de Portugal, Belchior Costa, e o de camisa cinza é Gatasse, todos comerciantes bem sucedidos, na graça de Alah, o deus dos turcos islâmicos ou maometanos.

Sisudos, não olham para nenhum dos lados, mas dizem alguma coisa parecida com iarrari-iarrari-iarraridinacoruta. Parece-me ser coisa do jogo, talvez, com algum viés de insulto ao oponente.
Não se apercebem eles da minha presença e muito menos da curiosidade. Nunca ouvira tantos falarem ao mesmo tempo uma linguagem tão desconhecida, parece-me, zangada, mal humorada, raivosa mesmo.

Dirijo-me para o lado oposto do salão onde está outro grupo. Lá, todos são brasileiros, uns cinco ou seis. Descubro de repente que todos ouvem o que apenas um deles tem a dizer. Riem a gaitadas, estrepitosamente. Penso com os meus colarinhos que só há um povo no mundo que ri desse jeito. Como não poderia deixar de ser, o sujeito metido a contador de causo - alguém da roda talvez o tenha dito - é cearense de Russas e, sentado a uma mesa vizinha à minha, dirige-se mais especialmente a um tal Vitorino, gerente do Banco do Brasil, de quem é convidado a prosear.

Observo que Eugênio Azevedo não é um besta qualquer. Fala pelos cotovelos, mas fala bem, tudo certinho, conforme o figurino da gramática. Alguém o chama de doutor. Outro pergunta por uma causa que está dormindo na Justiça. Eu, depois, o descubro enquanto promotor público afamado.
Ouço tudo em silêncio. Respeito aos mais velhos. Sou muito mais moço e não fui convidado a dar nenhuma opinião.

Todos agora estão absortos. O doutor promotor de justiça defende uma opinião segundo a qual  -  não há dúvidas disso  -   há cearenses em todo lugar do mundo. Nos outros estados do Brasil, nem se fala. A presença é marcante no rádio, no cinema, na música, além da indústria, da política e de outros setores. O homem é uma fera.

- No dia em que o americano chegar à lua, lá já estará um cearense vendendo rede de porta em porta. É a gota serena!

E ele continua bem das falas e dos conteúdos quando afirma que, para demonstrar essa vocação peregrina do cearense, surgem muitas piadas.

- Contam que em uma cidadezinha perdida na imensidão do território chinês, um cearense procurava emprego e, quando já estava desesperançado, viu um humilde circo mambembe e foi tentar a sorte. Havia uma vaga, mas era para se vestir de leão. Aceitou de pronto e experimentou logo a vestimenta que era perfeita, confeccionada de pele de leão mesmo... Tudo ia bem. No dia do espetáculo, o cearense entrou na jaula, imitou o leão com uns rugidos fortes e ganhou palmas. Era a glória. De repente, entra outro leão. O nosso personagem quase morre de susto. Esse só pode ser de verdade, pensou. Mas, como bom cabra-da-peste, resolveu espantar o bicho, sobretudo, depois que achou o animal muito manso. Deu então mais uns rugidos muito fortes, graves e fortíssimos, e, de repente, o outro leão se ajoelhou e disse: Valei-me meu São Francisco do Canindé!

Foram quinze minutos de gargalhadas ininterruptas, escandalosas, como os de lá. Os puxa-sacos estão em todo canto, como os de cá. Eu mesmo não ri, porque já sabia dos dois gracejos quase sem graça nenhuma.

Fui passear pelos arredores do porto pensando em como era importante o sujeito ser um promotor de Justiça. O indivíduo, pelos estudos, poderia até ser um juiz de Direito, desses que usam toga e tudo. Para este matuto, depois de ter visto o que vi, de bom tamanho já é ser um advogado com a competência do bom Doutor Quintino Cunha, um causídico folclórico do Ceará, ainda hoje atuante que, às vezes, apronta peripécias nem sempre justas.

Certa vez, no tribunal do júri, levou até o promotor à comoção ao dizer que o acusado era arrimo de família e cuidava sozinho de sua mãezinha cega, de mais de oitenta anos:

– Não olhem para o crime deste infeliz! Orem pela sua pobre mãe, velhinha, doente, alquebrada pelos anos e pela tristeza, implorando a misericórdia dos homens, genuflexa diante da Justiça, desfazendo-se em lágrimas, pedindo liberdade para o seu filho querido!

O réu foi inocentado. Na saída do tribunal, um dos presentes, sensibilizado, aproximou-se do adevogado:

– Doutor Quintino! Quero fazer uma visita à mãe daquele infeliz, pois quero ajudá-la!
– Ora! Eu sei lá se esse filho de uma égua algum dia teve mãe!
*    *     *
Como uma puxa a outra, lembrei logo de um outro causo irmão do primeiro.

Noutro júri realizado no Ceará, o assistente da acusação mandou fazer um caprichado desenho da arma do crime. Exibiu aos jurados uma cartolina branca com uma ilustração detalhada do punhal utilizado para assassinar a vítima. Vendo que os jurados haviam se impressionado com a gravura, o matreiro advogado Quintino Cunha pediu um aparte e perguntou:

– Nobre colega, caso aqui estivéssemos tratando do crime de sedução, qual seria o instrumento do crime que Vossa Senhoria estaria aqui apresentando aos jurados?

Todos caíram na gargalhada e o trabalho da acusação perdeu o impacto. O réu acabou absolvido.
Eu seria um advogado, sim. Agiria com inteligência. Advogaria para os pobres porque os ricos têm dinheiro para pagar os capadócios.

Já deitado pegando um vento morno e ainda pensando em aprender leis para não enganar ninguém, lembrei de quando o Doutor Quintino Cunha escreveu em um jornal de Fortaleza sobre um artefato jurídico produzido por ele mesmo e depois encontrado não se sabe onde. Ei-lo:         

“Com a presença de 23 jurados, realizou-se uma segunda reunião da presente sessão do júri. Compareceram à barra do Tribunal os réus José Boa Ventura e José Correia Lima, acusados de roubo na casa de residência do Dr. Quintino Cunha, que os defendeu. Ambos foram absolvidos por unanimidade de votos, sendo que já estavam detidos há cerca de dois anos. Ocupou a cadeira de Promotor o Dr. Alencar Mattos”.

Estava marcada a visita ao Dr. José Militão para a terça-feira vindoura. Amostraria a carta assinada pelo velho mestre Góis e Castro. Aquele ficaria marcado como o primeiro dia de uma nova vida. Afinal, estaria matriculado e por quatro anos freqüentaria a Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará, localizada na Rua São Jerônimo, número 432.

Em frente a um palacete estilo colonial, o bonde pára. Eu desço. Caminho pela calçada depois dos portões. Agora, um lance de apenas oito degraus me separa de um futuro que há de ser brilhante e venturoso, com as bênçãos dos céus. Pensam por mim os meus botões prateados. Voltaire deixou escrito mais ou menos que só os homens sagazmente ativos, que conhecem as suas aptidões e as usam com medida e sensatez, é que poderão fazer substancialmente o progresso da civilização humana.
- Alea jacta est! – Digo mais uma vez. A sorte está lançada.Salvar


Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 21h42
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