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minutos, ela guarda tudo num outro tubo de papelão, este bem maior, e passa a mim um atestado que, doravante, identificar-me-á enquanto aluno da Faculdade, até que fique pronta a carteirinha estilo caderneta, em três dias, segundo a regente. Em seguida vêm mais recomendações do Professor Militão: - Depois de amanhã, a partir das sete horas da noite, acontecerá aqui no auditório da Faculdade a aula inaugural deste ano de 1934. São cento e dez alunos e todos estarão presentes, trajando terno preto ou azul marinho, camisa branca, gravata listada de azul e branco, as nossas cores, e sapatos pretos com meias brancas. O senhor os tem? - Não, senhor Diretor, eu não os tenho, ainda, mas cá estarei na hora aprazada trajando a indumentária que o senhor está me indicando, se Deus quiser! Desço as escadas aos pulos. Quase me escangalho aos pés da mesa da senhora regente. Estou feliz. Corro para a rua e, depois, sentado a um banco de praça da Rua São Jerônimo, choro de felicidade. Compro papel almaço e envelopes na Livraria São Félix e escrevo duas cartas, uma para as tias e outra para o meu benfeitor Góis e Castro. As mensagens são de agradecimento por tudo o que fizeram por mim. Enfim, concluo: - Pronto! Agora o matuto é aluno regularmente matriculado e, em breve, será doutor, com diploma de nível superior nas mãos, pronto para chegar onde a divina providência melhor me aprouver. Obrigado! São quatro da tarde e vejo o casario de Belém passar pela janela do bonde. Já andando pelas calçadas da zona comercial, vou direto a um destino inquestionável. Uma moça de pele branca, cabelos pretos e longos é a balconista da loja Paris N’América. Já a conheço de outras duas ocasiões. O nome dela é Sarah e descende de uma família de sírios de sobrenome Fadhul. Ela me mostra uns ternos de casimira, realmente feitos pela exportadora francesa Le Monde, em Quartier Latin, o bairro de Paris. Compro um azul marinho, mais um sapato da marca inglesa Charleston, dentre outros adereços que a ocasião exige. Alguns ajustes são feitos por uma costureira em uma alfaiataria defronte. Subo e desço as escadas da hospedaria. Preciso comemorar porque este é um dia dos mais felizes da minha vida. Pena não poder estar com os parentes, em casa. Mas o Galego é um sujeito muito educado e eu o convido após explicar o motivo da euforia. Em pouco tempo já estamos a procurar por uma mesa no Restaurante Almanarah, de propriedade de Jamil Bestene Eluan, este, de origem libanesa. Há vinhos, queijos, azeitonas e bacalhau importados, dentre outros quitutes. Há cerveja gelada e fados portugueses cantados por Dalva de Oliveira e acompanhados ao bandolim por Herivelto Martins. Agora, ele de posse de um violão acompanha a musa em Adeus: Adeus meu grande amor, Eu vou partir, Saudades eu bem sei, Que vou sentir, A pátria me chamou, E o meu dever, eu vou cumprir, Adeus meu grande amor, eu vou partir, Porém não sei se voltarei, Mas se voltar, e te encontrar, Construiremos nosso lar, (adeus meu grande amor) ... Quase todos os homens vestem branco, usam gravatas pretas tipo borboleta e chapéus de massa vistosos, parece-me, do tipo panamá. Portam rebengues (pequenas bengalas), relógios de bolso. No geral, são elegantes. As mulheres, muito bem vestidas e adornadas, se fazem acompanhar dos maridos. O ambiente é estritamente familiar, uma vez que jamais o Galego haveria de me levar em outro que não tivesse essa categoria. O cabra é realmente de respeito.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 20h53
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Mais uma vez vejo tantas pessoas reunidas a tagarelarem em línguas tão diferentes. Melhor de tudo é que eles se entendem muito bem, é o que creio, pelas risadas estrepitosas. Penso comigo que rico ri à toa. São turcos, portugueses, judeus, dentre outros. Realmente, a notícia do dinheiro fácil se espalhara mundo afora. Estou suando em bicas socado dentro de um terno de casimira, enfrentando um calor amazônico de quase quarenta graus, com algum exagero. O auditório, segundo comentam ao lado, é o mesmo onde os alunos fazem o júri simulado, a cátedra mais importante do curso. Lá está o amigo Galego, também de terno, entre os convidados, a cofiar os bigodinhos mais negros que a asa da graúna, segundo o próprio. Ele ainda há pouco me disse estar a sentir-se um dandi, e eu não entendi muito o palavreado do meu amigo de Portugal. Uma banda de música de gente fardada executa o Hino Nacional e todos cantam a plenos pulmões, eu, inclusive, em meio a algumas lágrimas que teimam em rolar dos olhos do macho aqui. Penso cá com os meus botões: - Estou no Brasil, graças a Deus! A mesa está composta pelo Governador Interventor Magalhães Barata, pelo Intendente Idelfonso Almeida, pelo Major Ismael de Castro e por um advogado famoso, professor de direito internacional, encarregado de ministrar a aula inaugural. É o Doutor José Carneiro da Gama Malcher. Ergue então a voz o Diretor para saudar os presentes. Depois o Interventor balbucia alguma coisa, e todos aplaudem. Enfim, por hora e meia de relógio grande, entre surpreso e encantado, fico ouvindo o que tem a dizer o palestrante. - Que discurso! Que oratória! – Penso em voz alta. A comparação a Marco Túlio Cícero, o romano, no discurso contra Catilina, é a primeira que me ocorre. Depois da saraivada de palmas, ainda estou colado à cadeira a pensar no que deixou escrito Vieira, o padre, segundo quem o homem sensato adapta-se ao mundo; o homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem que olha para o futuro de olhos no passado. - Ainda haverás de ser um orador do nível do doutor José Malcher. - É o que me diz o Galego na saída da Faculdade.
Escrito por José Cláudio Mota Porfiro às 20h51
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